sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A última sessão da Comunidade Leitores Culturgest 2009



Acabou mais um bloco de sessões da nossa Comunidade na Culturgest. Agora, só haverá mais em Janeiro. Terminámos com muita conversa e várias discussões sobre "o Mar" de John Banville, em tom elegíaco. Porque é a história de um viúvo, Max Morden (o nome diz tudo) que regressa ao lugar onde, na infância, passou um verão decisivo, iniciático e perturbante.
"O Mar"é um romance sobre a morte, sobre a perda, o luto. E é um livro deslumbrante. Terrível, também. Chegámos a conclusões bastante controversas. Por exemplo, que a história é profundamente perversa – porque, "embrulhada" num linguagem poética, encantatória conta coisas terríveis. E porque Max, o narrador – por quem é suposto o leitor sentir simpatia – é, na verdade um monstro egocêntrico e cruel que, como o seu nome indica, espalha a "morte" a devastação à sua volta. Nada cresce, medra ou vive junto dele.
Mas falámos também das referências aos mitos clássicos, da ligação clara com a pintura – Bonnard, Miguel Ângelo, Fantin-Latour, etc. – do simbolismo e das metáforas. Mais, falámos de fantasmas e de espíritos e das inúmeras armadilhas colocadas pelo autor aos leitores.
E prometi que colocaria aqui o poema de Rilke, "Der Geiste Ariel" – por causa da alusão que Banville faz ao arcanjo Ariel. Não sem reproduzir uma das pinturas de Bonnard - a mulher dele, no banho - que evoca o ar salgado e marítimo deste livro. De notar que a banheira parece um esquife.


ARIEL - tradução inglesa
(After reading Shakespeare’s Tempest)

Once, somewhere, somehow, you had set him free
with that sharp jolt which as a young man tore you
out of your life and vaulted you to greatness.
Then he grew willing: and, since then, he serves,
after each task impatient for his freedom.
And half imperious, half almost ashamed,
you make excuses, say that you still need him
for this and that, and, ah, you must describe
how you helped him. Yet you feel, yourself,
that everything held back by his detention
is missing from the air. How sweet, how tempting:
to let him go – to give up all your magic,
submit yourself to destiny like the others,
and know that his light frendship, without strain now,
with no more obligations, anywhere,
an intensifying of this space you breathe,
is working in the element, thoughtlessly.
Henceforth dependent, never again empowered
to shape the torpid mouth into that call
at which he dived. Defenseless, aging, poor,
and yet still breathing him in, like a fragrance
spread endlessly, which makes the invisible
complete for the first time. Smiling that you ever
could summon him and feel so much at home
in that vast intimacy. Weeping too, perhaps,
When you remember how he loved and yet
wished to leave you: always both, at once.

(Have I let go, already? I look on,
terrified by this man who has become
a duke again. How easily he draws
the wire through his head and hangs himself
up with the other puppets; then steps forward
to ask the audience for their applause
and their indulgence... What consummate power:
to lay aside, to stand there nakedly
with no strengh but one’s own, “which is most faint”)

“Uncollected Poems” Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Comunidade Leitores


Amanhã, quinta-feira - às 18h30, como é hábito - vamos discutir "Corpo Presente" de Anne Enright. Uma irlandesa com um dilacerante humor negro que desvenda os segredos mais obscuros de uma família bastante peculiar. A escrita desta vencedora do Booker Prize é muito original e encantatória. A história é terrível e muito bem contada.

No centro de tudo está a questão: como é que conhecemos tão mal as pessoas que nos estão mais próximas?

E por que razão é possível odiar tanto quem mais se ama?

Quão longos são os tentáculos da memória. Amanhã veremos.

Quem estiver interessado(a) poderá ler a recensão deste romance em http://www.storm-magazine.com/

domingo, 29 de novembro de 2009

NOCTURNO de Cristina Carvalho

A LER SEM DEMORA

Primeiro foi “O Gato de Upsala” que me apanhou de surpresa e me prendeu à escrita de Cristina Carvalho. Depois, conhecemo-nos – nestas rondas de afinidades electivas da escrita e da leitura – e depois foram os seus outros livros, a sua atitude apaixonada e intensa em relação à vida, à arte e à literatura, os seus risos e boa disposição aliados a uma quase timidez e discrição, um saber estar sem pose, sem artifícios. Uma mulher total, pensei eu.
E, depois, chegou este “Nocturno”, um livro único, à margem dos modismos da Literatura Portuguesa actual, com um trabalho esforçado de pesquisa e uma linguagem solta, dinâmica, vibrante e encantatória. É impossível parar de ler esta biografia ficcionada do romântico Fryderyk Chopin, cuja curta vida foi plena de som e de fúria mas não sem significado. Amante e boémio, complexo e delicado, apaixonado e apaixonante, intenso e frágil, Chopin representa uma época e uma forma de estar que parece distante da nossa mas que continua a intrigar-nos e a seduzir-nos. Ele viveu um tempo de grandes convulsões, quando a morte e a vida dançavam a mesma feroz melodia e em que o ser humano comungava estreitamente com a Natureza, encontrando nela – e no Amor – um profundo encanto e uma razão para o absurdo da existência. Frédéric, Fryc fez mais do que viver intensamente. Transpôs para a sua música toda a energia, Beleza, sentimento e Transcendência que, haja o que houver, será sempre tudo aquilo que nós, homens e mulheres, almejamos no mais íntimo do nosso corpo e do nosso espírito. Cristina Carvalho, em “Nocturno” devolve-nos esse desejo e coloca perante o nosso olhar o espelho das nossas dúvidas e ansiedades.
“Nocturno” é um romance de uma vida. De uma vida romântica, na verdadeira assumpção do termo. Escrito por uma mulher que vive romanticamente.
Com a música, sempre a música, a tocar.

Nota : não confundir “romântico” com “sentimental”. Cristina Carvalho nunca é sentimental. E escreve como se respirasse. Com uma cadência perfeita. Com prazer.

“Nocturno”, Cristina Carvalho, Ed. Sextante, Lisboa, Novembro, 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Amanhã temos Sessão Comunidade


Amanhã temos Sessão Comunidade de Leitores, na Culturgest - 18:30

O livro em discussão será "LOVE" de Toni Morrison

Que "AMOR" será este? Que espécies de "amores" existem neste romance circular, apaixonado e encantatório?

Onde está situada a fronteira entre o amor e o ódio?

E será que o amor faz com que as pessoas sejam melhores? Ou piores?

Se tiverem interesse, leiam a minha recensão a este mesmo livro em www.storm-magazine.com

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Para a semana é tempo de AGUSTINA


NOTA DE IMPRENSA:

De 26 a 31 de Outubro têm lugar na FNAC – Chiado, em Lisboa, 4 conversas sobre 4 grandes temas do universo de Agustina Bessa-Luís, com a presença de personalidades destacadas da nossa vida cultural. Modera as sessões “Agustina na FNAC” a crítica literária Helena Vasconcelos.
Agustina é uma das grandes e renovadas revelações da literatura portuguesa dos últimos cinquenta anos – e a sua assombrosa frescura torna-se cada vez mais evidente. São os novos públicos que a vão, de novo, descobrindo – e que, nessa descoberta, a vão tornando a revelar. Objecto de um verdadeiro culto académico, Agustina é o contrário do academismo. Irreverente, desconcertante, irrepetível, corrosiva, bem-humorada, é uma escritora do nosso tempo para o nosso tempo.
Esta inicitaiva da FNAC Portugal, com o apoio da Guimarães Editores, integra-se no projecto “ADN – Agustina Desígnio Nacional”, um ciclo de iniciativas que visa celebrar a autora e consagrá-la como um dos maiores escritores vivos de língua portuguesa. A Associação da FNAC a este projecto é mais um sinal da actualidade e vitalidade desta escritora intemporal.
Informação também disponível em HTTP://CULTURA.FNAC.PT
Rui Morais e Castro
Guimarães Editores

PROGRAMA : AGUSTINA NA FNAC (Chiado – Lisboa)

Moderadora : Helena Vasconcelos (crítica literária)

ENTRADA LIVRE

SEG. 26 OUT. - 18h30

I. As Artes de Agustina

§ Graça Morais
§ João Botelho
§ Mónica Baldaque

TER. 27 OUT. • 18h30

II. Os Homens e as Mulheres em Agustina

§ Inês Pedrosa
§ Francisco José Viegas
§ Patrícia Reis

QUA. 28 OUT. • 18h30

III. Agustina e as Relações de Poder

§ Lídia Jorge
§ Filipa Melo
§ Miguel Real

SAB. 31 OUT. • 19h00

IV. Os Aforismos de Agustina

§ Pedro Mexia
§ José Manuel dos Santos
§ Maria Helena Padrão

AGUSTINA NA FNAC

Quantos mundos cabem no universo de Agustina? A escritora criou uma galáxia de personagens e lugares, de emoções e sensações, de ímpetos e desejos que a tornam única e, evidentemente, imprescindível para a compreensão da nossa identidade e da nossa cultura. Agustina arrasta-nos pelas paisagens férteis do Douro, pelas ruas e traseiras dos prédios do Porto, pelas salas, corredores e recantos das casas rurais ou citadinas, acompanhando homens e mulheres, fortes e fracos, fiéis e desleais, a braços com o tumulto do mundo. Agustina, com os seus 87 anos bem vividos, detentora de inúmeros Prémios, autora de uma obra vastíssima, exploradora de todas as formas de comunicação, vai ser falada e discutida na FNAC.. Nunca é demais celebrar Agustina.

I - As Artes de Agustina
Realizadores de cinema como Manoel de Oliveira e João Botelho compreenderam bem o potencial das luxuriantes descrições das paisagens – interiores e exteriores – da vida dos objectos que abundam nos seus livros. Mas se Agustina “dá a ver” através da escrita, ela é, também, uma observadora curiosa e atenta. A sua cumplicidade com Maria Helena Vieira da Silva ficou registada em “Longos Dias Têm Cem Anos” e o fascínio por Rembrandt deu origem a “A Ronda da Noite” com o seu inquietante mistério.

II - Homens e Mulheres em Agustina
A sua galeria de personagens masculinas e femininas – a que se deve acrescentar a de alguns animais emblemáticos – rivaliza com as de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós. É através das suas figuras femininas e masculinas, de todas as idades, que Agustina define um sistema de valores que rege um universo aparentemente rígido. Mas a força imanente e telúrica do lado feminino e o exercício da vontade do lado masculino estabelecem um desequilíbrio constante e perigoso.

III - Agustina e as Relações de Poder
Em Agustina, nada é pacífico. Por essa razão não admira que a busca e exercício do poder seja um dos temas mais constantes da sua obra. E, uma vez que o poder se adquire através da luta, há inúmeras batalhas nos seus livros. Daí também o fascínio por figuras da política, como o Marquês de Pombal (em “Sebastião José”) e como Francisco de Sá Carneiro (em “Os Meninos de Oiro”) . Ela sabe bem como os seres humanos atravessam a vida esgrimindo agilmente todas as possibilidades de dominação.

IV - Os Aforismos de Agustina
A leitura dos aforismos de Agustina transforma-se numa resolução de charadas. Mais do que provérbios, ditados ou sentenças em torno de temas que vão do amor à morte, do desejo às virtudes, do sofrimento à felicidade, estas frases lacónicas e cortantes, aproximam-se da reflexão filosófica e fazem as vezes de revelações ditas por um oráculo esclarecido e visionário. Um aforismo pode ser sibilino, luminoso, pacífico ou escandaloso. Agustina dá-nos a provar o sabor de todos eles.
Helena Vasconcelos

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Marguerite Yourcenar


Estamos a ler Marguerite Yourcenar. Não resisto a mencionar outros Zenão, anteriores ao protagonista de "A Obra ao Negro":
Zenão de Citium, filósofo grego, fundador da Escola Estóica. Ensinou em Atenas nos anos 300 a. C. . Baseando-se nas ideias morais dos Cínicos, o Estoicismo colocava grande ênfase na bondade e na paz de espírito que seriam alcançadas através de uma vida de virtude e em concordância com a Natureza.
Zenão de Eléia (hoje em Itália), filósofo grego, terá nascido cerca de 490-485 a. C., e desafiou os conceitos de movimento e de tempo através de quatro paradoxos que criaram uma certa agitação, ainda hoje visível. As teorias do movimento estão intimamente relacionadas com as teorias sobre a natureza do espaço e do tempo. Na Antiguidade, foram defendidas duas perspectivas opostas: a hipótese do Uno, defendida por Parménides (n. 515-510 a.C.), e a dos seus adversários, que defendiam o pluralismo.Zenão era discípulo de Parménides e tentou fazer com que os seus adversários caíssem em contradição. De facto, Zenão mostrou que examinando a questão a fundo se obtêm consequências mais absurdas partindo da hipótese da pluralidade do que da hipótese do Uno.As hipóteses contra as quais Zenão dirigiu o seu talento destrutivo foram principalmente a da pluralidade e a do movimento, que eram indiscutivelmente aceites por todos, salvo pelos próprios Eleatas.

sábado, 26 de setembro de 2009

E, agora, vamos ler "A Obra ao Negro" de Marguerite Yourcenar

O tempo foi escasso para a discussão sobre "A Costa dos Murmúrios" de Lídia Jorge. Dissecámos o seu olhar nada romantizado nem complacente sobre a Guerra, a noção de prisão- os vários compartimentos, do Stella Maris (uma espécie de colmeia) à casa de Helena, dos contentores na praia ao Moulin Rouge - o sentido da desumanização e do caos, o poder da hierarquia militar ( e o porquê dessa força), o lado anti-épico do romance, os ritos iniciáticos, o percurso de descoberta pessoal de Evita/Eva Lobo, a cicatriz de Forza Leal e o seu simbolismo, a tarefa de Helena - abrir a caixa de Pândora - o significado de um conflito que teve três nomes : Guerra Colonial, Gurra da Libertação e Guerra de África, consoante os lados assumidos. E conversámos ainda, longamente, sobre a magnificência da escrita, a desconstrução da narrativa, a forma como os odores e as cores se infiltram na mente do leitor, etc. Discutimos mais : a Ilíada e a "glória" dos guerreiros, Penélope e os Ulisses deste mundo, a necessidade (ou não) da Guerra, a violência inata - discussão: seremos todos capazes de matar e de cometer atrocidades e em que circunstâncias - a situação das mulheres na segunda metade do século XX, a ambiguidade e complexidade de África, a descoberta do "outro", o racismo, o imperialismo. Não esgotámos os temas, muito mais ficou por dizer.
A seguir vamos mergulhar noutro século tão complexo e "acelerado" como o século XX, com "A Obra ao Negro" de Marguerite Yourcennar. Preparem-se que vai ser duro.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Comunidade Leitores


É já amanhã.

Começa mais uma Comunidade de Leitores na Culturgest. Que saudades tenho das minhas companheiras e dos meus companheiros de leituras! Dos meus amigos e amigas! Das nossas discussões e conversas! Daquele tempo que se prolonga, mesmo depois do fim... É já amanhã: às 18:30 naquela sala confortável da Culturgest.

O livro que iremos discutir é "A Costa dos Murmúrios" de Lídia Jorge, Ed. Dom Quixote. O tema, se bem se lembram, é "Confrontos, Guerras, Escaramuças" . Amanhã, falaremos da Guerra Colonial. Ou seja, da "Guerra da Libertação" ou "Guerra de África".
A releitura do livro de Lídia Jorge confirmou a minha opinião de que este é um dos mais importantes e bem escritos sobre este tema - não só a "nossa" guerra mas todas as guerras. Porque mostra como tudo se altera, das relações pessoais à paisagem, das culturas de povos ao estado psicológico (individual e colectivo).
Através de personagens bem marcadas e de uma descrição de ambientes soberba, Lídia Jorge provoca-nos, confronta-nos e questiona-nos.
Amanhã, faremos isso mesmo.
Leituras complementares:
"Os Cus de Judas", "Memória de Elefante" e "D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto - Cartas de Guerra" - António Lobo Antunes, Ed. Dom Quixote (Guerra Colonial)Há muito mais obras sobre o tema da Guerra Colonial. Aqui ficam, apenas, umas sugestões.
"O Regresso do Soldado"- Rebecca West, Ed Relógio D'Água ( 1º Grande Guerra -´Stress pós-traumático)
"Perto da Felicidade" Richard Yates , Ed. Quetzal ( o que se passa na América nos anos 40 entre duas Guerras, já perto da Segunda. O que sentem os protagonistas nesse estado de antecipação. A frustração de quem não combate.
Para os leitores de Língua Inglesa : Poesia de Wilfred Owen e de Siegfried Sasson os grandes poetas dos horrores das trincheiras durante a 1ª Grande Guerra.

sábado, 19 de setembro de 2009

Quem quer ir a Londres?


A Vingança de Moctezuma: O Museu Britânico recupera o esplendor do Império Azteca com uma grande exposição dedicada ao seu último grande líder, aproveitando para suscitar o debate historiográfico com novas hipóteses relativas à sua vida e à sua morte. A Exposição 'Moctezuma: soberano azteca' poderá ser vista na capital britânica entre os dias 24 de Setembro, 2009 e 24 de Fevereiro, 2010.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

John Keats - o filme

"Bright Star": Ben Whishaw as the Romantic poet John Keats and Abbie Cornish as his beloved, Fanny Brawne
Estreia hoje, em Nova Iorque, "Bright Star", o novo filme de Jane Campion sobre a vida e a paixão de John Keats, o poeta romântico que é mais conhecido pela sua "Ode to a Nightingale" ( 1819) . O New York Times dá-lhe nota bem positiva. Através do filme é possível que Keats volte a ser recitado e lido por todos.

Lembram-se que Scott Fitzgerald foi buscar a essa Ode o título de um dos seus livros mais famosos?

tender is the night,
And haply the Queen-Moon is on her throne,
Cluster’d around by all her starry Fays;
But here there is no light,
Save what from heaven is with the breezes blown
Through verdurous glooms and winding mossy ways
( lines 35 a 40)

domingo, 13 de setembro de 2009

A LISTA do Booker


Wolf Hall, Hilary Mantel (Fourth Estate) 4/5
The life and times of Henry VIII's marriage-fixer, Thomas Cromwell.
"A beautiful and profoundly humane book... Mantel is one of our bravest as well as most brilliant writers." (Olivia Laing, Observer)
The Little Stranger, Sarah Waters (Little, Brown) 4/1
Supernatural goings-on in rural Warwickshire, 1948.
"Full of sly fun and lovely comic observation." (Robert McCrum, Observer)
Summertime, JM Coetzee(Harvill Secker) 6/1
The final volume in two-time Booker winner Coetzee's trilogy of fictionalised memoir.
"Compelling, funny, moving and full of life." (Thomas Jones, Observer)
The Children's Book, AS Byatt(Chatto & Windus) 8/1
A sprawling family epic. "Contains magnificent things, but turns into a history lesson." (Adam Mars-Jones, Observer)
The Quickening Maze, Adam Foulds(Jonathan Cape) 16/1
The madness of poet John Clare.
"A dazzling historical reconstruction... bewitching sense of place." (Olivia Laing, Observer)
The Glass Room, Simon Mawer(Little, Brown) 10/1
Czech high culture and the Holocaust.
"A rare thing: popular historical fiction with integrity." (Ian Sansom, Guardian)
• Odds by William Hill

Vera Mantero




















Como sabem, não concebo a Literatura sem uma relação estreita e activa com todas as outras formas de arte e pensamento. E gosto muito de Dança. Por isso convido-vos a seguir com atenção o trabalho da coreógrafa e bailarina VERA MANTERO. (Tão boa e com tanta importância como a Pina Baush, diga-se.)
Vai ser em Coimbra mas, depois, será em Lisboa.
Dança, exposições, conferência, vídeo, formação RESIDÊNCIA ARTÍSTICA VERA MANTERO - 15 a 19 de Setembro
A ESCOLA DA NOITE TEATRO DA CERCA DE SÃO BERNARDO (TCSB) COIMBRA
Vera Mantero é a segunda convidada do TCSB para uma residência artística. O Prémio Gulbenkian, com que recentemente foi distinguida, veio apenas reforçar o que já todos sabíamos: a enorme importância do seu trabalho para a dança portuguesa contemporânea. Como é objectivo destas residências, a sua passagem por Coimbra não se esgota na simples apresentação de um espectáculo. Ao longo de uma semana, o público poderá assistir a quatro solos, a um concerto, uma exposição, a dois filmes e a uma conferência, bem como mergulhar num centro de documentação temporário sobre o seu percurso. Para o público escolar, de todos os graus de ensino, estão reservadas sessões especiais, um atelier e um workshop de nove horas, graças às parcerias estabelecidas entre A Escola da Noite e o Curso de Estudos Artísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e o Centro de Artes Visuais.
Vejam esta fotografia deslumbrante. Há mais...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Graça Pereira Coutinho




A Graça Pereira Coutinho é uma das artistas mais interessantes que eu conheço e, caso raro entre criadores, gosta de trabalhar com outras pessoas. Esta exposição vai ser importante e muito interessante


Marquem nas vossas agendas:


Inaugura no próximo dia 8 de Outubro de 2009, a quarta exposição organizada e produzida pelo grupo Laboratório, no Pavilhão 28 do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa.Laboratório #4 - "WAY OUT", congrega um grupo de artistas nacionais e internacionais que dentro de uma linguagem contemporânea e experimental trabalham o conceito espaço. Anne Bean, Beatriz Horta Correia, Branca Lagarto, Francisco Clode Sousa, Graça Pereira Coutinho, Isabel Botelho, Maria Ibrahim, Maria Pia Oliveira, Marta Wengorovius, MML, Ninna Sobell,Paula Paour, Paulo Pires do Vale, Pepe Buitrago, Sacht Hoyt, Sara Antónia Matos, Sofia Castro, Trevor Lloyd Morgan, Virgínia Fróis e Walter Barros.O Pavilhão 28, antiga enfermaria psiquiátrica do Hospital Júlio de Matos é uma estrutura arquitectónica demarcada por simetria e um local de forte carga simbólica, que influenciou o trabalhos dos artistas em torno da ideia de Saída - Way Out. Mantendo a sua linguagem idiossincrática, os artistas problematizam cada divisão do edifício, dando-o a ver sob um corpo conjunto de obras que permite interrogar não apenas o seccionamento rígido do desenho arquitectónico como, sobretudo, as suas zonas de permeabilidade, encontro e atravessamento.A partir das condicionantes físicas do edifício e das marcas que restam da sua utilização original, ensaiam-se relações da arquitectura com as obras, delimitam-se percursos, exploram ideias de fuga ou enclausuramento e ainda ressonâncias sonoras e visuais. Deste modo, encontramos projectos que vão do vídeo à instalação, passando pelo desenho, som, escultura, fotografia e outras formas de registo.


EXPOSIÇÃO PATENTE ATÉ 7 de Novembro de 20092.ª a 6.ª feira 10h00-17h00 Sábado 15h00-20h00Pavilhão 28, Centro Hospitalar Júlio de Matos, Av. do Brasil, 53 – Lisboa

PARA MAIS INFORMAÇÕES: GPC@HOTMAIL.CO.UK ou SOFYABOX@SAPO.PT

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Último livro de Sofia Marrecos Ferreira

"O Sangue da Terra" da Sofia Marrecos Ferreira, editado pela Porto Editora. Já li, gostei muito e vou apresentar este livro no próximo dia 15 de Setembro na belíssima Casa do Alentejo, em Lisboa. Venham juntar-se a nós às 18:30.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Regresso a casa



Estou de volta, depois de andanças pela Galiza e pelas Serras do interior. É bom chegar a casa e estar frente ao computador, a escrever. Quero contar-vos que levei muitos livros para ler mas só um - que tinha atirado para o saco, "de reserva" - se revelou apaixonante. É este, "A Obsessão do Fogo", uma espécie de conversa a três vozes entre Umberto Eco, Jean-Claude Carrière e o entrevistador ( que fala pouco).Podemos ouvi-los a falar de livros, mais e mais livros, escritores, memória e tempo. O que é o livro? Qual a importância dos que ficaram e dos que desapareceram ? Como fazer uma espécie de história da literatura do não escrito ? Como sobreviverá o livro? ( Para sempre, dizem, uma vez que o livro é como a roda, depois de inventados nunca houve nada melhor que os suplantasse.) Recomendo vivamente esta obra - é provocatória, reveladora, erudita sem ser hermética, viva e inteligente.
A edição é da Difel, Lisboa, e não vos conto mais nada porque vão ter grandes surpresas.

domingo, 16 de agosto de 2009

J.M. Coetzee de novo



J.M. Coetzee é um dos meus autores favoritos. É raro escrever algo desinteressante ou fraco - embora já tenha acontecido. Já mandei vir o seu último livro que está incluído na "long-list" do Booker Prize e, dizem, é um dos favoritos. (Parece-me um pouco excessivo que ele ganhe o Booker pela 3ª vez, mas tudo pode acontecer!!!)
Chama-se "Summertime" é uma narrativa (auto) biográfica, ou mais precisamente, uma biografia ficcionada, e completa - ou acrescenta algo - aos anteriores "Boyhood" e "Youth". Narra a história de um jovem escritor que pesquisa arduamente elementos para o seu livro: uma biografia do já falecido John Coetzee. É durante essa investigação que conhece pessoas relacionadas com o alvo do seu trabalho e recria atmosferas e emoções.
Não posso adiantar muito mas dir-vos-ei algo mais quando o ler.

A edição é da Harvill Secker e estará nas livrarias a 3 de Setembro deste ano (2009)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

What is Stephen Harper Reading?




O autor canadiano que venceu o Booker Prize de 2002 com o bizarro e delicioso livro "A Vida de Pi", vai publicar em Setembro deste ano(2009) uma nova obra. Chama-se "What is Stephen Harper Reading?" e consiste no resultado de um "work in progress" do autor. Como medida de protesto pela diminuição orçamental para a Cultural no seu País, Martel começou - desde 16 de Abril de 2007, de quinze em quinze dias - a enviar cartas, recomendações e livros (Jane Austen, Gabriel Garcia Marquez, Dostoiévsky, etc., ao primeiro-ministro Stephen Harper que parece ser um modelo de "stillness", de acordo com Martel. A correspondência só contém uma carta de resposta do "premier" e todas as de Martel. Não li, ainda, nem sei o que sairá daqui. Mas gostei muito do Yann Martel quando ele esteve em Lisboa e apresentei "A Vida de Pi" na Feira do Livro de Lisboa. Não resisto a por aqui uma das fotografias, tiradas por um bom amigo.

Tudo para que leiam "A Vida de Pi", a história de um menino e de um tigre, à deriva no oceano.


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Dennis Lehane


Soube, através do Facebook que está para sair o filme "Shutter Island" do autor americano (Boston) Dennis Lehane. É um dos meus escritores favoritos de thrillers - lembram-se de Mystic River e de Gone, Baby Gone ? - e um grande escritor tout court, inventivo, violento, capaz de criar uma boa trama. Se quiserem ler o que escrevi para o Rol de Livros da Fundação Calouste Gulbenkian, sobre Shutter Island - uma história de fazer arrepiar a espinha - vão a http://www.leitura.gulbenkian.pt/index.php?area=rol&task=view&id=29560

Aconselho a leitura viciante de Lehane. Para além de Stieg Larson e de Robert Wilson - thrillers com ideias - não vejo quem se lhe possa comparar. Talvez a Patricia Highsmith nos seus melhores momentos.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Thomas Pynchon


Saiu hoje mesmo. É um novo livro do bizarro, popish, Thomas Pynchon, intitulado “Inherent Vice”, da Penguin Press. De acordo com o crítico do NY Times, Michiko Kakutani é : "... a big, clunky time machine of a novel that transports us back to the early 1970s, back to a California of surfers and surf bunnies, bikers and biker chicks, hippies, freaks and righteous potheads. It was a time when people lived for Acapulco gold and Panama red and lived on pizza and Hostess Twinkies, a time when girls wore their hair long and their skirts short, guys wore paisley and velour and suede, and people were constantly monitoring their paranoia levels and worrying about narcs and cops and the feds."

De fazer crescer água na boca aos fãs de outras obras de Pynchon como "The Crying of Lot 49" “Gravity’s Rainbow”, “V.” ou “Mason & Dixon”. Mais uma torrencial descrição do universo em que pontificava Bob Dylan, com resquícios de Jack Kerouac.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Raymond Carver



COLLECTED STORIES - Will You Please Be Quiet, Please? What We Talk About When We Talk About Love, Cathedral, Stories from Furious Seasons, Fires, and Where I’m Calling From, Other Stories and Selected Essays, Beginners Edited by William L. Stull and Maureen P. Carroll
O prazer que, cava vez mais, sentimos ao ler Raymond Carver, o escritor americano que morreu em 1988, com cinquenta anos, advém de múltiplos factores: a sua capacidade para desenhar cenários miniaturistas onde personagens comuns de repente se encontram em situações bizarras, a capacidade para, em poucas linhas, criar um universo completo, uma atmosfera e a corrente de sensações e paixões entre as pessoas. Chamam-lhe, com justiça, o génio da escrita minimalista, escrita essa que tem influenciado gerações de escritores , desde então. Mas uma nova edição dos seus contos mostra que a escassez de palavras aliada a uma mestria perfeita são fruto, não só da já famosa "falta de tempo" - ele tinha múltiplos empregos e nenhum dinheiro - que o obrigava a escrever em pequenos pedaços de papel nos lugares mais improváveis mas, também, porque o seu editor, Gordon Lish lhe cortava drasticamente - mesmo brutalmente - os contos. Lish foi primeiro editor de Carver na revista Esquire, a seguir na McGraw-Hill, onde foi publicado o seu primeiro volume de contos "Will You Please Be Quiet, Please?" (1976) e, mais tarde na Alfred A. Knopf que publicou o livro que o tornou famoso (também de contos) "What We Talk About When We Talk About Love". A segunda mulher de Carver, a poeta e romancista Tess Gallagher tem conservado e divulgado a obra do marido e recuperou alguns contos na versão anterior à "censura" de Lish. Por isso, aconselho uma releitura de Carver - está editado em português. É uma lição de bem escrever.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Booker Prize


Caros e caras editores(as)
Acabaram de ser anunciados os autores e obras que constam da "long-list" para a escolha do Man Booker Prize deste ano. Destes já li três. Todos bons. Vamos a ver quem será o(a) favorito (a). Aqui fica a lista:


Author Title Publisher


Byatt, AS The Children's Book Random House - Chatto and Windus
Coetzee, J M Summertime Random House - Harvill Secker
Foulds, Adam The Quickening Maze Random House - Jonathan Cape
Hall, Sarah How to paint a dead man Faber and Faber
Harvey, Samantha The Wilderness Random House - Jonathan Cape
Lever, James Me Cheeta HarperCollins - Fourth Estate
Mantel, Hilary Wolf Hall HarperCollins - Fourth Estate
Mawer, Simon The Glass Room Little, Brown
O'Loughlin, Ed Not Untrue & Not Unkind Penguin - Ireland
Scudamore, James Heliopolis Random House - Harvill Secker
Toibin, Colm Brooklyn Penguin - Viking
Trevor, William Love and Summer Penguin - Viking
Waters, Sarah The Little Stranger Little, Brown - Virago
Já cá tenho em casa quatro deles: o da Byatt, o da Mantel, o do Toibin e o da Waters. Embora não seja totalmente fã do Toibin, "Brooklyn" é um belo livro. Comecei "Wolf Hall", um enorme romance histórico e, nem de propósito, depois do meu livro, saiu o da Byatt que ainda não li mas que folheei e me parece óptimo. O da Waters vai a seguir e já mandei vir o Coetzee. Depois conto-vos mais coisas.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Alice Hoffman



"Confissões ao Luar" da americana Alice Hoffman é um daqueles casos em que a capa e o título são perfeitamente desastrosos e repelem, em vez de atrair. Se não fosse eu já conhecer a autora de outras obras, não teria pegado neste. E afinal é um romance muito interessante, forte e pungente. É um drama familiar, uma fábula sobre os efeitos da paixão e sobre as forças negativas de personalidades irreconciliáveis. É sobre o amor e o ódio entre pessoas da mesma família - disfuncional, complexa - e sobre a fantasia da infância e adolescência, sobre as desilusões na idade adulta e como lidar (ou não) com elas. É realista, brutal e, ao mesmo tempo, estranhamente poético. A casa de vidro que habitam é uma metáfora sobre a fragilidade da vida, o orgulho e o fosso que existe entre as fantasias e a vida de todos os dias. Um livro que aconselho.

Alice Hoffman, que nasceu em 1952, é também autora de livros para crianças e adolescentes. mesmo aqui, um livro para adultos, ela mostra que está familiarizada com o universo da infância e dos teenagers principalmente no que diz respeito às dificuldades no crescimento e o confronto com dramas inultrapassáveis. Hoffman tem, também, a particularidade de introduzir cenas oníricas - chamam-lhe realismo mágico mas não gosto dessa classificação - e de tratar o tema de ralações amorosas que não são as mais convencionais, no género "romance".

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Hoje é dia de Poema - Os Ricos


Tenho pensado muito nos ricos e na crise que atravessam - banqueiros, gestores, eu nem sei como eles se chamam, são tantos, coitadinhos. O Governo, os comentadores, os políticos e não políticos, à esquerda, à direita, ao centro, em baixo e em cima só falam dos pobres. E então os ricos? Por isso, aqui vai um poema do Charles Tomlinson. É o da semana no Times Literary Supplement.





The Rich
I like the rich – the way
they say: 'I'm not made of money':
their favourite pastoral
is to think they're not rich at all –
poorer, perhaps, than you or me,
for they have the imagination of that fall
into the pinched decency
we take for granted.
Of course,they do not want to be wanted
by all the skivvies and scrapers
who neither inherited nor rose.But are they daft or deft,
when they proclaim themselves
men of the left, as if prepared
at the first premonitory flush
of the red dawn
to go rushing into the street
and, share by share,
add to the common conflagration
their scorned advantage?
They know that it can't happen
in Worthing or Wantage:
with so many safety valves
between themselves and scalding,
all they have to fear
is wives, children, breath and balding.
And at worst
there is always some sunny
Aegean prospect. I like the rich –
they so resemble the rest
of us, except for their money.

Ontem foi dia de RTPN

Ontem, gravei umas coisas, a convite - muito simpático - da Isabel Gomes da RTPN, para o seu programa "Estação das Artes". Foi ao fim da tarde no CCB com o rio ao fundo e uma luz que só existe em Lisboa. O pretexto era a inevitável questão de "livros para férias". É difícil porque, para mim, férias, é um estado em que (quase) não leio. É estar a olhar para o mar, nadar, apanhar sol e ficar a divagar sobre coisas boas e a escrever livros na minha cabeça. É fazer compras e andar descalça todo o dia. É comer, beber, dormir e estar bem acompanhada, com silêncios e ao ritmo natural do tempo. É verdade que não faço férias dessas há milhares de anos. Mas, enfim, nada disto tem importância e ontem, fartei-me de recomendar livros. A maior parte deles, calhamaços de todo o tamanho o que provavelmente, desmotivará os mais afoitos. Mas talvez seja esta a altura para voltar a ler "A Montanha Mágica" de Thomas Mann (nova edição impecável da Dom Quixote) e outros "clássicos" que estão a ser reeditados - obras de John dos Passos (Ed Presença), de Balzac, Yourcenar, Conrad, uma quantidade deles. Uma espécie de Natal para os bibliófilos.

sábado, 11 de julho de 2009

Centenários e Notícias


Nota: A fotografia de Nelson Algren em Division Street é do seu amigo Art Shay. O retrato de Swinburne pode ser de Dante Gabriel Rossetti mas não tenho a certeza


Tenho estado sem Internet, sem visitas ao Facebook e a trabalhar recorrendo às velhas Enciclopédias - para datas e verificação de dados - das quais não me desfaço nem por nada porque isto das novas tecnologias é muito bonito... quando funcionam. Rapidamente, e antes que o sinal desapareça como tem acontecido nestes últimos dias, gostava de vos contar que estive a escrever um texto para o Público sobre o último livro do Miguel Sousa Tavares, uma tarefa que é uma espécie de "batata quente"que me atiraram para as mãos, mas que fiz com prazer. Também reparei que os editores portugueses não têm ligado nenhuma ao facto de, este ano, se comemorar o centenário do nascimento do escritor norte-americano Nelson Algren. Creio - e posso estar muito enganada - que não existem traduções portuguesas de "Man With the Golden Arm" - que foi passado para o cinema pelo Otto Preminger com um Frank Sinatra a fazer de drug addict - nem de "A Walk on the Wild Side" que também foi adaptado ao cinema. São bons romances, duros e violentos e o próprio Algren - mais conhecido pelo affair tórrido com Simone de Beauvoir - é uma figura interessante. Escrevi um texto sobre ele que irá sair na revista ELLE de Outubro - meteu-se pelo meio outro texto sobre o Elia Kazan que não é personagem das minhas simpatias, antes pelo contrário, mas cujo centenário também é de assinalar, este ano - e avisar-vos-ei quando aparecer.
Outra efeméride que merece uma nota: os 100 anos sobre a morte do poeta Swinburne. O esquecimento não é de admirar, neste caso: Swinburne com o seu sentimentalismo - apreciado pelos pré-rafaelitas - é já um pouco indigesto mas tem algumas coisas excitantes como o poema em que ele sonha que visita Lesbos:
Ah the singing, ah the delight, the passion!
All the Loves wept, listening; sick with anguish,
Stood the crowned nine Muses about Apollo;
Fear was upon them,
While the tenth sang wonderful things they knew not.
Ah the tenth, the Lesbian! the nine were silent,
None endured the sound of her song for weeping; Laurel by laurel,
Faded all their crowns; but about her forehead,
Round her woven tresses and ashen temples
White as dead snow, paler than grass in summer,
Ravaged with kisses,
Shone a light of fire as a crown forever.
Yea, almost the implacable Aphrodite
Paused, and almost wept; such a song was that song.
Yea, by her name too ...
E vai por aí fora, não consigo transcrever mais. A Rainha Vitória gostava bastante.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

De volta


Regressei a casa, depois de uns dias no Alentejo. Tinha resolvido "descansar" mas levei as minhas netas e... o resto é história. No entanto - e como estava a tentar gozar aquilo a que os comuns mortais chamam "férias" - levei para ler o último livro da trilogia Millennium do pobre do Stieg Larsson - "A Rainha no Palácio das Correntes de Ar". É fascinante, não tão emocionante como os outros dois, mas com informação muito específica - neste caso sobre a "secreta" sueca e, por extensão, sobre o jogo sujo das "secretas" em todo o mundo (ou quase). Mostra bem como o terrorismo serve de pretexto para os maiores abusos.

Estou a menos de meio - e vou ter que deixar o resto para depois porque tenho trabalho à minha espera - mas já me apercebi de uma coisa. Tudo o que li sobre o livro diz que é mais centrado na figura da Lisbeth Salander: é verdade em termos do seu passado mas não em termos de acção. Até agora, ela ainda está presa no hospital. O que dá para ver é que o Stieg Larsson devia ser um jornalista genial. E incómodo. Este livro mostra um trabalho de investigação bastante alargado. No entanto, é um romance e não me esqueço desse pormenor. Deixo-vos com estas pistas. Agora, vou trabalhar.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Um cenário magistral para uma peça que o não merece


Ontem fui ver Agosto em Osage de Tracy Letts, ao Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. E detestei. Não percebo como é que um texto, com colagens decalcadas descaradamente de Tenesse Williams, de Faulkner e de Jim Thomson ( não são influências, são autores que ele copia sem vergonha) com piscadelas de olho a tudo e todos - incluindo aos "nativos americanos", mais uma vez achincalhados pelo mau gosto - em que cabe tudo, do suicídio ao incesto, da violação à loucura, de traição a abandono, pode ter ganho um Pulitzer. Não percebo como é que uma grande senhora como a Fernanda Lapa - que muito prezo e admiro - deixa Lia Gama aos gritos e aos tombos, a tomar conta das cenas sem dar espaço aos outros actores - alguns deles óptimos como João Grosso ( que mal aparece) , Isabel Medina, Mário Jacques ( que começa tão bem a peça) ou Luis Lucas - a dar uma de Blanche DuBois, misturada com a versão burlesca da Martha de "Who's Afraid of Virginia Woolf." Não percebo como é que um cenário tão belo, funcional e maravilhoso - de António Lagarto - acolhe tanto disparate e um texto tão infeliz ou como uma peça daquelas vai parar a um Teatro Nacional. Não percebo como é que o público se fartou de rir alarvemente ou nervosamente - o problema é meu, evidentemente - quando se trata da história de uma família disfuncional, dramaticamente dividida e amputada por uma louca viciada, em que uma miúda de quinze anos é violada, um homem se mata, três irmãs se odeiam e o resto é ruído. Tracy Letts é um produto dos tempos Bush, com a sua moralidade duvidosa? Expliquem-me por favor.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Rachel Cusk





Acabei de ler "Arlington Park" ( Ed. Asa) da canadiana Rachel Cusk, de quem já conhecia "Saving Agnes" e "The Lucky Ones", que me lembre, agora. Este romance, publicado originalmente em 2006, contém um desespero tão palpável, uma angustia tão premente que fiquei com uma espécie de gosto a metal e cinzas na boca. Conta as histórias de várias mulheres que habitam um condomínio alargado de luxo, nos subúrbios de Londres. A sua movimentação - migração - é motivada por factores díspares mas acabam todas (quase) na mesma situação: descontentes, frustradas, vazias, amargas, enlouquecidas com a rotina, as crianças, as idas ao centro comercial, os maridos que elas entrevêem de relance. Chove sempre em Arlington Park, as bátegas de água não param de cair de um céu de chumbo. As casas são demasiado grandes ou demasiado pequenas, arrumadas maniacamente ou desleixadas pela impotência.
É um romance sobre mulheres que sofrem horrores sem saberem porquê ou devido a quê, numa antevisão apocalíptica do "crash" de 2008, entre poluição, solidão, mau gosto e abandono. São donas de casa desesperadas à beira da morte mental, cheias de medo da vida.
Assustador, verídico, incómodo, trágico-cómico - mães que detestam os filhos , que os acham feios, que se sentem felizes por comprar um "top" numa loja, que não têm amigas, apenas conhecidas que criticam abertamente, que mal reconhecem os maridos, etc., etc. - e muito bem escrito. Ainda bem que já não tenho trinta e tal anos. Nem nada que se pareça. UFFFF!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Hemingway de novo


Ernest Hemingway com a sua primeira e segunda mulher, respectivamente, Hadley Richardson, Pauline Pfeiffer.
O neto de Ernest Hemingway Seán Hemingway, editou versão restaurada de "A Moveable Feast" ("Paris é uma Festa") que irá sair pela Simon & Schuster no início do mês que vem. As memórias do escritor em Paris quando começou a trocar de mulheres e pôs a nu as suas indecisões e (alguns) remorsos por ter acabado o primeiro casamento. A história desta nova edição é, também , interessante - em causa está o último capítulo trabalhado a partir de pequenos textos e notas do escritor, por Mary Hemingway, a última mulher, que foi quem editou este livro em 1964 - e demonstra o fascínio que ainda perdura em relação ao escritor. Na realidade muitos estudiosos da sua obra sempre consideraram que "A Moveable Feast" não ficara terminado quando do suicídio do autor em 1961.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Maria da Conceição Caleiro

Na quinta-feira próxima, 25 de Junho, 2009, dia em que chego a Lisboa, vou apresentar este livro da Maria da Conceição Caleiro, na Livraria Barata da Avenida de Roma, às 18:30 h. É um romance poderoso e surpreendente. É preciso lê-lo porque revoluciona por completo a Literatura Portuguesa contemporânea. Não é a minha área, como sabem, mas tenho quase a certeza de que não há nada que se lhe compare. Depois vos darei mais pormenores. Mesmo que não possam aparecer, aconselho-vos a leitura. Rapidamente. A edição é da Sextante.

Longe de casa com Siri Hustved


Longe de Portugal, a escrever.
Também acabei de ler "Elegia para um Americano" de Siri Hustvedt, Edições Asa, recentemente publicado em Lisboa. Ela também esteve por lá, com o famoso marido, Paul Auster, o qual me parece bem mais fraco, como escritor, do que ela - não sou, decididamente fã, do Auster e gosto do que a Siri escreve - destaque para "Aquilo que Eu Amava", também da Asa - embora não veja isto como uma competição dentro do casal - que talvez exista, embora me pareça que ambos sabem muito bem o que estão a fazer. "Elegia para um Americano" é narrado por um psicanalista - o que levou aos disparates do costume ( uma parangona: "Siri Hustvedt escreve como um homem") - e é um dos livros que se pode inscrever na chamada "literatura pós-9/11". É uma meditação sobre a morte - tanto individual como colectiva - sobre a memória e sobre as transformações nas vidas das pessoas - principalmente dos habitantes de Nova Iorque - à sombra da catástrofe. Como recuperam o passado - bem ou mal - como ajustam ou desajustam os afectos, como tentam sarar feridas morais, psicológicas, afectivas. Em comum com Auster, a escrita de Hustvedt assenta em dois pilares fundamentais : o tema das origens (relação com a Europa de onde vieram tantos imigrantes que colonizaram a América) e uma escrita "cinematográfica" muito visual, e formatada como uma película. É, também, um romance "autobiográfico"uma vez que as memórias do pai de Hustedt - um imigrante norueguês que faleceu em 2003 - - são expressamente citadas e compõem a espinha dorsal do romance, o ponto fulcral de onde tudo emana e para o qual tudo converge.
Na realidade, o livro é uma elegia para "esse americano" - vindo de outros lugares, forte, corajoso, honesto, "vertical", amante da sua nova terra, heróico - e para a própria América com todos os seus traumas acumulados.
Um romance muito interessante que aconselho e que completa outra leitura, a de "A Boa Vida" de Jay McInerney, também recentemente editado em Portugal.

sábado, 20 de junho de 2009

Aos 85 anos Gloria Vanderbilt publica "Obsession"


Abençoada senhora !

Andam todos - quero dizer, no New York Times - deslumbrados pelo facto de Gloria Vanderbilt, a herdeira do império do mesmo nome, "socialite" de renome, actriz, autora, dona de uma marca - perfume incluído, embora horrível - conhecida por um comportamento "selvagem" - isto é, não convencional - publicou agora um romance erótico/pornográfico com os ingredientes mais escaldantes desde a "História d' O" de Pauline Réage. O mais excitante é que a senhora tem 85 anos - abençoada - e parece não pensar noutra coisa a não ser em sexo - de todos os tamanhos, tipos e feitios (salvo seja!), em todos os lugares, posições e disposições. O romance chama-se "Obsession" e conta a história da viúva de um arquitecto famoso ( poderá ser inspirado em Frank lloyd Wright) que descobre documentos que demonstram as capacidades erótico-acrobáticas do marido.

Aqui vai um trecho da crítica do New York Times por CHARLES McGRATH:

Obsession” is written in stylized literary prose that owes something to Pauline Réage’s “Story of O,” and is set in a world that’s partly fantastical. It’s erotica, not porn. But it nevertheless uses vocabulary and describes activities of a sort that readers of The New York Times are usually shielded from. There are scenes involving dildos, whips, silken cords and golden nipple clamps, not to mention an ebony, smooth-backed Mason Pearson hairbrush purchased at Harrods. As the book explains, spanking with a Mason-Pearson is a “serious matter,” not the kind of thing that is rewarded with the “luscious afterglow of warm cocoa butter.” Mint, cayenne pepper and a fresh garden carrot are deployed in the book in ways never envisioned by “The Joy of Cooking.” And there is also a unicorn, though, blessedly, it remains a bystander...."

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Correntes D' Escritas - 24 a 27 Fevereiro 2010

Toda a gente que me conhece sabe como sou adepta fervorosa das Correntes D' Escritas na Póvoa do Varzim. É um acontecimento literário ímpar, uma semana sempre extraordinária com tudo o que se relaciona com a leitura - livros, escritores, livreiros, editores, agentes literários, amantes das letras - que é interessante, viva e extremamente bem disposta, sem qualquer tipo de pressão. Um paraíso, portanto - e com o mar por fundo, ou profundo... também. Mais, quem organiza esta Festa - A Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes , para não mencionar um verdadeiro "exército" de gente amável, atenta, profissional - começa a fazê-lo com tempo e com um profissionalismo pouco comum. Por isso, aí está já o Regulamento do Prémio Literário Casino da Póvoa - Leiam-no todo em http://www.cm-pvarzim.pt/
Aqui ficam alguns dos parágrafos mais importantes :

"2 – Apenas serão aceites a concurso, as obras publicadas em Portugal (1ª. Edição), excluindo
as obras póstumas, editadas entre Julho de 2007 e Junho de 2009.
3 – Não serão admitidas a concurso quaisquer obras cujo autor tenha sido galardoado com o
PRÉMIO LITERÁRIO CASINO DA PÓVOA nos últimos 6 anos.
4 – O valor do PRÉMIO LITERÁRIO CASINO DA PÓVOA é, em 2010, de 20.000 €.
5 – O prémio será atribuído nos anos pares a novela/romance e nos anos ímpares a poesia.
Assim, em 2010, o Prémio distinguirá Prosa.
13 – A organização divulgará o presente Regulamento através dos órgãos de comunicação
social, junto de editores, livreiros e autores, no sentido de que de cada livro, lhe sejam
enviados, pelos meios correntes, até 30 de Agosto de 2009, sete exemplares em português,
destinados ao Júri e à Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim, e, no caso dos livros
traduzidos, uma versão original, por forma a poder ser consultada pelos elementos do Júri, se
necessário.
14 – As obras a concurso deverão ser enviadas para a seguinte morada: PRÉMIO LITERÁRIO
CASINO DA PÓVOA, ao c/ de Manuela Ribeiro, Correntes d’ Escritas, Câmara Municipal da
Póvoa de Varzim, Praça do Almada, 4490 – 438, Póvoa de Varzim.
"
As Correntes D' Escritas acontecerão entre 24 a 27 de Fevereiro de 2010

Contactos da Manuela Ribeiro

Câmara Municipal da Póvoa de Varzim
Pelouro da Cultura/Gabinete de Projectos Sócio-Culturais
Correntes d' Escritas
Tel: + 351 252 298 507/Fax: + 351 252 611 882
manuelaribeiro@cm-pvarzim.pt/mailto:cm-pvarzim.pt/correntesdescritas@cm-pvarzim.pt
http://www.cm-pvarzim.pt/



segunda-feira, 15 de junho de 2009

"A Vida em Surdina"



Imaginem uma história que trata do declínio físico, da morte, da perda, do medo, da decadência mental e de todos aqueles indícios - por mais pequenos que sejam - que nos mostram, em cada dia, ao acordar, que o tempo está a passar a uma velocidade vertiginosa e que, mais coisa menos coisa, vamos "bater a bota", "ir desta para melhor(?)", "esticar o pernil", "subir ao céu", "ir para os anjinhos", com a agravante de, antes, passarmos por certas humilhações, dores e sofrimento que, se não tivermos sorte, não nos matam depressa.

Imaginem que, ao ler o livro que conta esta história - centrada na personagem de Desmond Bates, professor de Linguística reformado e surdo como uma porta - não podem impedir-se de rir às bandeiras despregadas. Quem não leu "A Vida em Surdina" poderá pensar que é improvável que um herói tão pouco apelativo - não ouve nada, faz confusões com tudo, tem uma performance sexual que deixa muito a desejar, é assediado por uma jovem mas esse facto só lhe traz incómodos e complicações indesejadas, trata do pai com oitenta anos com alguma relutância, a primeira mulher morreu com um cancro, a segunda é uma empresária bem sucedida - possa despertar um interesse e uma empatia tão grande. O facto é que entre os risos loucos e as lágrimas, o leitor acompanha um determinado tempo da vida de algumas pessoas que lhe irão ficar na memória.

Não vos vou contar a história. O essencial está na contracapa do livro e o resto terão de descobrir por vós próprios. Mas gostava de chamar a atenção para algumas pistas: David Lodge ficou conhecido pela sua enorme erudição temperada pelo humor em obras que descrevem como ninguém a vida universitária, com ecos de Kingsley Amis e Malcolm Bradbury, seus dignos antecedentes no género. Aqui, esse mesmo universo distancia-se a toda a velocidade, uma vez que Bates - decalcado do próprio Lodge como ele faz questão em sublinhar numa nota final - está reformado (a princípio com uma sensação de alívio, gradualmente com uma sensação de perda) e as suas tentativas para se dedicar "à pesquisa" e a coisas que não tivera ocasião de fazer antes, lhe parecem muito pouco apelativas. Mesmo o assédio de uma aluna americana da sua antiga Escola que o lisonjeia e provoca , não chega para o fazer sair da modorra que o tempo livre e principalmente a surdez lhe proporcionam.

De notar, ainda, como Lodge cria um sub-plot - a história bastante aflitiva com a jovem estudante - para criar um certo suspense erótico e não só, como trata as relações familiares contemporâneas com profunda sensibilidade, como fala do casamento e do amor filial em termos absolutamente brilhantes e , ainda, como "alivia" a tristeza da própria condição do narrador - na 1ª e 3ª pessoas - e a da existência do seu pai ( teimoso, só, cheio de manias, doente) com momentos hilariantes, principalmente à custa da própria deficiência que lhe cria momentos de grande embaraço, tendo em conta os mal entendidos que provoca. A relação com a segunda mulher, Fred ( diminutivo de Winifred) é, mais uma vez, magistralmente tratada. Com o seu nome masculino, Fred está em perfeita décallage temporal e física do marido. Tem muito sucesso e ganha dinheiro com um trabalho que lhe dá prazer, fez algumas plásticas que a rejuvenesceram consideravelmente e parece estar no período mais esplendoroso da vida, com os filhos criados, uma vida social intensa e aberta a grandes sensações e emoções. A forma como este casal se afasta e aproxima é um dos musts do livro, bem como a forma como Lodge trata a cena da reunião da família no Natal. Acreditem, não podem perder. É tudo aparentemente muito simples, as personagens não podem ser mais humanas e a escrita é clara e sem floreados, embora de um rigor extraordinário. David Lodge, o escritor britânico e católico que sabe descrever as dores mais comuns dos seres humanos - a solidão, a perda, a incompreensão, a velhice, o desespero - é, também, capaz de lhes contrapor a esperança, o amor e uma espécie de ternura nada sentimental mas poderosa. Bates, como figura principal, olhado por si próprio e "de fora" é um pólo catalizador de grandes emoções: a solidão partilhada com o pai, a memória terrivelmente dolorosa da primeira mulher, a fricção erótica com Alex ( a jovem estudante) aliada ao medo do ridículo, a distância (ainda) cúmplice com o ambiente do campus, o afastamento, pelo menos aparente, em relação a Fred. Um retrato trágico e cómico de um homem de idade, das suas limitações e vitórias e, principalmente, da sua (cruel) condição humana.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Comunidade de Leitores Culturgest


Em Setembro, começará a segunda das Comunidades de Leitores deste ano, 2009, na Culturgest. Eu sei que já tinha dado uma primeira indicação em relação aos livros escolhidos mas acabei por mudar dois deles. O primeiro foi "A Montanha Mágica" de Thomas Mann porque é uma obra que merece, pelo menos, três sessões e não apenas uma: há demasiadas questões, demasiada informação e muitas páginas para serem deglutidas em 15 dias. O segundo foi "O Paciente Inglês" de Michael Ondaatje porque tive reclamações. (Muita gente já o lera. )
Com estas explicações, espero que a nova escolha agrade a toda a gente.
Já enviei o texto para a Culturgest.
E aqui fica a versão definitiva:
A Imagem é de Eugéne Delacroix e o quadro em questão chama-se "Heliodorus expulso do Templo"
O Tema é :
"Confrontos, Guerras, Escaramuças"
E os Livros:

24/09 - "A Costa dos Murmúrios", Lídia Jorge, Ed. Dom Quixote
8/10 - "A Obra ao Negro", Marguerite Yourcenar, Ed. Dom Quixote
29/10 - "Lillias Fraser", Hélia Correia, Ed. Relógio D'Água
19/11 - "Love", Toni Morrison, Ed. Dom Quixote
3/12 - "Corpo Presente" Anne Enright. Ed. Gradiva
17/12 - "O Mar", John Banville, Ed. Asa

Só os insensatos preferem a guerra; em tempo de paz, os filhos enterram os pais; em tempo de guerra, os pais enterram os filhos.” Heródoto

Vivemos em guerras permanentes, verdadeiras e falsas, grandes e pequenas; entre países, raças, culturas, no seio de comunidades, de associações, de famílias. Lutamos contra os elementos, contra as políticas, contra a pobreza, contra a riqueza, contra quem amamos, contra quem odiamos e contra nós próprios. Nesta Comunidade iremos reflectir sobre as várias faces da Guerra ou, melhor ainda, sobre a Face das várias guerras, começando por aquela que nos é sugerida pela leitura de “A Costa dos Murmúrios”. Este é um dos três romances que abarcam um tempo “histórico” e que ocuparão a primeira metade desta Comunidade. Aqui, trata-se da Guerra Colonial que funciona como um cenário, uma respiração, uma espécie de doença que a todos aflige, embora de maneiras diversas. No entanto, o que verdadeiramente se passa está relacionado com confrontos entre géneros, com a subordinação sexual, as lutas de raças e de ideologias, as escaramuças contra o poder patriarcal e colonial . Acontece sempre algo semelhante em tempos perturbados por grandes mudanças, como em “A Obra ao Negro”, onde Zenão, médico e alquimista do século XVI, luta pela liberdade da acção e do pensamento, na passagem da Idade Média para o Renascimento. E, no século XVIII, Lillias Fraser, a menina dos olhos dourados e poderes sobrenaturais, escapa da Escócia para Portugal depois da mortífera batalha de Culloden.
Das Guerras públicas passaremos para as privadas em “Love”, onde uma luta implacável é travada entre duas mulheres por causa de um homem, Bill Cosbey, que já está morto no início da história. Christine, a neta, e Heed, a viúva, não admitem tréguas, apesar de serem da mesma idade, viverem debaixo do mesmo tecto e terem sido amigas na juventude.
Em “Corpo Presente”, conta-se a velha história das batalhas familiares. Desta feita, trata-se da dos Hegarty, os irlandeses com olhos de um azul intenso e alucinado, dados ao alcoolismo, ao humor negro e à tendência para a autodestruição. Há um corpo a enterrar tal como em “O Mar”, um romance sobre a luta contra o esquecimento, na memória eternamente incandescente de Max Morden, o homem que foi menino e salvo pela família Grace.
Em última instância, todas as lutas são contra a morte, embora se morra sempre ( e se mate), lutando.
Nota: por favor, não se esqueçam de confirmar as datas quando sair o Programa da Culturgest.

sábado, 6 de junho de 2009

A Exposição "Homenagem e Esquecimento" em Évora



De regresso do Alentejo, depois da sessão com o meu livro em Évora - uma apresentação perfeita, inteligente, bem disposta e perspicaz de Cláudia Sousa Pereira que deu direito a perguntas da assembleia e muita conversa - depois de ver bons amigos, de dormir, comer e beber maravilhosamente, não quero deixar de vos aconselhar uma exposição que se encontra, também em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida.
Tem como (belo) título "Homenagem e Esquecimento" e é comissariada por Leonor Nazaré, em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian.
Inaugurou a 4 de Junho - exactamente à mesma hora da apresentação do meu livro - mas tive tempo de ver a exposição "antes" e de estar um pouco com a minha amiga Graça Pereira Coutinho, cuja obra prezo muitíssimo.
A exposição tem peças lindíssimas e a ideia é muito interessante, com o tema do esquecimento a dominar. Esquecemos por defesa natural ou por indiferença? Pelo peso dos anos, pela passagem do tempo ou por egoísmo? Ao exercer a prática da homenagem - privada ou pública, silenciosa ou estridente - lutamos contra a perda de memória, contra a queda no buraco negro do olvido.
Estes artistas, nas suas respectivas obras - escultura, pintura, fotografia e gravura - marcam, cravam, deixam vestígios das suas memórias, da sua passagem pelo mundo. Os 16 artistas escolhidos são : João Cutileiro, Henry Moore, José Pedro Croft, Noronha da Costa, Daniel Blaufuks, Ana Vieira, Canto da Maia, Almada Negreiros, Gaëtan, Fernando Lemos, Maria Beatriz, Rui Sanches, João Onofre, Cabrita Reis e Alexandre Estrela e Graça Pereira Coutinho.
Para mim, as mais belas obras expostas são as de Graça Pereira Coutinho, José Pedro Croft, Gaëtan, Rui Sanches, Pedro Cabrita Reis, talvez porque as conheça bem e reveja aqui, mais uma vez, a intrínseca qualidade que têm mantido ao longo de décadas e o chamamento profundo que provocam. Mas todas as obras são interessantes e merecem mais do que uma visita.
Não se esqueçam, a Fundação Eugénio de Almeida é em Évora, muito perto da Biblioteca e do Templo de Diana.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

"A Infância é um País Estrangeiro" em Évora

Hoje, o meu livro, "A Infância é um País Estrangeiro", Ed. Quetzal, vai ser apresentado na Biblioteca Pública de Évora, pela Professora Cláudia Sousa Pereira, às 18:30h.
Estou muito feliz por esta oportunidade de voltar a ver as amigas e amigos de Évora, principalmente aqueles que participaram numa Comunidade de Leitores, nesta mesma Biblioteca, no Inverno 2008 - 2009. Vou agora meter-me ao caminho.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Ainda a Granta

Falava eu da Granta e soube agora que Alex Clark, a editora em chefe, se demitiu sem cumprir sequer um ano de trabalho, à frente da publicação. Clark, que começou em Setembro do ano passado, foi a primeira mulher a dirigir a Granta e sucedera a Jason Cowley que também se aguentou pouco tempo e largou a revista para se tornar director do New Statesman. Não se sabem as razões destas mudanças. John Freenab, o editor americano ficará, por agora a comandar os destinos da revista.

domingo, 31 de maio de 2009

Uma noite de estreia no S. Carlos, em Lisboa



Foi uma noite magnífica. Ontem estreou "Don Giovanni" de W.A. Mozart numa sala cheia e entusiasta com toda a garra, alegria e espírito festivo das grandes estreias mundiais. Lisboa e , principalmente o Chiado estavam animadíssimos na noite quente e feérica. Dentro do S. Carlos havia a azáfama habitual, circulavam flûtes de champanhe, homens e mulheres bem vestidos e elegantes. (Recordei com saudades terríveis as vezes que ali fui com o meu avô que, como era hábito naquele tempo, tinha sempre lugares cativos durante as várias temporadas.) Os habituées apressavam-se a tomar os seus lugares e o ambiente era de expectativa e excitação. Não admira, uma vez que se tratava do grande conquistador de Sevilha.
Esta ópera é uma das minhas favoritas. Música maravilhosa, um libreto genial do grande Lorenzo da Ponte, um tema que tem tanto de farsa como de tragédia, uma figura central emblemática. As feministas podem arrasar o D. Juan, apontar a sua impotência e até a sua homossexualidade - não são grandes notícias, toda a gente sabe que os grandes machões têm estas contrapartidas - a sua brutalidade, violência e falta de moral - o catálogo das conquistas (só em Espanha, 1003) a displicência com que trata as mulheres - bens de consumo, descartáveis e abandonadas, lançadas ao lixo mal provadas - o exagero na luxúria. Um glutão em todos os sentidos, um predador insaciável, um provocador cheio de bazófia e de indiferença perante o próximo. Mas que dizer daquelas mulheres insuportáveis? Da sonsa Dona Anna, à insuportável "lapa" da Elvira, passando pela pseudo ingénua Zerlina? Pelo menos, Don Juan é valente e engenhoso: é um estratega do amor, enfrenta os perigos - e também obriga o pobre Leporello a correr alguns - desafia o fantasma do Comendador, não se arrepende perante o castigo e deixa a sua marca perene nas fantasias femininas e masculinas. O célebre texto de Tirso de Molina, "El burlador de Sevilla y convidado de piedra" foi publicado em Espanha por volta de 1630 e tem conhecido, até aos nossos dias, a apropriação por parte de escritores, artistas plásticos, músicos, etc. (Só para citar alguns: Moliére, Lord Byron, E.T.A. Hoffmann, Pushkin, Kierkegaard, George Bernard Shaw, Albert Camus. )
É claro que a história também é interessante porque para além do confronto de géneros também existe o confronto de classes e o fascinante drama das relações humanas nunca inteiramente límpidas ou "puras", antes facilmente tentadas para o irresistível jogo da manipulação de sentimentos - relação Don Ottavio/Donna Anna, Don Juan/ Leporello, Zerlina/Masetto e todas as combinações possíveis entre eles.
Mas chega de elucubrações sobre o texto. Esta produção do S. Carlos é MAGNÍFICA. A Cenografia de António Lagarto é muito inteligente, com soluções magistrais e muitas referências à arquitectura, à escultura, a quadros e pintores célebres: Magritte, de Chirico, Ingres ("as odaliscas" lânguidas da ceia de Don Juan), sem esquecer os néons à Dan Flavin ou o piscar de olho à estrutura das gelosias andaluzes. Tanto a cenografia - extraordinariamente inventiva e sempre surpreendente - como os figurinos - um cruzar de referências verdadeiramente espantoso - são uma das mais valias deste espectáculo, encenado - e bem - por Maria Emília Correia com óptimos cantores. Saliento Nicola Ulivieri, um Don Juan cheio de garra, óptima figura e voz portentosa e desafiadora, o barítono Kevin Short, um Leporello vivo, sagaz, malandro e enganador e Musa Nkuna que começou timidamente o seu Don Ottavio e se desenvolveu numa voz e numa personagem admiráveis.
Gostei de Carla Caramujo como Donna Anna, a mostrar maturidade e elegância bem como de Chelsey Schill (Zerlina) que me pareceu ser - com a de Ulivieri - a voz mais bem sucedida da noite, ao longo de toda a ópera. Tive pena que a orquestra me parecesse um pouco chocha e que Katharina von Bülow tivesse falhado tanto numa Elvira que nunca se conseguiu impor. Mas estes pequenos percalços não diminuíram o brilho da noite. Gostei muito da sequência de cenas, sempre dinâmica e bem marcada, de soluções brilhantes como a aparição da estátua do Comendador no cemitério - normalmente, em outras produções, penosamente arrastada para o palco - que se mostra agigantada numa sombra - o cantor, o baixo Andreas Hörl é majestosamente mortífero e assustador - a festa dos camponeses é belíssima, a ceia final e a morte de Don Juan, arrepiantes e belíssimas . Mas a noite foi de estrelas, a ceia foi em boa companhia, cá fora passeavam-se milhares de jovens, famílias inteiras, crianças em carrinhos e avós mais lentas, o ar era doce e tenho a certeza que Don Juan, do seu Inferno, sorria ...
Nota: A ópera de Wolfgang Amadeus Mozart estreou no Teatro Nacional de Praga, a 29 de Outubro de 1787 com o grande Casanova entre os espectadores. A versão apresentada em Viena, a 7 de Maio do ano seguinte já apresentava algumas alterações - final "moral" mais adequado ao público da Corte e introdução de novas árias.

Novas leituras


Se é verdade que não escrevo aqui uns dias, isso não quer dizer que tenha abrandado as leituras. Acabei "Roubo. Uma História de Amor", Edição Dom Quixote, de Peter Carey ( o tal australiano que partilha somente com J. M. Coetzee a façanha de ter ganho dois Booker Prize) e escrevi o texto correspondente para o Público. Recebi o novo New York Review of Books, leitura lenta e que me dá grande prazer, principalmente nestas tardes de calor. (Atenção ao texto de Julian Barnes sobre John Updike, para quem quiser tentar aceder ao site da revista.) E recebi o último número da Granta, uma edição especial de "nova ficção " - e não só. Também é para ler devagar e com um certo método. Os textos são todos tão bons que é difícil escolher. Sou fã da Granta desde o primeiro número sob a direcção de Bill Buford que, em 1979, tomou as rédeas desta quase moribunda publicação universitária e a transformou no LUGAR para todas as informações sobre o que andam a fazer os escritores nesse vasto universo da Língua Inglesa. Lembram-se que, logo no primeiro número, Buford apresentou os novos talentos americanos, o que fez levantar algumas sobrancelhas britânicas mas resultou num sucesso absoluto com edições posteriores a aproximar os dois lados do Atlântico? Não é possível esquecer tão pouco - e eu assino a Granta desde o princípio - "The End of the English Novel" (Granta 3), "Dirty Realism" (Granta 8) e, de dez em dez anos, números dedicados a "Best of Young British Novelists" e "Best of Young American Novelists". Nem vale a pena nomear os Amis, Auters, Barnes, Carvers, Munros, McInerneys que por lá têm passado. Para não falar de fotógrafos, poetas, etc.
Neste número, o 106, leiam-se textos de John Banville, Eleanor Catton, Ha Jin, Helen Simpson, uma entrevista feita por Jhumpa Lahiri à contista Mavis Gallant, William Pierce, Chris Ware, Adam Thirlwell, Amy Bloom e Paul Auster bem como um poema de Fanny Howe.
O melhor dos melhores.
São quatro números por ano que valem cada letra impressa.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Alice Munro vence o Man Booker Prize International




Alice Munro, a escritora canadiana nascida em 1931, e uma das mais célebres contistas contemporâneas, ganhou o Prémio Booker Internacional deste ano, 2009. Nada mais justo para esta mulher que se tem dedicado a explorar a alma humana - principalmente feminina - com ardor e minúcia.
O júri, constituído por Jane Smiley, escritora; Amit Chaudhuri, escritor, académico e músico; e Andrey Kurkov, escritor, ensaísta e argumentista justificaram, da seguinte forma, a sua decisão: " Alice Munro é conhecida, principalmente, como autora de contos; no entanto, ela consegue incutir tanta profundidade, sabedoria e precisão em cada história quanto certos romancistas na obra de uma vida inteira. Ler Munro é aprender sempre qualquer coisa de que nunca nos apercebemos antes."
Alice Munro irá receber o seu Prémio de 60 mil libras, a 25 de Junho de 2009, no Trinity College, Dublin.
Em Outubro de 2009 será publicada a sua nova colecção de contos, com o título "Too Much Happiness". Vem mesmo a propósito...
Para quem estiver interessado em saber um pouco mais sobre esta extraordinária escritora, leia-se a recensão sobre "O Amor de Uma Boa Mulher" , edição Relógio D’Água, Lisboa, em www.storm-magazine.com que foi publicada no Jornal Público - Ípsilon. Maio, 2008

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Visitem os blogtailors

Os simpáticos e dinâmicos Paulo Ferreira e Nuno Lopes convidaram-me para escrever um texto sobre a Leitura e as Comunidades. Como sempre, excedi-me em palavras mas quem quiser ter a paciência de ler, tem os BLOGTAILORS à disposição em
http://blogtailors.blogspot.com/

domingo, 24 de maio de 2009

Em Nova Iorque, o Teatro está cheio de estrelas

Da esquerda para a direita: Janet McTeer, Harriet Walter, Jane Alexander, Allison Janney, Alice Ripley; sentadas, da esquerda para a direita: Tovah Feldshuh, Angela Lansbury, Liza Minnelli.

Vejam só... adoro esta fotografia.
Em Nova Iorque, o Teatro está cheio de estrelas... mas quem faz parar o trânsito são as actrizes mais velhas. Elas estão a "dar cartas" em varidíssimos papéis que confirmam os seus enormes talentos respectivos. E não esqueçam Joan Allen, Jane Fonda, Susan Sarandon e Kristin Scott Thomas, umas mais velhas que outras mas todas em grandes performances, tanto no Teatro como no Cinema e na Televisão. Sou suspeita, claro, mas é fantástico tê-las connosco.
Se quiser saber o que estas grandes damas estão a fazer, leia o artigo todo no New York Times em http://www.nytimes.com:80/2009/05/24/theater/24cohe.html?th&emc=th

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Centenário do nascimento de Francis Bacon (pintor)

Inaugurou há dois dias - 20 de Maio - a grande retrospectiva do artista irlandês Francis Bacon, no Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. São mais de 130 obras, das quais 65 são pinturas. Há, também, muito material de colecções públicas e, principalmente privadas, o que atrai a nossa atenção porque esta oportunidade para o ver, pode ser única. Para além disso, a exposição abrange praticamente toda a vida do pintor.
Francis Bacon nasceu a 28 de Outubro de 1909 e morreu a 28 de Abril de 1992.

Francis Bacon: A Centenary Retrospective - May 20, 2009–August 16, 2009
Nota: consultar o Arquivo da Storm-Magazine www.storm-magazine.com e procurar por título - "Francis Bacon - O Grito da Besta"- ou por autor - Helena Vasconcelos - o texto publicado quando da Exposição em Serralves, no Porto - 2003


quinta-feira, 21 de maio de 2009

Brooklyn, Colm Tóibin


Acabou de ser publicado nos Estados Unidos e em Inglaterra. O livro de hoje é uma sugestão de leitura e uma chamada de atenção para os editores portugueses. Vale a pena lê-lo.


BROOKLYN, Colm Tóibin ,
Saiu o novo livro de Colm Tóibin que está já em todas as listas da mais reputada crítica anglo-saxónica. O título evoca um “bairro” muito particular de Nova Iorque, onde desaguavam vagas e mais vagas de imigrantes, imigrantes esses que fizeram toda a diferença no início dos anos 50 do século XX, altura em que se passa esta história. “Brooklyn” relata as desventuras de Eilis Lacey, uma irlandesa cuja família passa grandes dificuldades - o pai morre, os irmãos vão viver para Londres, só lhe resta a mãe e a irmã - e que é convencida a emigrar para a América, por um padre. Em Brooklyn, Eilis arranja trabalho numa loja e estuda contabilidade à noite. Mas o mais triste é que ela nunca desejou verdadeiramente deixar a sua pátria, apesar das condições em que vivia, e o “sonho americano” é algo pesado, sombrio e nada, mas mesmo nada, excitante ou exaltante. Neste romance melancólico, onde as personagens sentem profundamente mas pouco revelam de si mesmas, o tom é definitivamente pouco exuberante e as expectativas dos leitores que contam com um certo desenvolvimento da acção - as pistas deixadas pelo autor, desviam-se do seu curso natural - são inteiramente goradas. Aliás, o mais interessante neste livro - para além do autor escrever bem - é o facto de , apesar de aparentemente banal, a história nunca entrar em clichés. Colm Tóibin - autor de, entre outros, “O Mestre”, uma biografia romanceada de Henry James, e por duas vezes finalista do Booker Prize - é um escritor a seguir com atenção.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Viva a Inteligência, a Perspicácia e o Civismo




Não parei desde que comecei a ler "Há Raposas no Parque. Crónicas de Uma Portuguesa em Londres" de Clara Macedo Cabral, Lisboa, Maio, 2009, Edição Quidnovi.
Trata-se de uma obra em que a autora, a viver em Londres, regista, anota , recorda e comenta o seu quotidiano com grande sagacidade e inteligência. É um género literário (infelizmente) pouco utilizado em Portugal mas que possui antecedentes notáveis, principalmente a partir do século XVII. São-nos familiares os livros sobre Portugal e os portugueses que grandes viajantes acharam por bem escrever para a posteridade: da terrível Princesa Rattazzi que no seu "Portugal à Vol d'Oiseau" deixou a pátria em polvorosa com os seus mordazes comentários, passando por Hans Christian Andersen, ("A Visit to Portugal", 1866), Daniel Defoe ( século XVII), Lord Byron e muitos outros. Reconhecemo-nos, por vezes com algum desconforto em páginas e páginas escritas sobre nós e amiúde acreditamos que ninguém nos conhece verdadeiramente . No caso de Clara Macedo Cabral a visão é contrária - uma portuguesa a observar uma cidade estrangeira, e a tecer comentários muito oportunos sobre o dia-a-dia, os hábitos, os rituais, a história, o ambiente criado pelos britânicos e as histórias de algumas das principais figuras deste País. Macedo Cabral é uma jovem mãe e, no início do livro acompanhamo-la no parto, nos passeios com a criança, no contacto com as outras mães, enquanto se vai adaptando e integrando. O aspecto mais proeminente do seu relato é a constatação do civismo dos ingleses, civismo esse que é quase automaticamente adoptado por quem passa a viver no País. Outros aspectos abordados com grande sentido de oportunidade por Macedo Cabral são os que contrastam com a nossa (portuguesa) forma de estar na vida. A autora realça, nos ingleses, a ausência de auto-piedade e de "lamechice" - eles são práticos, pragmáticos e resistentes - a forma "lógica" e criteriosa como enfrentam dificuldades, a maneira de lidar com o stress - calmamente e até com displicência - a ausência de burocracia, o cultivar de boas maneiras, o respeito pelo "outro" e o exercício da liberdade verdadeiramente democrática. Numa palavra, o exercício em pleno, da cidadania.
Cito, da página 84:
" Ganha-se bastante em conhecer e respeitar o núcleo (de normas), o mesmo que se perde em infringi-lo. Aceitação, integração, sucesso. Quem para aqui imigra depressa integra os modos educados da cultura britânica. Esse saudável impulso que o imigrante sente de querer copiar e por vezes ser mais papista que o papa, tal é o medo de ser reconhecido e estigmatizado, beneficia a todos, indivíduo e sociedade".
"Há Raposas no Parque" - um título misterioso, cuja chave se encontra na leitura, é uma obra essencial. Cada vez mais precisamos de aprender com os outros a melhor forma de conviver com todos. E não nos faz mal nenhum copiar o que funciona e por de lado vícios arreigados de um comportamento pouco civilizado. Esperamos ter já percorrido algum caminho desde que Byron escreveu a seguinte carta:

[Ao Sr. Hodgson]
"Lisboa, 16 de Julho de 1809."

"Até ao momento temos seguido a nossa rota, e visto todo o tipo de panorâmicas maravilhosas, palácios, conventos, & c., - o que, estando para ser contado na próxima obra, Book of Travels, do meu amigo Hobhouse, eu não anteciparei transmitindo-lhe qualquer relato de uma maneira privada e clandestina. Devo apenas observar que a vila de Cintra, na Estremadura, é talvez a mais bela do mundo.
Sinto-me muito feliz aqui, porque adoro laranjas, e falo um latim macarrónico com os monges, que o compreendem, uma vez que é como o deles, - e frequento a sociedade (com as minhas pistolas de bolso), e nado ao longo do Tejo, e monto em burros ou mulas, e digo palavrões em Português, e sou mordido pelos mosquitos. Mas quê? Aqueles que efectuam digressões não devem esperar conforto.
Quando os portugueses são pertinazes, eu digo 'Carracho!' - a grande praga dos fidalgos, que muito bem ocupa o lugar de 'Damme!' - e quando fico aborrecido com o meu vizinho declaro-o 'Ambra di merdo' [por 'Homem de merda' ?]. Com estas duas frases, e uma terceira, 'Avra bouro' [por 'Arre burro' ?], que significa 'Get an ass' ['Arranja um burro' ...!?!, obviamente uma tradução incorrecta.], sou universalmente reconhecido como pessoa de categoria e mestre em línguas. Quão alegremente vivemos sendo viajantes! - se tivermos comida e vestuário. Mas, em sóbria tristeza, qualquer coisa é melhor do que Inglaterra e eu estou infinitamente divertido com a minha peregrinação, até ao momento..."
A carta continua mas aqui está o que nos interessa.
P.S. Tenho apenas um reparo a fazer sobre este livro: há o hábito de se dizer , em português, (e escrever), "desfolhar revistas... jornais... livros" e, aqui, "desfolhar notícias". "Desfolhar é "tirar a folha", por isso, folhear é o verbo adequado. De resto, "Há Raposas no Parque" está muitíssimo bem escrito, os temas - da imigração, dos direitos humanos e das mulheres por exemplo - impecavelmente tratados, mostrando erudição, boa informação e agilidade crítica.
A não perder.