sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Programa da próxima COMUNIDADE de LEITORES


Comunidade de Leitores
Thomas Mann, nosso contemporâneo?
por Helena Vasconcelos
Imagem: Fotografia das mãos de Thomas Mann de Yousuf Karsh

QUINTAS-FEIRAS 19 de JANEIRO
2 e 23 de FEVEREIRO
8 e 22 de MARÇO
12 de ABRIL

Sala 1 • 18h30
Inscrições até 13 de janeiro (limite 40 pessoas) na bilheteira da Culturgest, pelo tel. 217905155 ou pelo e-mail culturgest.bilheteira@cgd.pt

19 de janeiro
Os Buddenbrook
Ed. Dom Quixote

2 de fevereiro
Tristão e Outros Contos
Ed. Ulisseia

23 de fevereiro
A Montanha Mágica
Ed. Dom Quixote

8 de março
Morte em Veneza
Ed. Relógio D’Água

22 de março
As Confissões de Félix Krull – Cavalheiro de Indústria
Ed. Relógio D’Água

12 de abril
Doutor Fausto
Ed. Dom Quixote


Com a “crise europeia” na ordem do dia, torna-se imperioso repensar a herança que nos coube do século XX, com os seus ciclos de destruição e renovação. Filósofos, escritores e artistas, em todas as áreas da Cultura, viveram intensamente a turbulência desses tempos de perigo, destruição, exaltação e cosmopolitismo e criaram obras perenes que se tornaram marcos de resistência à barbárie. Entre esses intelectuais que se destacaram, tanto pela obra como pela forma como viveram, está Thomas Mann, o alemão oriundo de uma antiga família hanseática que acabou os seus dias na Suíça, aos oitenta anos. Em 1901 Mann publicou Os Buddenbrook, uma saga com fortes traços autobiográficos, para a qual se socorreu das memórias e relatos da sua própria família e da sociedade, na sua cidade natal, Lübeck. Mann, intimamente ligado à cultura germânica, profundamente influenciado pelo humanismo de Goethe, pelo pensamento de Nietzsche e pelo lirismo de Heine e Schiller, foi também um homem do mundo, fruto do exílio e, também, das raízes familiares – a mãe de Thomas, Júlia da Silva Bruhns era brasileira filha de portugueses. Mann, o “escritor mestiço”, casado com uma judia, abandonou a Pátria ao dar-se conta do avanço nazi e da falência de uma Alemanha que renegava a sua própria herança cultural. A sua vasta obra é a prova cabal da sua resistência intelectual e da busca incessante pelo significado da existência. As suas ideias sobre a arte, o artista e o seu papel no mundo (Morte em Veneza, Doutor Fausto), o inferno da pulsão erótica, o conflito entre vida e morte, (Tristão e outros Contos), o absurdo existencial, bem como uma ironia caustica que atravessa obras como A Montanha Mágica (uma meditação profunda sobre a experiência espiritual e mental do ser humano) e Félix Krull, fazem dele um escritor total, um homem lúcido e genial que não se eximiu de explorar as suas próprias ambiguidades e fraquezas e de questionar a nossa matriz clássica europeia comum.
Thomas Mann ganhou o Prémio Nobel em 1929. Foi um dos poucos intelectuais alemães que nunca se enganou em relação a Hitler.

In this current “European crisis”, it is crucial to rethink the legacy we have inherited from the 20th century, with its cycles of destruction and renewal. Of the philosophers, writers and artists who lived through these turbulent times and left us with enduring works denouncing the barbarity, one of the few German intellectuals who refused to be taken in by Hitler was the 1929 Nobel Prize winner, Thomas Mann, a man of the world who died in exile in Switzerland, aged 80, a total writer who never ceased to explore his own ambiguities and weaknesses and to question our common European heritage.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Obra recomendada por Jorge Almeida


Jorge Almeida é um dos magníficos, atentos e críticos leitores que fazem parte da Comunidade de Leitores da Culturgest. As suas intervenções e respectivas notas são dignas de registo. Aqui fica uma recomendação que me parece muito pertinente. É indispensável estarmos bem informados.
OBRIGADA JORGE ALMEIDA

After-Shock por Robert B. Reich


Nas últimas três décadas a economia americana tem vindo a expandir-se a bom ritmo. Mas os benefícios desse crescimento foram praticamente todos apropriados pelos 10% dos americanos que estão no topo. O salário mediano estagnou durante este longo período.

E no entanto o consumo aumentou fortemente. A parte de leão do consumo foi feita pelos mais ricos – os 10% do topo consumiram mais de 40% do total do consumo!!

A classe média contudo também aumentou o seu consumo. E como o fizeram se o seu rendimento ficou estagnado? Recorrendo a três mecanismos de compensação. A entrada das mulheres no mercado de trabalho adicionou mais um ordenado aos rendimentos do casal e o recurso a mais horas de trabalho.

Quando os estes dois mecanismos se esgotaram (a maioria das mulheres já trabalha e já não é possível aos americanos trabalhar mais horas) a classe média recorreu ao crédito, dando como garantia as suas casas. Enquanto durou a bolha imobiliária foi possível obter empréstimos cada vez maiores com base na mesma casa que continuamente se valorizava e permitia ao proprietário aumentar o seu empréstimo. Com o rebentar da crise do crédito imobiliário (crise do subprime) este mecanismo de compensação também se esgotou.

Reich argumenta então que na ausência de possibilidade de consumo da classe média (que define como os 40% da população para cima e para baixo do rendimento mediano) a economia não pode recuperar. Como resolver então esta crise?

A resposta é simples e evidente. Redistribuir a riqueza entre os que mais têm e os outros. Assim advoga uma reforma do imposto sobre o rendimento (todo o rendimento, independentemente da sua fonte seria taxado à mesma taxa) que colecte os mais ricos e distribua dinheiro à classe média. Advoga também a introdução de um cheque escola regressivo (tanto maior quanto menor o rendimento da família) que permitisse aos americanos mais pobres colocar os filhos nas melhores escolas. Lista ainda outras medidas de redistribuição activa.

Reich defende que uma maior distribuição do rendimento seria benéfica quer para a classe média quer para os ricos, porque colocaria a economia numa rota de crescimento sustentado que a todos beneficiaria.

Por outro lado, identifica o risco de a indignação dos americanos da classe média cada vez mais empobrecidos num país cada vez mais rico, se materializar na eleição de radicais de direita para o Congresso e mesmo para a Presidência. Isso seria, na sua opinião, catastrófico. Uma redistribuição reporia a justiça social e o daria corpo ao famoso “sonho americano”.

Reich relembra que antes da grande depressão os Estados Unidos também tiveram uma distribuição de rendimento tão desigual como a actual e que esta foi uma das causas da crise (os americanos não podiam, por falta de recursos, consumir os bens produzidos e a economia parou). Por outro lado quando a distribuição de rendimento foi mais equilibrada, como no período que se seguiu à II Guerra Mundial, a economia cresceu a ritmos fortes no que foi conhecido como os Trinta anos gloriosos.

Excelente livro. Devia ser bem divulgado.

Robert B. Reich foi secretário do trabalho na administração Clinton e é professor na Universidade da Califórnia.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sylvia Plath - Na Caverna do Barba-Azul



Em 2000, por ocasião da publicação de ” THE JOURNALS OF SYLVIA PLATH – 1950-1962", escrevi o seguinte texto, que aqui fica, com algumas (ligeiras) alterações:

NA CAVERNA DO BARBA AZUL
Sylvia Plath, escritora e poeta americana – 1932- 1963

Como é que uma mulher de trinta anos, inteligente, bela e capaz de escrever a melhor poesia, foi capaz de se suicidar de uma forma tão brutal, deixando duas crianças pequenas e uma vida que poderia ter sido brilhante, em todos os sentidos? Esta é a questão colocada por todos aqueles que, muito tempo depois da sua morte, continuam obcecados pela poetisa americana Sylvia Plath. A publicação da versão (quase) integral dos seus Diários poderá fornecer algumas pistas aos leitores e estudiosos, sedentos de encontrarem mais um detalhe revelador da sua personalidade. Santa ou frívola, vítima ou carrasco, amante da vida ou fascinada com a morte é principalmente nos seus poemas que se devem procurar as respostas. No entanto, a excitação que continua a acompanhar esta edição, tornada possível depois da morte do Poeta Laureado Ted Hughes, que foi seu marido e, para muitos, a razão da sua perda, poderá lançar alguma luz sobre o assunto.

Sylvia começou a escrever os Diários ainda em criança. Chamava-lhes o seu “Mar de Sargasso” e funcionavam como o repositório das suas experiências e como exercícios de escrita. Eram, também, o lugar privilegiado onde ela registava as ideias para os poemas. É notória a sua ânsia de perfeição, o seu desejo urgente, intenso, absorvente, em relação à poesia. O seu rigor, a exigência em relação a si própria, detectáveis nos seus esforços quando ainda era aluna do Smith College, levaram Ted Hughes a descrevê-la como sendo “alguém excepcional” que podia ser “intensamente artificial” mas que juntava a tudo o que fazia, uma “excitação única”. No som e textura das suas linhas existia “uma sensação de profunda inevitabilidade matemática”, um fatalismo que contribuiu para a empurrar para o abismo da depressão e da neurose.
Estas páginas mostram bem o carácter obsessivo de Sylvia, a sua sexualidade exacerbada, o seu ciúme, a paixão pela escrita, as dificuldades de relacionamento com a própria mãe por quem sentia uma antipatia profunda ( desmentida pelo tom das cartas que lhe escrevia, nas quais era sempre a jovem americana prática e trasbordante de energia), o desgosto pela morte do pai quando ela tinha oito anos, o seu esgotamento, em 1953, que a levou a uma primeira tentativa de suicídio e que ela descreveu em The Bell Jar. (“A Câmpanula de Vidro”). Esta edição também inclui os dois diários que Ted Hughes manteve selados e escondidos dos olhares e interpretações até pouco tempo antes da sua morte: o primeiro data de Agosto de 1957, quando Plath se esforçava por se dedicar exclusivamente à sua poesia, e o segundo refere o espaço de tempo entre Setembro de 1959, altura em que ela iniciou sessões privadas de terapia, e Novembro desse mesmo ano, quando o casal decidiu abandonar Boston e voltar para Inglaterra.
Para compreender melhor os factos é importante conhecer a constelação de personagens que participaram, directa ou indirectamente nesta tragédia, em que os principais actores foram Sylvia, a beleza pálida que usava batom demasiado vermelho e Ted Hughes, o gigante sedutor, de voz portentosa que atraía com selvagem magnetismo todos os que dele se aproximavam. Em torno deste casal maldito, manteve-se vivo o mito da “bacante” que queria escrever sobre assuntos tabus, como os distúrbios mentais, a maternidade e a morte, e que dizia que devia ter estudado medicina em vez de literatura para ver “crianças a nascer e cadáveres a serem retalhados”.
Sylvia nasceu em 1932 em Boston, Massachusetts, de ascendência austríaca e alemã. Em 1955 terminou os seus estudos no Smith College (“summa cum laude”) e foi para Inglaterra continuar a sua educação. Foi aí que, a 3 de Março de 1956, a jovem americana que chegara recentemente a Cambridge munida de uma Bolsa Fullbright conheceu, numa festa, um “poeta brilhante”, “o único homem suficientemente forte à (sua) altura”. Para ele escreveu o seu melhor poema até então, chamado Pursuit, que fala de uma pantera que a persegue até à morte e a quem ela lança o seu próprio coração, numa tentativa para a apaziguar. Esta premonição fatal marcou o início de uma relação trágica e tumultuosa cujas sequelas se têm feito sentir, como um terramoto, muito para além do suicídio de Plath em 1963 e da morte de Ted Hughes, vítima de cancro, em 1998.
Este primeiro encontro ficou, como de resto toda a vida do casal, bem documentado. No poema The St. Botolph’s Review, incluído no famoso “Birthday Letters”, o volume de poemas que Hughes publicou antes de morrer e que funciona como o seu testamento literário, ajuste de contas e pacificação com Sylvia, Hughes conta como ela o mordeu na face até fazer sangue e como ele lhe roubou um brinco e um lenço azul, (para Plath o lenço era vermelho), que mais tarde encontrou num bolso. Casaram em Junho desse mesmo ano. Os primeiros tempos da sua relação foram uma espécie de milagre, o encontro perfeito de duas mentes possuídas de ardor criativo e amoroso. Mudaram-se para Boston, onde passaram um tempo de relativa felicidade, a ensinar e a escrever. Mas Plath tinha já atrás de si, uma longa história de depressão, a que não era estranha a conturbada e muito freudiana relação com o seu poderoso e assustador pai, (o tenebroso professor Otto, criador de abelhas), que morrera quando ela tinha oito anos e cujo fantasma a perseguiu durante toda a vida. Hughes, pelo seu lado, era um homem extremamente promíscuo, sexualmente, e que sabia como atrair poderosamente as mulheres. A sua infidelidade era notória e fazia parte da sua natureza, tanto quanto a morte fazia parte da de Sylvia.
Ted Hughes é, assim, frequentemente apontado como o “ogre” que arrastou Sylvia para a sua destruição. Até à sua morte, e apesar da sua enorme importância como Poeta Laureado, ele foi considerado como uma espécie de “Barba Azul”, uma reputação que o seu gosto pelas ciências ocultas contribuiu para acentuar. A sua irmã Olwyn, executora testamentária e educadora dos seus filhos, queixou-se sempre dos problemas que ele tinha com as mulheres e tudo fez para mitigar as acusações de que foi alvo, principalmente por parte das feministas.
A rica e extravagante escritora Emma Tennant ( n. 20 Outubro, 1937) foi uma das suas amantes. Emma pertence a uma família antiga e cheia de pergaminhos: a sua tia avó era Margot Asquith, mulher de um primeiro-ministro, Colin, o seu irmão mais velho, namorou a princesa Margaret, chegando a oferecer-lhe uma casa nas Caraíbas, a sua sobrinha é a super modelo Stella Tennant e um tio, Stephen Tennant, foi um esteta famoso. Emma foi quem comparou Hughes sucessivamente a “Barba Azul”, o mágico falhado que atraía irremediavelmente as mulheres com modos encantadores que escondiam a sua natureza predadora e o seu gosto pelo sangue, e a Mr Rochester, o herói do romance Jane Eyre de Charlote Brontë, outra dessas figuras que as mulheres vêem como a promessa do cumprimento de um rito de iniciação, o desvendar de um conhecimento perigoso mas sedutor.
Lobo, touro, garanhão, leão, são estas as imagens que Tennant associa a Hugues, com quem manteve uma relação intermitente, desde a primavera de 1977 até ao outono de 1979. Em “Burnt Diaries”, publicados em Outubro de 1998, no mesmo mês em que o seu antigo amante acabaria por morrer, Tennant conta como se deixou seduzir por Hughes. “ O seu rosto, semelhante a uma dessas estátuas da Ilha de Páscoa, parece dominar a paisagem circundante: irritação, certeza e orgulho conferem uma espécie de impassibilidade aos seus traços mas, como que a contragosto, um sorriso leve e nervoso, brinca-lhe nos lábios. Será que ele está tão devorado pelo medo como eu, na perspectiva do nosso encontro? “ E mais adiante questiona-se se “esta efígie, este deus de beleza masculina, pleno de crueldade” não terá prazer em devorar mulheres (artistas), como ela. Fascinada pela auréola de tragédia e pelo mito que acompanhou sempre a figura de Hughes, Tennant recorda a histeria, o desregramento sexual e emocional que parecia comandar a sua vida e a de quem dele se aproximava demasiado.
O destino das antecessoras de Tennant não pode ter sido mais cruel: a loira e pálida Sylvia suicidou-se em 1963 e a morena Assia Wevill fez o mesmo, em 1969, levando consigo a filha de ambos. Segundo certas testemunhas, Hughes foi um pai extremoso para Frieda e Nicholas (os filhos que teve de Sylvia) mas portou-se de uma forma inteiramente diferente em relação a Shura, a filha que teve de Assia. (Uma vez deu vinho a beber à criança para que esta dançasse para os convidados que ele tinha para jantar.)
Depois destas tragédias, Hughes tornou-se um recluso, casou outra vez, em 1970, (diz-se agora que a mulher, Carol Orchard, também tentou o suicídio) e levantou um muro de silêncio em torno da sua vida privada, só voltando a falar do seu relacionamento com Sylvia na já referida obra, “Birthday Letters”, 88 poemas que expõem o choque de titãs que foi a sua vida em comum (“O teu fantasma, inseparável da minha sombra…”) e lançam alguma luz sobre a relação neurótica do casal. Mas Hughes nunca se livrou da atmosfera de escândalo que sempre o rodeou e que ele usava como um poderoso afrodisíaco, como uma espécie de amuleto encantatório. O facto de se interessar pelo xamanismo e pela magia negra, só contribuiu para acentuar a ideia de que ele era um monstro.
Sylvia sentiu no corpo, “até aos ossos” a dor excruciante provocada pelas suas infidelidades. Em 1958, quando ainda estavam em Boston, discutiram selvaticamente quando ela o encontrou com uma mulher. No ano seguinte voltaram para Inglaterra e instalaram-se em Devon. Em Julho de 1962, Sylvia soube do affair de Hughes com Assia Wevil. Separaram-se e ela foi viver para um apartamento em Londres. Durante os poucos meses que lhe restavam de vida escreveu os seus melhores, mais iluminados e mais pungentes poemas. Numa manhã gelada de Fevereiro de 1963, enquanto os dois filhos pequenos dormiam no quarto ao lado, convenientemente isolados e com leite à cabeceira, ela meteu a cabeça no forno e ligou o gás. Ninguém apareceu em seu socorro. A salvação teria sido difícil. Sylvia estava há muito condenada pela sua depressão crónica e pelo fatalismo trágico que sempre a acompanhou desde criança. Quem a conheceu diz que ela tinha uma tendência marcante para a “teatralidade”, para um exacerbado desnudar de sentimentos que a deixava em carne viva. A sua biógrafa Anne Stevenson fala de uma “dualidade libidinosa”, de um “eu” profundo cheio de violência e fúria, que ela reprimia sob a capa de uma aparência cuidada e elegante”. Tudo isso ficou documentado: nos poemas, contos, Diários, em The Bell Jar, o romance autobiográfico publicado, sob pseudónimo, em Janeiro do ano da sua morte. O seu primeiro volume de poemas, The Colossus foi publicado em 1961 e a sua principal colecção de poemas, Ariel , uma espécie de “crónica” do seu suplício, foi publicada postumamente, em 1965. Quanto aos “Collected Poems” receberam um prémio Pulitzer, também a título póstumo, em 1982. O manuscrito de um romance inacabado, intitulado “Double Exposure”, desapareceu em 1970.
Mas a beleza e força das suas palavras provocaram tal comoção que ela se tornou uma espécie de santa sacrificada no altar da misóginia masculina, uma mártir abandonada por todos, uma mulher que fora deixada entregue a si mesma, sem que o marido levantasse um dedo para a ajudar. Nos momentos imediatamente a seguir à sua morte, este, como seu executor testamentário, (apesar de separados, eles ainda estavam legalmente casados) destruiu parte dos Diários “para proteger os filhos” e apoderou-se da sua obra.
“Será que a grandeza literária é ainda possível”, perguntou Susan Sontag num dos seus ensaios. Será que, no caso de Sylvia Plath, essa “grandeza” poderá continuar a resistir a anos e anos de especulações, análises exaustivas e muitos mexericos que envolveram (e continuam a envolver) a sua vida e a de todos os que dela se aproximaram? A sua história, intimamente ligada a uma obra genial, aparece-nos como uma verdadeira tragédia isabelina, cheia de golpes de teatro, de violência, de sangue e de muitas lágrimas. A sua morte continua a ser um mistério e conferiu-lhe a glória que tanto procurou em vida. O seu sofrimento foi o motor que transformou a sua arte em algo sublime. Ela foi capaz de descrever, como ninguém, os meandros da solidão, da angústia, da raiva e da fúria. Ao ritmo encantatório das suas palavras, como por magia, os objectos mais banais ganharam estatuto de símbolos de uma vida exaltada e exaltante e os actos mais comuns transformaram-se em gestos de sublime heroísmo.

THE JOURNALS OF SYLVIA PLATH – 1950-1962. Editados e anotados por Karen V. Kukil, Faber and Faber, 24 Março 2000. Uma edição (quase) completa. Só faltam dois Diários: um, que parece ter-se perdido e outro que relatava os últimos dias de Sylvia e que foi queimado por Ted Hughes. Este, em 1982, co-editou uma versão muito “censurada”, que cobre, com muitas lacunas, os anos de 1950 a 1953.
Faltam também, mas não há a certeza de que alguma vez tenham existido, dois cadernos de notas, referentes aos dois anos que se seguiram à sua tentativa de suicídio, em 1953.

Leituras Complementares:
BIRTHDAY LETTERS de Ted Hughes, Faber and Faber, Abril 1999
BURNT DIARIES e GIRLITUDE: A PORTRAIT OF THE 50S AND 60S de Emma Tennant, respectivamente, Canongate Books, Outubro 1999 e Jonathan Cape Books, Abril 1999

WOOROLOO – POEMS de Frieda Hughes, Harper Collins, Outubro 1998. Frieda Hughes tinha apenas três anos quando a mãe morreu. Ao contrário do que se possa pensar, ela afirma que o pai sempre a educou, e ao irmão mais novo, na recordação da mãe. “Cresci a pensar nela como num anjo”. Frieda diz também que só percebeu quão famosos eram os seus progenitores quando teve de lhes estudar as obras, na escola. Ela própria começou a escrever poemas na juventude. Depois de uma adolescência tumultuosa marcada pela anorexia e por um casamento precipitado, aos 19 anos, viveu durante algum tempo na Austrália em Wooroloo, um local que serve de título ao seu volume de poemas. Casada com um pintor húngaro Frieda é também pintora e autora de livros para crianças. Sobre o culto que rodeia a figura da sua mãe, revolta-se contra aqueles que “a viram e tornam a virar como carne em carvões em brasa” e afirma que, apesar de sentir que nunca saberá a verdade sobre o seu suicídio, não deseja remexer em feridas antigas.

WHERE DID IT ALL GO RIGHT de A. Alvarez, Richard Cohen Books, Setembro 1999. O crítico e escritor A. Alvarez declarou mais tarde que falhou no seu apoio a Plath. Foi ele quem deu abrigo a Hughes quando este saiu de casa e foi ele também quem passou o último Natal (de 1962) com Sylvia. “ Falhei como amigo. Tinha 30 anos e era estúpido. Não percebia nada de depressões” disse Alvarez numa entrevista. Esta autobiografia complementa “The Savage God”, uma obra que relata e analisa o suicídio de Plath.

Nota: O filho de Sylvia Plath e Ted Hughes suicidou-se na sua casa no Alaska, em Março de 2009, 46 anos depois da mãe. Nicholas (Nick) era biologista marinho e sofria de depressão.

sábado, 17 de setembro de 2011

Hildegard von Bingen


E porque hoje é dia 17 de Setembro, aproveito para lembrar uma mulher extraordinária : HILDEGARD von BINGEN, filósofa, mística, compositora, poeta, que morreu há 932 anos no Mosteiro de Rupertsberg.

"A Hildegarda de Bermershiem – ou Hildegard von Bingen, ou a SIBILA do RENO, como ficou justamente conhecida – são atribuídos muitos adjectivos dos quais “luminosa, arrebatadora, surpreendente, sábia,... inspirada, visionária, santa” são apenas alguns entre os inúmeros encómios que fizeram dela uma das mais fascinantes personagens da Idade Média.
Apesar da sua vida ter sido amplamente discutida, as suas visões minuciosamente analisadas e a sua obra musical cuidadosamente divulgada, o livro “Música Escarlate” de Jean Ohanneson é especialmente revelador por desvendar as extraordinárias aptidões de uma mulher, num tempo considerado de obscurantismo e de “trevas”. E numa altura em que as religiões mostram a sua face mais extremista, a vida de von Bingen surge como um exemplo e como uma iluminação. Ohanneson, que levou dez anos para escrever este livro, depois de uma quase clausura em bibliotecas e uma exaustiva consulta de arquivos, foi educada na fé católica e trabalha com afinco no campo das ideias, desenvolvendo esforços para uma melhor compreensão da liberdade humana, focando essencialmente a espiritualidade e a sexualidade bem como o papel da mulher na Igreja e sociedade contemporâneas."
Se estiverem interessadas(os) em ler o resto, vão até www.storm-magazine.com O texto está logo na capa.
A Vida de Hildegard von Bingen, A SIBILA do RENO, no livro “ Música Escarlate” de Jean Ohanneson

Lembrando Clara Schumann


Estou a dar os "toques finais" - espero que não sejam os "toques a finados" - no meu livro dedicado às mulheres E já que estou em maré de histórias dedicadas a este tema, aqui vai o meu contributo do dia: CLARA SCHUMANN, que nasceu em Leipzig, Saxônia, a 13de Setembro de 1819 ( Morreu em Frankfurt am Main, a 20 de Maio de 1896) e foi uma extraordinária pianista e compositora romântica alemã. Era casada com o também compositor Robert Schumann. Aprendeu a tocar com o pai, Friedrich Wieck; a mãe, Marianne, era também uma excelente música e dava concertos. Quando Clara tinha 4 anos, os pais divorciaram-se e Friedrich ganhou a custódia da menina. A partir dos 13 anos desenvolveu uma brilhante carreira pianística, apresentando-se em vários palcos pela Europa. Aos 14 anos, começou a compor o Concerto para piano em lá menor, que foi apresentado quando ela tinha 16, sob a regência de Felix Mendelssohn. Destacou-se também pela interpretação de compositores românticos da época, como Chopin e Carl Maria Von Weber.
Depois do casamento, Clara e Robert começaram uma longa e proveitosa colaboração. Clara continuou a compor, mas a vida em comum era complicada, pois ela foi forçada a interromper a carreira por diversos períodos, devido aos oito filhos que foi tendo. Apesar de Schumann, pelo menos aparentemente, encorajar a sua criação musical, ela abdicou muitas vezes de sua carreira para promover a do marido. A situação era agravada por várias diferenças entre o casal: Clara adorava viajar e tocar em várias capitais, Robert odiava; ele precisava de silêncio e tranquilidade para praticar, ela tinha os filhos e acabava por se colocar em segundo plano; e Robert sofria de constantes crises nervosas que obrigaram Clara a assumir as responsabilidades familiares sozinha. A pior crise de sua vida aconteceu quando Schumann entrou em depressão crónica, o que obrigou a família a interná-lo num manicómio, onde ficou por dois anos, até sua morte. Após 14 anos de casamento, Clara ficou sozinha com os filhos, tendo que dar aulas e apresentações para sustentar a família.
Em 1878 foi indigitada para o cargo de professora de piano no Hoch Conservatory em Frankfurt, onde se conservou até 1892 e onde se distinguiu como um dos poucos compositores - com Joseph Joachim - que se tornaram virtuosos e "tocavam na sua qualidade de compositores". Para além de ser recordada como grande artista, foi, também, uma autoridade como editora do trabalho do marido.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

COMUNIDADE de LEITORES, Culturgest, Lisboa



Imagem: Thalia, musa da Comédia, pormenor do sarcófago das Musas, Museu do Louvre, Paris
PROGRAMA
O RISO e o ESQUECIMENTO

É uma verdade universalmente conhecida que o riso faz parte das expressões mais profundas e sérias do ser humano e que a comédia – como um dos géneros classificados por Aristóteles na sua Poética – surge com força renovada nos mais terríveis momentos de crise política, social, individual. E se a função da Literatura era a mimesis, ou imitação da vida, a comédia ao invés (ou como complemento) da tragédia tinha, e continua a ter, a árdua tarefa de recriar a existência com elevação e solenidade, ao mesmo tempo que faz despertar o riso. A “comédia” nem sempre esteve ligada aos mesmos pressupostos – Dante chama à sua obra-prima A Comédia no sentido alegórico da cosmogonia medieval – mas Geoffrey Chaucer e Boccaccio foram mestres na criação (século XIV) de personagens cómicas em inusitadas peripécias com o propósito de recriar a farsa como espelho do mundo. Essas figuras-tipo – o frade, o médico, o mercador, a “esposa”, a freira, etc. – foram utilizadas por grandes dramaturgos como Molière e Lope de Veja e por autores como Eça de Queirós e Machado de Assis que se encarregaram de zurzir violentamente os seus contemporâneos. Quanto a Jacobson e Heller vão também buscar atributos tradicionalmente “cómicos” – a viuvez em "A Questão Finkler" e a ingenuidade em "Catch 22" – para demolirem, respectivamente, a sociedade inglesa, especialmente a judaica, e a loucura assassina da guerra. Recuando para a Inglaterra isabelina, onde se seguia a distinção clássica – as tragédias acabavam mal e as comédias tinham um final feliz – "Como vos Aprouver" de William Shakespeare é um exemplo perfeito da “alta comédia” pela forma refinada como são tratados os temas das mudanças de identidade e confusão de géneros. Os mal-entendidos são também o catalisador de toda a acção em "Ema", uma heroína com uma personalidade tão forte como a de Rosalind mas à qual Austen, com a sua capacidade para dizer sempre o contrário do que está implícito, atribui uma enorme falta de bom senso. A comédia é um género essencialmente democrático mas não deixa, por isso, de se revelar como indispensável. Os grandes tiranos, na sua solidão, sempre precisaram de um bobo para os obrigar a olhar a realidade do mundo, aquilo a que o filósofo Thomas Hobbes, referindo-se ao riso, chamou a “súbita glória” do ser humano.

Qui 22 de Setembro - Ema, Jane Austen, Ed. Europa-América

Qui 13 de Outubro, A Relíquia, Eça de Queirós, Porto Editora

Qui 3 de Novembro - A Questão Finkler, Howard Jacobson, Porto Editora

Qui 17 de Novembro- Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis, Ed. Dom Quixote

Qua 30 de Novembro - Catch 22, Joseph Heller, Ed. Dom Quixote

Qui 15 de Dezembro - Como vos Aprouver (As You Like It), William Shakespeare, Ed. Campo das Letras, 2008

Laughter is one of the most profound and serious expressions of the human being, and comedy tends to reappear with renewed vigour in times of individual, social and political crisis. As the reverse (or complement) of tragedy, comedy has the difficult task of recreating existence with dignity and solemnity, while still making people laugh. In literary terms, “comedy” is not always based on the same premises: it is an essentially democratic, but nonetheless indispensable genre, with laughter providing what Hobbes described as the “sudden glory” of the human being.

domingo, 7 de agosto de 2011

Apontamentos sobre Shelley no dia do seu aniversário


Como poderia deixar passar o dia 4 e Agosto sem recordar Percy Bysshe Shelley, uma das personalidades mais carismáticas, impetuosas, generosas, belas e talentosas do Romantismo inglês?
Escrevi o seguinte sobre Shelley: ( para Conferências, Cascais, Museu Paula Rego, Maio, 2011)
"Aos 20 anos Percy Shelley ( que nasceu em Field Place, Horsham, a 4 de Agosto de 1792e morreu afogado, em Itália, no Mar Lígure, Golfo de Spezia, a 8 de Julho de 1822) já escrevia cartas indignadas, demonstrando o seu ódio pela tirania e pela injustiça e rebelando-se contra actos e leis que considerava indignos . Desde muito novo ligou profundamente a sua poesia ao activismo político e considerava um imperativo, como puro herói romântico que era, encontrar uma causa nobre pela qual pudesse lutar. Em 1813 já era anti-monarquia e um radical ardentíssimo. Tornou-se rapidamente uma figura de referência, depois de ter sido expulso de Oxford por causa de um panfleto – que escrevera com um amigo – sobre a “Necessidade do Ateísmo”. Mas o abandono de Oxford e a rejeição por parte da sua aristocrática família representaram um momento de viragem na sua vida.
Sobre Percy e Mary Shelley:
"Um encontro perfeito de espíritos e de inteligências - uma paixão, tão emotiva quanto intelectual, entre Percy Shelley (nasceu a 4 de Agosto de 1792) e Mary Shelley:
(Escrevi o seguinte sobre Shelley: ( para Conferências, Cascais, Museu Paula Rego, Maio, 2011)
"Shelley foi arrebatado pela inteligência de Mary – que ele considerava sua igual – e que comungava das suas ideias, incluindo o vegetarianismo. A relação íntima com os Godwin e a crescente paixão por Mary levaram Shelley a escrever o seu primeiro longo poema "Queen Mab: A Philosophical Poem". A rainha Mab, que aparece em Romeu e Julieta, é retomada por Shelley como uma ninfa que desce à terra para construir uma sociedade utópica futura, virando costas ao passado de opressão. Shelley escreveu o poema com o intuito de veicular as suas teorias revolucionárias que implicavam a necessidade de mudanças radicais que se operariam através da natureza e dos actos dos homens ( e mulheres)."
Já no exílio italiano , em 1819, Shelley escreveu “A Máscara da Anarquia”, poema na sequência do que ficou conhecido pelo Massacre de Peterloo, uma declaração política de protesto contra a cavalaria que carregou sobre uma multidão de 60 a 80 mil pessoas em Manchester – zona essencialmente industrial - que pediam representação parlamentar. (O nome foi posto num tom de ironia em relação a Waterloo, que acontecera quatro anos antes.) Shelley usa neste poema imagens grotescas para mostrar o lado trágico da força bruta contra pessoas indefesas e expressa a violência dos seus sentimentos de repulsa contra as forças dominantes. Com imagens muito fortes tinha a intenção de provocar nos leitores o mesmo que ele sentia: repugnância pela brutalidade das forças de repressão".
Os Shelley, os Byron e a "rede":
Foram todos para Itália: Keats, Byron, Claire Clairmont, Mary, Fanny Imlay, o médico de Byron, Polidori, a que se juntaram, mais tarde, Leigh Hunt e a família. Primeiro estiveram na Suiça.
(Em Conferências, Cascais, Museu Paula Rego, Maio, 2011):" O casal ( Mary e Percy) fugiu de Inglaterra em Julho de 1814. Mary tinha então dezasseis anos e estava grávida, aliás como Harriet, que continuava a ser a mulher legítima de Shelley. Perseguidos pelo escândalo e pela ira de Godwin (que apesar das suas teorias deixou de falar à filha durante anos), percorreram a Europa acompanhados da meia-irmã de Mary, Fanny Imlay. Finalmente estabeleceram-se na Suiça, nas margens do Lago Genéve.
No seu diário Mary conta que em fevereiro de 1815, nasceu-lhe uma menina prematura que ela a alimentou ao peito; que a sua meia irmã, Fanny, estava com eles; que Claire Clairmont entretinha Shelley; que Napoleão tinha invadido a Europa. Mas a bébé morreu em Março e este drama foi o primeiro de uma série de calamidades num ano particularmente difícil. Claire (Clairmont) que tinha seduzido Lord Byron, estava grávida . Byron fugira dela e deixara a Inglaterra a caminho da Suiça, perseguido também pelo escândalo da sua relação com Lady Caroline Lamb. No mês de Junho, de novo à espera de bébé, Mary começou a escrever Frankenstein. Em Outubro, Fanny Imlay suicidou-se ao saber que não era filha de Godwin mas sim de Mary Wollstonecraft e do seu amante americano. O seu corpo nem sequer foi reclamado por Godwin, sendo lançado na vala comum juntamente com os pobres anónimos de Londres. Em Dezembro, a mulher de Shelley, Harriet, depois de saber que também ela estava grávida de outro que não o marido, afogou-se na Serpentine. Já quase no fim do ano Shelley e Mary, relutantemente, casaram-se.
A opinião pública inglesa atacou-os violentamente, o que os fez exilarem-se em Itália onde parece terem sido felizes."

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Herman Melville


"Chamem-me Ismael". Penso em nomes como Queequeg, Ahab, Elijah, Tashtego, figuras criadas por Herman Melville que nasceu a 1 de Agosto de 1819 em Nova Iorque. (Morreu a 28 de Setembro, 1891). Em primeiro lugar devo dizer que é um dos escritores mais bonitos que eu conheço, rivalizando apenas com Samuel Beckett em "good looks". Depoi...s, gosto dele porque era um aventureiro, um viajante incansável e inquieto, algo que admiro num homem e num escritor. Passando a questões mais "profundas", toda a gente sabe que ele escreveu "Moby Dick" ( visão messiânica, Shakespeare, baleias, a Bíblia, Milton, um navio mítico, o Nantucket, "selvagens tatuados" e muito mais) que, apesar de ser um livro chato no início - muita gente não o lê todo, até porque logo na edição inglesa, de Peter Bentley , foi logo cortado o epílogo - muito falocrata e moralista, é, na realidade, um romance deslumbrante por todas as razões contrárias aquelas que são, normalmente , apontadas. Recorde-se que Melville aprendeu muito sobre as "Sperm Whales" com os arpoadores açorianos que viviam - os seus descendentes ainda vivem - na orla marítima americana, em New Bedford. E depois há "Bartleby, o Escriba: uma História de Wall Street" que é um conto/novela genial e "Benito Cereno", de que é raro falar-se. Ironicamente, o maior sucesso que Melville conheceu em vida foi por causa dos seus piores livros - "Typee" e "Omoo", por exemplo - e o melhor da sua obra só foi elevada à categoria de cânone, no século XX. Melville claro que morreu esquecido e abandonado à sua sorte mas hoje (quase) toda a gente o conhece.

Emily Bronte


A 30 de Julho de 1818 - nasceu EMILY BRONTE, poetisa e escritora inglesa (m. 1848).
Algumas coisas que escrevi (e disse) sobre ela no Museu Paula Rego, ao comparar "O Monte dos Vendavais com "Frankenstein" de Mary Shelley.
"É sempre com espanto que releio “O Monte dos Vendavais” (1847) esse romance apocalíptico e demoníaco, tendo em me...nte que a autora, quando o escreveu, era uma jovem de vinte e tal anos que pouco conhecia do mundo e parece nunca ter experimentado uma paixão amorosa. É claro que - tal como Frankenstein não é somente uma história de arrepiar mas sim uma “fantasia enigmática de horror metafísico” - o "Monte dos Vendavais" não é apenas uma história de amores contrariados mas sim um “romance enigmático de uma paixão metafísica”. Mary Shelley produziu um texto “masculino” em que as figuras femininas se encontram obviamente dependentes de figuras masculinas heróicas – e anti-heróicas - enquanto Emily Brontë criou um universo onde mulheres de espírito indomável e independente desafiam constantemente os homens. No entanto, ambos os romances seguem um padrão de narrativas concêntricas, ambos possuem histórias dentro da história, ambos colocam uma ênfase forte na sorte de órfãos e de mendigos. Não é por acaso que tanto Mary Shelley como as irmãs Brontë viveram sem as mães respectivas e colocaram essa condição de orfandade de uma forma obsessiva, nos seus livros."
Imagem: retrato de Emily Brontë pelo seu irmão Branwell Brontë.

domingo, 15 de maio de 2011

Último dia da Feira do Livro, Lisboa, 2011



É hoje, 15 de Maio de 2011, o último dia da Feira do Livro de Lisboa. Aproveito para deixar aqui a versão completa de uma breve crónica que escrevi para o P2, suplemento do Jornal Público.




Ir à Feira do Livro é como uma antecipação de férias, o que para mim é bastante irónico uma vez que os meus dias se passam entre livros e mais livros. Sinto-me como um pasteleiro na loja de doces, como uma criança entre brinquedos, como se fosse Natal e sem qualquer Scrooge a ensombrá-lo – será que Dickens está traduzido para português? - e poderia passar o tempo à procura de mais associações tontas deste tipo, a olhar para os jacarandás gloriosamente em flor, se não me ocorresse que estou aqui “em missão”.
E é assim que me faço ao caminho por entre escaparates que apresentam o seu “produto” com a alegria, o movimento de um mercado exótico, e sob um sol glorioso deslizo, parque acima, no melhor estilo “flâneuse”, à procura de “Ilha Teresa”, o novo livro de Richard Zimler, um autor cuja obra acompanho com devoção. De passagem, procuro o lugar da Tinta da China para ver aquelas belas capas, todas juntas, e aproveito para adquirir mais um exemplar de “Caderno Afegão” de Alexandra Lucas Coelho, para oferecer a alguém que seja merecedor. A tentação de gastar dinheiro é grande – o que me parece leviano, dada a crise – mas chego à conclusão de que não existe nada mais saudável do que esbanjar euros em livros, pelo o que decido mandar as preocupações às urtigas, num momento de grande irresponsabilidade mental, cívica e política. Dou por mim a fixar as costas do carrancudo e orgulhoso Marquês, lá no alto, com a sua orgulhosa pose de tirano iluminado e lembro-me logo do Pedro Almeida Vieira e dos seus romances históricos onde Pombal paira, como uma nuvem aziaga. É neste estado de espírito que me encontra um amigo de longa data – abraçamo-nos, emocionados – e recordo imediatamente “As Mulheres Cantoras “ de Lídia Jorge (“Lembras-te de mim? Perguntou. Abraçámo-nos. O seu corpo estava tão leve que dançávamos sem dar por isso….”), um romance tão belo que arrepia, com personagens deslumbrantes que percorrem as páginas ao ritmo da música das palavras desta escritora incomparável.
De novo só, distraio-me a contemplar o rio, lá em baixo, a beleza absoluta desta “Cidade de Ulisses” … e pronto, lá vou eu a correr comprar o romance do mesmo nome de Teolinda Gersão, tão apaixonante, tão bem escrito, um romance cinzelado em palavras certeiras e poéticas por esta grande escritora cuja carreira literária já conta trinta anos de labor ! Pelo caminho faço uma visita à “Casa das Auroras” da Cristina Carvalho, um livro que quero reler – uma e outra vez para apreender bem o sentido deste livro singular - e rio-me sem querer ao ver uma senhora opulenta de carnes, carregada de livros, a deixá-los cair, no momento em que é vigorosamente puxada por um nervoso rafeiro que se deita a arfar, tão afogueado quanto a dona. É um momento de humor à la Jacques Tati, o que me remete para a douta reflexão de quão humano é rirmo-nos quando alguém tropeça ou diz baboseiras, ou põe o pé em falso (em todos os sentidos). Acontecimentos destes são a matéria-prima dos humoristas mas se rir é fácil e fazer rir é difícil, mais difícil será, como observou o velho Quintiliano, acrescentar à hilaridade espontânea o dom da ironia, que implica agilidade mental, facilidade de expressão, cultura, charme, um pouco de picante, etc., tudo o que Shakespeare possuía – aliás como Camões. "Melhor um louco com graça do que um engraçado doido” dizia ele, Shakespeare, um conselho que certamente não é necessário recordar quando se trata de Machado de Assis ou de Howard Jacobson que, em épocas diferentes, souberam utilizar o “wit” de forma memorável. O brilhante, impagável, cáustico “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e a “A Questão Finkler” farão parte do programa da minha próxima Comunidade de Leitores na Culturgest. Ainda me falta escolher quatro livros dedicados ao mesmo tema. Quão difícil é encontrar obras em que a comédia seja um assunto sério! A visita continua.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Curso Breve



Começa amanhã o meu Curso de Introdução à Literatura inglesa e americana na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. São 4 sessões - dias 7, 14, 21, 28 de Maio. Das 15 às 18 horas com intervalo para café.Estou ansiosa por começar. Aqui fica o Programa:


Uma breve viagem pelo universo da Literatura de Língua Inglesa, do século XIX aos nossos dias.

O óbvio interesse de Paula Rego pela Literatura parece enfatizar a importância de tramas e narrativas na sua obra. Para além de reformular a leitura de textos literários – caso do romance “Jane Eyre” de Charlotte Brontë e dos escritos de George Orwell, entre outros – a sua constante referência a temas e imagens dos contos tradicionais e a ironia crítica com que retrata o papel das mulheres em casa e na sociedade, são sinais de um intenso escrutínio e de uma profunda reflexão no que diz respeito à ligação entre o seu imaginário e o processo narrativo. Na verdade, o que é a Literatura senão a fixação de histórias na escrita? Qual a diferença entre contar a história de um príncipe dinamarquês, cuja mãe casou com o tio, que avista o fantasma do pai, que perde a cabeça e leva toda a gente à morte, e ler – e levar à cena – uma das peças-chave da dramaturgia mundial, de William Shakespeare? O que separa a história de uma jovem mulher que encontra um homem com o estúpido nome de Darcy, aparentemente insuportável mas que acaba por se revelar simpático e que a convence a casar e a viver feliz com ele para sempre, e a obra de Jane Austen? Ou ainda como descortinar, na história de uma jovem maltratada (Jane Eyre) que vai trabalhar como governanta e se apaixona pelo seu arrebatador patrão – vento e neblina acompanham os seus suspiros, sótãos e incêndios desorganizam-lhe a mente – uma das mais apaixonantes tramas de todos os tempos? E como entender a forma como as misteriosas e assustadoras histórias contadas às crianças antes de adormecerem se transmutaram em semente de uma literatura que chegou aos nossos dias com os seus terrores urbanos, o receio da globalização descontrolada, o caos das perturbações sociais e a desagregação de um modelo familiar que parecia imutável e sólido? No vasto território da Literatura poderá haver respostas a estas e a outras questões.

I – 7 Maio, 2011 – 15:00h
As Contadoras de Histórias – de Jane Austen a Zadie Smith.

As mulheres, contadoras de histórias por excelência, conhecedoras profundas do mundo privado e do espaço público, guardadoras de palavras e de mitos têm desempenhado um papel único e pioneiro na Literatura anglo-saxónica. As inglesas Jane Austen – criadora do “romance moderno” – e Zadie Smith – actual representante da escrita “pós-colonialista”, urbana e sofisticada – podem funcionar como marcos que separam mais de dois séculos de Literatura alimentada pelo poder feminino. Do “romance gótico” ao “romance fantástico”, que transitou do século XVIII para o século XIX – com a marca indelével da genial Mary Shelley – passando pelas poetas vitorianas Elizabeth Barrett Browning e Christina Rossetti e, nos Estados Unidos, Emily Dickinson, até chegar a romancistas contemporâneas como Margaret Atwood, Nadine Gordimer, Doris Lessing e Joyce Carol Oates, tudo indica que é importante ressalvar o papel de uma escrita “feminina” – questão, por si só, controversa – e tentar delinear um mapa que demonstre a importância de tantas e tão talentosas autoras.

II – 14 Maio, 2011 – 15:00h
Os Românticos – Somos todos heróis “byroneanos”?

Os primeiros Românticos, jovens, impetuosos e revolucionários, viveram paixões intensas por pessoas, por políticas, pela arte e pela aventura intelectual. A geração que foi buscar o seu ímpeto aos ideais subjacentes à Revolução Francesa – que lhes moldou o carácter e a arte de escrever – inclui William Wordsworth, Samuel Taylor Coleridge e William Blake que formaram o “trio de ataque” e foram seguidos por Byron, Shelley e Keats cujo trabalho poético é já contemporâneo do rescaldo da derrota de Napoleão em Waterloo, em 1815. É possível detectar heróis – e anti-heróis – “byroneanos” em criações literárias das irmãs Brontë, de Oscar Wilde, até de James Joyce e, mais recentemente, de autores como Saul Bellow e Martin Amis. De referir, a luta (em certa medida inglória) de D.H. Lawrence para criar personagens romanticamente “revolucionárias”, de ambos os sexos, apostadas em quebrar tabus no que diz respeito às relações humanas, algo que os membros do famoso Bloomsbury Group, puseram em prática, de uma forma mais cerebral mas não menos utópica, dando origem a movimentos que tiveram o seu apogeu nos anos sessenta e setenta do século XX. Ainda hoje o termo “romântico” é aplicado de uma forma indiscriminada e por vezes “leviana” sem ter perdido o seu carisma inicial. A Literatura, a sociedade e as pessoas chegam a ressentir-se de tão pesada herança, salvaguardando a raiz revolucionária mas usando a ironia para desconstruir os excessos e o pessimismo mórbido deste movimento.

III – 21 Maio, 2011, 15:00h
Maçã Envenenada e Bosque Encantado – a Idade de Vitória

O século XIX é, por excelência, o tempo da rainha Vitória da Grã-Bretanha, que deu origem a um termo, “vitorianismo”, aplicado à literatura, às artes, à política, aos costumes, à moda, à ciência e, praticamente a todas as manifestações sociais e individuais do seu tempo. A Literatura reflecte plenamente as contradições de uma época que estremece, ainda, no rescaldo de três Revoluções – a Americana, a Francesa e a Industrial – e que dá os primeiros passos naquilo a que se convencionou chamar a Idade Moderna. Desenvolvem-se novas ideias de organização da sociedade, da família, do papel das mulheres e das crianças. Por um lado a ciência dá passos gigantescos, a migração para as cidades é maciça, o individualismo manifesta-se como crença e a família nuclear estabelece-se em força; por outro lado, a miséria invade as ruas, a prostituição e o trabalho infantil são realidades obscenas – Charles Dickens escreveu sem parar sobre este tema – e os traumas e as neuroses mais violentas desenvolvem-se no ambiente fechado e sombrio das “nurseries”, dentro de casas confortáveis – fruto do progresso – mas com as janelas firmemente fechadas ao mundo exterior. É o tempo de relações funestas e delírios alucinados, de jogos mentais e de transformações fantásticas – aliados a um erotismo poderoso e latente - que autores como as irmãs Brontë, Lewis Carroll, Robert Louis Stevenson, Oscar Wilde, Sir Arthur Connan Doyle, bem como os americanos Edgar Allan Poe, Herman Melville e Walt Whitman não se cansaram de explorar. Até nós, chegam os ecos e a influência do que Freud chamou “o romance familiar dos neuróticos”, principalmente nos escritores irlandeses contemporâneos como Michael Collins e Anne Enright ou nos “pastiches” vitorianos da autora inglesa A. S. Byatt.

IV – 28 Maio, 2011, 15:00h
Da “morte” de Deus à globalização – Modernismo e pós-modernismo.
Recusando violentamente o aparente optimismo vitoriano, o Modernismo rebela-se contra as regras impostas pela tradição e reage duramente contra pressupostos religiosos, sociais e políticos. A carnificina da Iª Grande Guerra revela o vazio e a descrença, dando origem à “Geração Perdida” de Hemingway e Scott Fitzgerald. É, também, o tempo de Virgínia Woolf, de James Joyce e dos americanos T. S. Eliot, Edith Wharton e Henry James. George Orwell, o “santo – proletário” é figura exemplar numa época em que se tenta desesperadamente – e sem grande êxito – desmascarar os perigos das ideologias e evitar erros futuros. A segunda metade do século XX assiste ao eclodir do pós-modernismo e da tomada do poder por parte de escritores que, no universo da Língua Inglesa, desbravam caminhos perigosos que vão do humor negro à fantasia satírica, passando pelo anti-realismo, pela fabulação, pelo absurdismo, pela pornografia dura e por muitas outras ficções “etiquetadas” pelos críticos que tanto escrevem em suportes tradicionais como em blogues ou se fazem ouvir no Youtube . Nomes como Martin Amis, Salman Rushdie, Kasuo Ishiguro e Ian McEwan procuram uma voz particular e única por entre a avalanche de influências que lhes chegam dos quatro cantos do mundo de expatriados como Nabokov e Saul Bellow à escrita daqueles que, depois da queda de impérios e de muros, enriquecem, com a sua experiência, uma Literatura em constante efervescência, multi-cultural, mestiça e visionária.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Última sessão desta Comunidade de Leitores na Culturgest


Hoje, na Culturgest, Lisboa, última sessão desta Comunidade de Leitores dedicada ao tema do "medo". Vamos discutir, de Henry James, "A Volta do Parafuso" , um conto de arrepiar que Oscar Wilde classificou da seguinte forma: "é um conto maravilhoso, terrível e venenoso”. Será um "conto de fadas", uma história de fantasmas ou um estudo da histeria (feminina, claro!)? Até agora nem mesmo Edmund Wilson, o grande crítico americano,conseguiu dar uma resposta clara. Aliás, James - que acompanhava os estudos de psicologia do seu irmão William James - tratou de criar uma "opacidade" absoluta, deixando o leitor no escuro... e às voltas com os seus próprios fantasmas.”

A história é contada por alguém que a ouviu de uma jovem governanta que é contratada para tomar conta de duas crianças numa recôndita casa de campo. Aí, ela começa a "ver" os fantasmas de um antigo criado , Peter Quint e da anterior preceptora, Miss Jessel - mortos em circunstâncias suspeitas - e fica aterrorizada com a hipótese de eles terem "voltado" para se apoderarem das duas encantadoras, belas e misteriosas crianças, Flora e Miles.

Só ela é que avista os fantasmas - nunca há uma confirmação de outras pessoas - e é por isso que a grande questão se coloca: existirão mesmo almas do outro mundo ou será tudo produto de uma mente perturbada fruto de uma sexualidade reprimida - neste caso, a da governanta?

A mestria com que James conta a história provoca grandes dúvidas nos leitores que, tal como eu, vasculham o texto à procura de indícios.

"A Volta do Parafuso" será um conto da literatura "gótica" - há uma referência no texto a "Os Mistérios de Udolpho" de Ann Radcliffe - ou uma crítica a essa mesma literatura? A relação com "Jane Eyre" de Charlotte Brontë é óbvia. Mas "esta" governanta não tem a fortaleza de espírito de Jane Eyre. Uma coisa é certa: o sexo é um assunto latente. Miss Jessel e Peter Quint (este último ainda mais estigmatizado por ser de uma classe inferior) são "demoníacos" porque mantiveram uma relação "ilícita". E o que dizer do segredo que envolve a expulsão de Miles - o menino da casa - do colégio onde se encontrava? Não há respostas e as questões são deixadas em aberto pelo autor que prega partidas sobre partidas ao leitor, empurrando-o cada vez mais para um labirinto sem saída.

Na Storm Magazine está publicado um texto sobre Henry James. Em http://www.storm-magazine.com/

quinta-feira, 31 de março de 2011

Comunidade de Leitores na Culturgest, Lisboa


Hoje, dia de Comunidade de Leitores na Culturgest, Lisboa. Vamos discutir "NUNCA ME DEIXES" de Kazuo Ishiguro. Uma história sombria que levanta questões éticas no campo da investigação científica. Tudo servido por uma linguagem com os condimentos líricos próprios deste autor inglês de origem japonesa. Politicamente é um romance que é, também, uma alegoria ao totalitarismo: Hailsham é uma "sociedade ideal" onde vivem "pessoas especiais" - mimadas, protegidas – mas que não podem escapar ao futuro para eles traçado. A “ordem” é imposta, o futuro das pessoas está traçado e o pior é que, todos (quase todos) estão “conformados” e aceitam o que os espera. A perfeita imagem de um distopia, portanto… É, ainda, uma reflexão sobre a morte ou antes, o "completar de um ciclo" seja para as personagens do livro - clones doadores de órgãos - ou para todos nós. Logo veremos a que conclusões poderemos chegar - ou não. Será um livro sobre o hipotético poder do amor, sobre o medo da solidão, sobre a discussão em torno da existência da "alma"? As hipóteses são inúmeras. Leituras Complementares: "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley (1931) "1984" de George Orwell (1949) "Do Androids Dream of Electric Sheep?" de Philip K. Dick (1968) - deu origem ao filme Blade Runner. Para explorar a ideia de “distopias” : ler Roland Barthes em “Sade, Fourier e Loiola”. A eterna ideia de construção de um “sistema” perfeito, sexual, social, religioso.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Tenho recebido mensagens de pessoas a perguntarem onde acontecem estas Comunidades de Leitores. Há dez anos que lidero dois blocos de 6 sessões cada, na Culturgest, em Lisboa, Portugal - um no princípio do ano e outro depois do Verão. A programação, além de ser colocada aqui no blogue, está disponível no site da CULTURGEST - www.culturgest.pt - que tem um programa cultural extraordinário.
Podem, também, ler o que escrevo na revista on-line Storm-Magazine - www.storm-magazine.com
Obrigada pelo vosso interesse.

Hoje recomeçam as sessões da Comunidade de Leitores na Culturgest. O livro desta tarde - 18:30, Lisboa - é "A Boa Vida" de Jay Mcinerney. A obra já estava escolhida há muito mas causa-me um certo arrepio a coincidência de tratar um tema que está muito presente (vidé a situação no Japão): a forma como as pessoas mudam (ou não) a sua maneira de sentir, de viver, de estar, depois de uma catástrofe. Seja por causas naturais (terramotos), seja por intervenção humana (ataques de 11 de Setembro em Nova Iorque), será que os sobreviventes podem retomar as suas vidas no "ponto onde as deixaram"?

Esta é uma das múltiplas questões levantadas neste romance elegíaco, bem à maneira de Scott Fitzgerald, um autor que McInerney reconhece como seu mestre desde o já distante "Brigh Lights, Big City". Na edição portuguesa, na página 148, está escrito: “A festa acabou. É altura de partir. Não tínhamos dito isso em 1987? Que a festa tinha acabado?”

Sim, parece que a "festa" - essa extravaganza dos anos oitenta que agora nos custa tanto a "pagar" - acabou mesmo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

As Cartas de Bruce Chatwin

Depois da sessão de ontem da Comunidade de Leitores – David Lodge e "o perigo de se estar vivo", a fragilidade da velhice e a solidão com momentos hilariantes, durante duas e tal horas muito empolgantes e intensas – regressei hoje às minhas leituras e escritas.
Mandei vir a recente edição das cartas do escritor de viagens Bruce Chatwin " UNDER THE SUN. The Letters of Bruce Chatwin" numa edição da mulher, Elizabeth Chatwin, e do seu biógrafo Nicholas Shakespeare, Ed. Viking. Confesso que gosto muito dos livros de Chatwin – ou pelo menos gostei, nos anos 70 e 80, não os reli recentemente – mas a sua personalidade sempre me provocou sentimentos contraditórios. No entanto, como as pessoas excêntricas me atraem, não resisti a comprar mais este volume. Chatwin, autor de “Na Patagónia”, “O Vice-rei de Ajudá” , “Que Faço eu Aqui” e “ O Canto Nómada”, entre outros, nasceu em 1940 e morreu de sida em 1989. Trabalhou como jornalista no Sunday Times Magazine e ficou famosa a sua carta de demissão onde escreveu apenas, “Fui para a Patagónia”. Foi antiquário mas principalmente viajante e atraía tanto homens como mulheres com o seu ar de rapaz atrevido – na realidade, Chatwin era totalmente narcísico e havia nele qualquer coisa de "podre" como afirma Dwight Garner. O mais interessante tem a ver com as suas incontáveis viagens solitárias, os seus hábitos pouco "ortodoxos" – conta-se que fazia caminhadas pelo campo, nu, com botas e flores atadas ao pénis – a sua amizade com Susan Sontag – que dizia que Chatwin era o único amigo capaz de partilhar com ela uma refeição em Chinatown de "intestinos fritos e unhas dos pés" – e com Paul Theroux. Foi através de Sontag que poderá ter conhecido Sam Wagstaff, o patrono e amante de Robert Mapplethorpe que Chatwin dizia ter sido quem o infectou com o HIV – outras vezes contava que tinha sido repetidamente violado no Daomé. Na sua correspondência, torna-se visível o tipo de relação que teve com a mulher de quem viveu separado a maior parte do tempo – casaram em 1965 – mas que o tratou devotadamente durante a doença. Uma personagem complexa e trágica que provocou polémicas devido ao facto de nem sempre descrever as culturas, as pessoas e os lugares que conheceu com objectividade. Ao fim e ao cabo Chatwin era um escritor e não um sociólogo, historiador ou antropólogo…

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Comunidade de Leitores na Culturgest, Lisboa


Dia de Comunidade de Leitores, dia de David Lodge e de "A Vida em Surdina", ainda no âmbito do ciclo dedicado ao "medo".
Um professor aposentado, surdo e a braços com a sua crescente incapacidade; a mulher, rejuvenescida e activa; a discípula provocante e perturbada; o pai viúvo, solitário, a perder o juízo: os filhos a viverem as suas vidas. Se nos dois primeiros livros que lemos, "A Insígnia Vermelha da Coragem" de Stephen Crane e "O Deus das Moscas" de William Golding, analisámos acontecimentos em situações "excepcionais" – guerra, desastres – agora estamos em território "normal", até mesmo banal, inerente à vida de todos nós. O que David Lodge faz, com a sua incomparável mestria, é retomar os grandes temas da tragédia e da comédia clássicos e juntá-los numa mesma obra. A frase-chave de "A Vida em Surdina", que em inglês se chama "Deaf Sentence" , uma ambiguidade (deaf-surdo/dead-morto) impossível de traduzir à letra, é a seguinte: " a cegueira é trágica, a surdez é cómica".
É claro que todos somos cegos e surdos a qualquer coisa ou em relação a alguém, a cada instante. No livro existem muitas evidências deste fenómeno. Por isso, a nossa vida é tão complicada, por isso é que os nossos medos se avolumam. E será sobre isto tudo que iremos conversar, hoje, a partir das 18:30 na Culturgest, em Lisboa.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Leituras de fim-de-semana

Passei o fim-de-semana a ler o que, no meu caso, é como fazer um maratonista a preparar-se para uma caminhada de centenas de quilómetros. Não sou o Professor Marcelo Rebello de Sousa que lê vinte livros numa só noite mas quando vejo a pilha dos "não-lidos" a aumentar perigosamente, há que fazer um esforço.
Para já, quero referir o óptimo trabalho da editora Temas e Debates que pôs cá fora, em rápida sucessão, reedições de três obras fundamentais para a formação filosófica, política e literária de qualquer ser humano que se preze. São livros para consulta frequente e para releituras assíduas:
"Tratado Político" de Espinosa
"O Príncipe" de Maquiavel
"O Cânone Ocidental" do decano Harold Bloom, este último um utensílio indispensável – embora de conteúdo polémico, o que é sempre uma boa coisa – para quem quer que se interesse por Literatura. O único português incluído é, evidentemente, Fernando Pessoa por quem Bloom tem uma verdadeira obsessão.
Quanto a outros livros:
Mão Morta. Um Crime em Calcutá” do veterano de literatura de viagens – e não só – Paul Theroux, (Ed. Quetzal) com um relato de crimes e castigos no ambiente tórrido e húmido da populosa cidade asiática. Tão elogiado como criticado, este romance é uma espécie de tributo à Índia – caótica, fascinante, para alguns, repelente – e para quem gosta, com longas e por vezes exaustivas descrições de sexo tântrico. Theroux é um desses autores que sem nunca chegar aos píncaros, não tem dificuldade em mostrar a sua competência e versatilidade. Mistura géneros, liberta-se de dogmas e fala do que lhe interessa. Theroux que é filho de um canadiano e de uma italiana e foi escuteiro e católico na juventude, tem levado uma vida de aventuras e viajado por todo o mundo. Num dos seus primeiros livros, passado em África – “amor à primeira vista “ – escreveu sobre “a futilidade das políticas africanas e a desintegração da vida tribal”.

Também li, numa noite em que recordei os tempos em que só apagava a luz de madrugada, “O Último Homem Americano” de Elizabeth Girlbert, Ed Bertrand. E ADOREI. É um livro sobre a figura (real) de Eustace Conway, que vive como os primeiros pioneiros americanos ou, mais propriamente como os nativos americanos antes do avanço industrial e tecnológico. Mas não pensem que é (apenas) uma apologia do “bom selvagem” ou uma história sobre um hippie retardado. Eustace é um fenómeno e é preciso ler o livro para perceber que Gilbert desejou falar – e fá-lo de uma forma inteligente – sobre o que significa a “vida alternativa” e como estas podem ser mantidas ou, como na maioria dos casos, destruídas em pouco tempo. Gilbert é divertida, entusiasta e apesar de eu saber calcular que poucas pessoas falarão do livro nos jornais – muito “light” – eu li tudo com o maior prazer, enquanto relembrava a minha própria infância quando, em África, tal como Eustace nos Estados Unidos, as crianças iam para o mato brincar sem supervisão de adultos e comíamos formigas, raízes, bagas e apanhávamos cobras e outros animais. Uma espécie de viagem desvairada - como as que fez Eustace - a um ponto de não retorno. Eustace Conway é uma espécie de cruzamento entre Davy Crockett e Henry David Thoreau o que permite à autora escrever sobre as sociedades utópicas do século XIX, o movimento Beat e outras experiências. Fascinante. Só espero que não façam deste livro um filme tão mau como o que fizeram a partir de outro livro desta autora "Comer, Orar, Amar" que não era fabuloso mas não merecia um tratamento à la Bardem e à la Julia Roberts.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

E ontem fui ao Teatro. Estreia de "Azul Longe nas Colinas" de Dennis Potter. Na Sala Estúdio do TNDM II.

E ontem fui ao Teatro. Estreia de "Azul Longe nas Colinas" de Dennis Potter. Na Sala Estúdio do TNDM II.

Um texto cuja temática me fez lembrar "O Deus das Moscas" de William Golding e me pareceu "datado" e cheio de clichés. Mas o que importa MESMO é o trabalho dos ACTORES e a encenação de Beatriz BATARDA - esta, irrepreensível, rigorosa, exigente, bem trabalhada, apaixonante. Quanto aos ACTORES, dão tudo por tudo numa entrega arrepiante. Corpo-a-corpo muito físico, extenuante, num difícil balanço entre o muito intenso e o registo histérico. Ontem foram BRILHANTES. São todos magníficos mas gostaria de destacar Albano Jerónimo, cheio de testosterona ("creepy"), Luisa Cruz à la Meryl Streep – a fazer tudo o que lhe pediram e muito mais, com subtilezas deslumbrantes - e Bruno Nogueira, trágico e tão comovente. Falo de Bruno Nogueira porque, no final, ouvi no átrio comentários pouco simpáticos a seu respeito - como se pelo facto de ele ser essencialmente um actor cómico não tivesse "direito" a este papel. "Que ele tem sempre o mesmo registo!” ouvi dizer a almas caridosas. Pois eu não acho nada. Não o conheço, só o vi nos Contemporâneos mas fiquei pregada aquele corpo demasiado esguio - aquelas pernas que nunca mais acabam, altas demais - preso de tristezas e de fantasmas. Um espectáculo hipnotizante com música de Bernardo Sassetti.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

ELIZABETH BISHOP - Centenário



8 de Fevereiro de 2011. O dia está quase a terminar. Em todo o lado nos jornais, nas redes sociais, falou-se muito de muita gente: de Samuel Butler (1612), de John Ruskin (1819), de Julio Verne (1828) e de James Dean (1931) que nasceram neste dia do ano.
Elizabeth Bishop que nasceu há cem anos. foi totalmente esquecida.
Sim, não foi referido o centenário do nascimento da grande poeta americana Elizabeth Bishop que nos ensinou a todos que "não é difícil dominar a arte da perda" - de coisas, de pessoas, de horas, de cidades, de casas, de tudo o que enche e preenche os nossos dias.
Perdemos mais um dia sem falarmos de Bishop. Por ser mulher e lésbica? Por a mãe ter enlouquecido, por a amante brasileira se ter suicidado? Esquecemo-la apesar de ter ganho prémios sobre prémios (Pulitzer em 1956, National Book Award em 1970, dois Guggenheim's, entre outros)? Apesar de ter sido amiga de Robert Lowell com quem trocou uma vasta correspondência até à morte de Lowell, em 1977? Será que esquecemos o seu prazer em viajar, as suas casas em França e no Brasil, a relação tumultuosa com a arquitecta e "socialite" Lota de Macedo Soares que durou quinze anos?Será que não temos tempo para reler a sua obra, detectar a influência de Marianne Moore que Bishop conheceu no seu último ano em Vassar e que a protegeu, amparou e promoveu, reconhecendo-lhe o enorme talento. Sim, porque Elizabeth que escreveu "In the Waiting Room", lembrando a sua infância de órfã com os severos avós paternos,
you are an I,
you are an Elizabeth,
you are one of them.
Why should you be one, too?
(...)
... foi a mesma que, em Vassar, onde ingressou em 1930, fundou uma revista "alternativa" - chamada Con Spirito - com as suas amigas e companheiras Mary McCarthy e Eleanor Clark. Em Setembro de 2010, o escritor William Boyd publicou um texto no jornal Guardian sobre a sua visita - quase uma peregrinação - aos lugares onde viveu, no Brasil, aquela a que chama "a escritora dos escritores".
O texto de Boyd começa assim:
"Apartamento 1011, 5 Rua Antonio Vieira, Leme, Rio de Janeiro – this was Elizabeth Bishop's first address in Brazil. A few weeks ago I stood on the wavy black and white mosaic sidewalk of Copacabana beach gazing up at the 1940s building opposite. Eleventh floor, penthouse corner apartment. I tried to imagine Bishop looking out over the view. Not that much has changed here in Leme (apart from the odd skyscraper) – most of the apartment blocks fronting the ocean are from the 40s and 50s. Bishop's building is at the eastern end of the beach. West, a few blocks away, is the famous Copacabana Palace Hotel. On the hill behind the apartment I could see the vertically clustered shacks of the Favela Chapéu Mangueira on Babilônia Hill..."
E segue por aí fora ao longo de várias entradas que seguem o abecedário - começa com A de Apartamento e acaba com Z de Zona - e definem Bishop, pelo menos no que diz respeito ao seu tempestuoso, turbulento, terrível tempo brasileiro.

The Art of Losing
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"O Deus das Moscas" e a Comunidade de Leitores




Ontem, dia 3 de Fevereiro, a Comunidade de Leitores na Culturgest não correu bem. O livro que discutimos foi “O Deus das Moscas” de William Golding, o que talvez não predispusesse à boa disposição. A sala estava cheia, faltavam cadeiras e lá nos fomos acomodando. A história de um grupo de rapazes que fica preso numa ilha deserta e que rapidamente perde as boas maneiras e os traços civilizacionais adquiridos para mergulhar na violência e na barbárie é, desde 1954 – ano da sua publicação – um livro de culto. Golding escreveu-o no rescaldo da IIª Grande Guerra e o que viu no campo de batalha - mais propriamente, no mar - deixou-o sem grandes esperanças em relação à bondade do ser humano. Ele serviu na Marinha e tomou parte no desembarque na Normandia, o que lhe proporcionou uma visão nada optimista de um mundo em colapso moral, social, físico e psicológico. Tratámos de discutir os temas centrais do livro: a essência do mal – e a do bem – o aspecto político – democracia versus tirania – e a incapacidade dos seres humanos de se unirem para sobreviver, preferindo a luta pelo poder, etc.
Um tema que vem muito a propósito nos tempos sombrios que atravessamos.
Referimos cada personagem e a sua respectiva posição e representação na trama, o confronto entre os aspectos dionisíacos e apolíneos do romance, a abordagem “pagã” e a abordagem “bíblica” bem como os aspectos mais práticos como a dinâmica de grupos, etc. Também abordámos a questão do MEDO - de as pessoas viverem no medo, o que as empurra para situações dramáticas e as leva a actuar de uma forma irracional. Entretanto, continuavam a chegar pessoas, estava quente e um homem que nunca tínhamos visto sentou-se ao meu lado no sofá e prontamente adormeceu, vergado sobre o braço da poltrona como se fosse uma marioneta. À medida que eu ia tentando dirigir a sessão olhava-o de relance para ver se não estava desmaiado – acordava de vez em quando e dizia, anhhh, anhh, ah, sim, ah, sim?. Depois foi uma das participantes que se irritou e abandonou a sala batendo com a porta, de tal forma zangada que deixou ficar a carteira na respectiva cadeira, o que obrigou uma das muito simpáticas assistentes da Culturgest a entrar para “salvar” a mala. Outro participante defendia Jack Merridew e os caçadores do livro, enquanto uma admirável jovem quase chorava com pena de Piggy e repetia: “eu defendo o Piggy até à morte”!
Não, ontem a sessão não correu nada bem.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Grande Gatsby... de novo


Surpreende-me sempre a perfeita construção de "O Grande Gatsby" de Scott Fitzgerald que foi agora reeditado – mais uma vez – em Portugal (Editorial Presença, 2011, tradução do grande José Rodrigues Miguéis.). Foi publicado em 1925, ainda no rescaldo do trauma provocado pela Iª Grande Guerra. Na sua aparente simplicidade – uma narrativa que flui sem adornos nem arroubos pessoais desnecessários – é uma poderosa crítica à sociedade americana com, por um lado, a sua ganância, brutalidade e desrespeito pelos seres humanos – no triângulo formado pelo casal Tom e Daisy Buchanan e pela "moderna" Jordan Baker – e, por outro, pela ingenuidade, falta de maturidade e ambição nas figuras de Jay Gatsby, Myrtle e George Wilson. Nick Carraway, o narrador que lutou na Guerra, mostra quão cínico e desencantado se pode ser em relação a uma sociedade que apesar de apregoar a democracia e a liberdade mantém a diferença de classes e não dá espaço aos que tentam atravessar a fronteira entre o grupo do "dinheiro antigo" e o do "dinheiro novo", geograficamente representados, no romance pelas duas zonas em Long Island, o East Egg e o West Egg. Nunca é demais repetir que "O Grande Gatsby" representa uma brutal machadada no "sonho americano" de prosperidade, bem-estar e liberdade. Aqui os pobres morrem, bem como o novo-rico que "ousou" sonhar alto. E os poderosos continuam com as suas vidas vazias, privilegiadas e confortáveis, arrogantemente alheios ao sofrimento que causaram.
Que Scott Fitzgerald consiga dizer tanto com tão parcos recursos narrativos, que seja capaz de aliar uma trama "realista" com uma linguagem densamente poética, que faça do dinheiro, da classe social, do amor e do orgulho temas definitivos e poderosos, é algo que consegue deslumbrar e interessar qualquer leitor. Nos Estados Unidos é uma obra estudada desde o secundário.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Stephen Crane


Começámos um novo Ciclo da Comunidade de Leitores na CULTURGEST.
Tema: o Medo. A primeira sessão – dia 19 Janeiro, 2010 - centrou-se na obra "A Insígnia Vermelha da Coragem" de Stephen Crane: uma análise dos efeitos da guerra – neste caso da Guerra Civil Americana – no comportamento humano. Henry Fleming é o jovem soldado a braços com sentimentos de cobardia, culpa e medo – e, claro, desejo de glória. O estilo de Crane foi apelidado de "naturalista", "realista", "impressionista" e "simbolista". No entanto, o que se discutiu com mais afinco foi a questão da guerra, do que é viver-se num tempo de "excepção" – no pior sentido – e nas reacções dos seres humanos quando confrontados com essa contingência. Falámos, também, do instinto de sobrevivência, do rito de passagem para a idade adulta imposto pelo conflito e da indiferença da Natureza face à loucura dos homens.
De notar que este livro foi considerado como tremendamente "realista" por todos os que viveram a Guerra. No entanto, Crane ainda não tinha tido qualquer experiência de batalhas – mais tarde, como jornalista, cobriu a guerra Hispano-Americana e as perturbações em Cuba. Mais tarde o escritor afirmou que conseguira descrever com exactidão o comportamento humano em situações de conflito por ter observado com cuidado o que se passa em jogos de futebol (americano). Crane nasceu em 1871 e morreu em 1900, tuberculoso. Para uma vida tão curta, a sua produção foi muito grande – bem como as vicissitudes da sua vida.
Edmund White escreveu um livro "Hotel de Dream. A New York Novel"(2007) com Crane como protagonista. Hotel de Dream era o hotel – e bordel – dirigido por Cora Taylor a mulher com quem Crane viveu até à morte.

Durante a sessão na Culturgest leu-se um poema de Crane - levado por um dos leitores - encontrado numa antologia organizada por Herberto Helder. O poema chama-se "Coração". Vermelho, é claro, como o resto da "Insígnia..."

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Nova Biografia de J.D. SALINGER


Salinger no Exército

Acabou de sair, nos Estados Unidos, a biografia de J.D. SALINGER por Kenneth Slawenski (Random House). Foi preciso que o autor de "À Espera no Centeio"morresse para se ouvir falar mais dele. Ainda não li esta obra mas espero ficar mais elucidada em relação a um autor excêntrico e recluso que escolheu viver fora dos circuitos literários e cuja obra é absolutamente notável. De acordo com os textos promocionais trata-se aqui de um retrato da sua vida e obra, incluindo relatos sobre a sua participação na IIª Grande Guerra que inspirou muitos dos seus contos. Slawenski também tenta explicar as contradições do escritor, as suas idiossincrasias e manias, a sua misantropia e personalidade complexa. A ler, claro.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O próximo romance de Lídia Jorge


Será um vício quiçá punido por lei no futuro - espero que não!- esta minha alegre antecipação quanto a obras que estão prestes a ser editadas. Como se não tivesse já muito para ler - e continuo a achar que a morte seria absolutamente suportável se houvesse livros "do outro lado" - fico a "salivar" à espera do que aí vem.
Depois de ter escrito, aqui, sobre a programação da Porto Editora - e esqueci-me de mencionar o próximo livro de Pedro Almeida Vieira que deverá ser mais um romance histórico tão singular e apaixonante como os que o precederam - quero falar de uma obra que aguardo com bastante expectativa. Trata-se do próximo romance de Lídia Jorge, " A Noite das Mulheres Cantoras", a editar pela D. Quixote. O que me agrada na obra de Lídia Jorge é o facto de ela não se limitar aos temas que assolam a nossa - e muitas outras -Literatura (s) - abrangendo um universo alargado que transcende o que é local, nacional e "de género". Tal aconteceu com o magnífico "Combateremos a Sombra" e espero que aconteça com este que, de acordo com as palavras da sua editora Cecília Andrade, será sobre a "idolatria e construção do êxito". É um assunto que não pode estar mais na ordem do dia e, atrever-me-ia a acrescentar, na agenda das nossas vidas. Porque esta história do êxito tem muito que se lhe diga, é uma faca de dois gumes: em meu entender é positivo ter-se êxito "a partir de dentro", isto é, de acordo com as nossas vitórias seja lá no que nos propusermos fazer; mas o êxito procurado "de fora para dentro", rápido, fugaz e sem contrapartida real e forte - sem uma "reserva do tesouro" como nas finanças - baseado em sinais exteriores e acontecimentos superficiais será, a meu ver, efémero e até prejudicial. Estou bastante moralista, hoje, mas espero aprender com Lídia Jorge sobre o "êxito e a perda, sobre um equívoco e a passagem do tempo". O facto de se passar nos anos 80 - uma década onde se construiu o mundo destruído de hoje - ainda mais desperta a minha curiosidade.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Primeiro semestre de 2011 na PORTO EDITORA


Fotos: Howard Jacobson e Joyce Carol Oates
No passado dia 10 de Janeiro fui convidada, pela Porto Editora, para a apresentação da sua temporada editorial referente ao primeiro semestre deste ano (2011); seguiu-se um almoço muito simpático onde encontrei amigos - fiquei ao lado do Eduardo Pitta, de quem gosto muito - e conheci novos companheiros e companheiras destas lides. Houve muita conversa, trocaram-se mexericos singelos e inofensivos, comeu-se a sopa e o resto e, como seria de esperar, falou-se principalmente de Literatura. Os críticos e editores da Cultura são exigentes, caprichosos e muito - mas mesmo muito - ávidos de mais livros, mais e mais volumes, mais e mais frases, mais e mais palavras. (O que é óptimo). Discutimos autores e títulos de obras com o à-vontade de quem fala de velhos amigos ou de família e não nos coibimos, obviamente, de lançar uma palavra mais áspera sobre este ou aquele outro - alguns, por estarem já mortos não se devem importar minimamente! - sempre com um bom vinho no copo e interrompidos por um ou outro toque de telemóvel nos bolsos rapidamente revirados dos mais assoberbados pelo trabalho.
No que toca à temporada editorial - a razão principal deste texto - aproveito para referir, aqui, as minhas "apostas" ou "prognósticos" que, neste caso são "antes do jogo", exceptuando o último romance de Joyce Carol Oates "A Filha do Coveiro" porque já o li e é um espanto - a 15 de Fevereiro sairá nos Estados Unidos "A Widow 's Story" sobre a sua vida depois da morte do marido, em 2008 - e "A Questão Finkler" de Howard Jacobson que ganhou o último Booker Prize e que me deu tanto prazer a ler que até tenho vergonha de confessar. É hilariante, magistral e, embora já tenham colado um rótulo ao senhor - o Philip Roth inglês - parece-me que ele se valerá a si próprio. Sai em Fevereiro, creio eu, e espero ter a oportunidade de falar mais sobre esta obra.
De resto, estou ansiosa por ler "O Ar que Respiras" de Maria João Martins - até porque a autora teve a simpatia de me convidar para o apresentar - e porque a história está ligada à poeta Elizabeth Barrett Browning, uma das senhoras vitorianas que habitam o meu espaço.
E ainda: "Os Demónios de Berlim", um romance histórico passado na IIª Grande Guerra de Ignacio del Valle e o livro de Rubem Fonseca "Bufo e Spallanzani" bem como "Room" de Emma Donoghue que ainda não li mas que já tenho cá em casa - não sei se consigo esperar pela edição portuguesa que só chegará no fim da Primavera.
Claro que há muitos mais títulos , para todos os gostos e idades, como se diz. Mas, por enquanto ficar-me-ei por aqui.




quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O "realismo histérico" de Jonathan Franzen


De Jonathan Franzen li "CORRECÇÕES", em português - edição D. Quixote - e "FREEDOM" em inglês, enquanto não chega às livrarias a edição portuguesa. Estou a escrever sobre o autor que muito tem dado que falar. Na linha desse meu trabalho, tenho mergulhado na leitura das críticas e deparei-me com uma classificação - provavelmente já por demais conhecida dos meus companheiros e companheiras das recensões e dos blogues - que me parece interessante. Não sei se foi a poderosa Michiko Kakutani do New York Times ou qualquer outro "guru" das tendências literárias que cunharam as obras de autores como Don DeLillo, Denis Johnson e o suicidário David Foster Wallace como parte do novo "Realismo Histérico", um termo amplamente discutido nos vários orgãos competentes.
Fico a pensar no que dirá Harold Bloom desta "nouvelle vague".

"Um Traidor dos Nossos" John LeCarré




Acabei de ler o último romance de le Carré - isto é, do senhor David Cornwell - e escrevi um texto sobre este livro para o Ípsilon - Público. (Não sei quando sairá mas avisar-vos-ei). "Um Traidor dos Nossos" mostra a grande maestria do autor, o seu humor negro e uma espécie de desespero "filosófico" perante o barulho do mundo. Le Carré não poupa nada nem ninguém: a conivência dos governos, das entidades reguladoras e dos chamados "impérios financeiros" com as máfias e o submundo - tendo em vista lucros cada vez mais astronómicos - a ingenuidade dos "idealistas" e a indiferença geral da população perante as manigâncias do poder. É um livro amargamente cómico e alegremente trágico. A edição é da D. Quixote, Lisboa, 2010. Tradução de J. Teixeira de Aguilar.

Aqui fica uma pequeníssima passagem.

Diz Hector a Perry: (pág. 123) - sobre os Serviços Secretos britânicos:
" Sabemos o que o senhor pensa de nós. Alguns de nós pensamos o mesmo, e temos razão. O problema é que somos a única coisa que se aproveita. O governo é uma desgraça e metade do funcionalismo público não mexe uma palha. Os Negócios Estrangeiros têm tanta utilidade como uma viola num enterro, o país está de tanga e os banqueiros ficam-nos com o dinheiro e fazem-nos um manguito. Que havemos nós de fazer? Queixinhas à mamã, ou consertar as coisas?"

Haverá algo que soa familiar, neste cenário?
E quem diz que "conserta" as coisas será de fiar?