segunda-feira, 2 de julho de 2012
Apresentação de Mulher-Casa de Tânia Ganho, Porto Editora, Lisboa, 2012
10 Maio, 2012
Bertrand do Chiado, Lisboa
É do conhecimento de todos que os seres humanos – homens e mulheres – para não falar da maior parte dos animais – evoluem graças a dois pressupostos fundamentais: o da imitação e o da oposição. Imitamos modelos e numa fase mais avançada – se tivermos aquilo a que se chama personalidade – rebelamo-nos contra esses mesmos modelos. Mais tarde, se tivermos um mínimo de sorte e sabedoria, conseguiremos harmonizar estas duas facetas e até descobrir algo diferente.
Portanto, o que fazemos para aprender é imitar: e assim reproduzimos sons e começamos a falar, reproduzimos gestos e começamos a andar e a ser autónomos, e por aí fora. Imitamos os que nos são próximos – por isso é que Tarzan andava a saltar de galho em galho como a sua mãe macaca – e os que são parecidos connosco – e, neste caso, as meninas imitam as mães e os meninos os pais, embora saibamos que isto não é obviamente linear.
À medida que crescemos, cortesia das guerras internas hormonais – ou por qualquer outra razão mais profunda e menos óbvia – alguns de nós tendem a não imitar mas sim a entrar em confronto com os anteriores modelos. A maturidade, o crescimento mental vai decorrendo sempre a partir de estes factores – imitação, confrontação, confrontação, imitação (de novos modelos, de novas e sempre renovadas imagens exteriores. Se, a somar a tudo isto, tivermos o dom de sermos pensantes talvez possamos tornar-nos pessoas mais ou menos adultas mas há quem fique preso num ou noutro estádio. Tudo isto para dizer que na realidade somos essa espécie de cebola que se forma camada por camada, estrato por estrato, sempre, sempre, através dos mesmos movimentos de imitação e repúdio.
Quero dizer que quando nascemos aterramos neste universo maluco, perdemos a segurança do silêncio e da escuridão, da passividade e do sono e somos catapultados para este magma de movimento, luzes, cores, sons, tensões, mudanças bruscas de temperatura e de humores. Que terror atávico não se apoderará de nós, que medo do desconhecido será aquele que nos faz chorar e berrar – e também respirar e abrir os olhos num espanto e no deslumbramento? Felizmente, e na maioria dos casos, o nosso instinto de sobrevivência leva a melhor e desatamos a comer, a dormir e a defecar alegremente e, enquanto andamos por cá, a cada nanossegundo, o corpo e a mente de cada um, entram num corrupio, sempre afadigados em transformações, mutações, processos químicos, habilidades físicas e mentais, paixões, amores, ódios e impulsos, depressões e impressões, euforias e desalentos. Crescemos inexoravelmente, mudamos dramaticamente e é necessário adaptar-nos, a cada instante. As mulheres com o apurado sentido do seu próprio corpo – não têm outro remédio, dadas as coisas “bizarras” que nos acontecem como ficar grávidas, termos filhos, sangrarmos todos os meses e coisas assim – são testemunhas privilegiadas destes fenómenos que, como disse, ganham uma vertiginosa velocidade desde o momento em que respiramos pela primeira vez. “A Natureza é misteriosa” diz Mara e não posso estar mais de acordo.
Mas a que é que isto vem a propósito em relação a este A Mulher-casa?
Não sei muito bem. Mas a imagem dos estratos que se vão formando, dos vários “eus” que nos vão envolvendo – como a cebola ou a inevitável “boneca russa” babuska – creio que foi o sentido espacial e arquitectónico da construção deste romance – que é imediatamente sugerido pelo próprio título do livro – que me levou a isto.
Mara, a heroína ou mais propriamente anti-heroína é uma jovem mulher que vai viver para Paris com o marido Thomas e o filho pequeno, deixando para trás a segurança da província, onde tem a família e onde cresceu. A dicotomia grande cidade e província é um dos temas interessantes – o lugar de todas as oportunidades e de todas as tentações versus o cocoon, o ninho – mas não me vou alongar porque, embora importante na narrativa, deixo ao vosso cuidado o seu desenvolvimento. É importante salientar, no entanto, que Paris representa uma perspectiva de vida glamorosa e economicamente mais atractiva mas a verdade é que a nossa heroína passa do conforto para o luxo e esse luxo é, como veremos, uma prisão.
Mara, na verdade é, ela própria um edifício, uma construção, uma sucessiva composição de menina, mulher e mãe, por sua vez encerrada numa outra construção – um lugar fechado, institucional, “militar”, a Escola Militar onde lhes é facultado um apartamento juntamente com os outros apartamentos onde vive o staff de um ministro para quem Thomas trabalha como escriba de discursos e comunicados – numa cidade, Paris, que, evidentemente possui como símbolo essa estranha construção que é a Torre Eiffel (embora do género feminino é um óbvio símbolo fálico, de poder e agressividade masculina, como diria a brigada freudiana, para não falar da “troupe” lacaneana) e que Mara vê, enquadrada na sua janela em grande plano, nas suas constantes metamorfoses, consoante o tempo atmosférico, a luminosidade, o dia ou a noite (aliás, o tempo é por ela medido a partir do aspecto da torre). E os caprichos que mademoiselle Eiffel apresenta reflectem-se nas mudanças de humor de Mara.
Mas vejamos:
Não vou contar a história porque terão de a descobrir e só vos digo que, até à última página, existe um suspense – a vida é feita de escolhas para usar um velho e bom cliché – e Mara é posta à prova (ou põe-se à prova) várias vezes.
(Essa capacidade de sustentar a tensão na narrativa por parte da autora é um das múltiplas virtudes deste romance.)
O suspense – cuja resolução talvez a própria Tânia Ganho tenha deixado para o fim – é fruto dos dilemas pungentes com que Mara se depara a cada instante. Na sua condição de mulher deverá privilegiar a carreira do marido – que ela ama – ou dedicar-se à sua arte? Deverá, ou poderá, capitular perante um situação para a qual é arrastada – embora voluntariamente mas que lhe desagrada – por Thomas (e que dá prazer ao marido) e sujeitar-se ou, pelo contrário, rebelar-se?
Mesmo em pleno século XXI – um dos temas mais importante é o da condição feminina – será que o amor por um homem, um companheiro, poderá levar ao abandono de uma carreira, de um desejo de criatividade? E, abarcando uma situação ainda mais complexa, onde se encaixa, na vida de uma mulher, a maternidade? Diz-se que as mulheres dão vida quando têm um filho, uma filha, neste caso Raphael, a criança exigente e sôfrega de afecto. Será que ao “darem” uma vida têm de abdicar da sua própria existência? Ou será possível conciliar tudo?
Mara não quer abdicar do seu corpo, da sua beleza, agilidade, desejo. Não quer, como acontece com muitas mulheres, diluir a sua carne, o seu sangue, os seus ossos, as suas fibras, no marido e no filho. Quer manter-se um ser autónomo, pensante, ardente, vibrante – e para tal existe a ajuda muito agradável e excitante de Mattéo, o atraente cozinheiro da residência ministerial.
E agora reparem: Mattéo é o oposto de Thomas – é imprevisível, irregular, tem uma vida “fora de portas” (namorada) é, realmente a aspiração de qualquer mulher – imaturo, descomprometido, presente quando é preciso ao contrário de Thomas, responsável, cheio de trabalho, ausente em viagens mas pai do filho de Mara, calmo, seguro, mais “casa” do que Mara, muito mais “casa” do que o Mattéo “motard”, embora este esteja à distância de um lanço de escadas dentro da residência, desse microcosmos que reflecte a vida lá fora, com os seus dramas, tensões, perigos e prazeres.
Mara é uma mulher entre homens – neste livro as figuras femininas importam pouco, embora tenha pena de não saber mais sobre a irmã de Mara – vivendo não o tradicional triângulo amoroso mas sim um quadrado amoroso composto por Thomas, Matteo e Raphael, a criança amada e simultaneamente causa de impaciência e irritação, preocupação e inquietação.
Recapitulando. Tânia Ganho, para além de ser uma escritora muito culta – algo que é sempre agradável – e de ser capaz de, com infinita habilidade – como a de Mara com os seus chapéus – incorporar na narrativa referências oportunas a artistas (Louise Bourgeois e Annete Messager, p. ex ou a referência a Sylvia Plath cuja depressão esteve aliada ao parto até mais do que à traição do marido) à História, a outros escritores, a ambientes – Paris poderá agora ser visitada com a Mulher-Casa na mão – refere longamente temas tão actuais como o estatuto da mulher, a maternidade – é um alívio ver que Mara confessa não ter um instinto maternal apurado mas compreendemos como se debate na culpa e na ansiedade – o adultério e principalmente as exigências do corpo feminino e ainda o tema da hipocrisia, da duplicidade e do escândalo que Tânia desvia muito habilmente e muito oportunamente para a cena política.
Não posso deixar de fazer mais duas referências importantes: a primeira é a que diz respeito a Balzac, presente no subtítulo, Cenas da Vida Íntima em Paris. Não é por acaso que o grande naturalista francês – que hoje em dia é estudado a partir de um ponto de vista “romântico” o que não deixa de ser curioso quando ele próprio queria deixar a sua marca de testemunha da grande “Comédia Humana” – é revisitado por Tânia Ganho; a segunda remete para uma espécie de espelho feminino de uma “Educação Sentimental” – um romance em que os dilemas são constantes – do não menos maravilhoso Flaubert que foi influenciado por Balzac, tal como Zola e Proust.
Finalmente, creio que Tânia Ganho utilizou uma ferramenta muito interessante e cativante: escreveu um conto de fadas contemporâneo, subvertendo com elegância e ironia certos pressupostos. Não há dúvida que aqui se trata de uma princesa, casada com um príncipe que serve um rei, presa num castelo doirado mas com passagens subterrâneas – neste caso a escada cuja obscuridade protege as idas e vindas dos amantes – com uma alcova (o quarto da criança) – um pátio onde tudo pode ser visto (agora com câmaras de segurança – etc, etc.). Mara, a princesa com os seus belos trajes Sojia Rikiel deixa-se tentar por um plebeu cuja óbvia vitalidade e sex appeal a deslumbram – os plebeus, ainda por cima cozinheiros, cheiram a pão e a bolos, a coisas quentes e excitantes para os sentidos. (Repare-se que, quando ela compara o membro viril do marido com o do cozinheiro, o primeiro é teso e seco, o segundo flexível e húmido). Característico dos contos de fadas é também o facto de haver uma bruxa – a mulher do ministro, por exemplo – e de as personagens só ganharem esse estatuto, quando são tocadas pela varinha mágica da princesa, neste caso de Mara (que tem um pouco de bruxa vampiresca). Repare-se que as outras personagens nem nome têm, são o Ministro, o Ajudante de Campo, o Juiz, o Advogado, etc, um “toque” muito refinado e irónico.
E fico-me por aqui dando conta de um último pormenor
- o botão de madrepérola que Mara selecciona e guarda para marcar um dia bom – um jogo íntimo - remete para Lewis Carroll que fazia o mesmo com uma pedra branca. Hoje é um dia a assinalar porque estamos a celebrar esta Mulher-Casa da escritora portuguesa Tânia Ganho.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades
A 10 de Junho de 2012, escrevi no Facebook o seguinte comentário:
Em 1578, depois de saber da tremenda derrota em Álcacer-Quibir, e com as tropas castelhanas a aproximarem-se de Lisboa, Camões escreveu: " A minha Pátria, que me era tão cara, está moribunda. Apraz-me não só morrer nela mas também com ela."... Portugal passou a província de Espanha em 1580. Nesse mesmo ano, morreu Camões, a 10 de Junho.
Não sou dada a nacionalismos mas parece-me estranho que se celebre um País no aniversário da morte de um homem que foi mal tratado pela sua Pátria, que a amou apesar de tudo e que "morreu com ela". Não poderíamos ser um pouco menos mórbidos?
O actor e escritor André Gago ("Rio Homem") escreveu este brilhante
texto, cuja leitura recomendo:
O Dia de Camões surge como uma data incelebrável, entalada pela ideia de querer celebrar o poeta, assinalando ao mesmo tempo o Dia de Portugal e o Dia das Comunidades Portuguesas. Ou seja, este dia é uma espécie de Rossio na Betesga. Cerimónias oficiais e comendas à parte, este dia não é, de facto, celebrado pelos Portugueses, senão para apanhar ar e aproveitar os descontos nas grandes superfícies comerciais. Olha-se para o que o 10 de Junho tem para oferecer como se olha, por vã curiosidade, para a ementa turística dos restaurantes. É mais barata, mas preferimos comer outra coisa. De Camões então, neste dia, no fundo, nada se celebra. Então, porquê este Camões, entalado entre tanta pompa de Estado, tanta ideia de nacionalidade? Má consciência? A pátria sente-lhe a voz de avô egrégio? Essa Pátria onde “Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões", como bem pintou, por palavras, o velho Almada Negreiros? Imagina-se a Pátria, com combalido arrependimento, a proclamar, em manifestação de massas: “Abaixo as tenças em atraso”? Na verdade, ter o nome de um poeta maltratado, como os demais, elevado a feriado nacional em celebração da pátria é mesmo coisa portuguesa, ou seja, não faz sentido nenhum. Mas com isto, Portugal consagra-se como dando aos seus poetas uma importância maior do que outras nações do Mundo — o que é falso. Sim, é verdade que Wilde morreu mal, e que tantos outros acabaram miseravelmente os seus dias. Mas não é preciso ser cego para ver que, pelos séculos fora, os seus nomes foram genuinamente aplaudidos e geraram um apreço acrescido pela cultura — um apreço que os portugueses nunca conseguiram, genuinamente, ter. Portugal (entidade abstracta, já lá iremos) muito bem finge perante o Mundo ter apreço pelos seus artistas — fê-lo admiravelmente na Europália 91, na Lisboa 94, na Expo 98, no Porto 2001 —, quando, na realidade, detesta o seu cinema, o seu teatro, a sua dança ou a sua literatura. E por que razão detesta Portugal (entidade abstracta) esta emanações que pertencem, por definição, ao campo da abstracção? Porque a ideia de Portugal se fez glosando o que pertence ao domínio da abstracção, transportando-o para o domínio do real. Ou seja, porque a ideia de Portugal se fez de mitificações a partir do real, e não a partir da imaginação, quer dizer, da criação artística. Muito poderia ser dito a respeito dos próprios fundamentos da realidade, mas detenhamo-nos nos exemplos mais flagrantes: Camões, para começar. Camões precede Shakespeare no tempo, e é pena que nunca se tenham conhecido. Shakespeare é universal, Camões é um espírito universalista. A universalidade do primeiro é imanente, porque a sua obra a ilumina; a universalidade de Camões é inferida, porque nos ajuda a fazer luz sobre as sua referências. Camões é desesperadamente clássico, procurando agarrar o tempo que o antecedeu, Shakespeare tornou-se um clássico graças ao tempo que lhe sucedeu, e que ele ajudou a desvendar. Há, todavia, uma coisa que os aproxima, mas claramente os distingue: a paixão da sua biografia. Ao Shakespeare, todos classificam de super-homem. Incrédulos de que um único homem possa ter vivido e, sobretudo, produzido tanto, muitos procuram furtar-lhe a personalidade, denunciando-o como uma fraude, acusando-o de ser nada mais que um incrível ghost-writer. Ainda por cima, um tipo do teatro! Como é que alguma vez um tal génio literário poderia ter florescido sendo actor e produtor teatral? Ná. Cheira a esturro. Já o Camões é um super-homem incontestado: a sua biografia comprova-o, sem margem para dúvidas. Camões é, como se diz em inglês, bigger than life. E isso, para quem não gosta devidamente da sua lírica, é superior à obra. Enfim, para os portugueses — que não gostam de literatura, nem de cinema, nem de dança, nem teatro —, Camões-ele-mesmo é infinitamente mais interessante que a sua obra. E foi, porventura, por isso que lhe dedicaram um Dia. Não por causa dos versos, mas por causa do episódio trágico-marítimo. Que importa as imagens que emanaram do seu espírito? O que é de valor é o ter salvo manuscritos náufrago, ser cegueta de batalha, ter sido recebido por sua (dele) majestade, ser Trinca-Fortes, um tanto marialva avant la lettre, e ter morrido à fome. E, graças aos amores proibidos e aos desamores a custo suportados, associados a um certo espírito de capa e espada, Camões é como se fosse o nosso Cyrano de Bergerac, com a diferença de “Cyrano” ser uma obra de ficção de um autor — Edmond Rostand —, que tem por base uma personagem real, enquanto Camões é uma personagem real que tem por base a ficção de uma data de autores anónimos, conhecidos pelo cognome de Os Portugueses. Ora a questão é que se não esgota aqui a incapacidade deste colectivo autoral deixar a capacidade de abstracção por mãos alheias — ou deveríamos dizer antes que, à abstracção, Os Portugueses contrapõem o triunfo do literal? Não, não somos o país de produções fictícias de Quixotes, Cides, Mosqueteiros, Leares, MacBethes, Faustos, Montes Cristo, Beatrizes ou Werthers. Para quê inventar, quando temos um Dom Sebastião? Fraco exemplo? Nem tanto, de um rei de que se aguarda coisa tão tamanha como o regresso do Hades numa manhã de nevoeiro. Claro que esse episódio por publicar, por assim dizer, não é biográfico, é uma criação genial — mas que está submetida ao serviço de uma hagiografia histórica. Então e uma Rainha Santa Isabel? Em plena democracia, brincar com esta figura foi o suficiente para suspender um programa humorístico na televisão pública. Com certas ficções, sobretudo as literais, não se brinca. O milagre das rosas é quanto baste, para uma realeza ficar na história por perpetrar milagres reservados a poucos. Joana d’Arc, real até ás cinzas, ultrapassa a Rainha Santa em ficções (livros, filmes, obras sinfónicas) baseadas na sua pessoa? Pois, mas fez por isso. Deu, passe a expressão, o corpo ao manifesto. Quer dizer, os seus actos foram palpáveis. Milagres, qualquer um faz, mas as coisas que Joana d’Arc fez poucos as fariam. Que dizer, porém, então dos amores de Pedro, o Cru, e de Inês? Haverá Tristões e Isoldas que se lhe comparem? Está bem, temos Julieta e Romeu, mas... são personagens inventadas! A lista de literalidades, expressão nos antípodas da abstracção e que, portanto, nada tem que ver com literatura, é extensa, e foi propositadamente acrescentada e engrandecida para ofuscar heróis de improváveis ficções nacionais que lhes tenham tentado fazer frente: Mouzinho de Albuquerque, Alves dos Reis, Fernão Mendes Pinto (por mérito próprio) ou, por exemplo, Vasco da Gama. Este último português, muitas vezes referido como detestável, conseguiu a proeza de ser a positiva personagem central de uma ópera de Giacomo Meyerbeer, “L'africaine”, estreada em 1865. A ópera caiu no esquecimento, mas imaginem o que seria nós, os portugueses de hoje, convivermos com um célebre personagem de ópera, nosso conterrâneo, cujas árias fossem trauteadas alegremente, e desde a infância, pelos cidadãos de todo o mundo, como se faz com o Fígaro ou a Flauta Mágica? Conseguem imaginar? O nosso “Nixon in China”, um século antes (sim, esta não é trauteada por infância nenhuma em parte alguma do Mundo, mas é o exemplo da estranheza de uma personagem histórica elevada a protagonista de uma ópera)? E conseguem, já agora, citar outra personagem real de uma ópera do século XIX de cujo nome se recordem, e trautear um trecho da sua ópera? Não? Pois bem: imaginam a janela de oportunidade que se perdeu para o real imaginário da ficção da portugalidade, e que se esfumou com esta personagem perdida do universo operático, em virtude do desaparecimento precoce do compositor? Fatalidades. Há o teatro literal da vida real do nosso Fernando Pessoa imaginário, há o sacana do Salazar que consegue inspirar tesões de residência oficial a proto-cineastas incapazes de fazer o verdadeiro filme pornográfico das suas vidas (e que continua a fazer capa para êxito de vendas dos nossos orgãos de comunicação “de referência” à custa da fantasia porno-serôdia da criada de servir), o fabuloso Bocage e o imperador Vieira, de que se conhecem, claro está, mais as biografias do que a obra. Portugal, de brandos costumes feito, tem o vício de elevar os seus filhos e filhas mais notáveis ao panteão de uma certa ficção que faz de si mesmo — elegendo a literalidade dos exemplos, ainda que distorcidos e manipulados, por oposição à abstracção da referências. O Camões tem alguma culpa nisso, quando quis emparelhar os nossos prosaicos conquistadores das Descobertas às figuras míticas da Antiguidade. No fundo, foi ele que começou. E, à força de todos nos acharmos dignos de uma epopeia, não nos apercebemos da excepcional importância do simbólico. Camões deu demasiado valor ao patriotismo, e quis contribuir para a ficção desta sensação a que chamamos Portugal. Graças a ele, qualquer carapau alcandorado ao poder ou empoleirado nos ramos mais altos da escala social passou a ter dos artistas esta visão: a de que servem, essencialmente, para os fazer passar à História. A mim a feitoria, aos artistas o meu retrato. Felizmente, a posteridade verdadeiramente universal recorda sempre, acima de tudo, o nome do pintor. Isso até no caso do Nuno Gonçalves é verdade. Mas, azar ou sina nossa, os seus celebrados painéis são, essencialmente, uma fotografia de Estado — nada de Vénus à Botticelli, Joões Baptistas à da Vinci ou homens de turbante vermelho à van Eyck. Resta, pois, saber se a posteridade de Portugal é universal. Para que assim fosse, e uma vez que o Infante Santo (o nosso único homem com algo que se assemelha a um turbante), o Vasco da Gama, o Dom Sebastião ou a Rainha Santa Isabel, para não falar do impronunciável nome do nosso Camões (o melhor que se consegue é Camóis), não são exactamente personagens queridos e universalmente rememorados, o nome de uns quantos artistas dava jeito. Para que isso aconteça, não ajuda grande coisa dedicar-lhes um Dia ou premiá-los com uma comenda: bem melhor seria assegurar-lhes alguma prosperidade ao longo dos restantes dias do ano.
André Gago
10 e 11 de Junho de 2012
(isnpirado por um post de Helena Vasconcelos)
texto, cuja leitura recomendo:
O Dia de Camões surge como uma data incelebrável, entalada pela ideia de querer celebrar o poeta, assinalando ao mesmo tempo o Dia de Portugal e o Dia das Comunidades Portuguesas. Ou seja, este dia é uma espécie de Rossio na Betesga. Cerimónias oficiais e comendas à parte, este dia não é, de facto, celebrado pelos Portugueses, senão para apanhar ar e aproveitar os descontos nas grandes superfícies comerciais. Olha-se para o que o 10 de Junho tem para oferecer como se olha, por vã curiosidade, para a ementa turística dos restaurantes. É mais barata, mas preferimos comer outra coisa. De Camões então, neste dia, no fundo, nada se celebra. Então, porquê este Camões, entalado entre tanta pompa de Estado, tanta ideia de nacionalidade? Má consciência? A pátria sente-lhe a voz de avô egrégio? Essa Pátria onde “Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões", como bem pintou, por palavras, o velho Almada Negreiros? Imagina-se a Pátria, com combalido arrependimento, a proclamar, em manifestação de massas: “Abaixo as tenças em atraso”? Na verdade, ter o nome de um poeta maltratado, como os demais, elevado a feriado nacional em celebração da pátria é mesmo coisa portuguesa, ou seja, não faz sentido nenhum. Mas com isto, Portugal consagra-se como dando aos seus poetas uma importância maior do que outras nações do Mundo — o que é falso. Sim, é verdade que Wilde morreu mal, e que tantos outros acabaram miseravelmente os seus dias. Mas não é preciso ser cego para ver que, pelos séculos fora, os seus nomes foram genuinamente aplaudidos e geraram um apreço acrescido pela cultura — um apreço que os portugueses nunca conseguiram, genuinamente, ter. Portugal (entidade abstracta, já lá iremos) muito bem finge perante o Mundo ter apreço pelos seus artistas — fê-lo admiravelmente na Europália 91, na Lisboa 94, na Expo 98, no Porto 2001 —, quando, na realidade, detesta o seu cinema, o seu teatro, a sua dança ou a sua literatura. E por que razão detesta Portugal (entidade abstracta) esta emanações que pertencem, por definição, ao campo da abstracção? Porque a ideia de Portugal se fez glosando o que pertence ao domínio da abstracção, transportando-o para o domínio do real. Ou seja, porque a ideia de Portugal se fez de mitificações a partir do real, e não a partir da imaginação, quer dizer, da criação artística. Muito poderia ser dito a respeito dos próprios fundamentos da realidade, mas detenhamo-nos nos exemplos mais flagrantes: Camões, para começar. Camões precede Shakespeare no tempo, e é pena que nunca se tenham conhecido. Shakespeare é universal, Camões é um espírito universalista. A universalidade do primeiro é imanente, porque a sua obra a ilumina; a universalidade de Camões é inferida, porque nos ajuda a fazer luz sobre as sua referências. Camões é desesperadamente clássico, procurando agarrar o tempo que o antecedeu, Shakespeare tornou-se um clássico graças ao tempo que lhe sucedeu, e que ele ajudou a desvendar. Há, todavia, uma coisa que os aproxima, mas claramente os distingue: a paixão da sua biografia. Ao Shakespeare, todos classificam de super-homem. Incrédulos de que um único homem possa ter vivido e, sobretudo, produzido tanto, muitos procuram furtar-lhe a personalidade, denunciando-o como uma fraude, acusando-o de ser nada mais que um incrível ghost-writer. Ainda por cima, um tipo do teatro! Como é que alguma vez um tal génio literário poderia ter florescido sendo actor e produtor teatral? Ná. Cheira a esturro. Já o Camões é um super-homem incontestado: a sua biografia comprova-o, sem margem para dúvidas. Camões é, como se diz em inglês, bigger than life. E isso, para quem não gosta devidamente da sua lírica, é superior à obra. Enfim, para os portugueses — que não gostam de literatura, nem de cinema, nem de dança, nem teatro —, Camões-ele-mesmo é infinitamente mais interessante que a sua obra. E foi, porventura, por isso que lhe dedicaram um Dia. Não por causa dos versos, mas por causa do episódio trágico-marítimo. Que importa as imagens que emanaram do seu espírito? O que é de valor é o ter salvo manuscritos náufrago, ser cegueta de batalha, ter sido recebido por sua (dele) majestade, ser Trinca-Fortes, um tanto marialva avant la lettre, e ter morrido à fome. E, graças aos amores proibidos e aos desamores a custo suportados, associados a um certo espírito de capa e espada, Camões é como se fosse o nosso Cyrano de Bergerac, com a diferença de “Cyrano” ser uma obra de ficção de um autor — Edmond Rostand —, que tem por base uma personagem real, enquanto Camões é uma personagem real que tem por base a ficção de uma data de autores anónimos, conhecidos pelo cognome de Os Portugueses. Ora a questão é que se não esgota aqui a incapacidade deste colectivo autoral deixar a capacidade de abstracção por mãos alheias — ou deveríamos dizer antes que, à abstracção, Os Portugueses contrapõem o triunfo do literal? Não, não somos o país de produções fictícias de Quixotes, Cides, Mosqueteiros, Leares, MacBethes, Faustos, Montes Cristo, Beatrizes ou Werthers. Para quê inventar, quando temos um Dom Sebastião? Fraco exemplo? Nem tanto, de um rei de que se aguarda coisa tão tamanha como o regresso do Hades numa manhã de nevoeiro. Claro que esse episódio por publicar, por assim dizer, não é biográfico, é uma criação genial — mas que está submetida ao serviço de uma hagiografia histórica. Então e uma Rainha Santa Isabel? Em plena democracia, brincar com esta figura foi o suficiente para suspender um programa humorístico na televisão pública. Com certas ficções, sobretudo as literais, não se brinca. O milagre das rosas é quanto baste, para uma realeza ficar na história por perpetrar milagres reservados a poucos. Joana d’Arc, real até ás cinzas, ultrapassa a Rainha Santa em ficções (livros, filmes, obras sinfónicas) baseadas na sua pessoa? Pois, mas fez por isso. Deu, passe a expressão, o corpo ao manifesto. Quer dizer, os seus actos foram palpáveis. Milagres, qualquer um faz, mas as coisas que Joana d’Arc fez poucos as fariam. Que dizer, porém, então dos amores de Pedro, o Cru, e de Inês? Haverá Tristões e Isoldas que se lhe comparem? Está bem, temos Julieta e Romeu, mas... são personagens inventadas! A lista de literalidades, expressão nos antípodas da abstracção e que, portanto, nada tem que ver com literatura, é extensa, e foi propositadamente acrescentada e engrandecida para ofuscar heróis de improváveis ficções nacionais que lhes tenham tentado fazer frente: Mouzinho de Albuquerque, Alves dos Reis, Fernão Mendes Pinto (por mérito próprio) ou, por exemplo, Vasco da Gama. Este último português, muitas vezes referido como detestável, conseguiu a proeza de ser a positiva personagem central de uma ópera de Giacomo Meyerbeer, “L'africaine”, estreada em 1865. A ópera caiu no esquecimento, mas imaginem o que seria nós, os portugueses de hoje, convivermos com um célebre personagem de ópera, nosso conterrâneo, cujas árias fossem trauteadas alegremente, e desde a infância, pelos cidadãos de todo o mundo, como se faz com o Fígaro ou a Flauta Mágica? Conseguem imaginar? O nosso “Nixon in China”, um século antes (sim, esta não é trauteada por infância nenhuma em parte alguma do Mundo, mas é o exemplo da estranheza de uma personagem histórica elevada a protagonista de uma ópera)? E conseguem, já agora, citar outra personagem real de uma ópera do século XIX de cujo nome se recordem, e trautear um trecho da sua ópera? Não? Pois bem: imaginam a janela de oportunidade que se perdeu para o real imaginário da ficção da portugalidade, e que se esfumou com esta personagem perdida do universo operático, em virtude do desaparecimento precoce do compositor? Fatalidades. Há o teatro literal da vida real do nosso Fernando Pessoa imaginário, há o sacana do Salazar que consegue inspirar tesões de residência oficial a proto-cineastas incapazes de fazer o verdadeiro filme pornográfico das suas vidas (e que continua a fazer capa para êxito de vendas dos nossos orgãos de comunicação “de referência” à custa da fantasia porno-serôdia da criada de servir), o fabuloso Bocage e o imperador Vieira, de que se conhecem, claro está, mais as biografias do que a obra. Portugal, de brandos costumes feito, tem o vício de elevar os seus filhos e filhas mais notáveis ao panteão de uma certa ficção que faz de si mesmo — elegendo a literalidade dos exemplos, ainda que distorcidos e manipulados, por oposição à abstracção da referências. O Camões tem alguma culpa nisso, quando quis emparelhar os nossos prosaicos conquistadores das Descobertas às figuras míticas da Antiguidade. No fundo, foi ele que começou. E, à força de todos nos acharmos dignos de uma epopeia, não nos apercebemos da excepcional importância do simbólico. Camões deu demasiado valor ao patriotismo, e quis contribuir para a ficção desta sensação a que chamamos Portugal. Graças a ele, qualquer carapau alcandorado ao poder ou empoleirado nos ramos mais altos da escala social passou a ter dos artistas esta visão: a de que servem, essencialmente, para os fazer passar à História. A mim a feitoria, aos artistas o meu retrato. Felizmente, a posteridade verdadeiramente universal recorda sempre, acima de tudo, o nome do pintor. Isso até no caso do Nuno Gonçalves é verdade. Mas, azar ou sina nossa, os seus celebrados painéis são, essencialmente, uma fotografia de Estado — nada de Vénus à Botticelli, Joões Baptistas à da Vinci ou homens de turbante vermelho à van Eyck. Resta, pois, saber se a posteridade de Portugal é universal. Para que assim fosse, e uma vez que o Infante Santo (o nosso único homem com algo que se assemelha a um turbante), o Vasco da Gama, o Dom Sebastião ou a Rainha Santa Isabel, para não falar do impronunciável nome do nosso Camões (o melhor que se consegue é Camóis), não são exactamente personagens queridos e universalmente rememorados, o nome de uns quantos artistas dava jeito. Para que isso aconteça, não ajuda grande coisa dedicar-lhes um Dia ou premiá-los com uma comenda: bem melhor seria assegurar-lhes alguma prosperidade ao longo dos restantes dias do ano.
André Gago
10 e 11 de Junho de 2012
(isnpirado por um post de Helena Vasconcelos)
quarta-feira, 21 de março de 2012
Confissões de Felix Krull - Thomas Mann

Amanhã, dia 22 de Março de 2012 é dia de Comunidade de Leitores na CULTURGEST e a obra em causa é "Confissões de Felix Krull - Cavalheiro da Indústria" de Thomas Mann.Escrito ao longo de anos e anos, este romance ficou inacabado, o que não prejudica em nada a sua leitura. Muito próximo do género "pícaro", Thomas Mann, como sempre, tudo subverte e tudo põe em causa. Felix, o Wunderkind, aquele que tem a felicidade cunhada no próprio nome, é um jovem e mais tarde um homem, de muitos rostos e personalidades, eternamente "moldado" às circunstâncias em busca do prazer.
Aqui fica um excerto:
"Das coisas delicadas e fluídas, convém falar com delicadeza e fluidez; por isso formularei aqui, com precaução, uma observação acessória. Em resumo: a felicidade só se pode encontrar nos pólos extremos das relações humanas — onde as palavras não existem ainda ou onde já não existem — no olhar e nos abraços. Só lá se situam o incondicional, a liberdade, o mistério e o entusiasmo irreprimível. Tudo o que existe no intervalo, como contacto e relações sociais, é tíbio e fraco, determinado, condicionado e limitado pelo formalismo e pela tradição burguesa. A palavra, aí torna-se senhora — a palavra, essa intermediária baça e fria primeiro produto duma civilização domesticada e moderada, e tão totalmente estranha à ardente e muda esfera da natureza que cada vocábulo é, de qualquer maneira, uma frase por si e em si.
Digo isto eu, que, contudo, tento modelar a história da minha vida e ponho todo o cuidado possível em dar-lhe uma expressão literária. Entretanto, o meu elemento não é a comunicação verbal, porque o que me interessa verdadeiramente se afasta dela. Sinto-me ligado, de preferência, às regiões mais extremas e silenciosas das relações humanas. Em primeiro lugar, àquelas em que a estranheza e a ausência de qualquer relação burguesa mantêm ainda um estado primitivo, onde os olhares se casam irresponsáveis, numa sonhadora impudicícia. Por fim, a outra esfera, aquela em que a união, a intimidade, levadas até ao paroxismo, restabelecem, da maneira mais perfeita, esse estado mudo e primitivo."
quinta-feira, 8 de março de 2012
"Morte em Veneza" de Thomas Mann

Hoje, dia 8 de Março de 2012 é dia de Comunidade de Leitores, na Culturgest. O livro?
"MORTE em VENEZA" de Thomas Mann
Aproveito para retirar um excerto do capítulo dedicado a este autor do meu livro "A Infância ´um Território Desconhecido", edição Quetzal, Lisboa, 2009
"Em 1901, depois de se ter livrado do serviço militar, Mann publicou “Os Buddenbrook: Decadência de uma Família”, uma saga em dois volumes, para a qual se socorreu das memórias e relatos da sua própria família e da sociedade da sua cidade natal, Lübeck. O livro acabou por ser considerado escandaloso e muitos habitantes seus conterrâneos sentiram-se atingidos naquelas páginas. Chegou a haver uma lista que identificava as personagens com os nomes de pessoas reais e , por alturas da ascensão do nazismo, as críticas a Mann foram subindo de tom. (É preciso não esquecer o facto de que a sua mulher, Katjia, era meio-judia.)
Mann viajava bastante e trabalhou arduamente enquanto esteve em Itália com o irmão, Heinrich, entre 1896 e 1898, continuando a utilizar material autobiográfico, aquilo a que chamava “os símbolos zelosamente urdidos da sua vida”, como explicou numa carta ao seu editor. Tanto “Tonio Kröger” (1903) como “Sua Alteza Real” (1909) reflectem uma vivência pessoal, as ideias sobre a arte e o artista e o seu papel no mundo, muito influenciadas pelas leituras de Friedrich Nietzsche, principalmente na antinomia, estabelecida por este último, entre arte e vida. Enquanto produzia “Sua Alteza Real” que segundo ele, seria o romance alegórico da “irreal existência simbólica”, preparava-se para escrever uma novela sobre Goethe, um romance sobre Frederico, o Grande e uma recreação do mito de Fausto. (Este último projecto só ficou concluído depois da II Grande Guerra , em 1947).
Quanto aos dois primeiros são habilmente aproveitados e incorporados em “Morte em Veneza”. A personagem Aschenbach – a quem Mann chamava “ o meu falecido amigo” – diz-se autor da “prosa épica vigorosa e lúcida sobre a vida de Frederico, o Grande” e refere outros títulos que, ironia à parte, poderiam ser do próprio Mann, incluindo a “poderosa narrativa “O Abjecto” que ensinou, a uma geração agradecida, que um homem é capaz de tomar uma resolução moral mesmo depois de ter mergulhado nos abismos do conhecimento” . (Seria exactamente devido à força que lhe advinha desse conhecimento que ele podia olhar Tadzio e tantos outros rapazes sem levar avante o acto da sedução mais crua).
Outro aspecto curioso é que Mann, ao descrever a obra de Aschenbach, os seus fins literários e as suas preocupações, faz o papel de crítico de si próprio. Com enorme desfaçatez, fala do “peso da genialidade”; ele tinha bem a noção do seu valor como escritor e acrescenta, “ a alma de Aschenbach… desde muito cedo que estava predestinada para a fama… e o seu engenho estava calculado de forma a ganhar a adesão do público em geral bem como a admiração, tão simpática quanto estimulante, do conhecedor”.
E, mais à frente:
"Já foi dito que esta novela, que se tornou uma das peças mais importantes da Literatura do século XX, é largamente autobiográfica e que surgiu a partir de uma sucessão de acontecimentos na vida de Thomas Mann que, aliás, escreveu o seguinte: “Não inventei nada em “Morte em Veneza”. O “peregrino” no North Cemetery, o horrível barco em Pola, o homem dissoluto encanecido, o gondoleiro sinistro, Tadzio e a sua família, a viagem interrompida pelo extravio da bagagem, a cólera, o mangas de alpaca pomposo na agência de viagens, o cantor de baladas rasca, todos esses e mais os que quiserem, estiveram lá. Eu limitei-me a dispô-los da forma a mostrá-los o mais estranhamente possível, em prol da composição”.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Thomas Mann na Comunidade de Leitores

Ontem foi dia de Comunidade de Leitores, na CULTURGEST. Um dia BOM, portanto!. Discutimos e analisámos contos, principalmente "Tristan" uma "novela" do início da carreira literária de THOMAS MANN onde o autor coloca já, com pertinência e ironia, as questões que o irão ocupar ao longo da vida: a Arte e a Vida, a condição do artista no mundo, a sua ( dele, Thomas Mann) ligação a Wagner e a Schopenhauer e, principalmente, as suas dúvidas num momento histórico conturbado. Thomas Mann foi um homem de dilemas. E nós?
A Poesia de Dorothea Tanning

NEVER MIND
DOROTHEA TANNING
Never mind the pins
And needles I am on.
Let all the other instruments
Of torture have their way.
... While air-conditioners
Froze my coffee
I caught the toaster
Eating my toast.
Did I press the right
Buttons on all these
Buttonless surfaces,
Daring me to press them?
Did you gasp on seeing what
The mailman just brought?
Will the fellow I saw pedalling
Across the bridge live long
After losing his left leg,
His penis, and his bike
To fearlessness?
Will his sad wife find
Consolation with the
Computer wizard called in
Last year to deal with glitches?
Did you defuse the boys’
Bomb before your house
Was under water, same
As everything else?
My sister grabbed her
Silver hand mirror
Before floating away.
The dog yelped constantly,
Tipping our canoe.
Silly dog.
O ano da morte de Dorothea Tanning - 2012

Dorothea Tanning (25 Agosto, 1910, pintora, poeta escultora, gravadora morreu no dia 31 de Janeiro passado, com 101 anos. Tanning era a última sobrevivente de uma época de grandes transformações e produtividade artísticas. Tanning estudou no Knox College, viveu em Chicago e, em 1935, estabeleceu-se em Nova Iorque onde entrou em contacto com o movimento Dada e com o Surrealismo. Foi Julien Levy que a integrou no círculo de surrealistas imigrados e foi assim que conheceu Max Ernst. Nas suas Memórias, “Birthday and Between Lives”, conta como Ernst fez uma visita ao seu estúdio em 1942, como jogaram xadrez e se apaixonaram. Casaram em 1946, numa cerimónia dupla com Man Ray e Juliet Browner.
O círculo de amigos de Dorothea Tanning contava com Marcel Duchamp, Roland Penrose, Lee Miller, Yves Tanguy, Kay Sage e George Balanchine, para quem ela desenhou guarda-roupa e cenários para vários Ballets – como por exemplo, "The Night Shadow".
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