segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

SYLVIA PLATH: na Caverna do Barba-Azul

SYLVIA PLATH – NA CAVERNA DO BARBA AZUL


Uma mulher de trinta anos, muito inteligente e muito bela, capaz de escrever com fulgor inigualável, suicida-se num certo Inverno londrino, num apartamento gélido. Brutal e eficazmente. Sem ruído. Deixa dois filhos muito pequenos. Desaparece uma vida que poderia ter sido brilhante, em todos os sentidos. Porquê? Esta é a questão colocada por todos aqueles que, muito depois da sua morte, continuam obcecados pela poetisa americana Sylvia Plath. A publicação da versão (quase) integral dos seus Diários, em 2000, forneceu algumas pistas aos leitores e estudiosos, sedentos de encontrarem detalhes reveladores da sua personalidade e dos acontecimentos que foram transpostos para a sua obra. Santa ou frívola, vítima ou carrasco, amante da vida ou fascinada com a morte, é principalmente nos seus poemas que devemos procurar as respostas. No entanto, a agitação que acompanhou esta edição, tornada possível depois da morte do Poeta Laureado Ted Hughes, que foi seu marido e, para muitos, a razão da sua perda, poderá lançar alguma luz sobre o assunto.

Sylvia começou a escrever os Diários ainda em criança. Chamava-lhes o seu “Mar de Sargaço”. Funcionavam como o repositório das suas experiências e como exercícios de escrita. Eram, também, o lugar privilegiado onde ela registava ideias para poemas. É notória a sua ânsia de perfeição, o seu desejo urgente, intenso, absorvente, em relação à poesia. Esse rigor, essa exigência em relação a si própria, detectável  nos seus esforços quando ainda era aluna do Smith College, levaram Ted Hughes a descrevê-la como sendo “alguém excepcional” que podia ser “intensamente artificial” mas que juntava a tudo o que fazia, uma “excitação única”. No som e textura das suas linhas existia “uma sensação de profunda inevitabilidade matemática”, um fatalismo que contribuiu para a empurrar para o abismo da depressão e da neurose.
As páginas escritas pelo seu punho mostram o carácter obsessivo de Sylvia, a sua sexualidade exacerbada, o seu ciúme, a paixão pela escrita, as dificuldades de relacionamento com a própria mãe por quem sentia uma antipatia profunda (desmentida pelo tom das cartas que lhe escrevia, nas quais se colocava sempre no papel de jovem americana bem comportada, prática e trasbordante de energia), o desgosto pela morte do pai quando ela tinha oito anos, o seu esgotamento, em 1953, que a levou a uma primeira tentativa de suicídio e que ela descreveu em The Bell Jar.
Esta edição também inclui os dois diários que Ted Hughes manteve selados e escondidos de olhares e interpretações até pouco tempo antes da sua morte: o primeiro data de Agosto de 1957, quando Plath se esforçava por se dedicar exclusivamente à sua poesia, e o segundo refere o espaço de tempo entre Setembro de 1959, altura em que ela iniciou sessões privadas de terapia, e Novembro desse mesmo ano, quando o casal decidiu abandonar Boston e voltar para Inglaterra.
Para compreender melhor os factos é importante conhecer a constelação de personagens que participaram, directa ou indirectamente nesta tragédia, em que os principais actores foram Sylvia, a beleza pálida que usava batom demasiado vermelho e Ted Hughes, o gigante sedutor, de voz portentosa que atraía com selvagem magnetismo todos os que dele se aproximavam. Em torno deste casal maldito manteve-se vivo o mito da “bacante” que queria escrever sobre assuntos tabus, como os distúrbios mentais, a maternidade e a morte, e que dizia que devia ter estudado medicina em vez de literatura para ver “crianças a nascer e cadáveres a serem retalhados”.
Sylvia nasceu em 1932 em Boston, Massachusetts, de ascendência austríaca e alemã. Em 1955 terminou os seus estudos no Smith College ( “summa cum laude”) e foi para Inglaterra continuar a sua educação. Foi aí que, a 3 de Março de 1956, a jovem americana que chegara recentemente a Cambridge munida de uma Bolsa Fulbright conheceu, numa festa, um “poeta brilhante”, “o único homem suficientemente forte para poder estar à (sua) altura”. Para ele escreveu o seu melhor poema até então, chamado “Pursuit”, que fala de uma pantera que a persegue até à morte e a quem ela lança o seu próprio coração, numa tentativa para a apaziguar. Esta premonição fatal marcou o início de uma relação trágica e tumultuosa cujas sequelas se têm feito sentir, como um terramoto, muito para além do suicídio de Plath em 1963 e da morte de Ted Hughes, vitimado por um cancro, em 1998.
Este primeiro encontro ficou, como de resto toda a vida do casal, bem “documentado”. No poema “The St. Botolph’s Review”, incluído no já famoso “Birthday Letters” , o volume de poemas que Hughes publicou antes de morrer e que funciona como o seu testamento literário, ajuste de contas e pacificação com Sylvia, Hughes conta como ela o mordeu na face até fazer sangue e como ele lhe roubou um brinco e um lenço azul, ( para Plath o lenço era vermelho), que ele, mais tarde, encontrou num bolso. Casaram em Junho desse mesmo ano. Os primeiros tempos da sua relação foram uma espécie de milagre, o encontro perfeito de duas mentes possuídas de ardor criativo e amoroso. Mudaram-se para Boston, onde passaram um tempo de relativa felicidade, a ensinar e a escrever. Mas Plath tinha já atrás de si, uma longa história de depressão, a que não era estranha a conturbada e muito freudiana relação com o seu poderoso e assustador pai, (o tenebroso professor Otto, criador de abelhas), que morrera quando ela tinha oito anos e cujo fantasma a perseguiu durante toda a vida.
Quanto. a Hughes, ele era um homem que arrastava facilmente as mulheres para a sua zona de influência. Era, também, extremamente promíscuo, sexualmente. A sua infidelidade era notória e fazia parte da sua natureza, tanto quanto a morte fazia parte da de Sylvia. Neste contexto, Ted Hughes é frequentemente apontado como o “ogre” que arrastou Sylvia para a sua destruição. Até à morte e apesar da sua enorme importância como Poeta Laureado, ele foi considerado como uma espécie de “Barba Azul”, uma reputação que o seu gosto pelas ciências ocultas contribuiu para acentuar. A sua irmã Olwyn, executora testamentária e educadora dos seus filhos, queixou-se sempre dos problemas que ele tinha com as mulheres e tudo fez para mitigar as acusações de que ele foi alvo.
A escritora Emma Tennant foi uma das suas amantes. Emma pertencia a uma família antiga, rica e extravagante. A sua tia avó era Margot Asquith, mulher de um primeiro-ministro, Colin, o seu irmão mais velho, namorou a princesa Margaret, chegando a oferecer-lhe uma casa nas Caraíbas, a sua sobrinha é a super modelo Stella Tennant e um tio, Stephen Tennant, foi um esteta famoso. Emma foi quem comparou Hughes a “Barba Azul”, o mágico falhado que aliciava irremediavelmente as mulheres com modos encantadores que escondiam a sua natureza predadora e o seu gosto pelo sangue, e a Mr Rochester, o herói do romance Jane Eyre de Charlote Brontë, outra dessas figuras que as mulheres vêem como a promessa do cumprimento de um rito de iniciação, o desvendar de um conhecimento perigoso mas sedutor.
Lobo, touro, garanhão, leão, são estas as imagens que Tennant associa a Hugues, com quem manteve uma relação intermitente, desde a primavera de 1977 até ao Outono de 1979. Em “Burnt Diaries” publicados em Outubro 1998, no mesmo mês em que o seu antigo amante acabaria por morrer, Tennant conta como se deixou seduzir por Hughes: “ O seu rosto, semelhante a uma dessas estátuas da Ilha de Páscoa, parece dominar a paisagem circundante: irritação, certeza e orgulho conferem uma espécie de impassibilidade aos seus traços mas, como que a contragosto, um sorriso leve e nervoso, brinca-lhe nos lábios. Será que ele está tão devorado pelo medo como eu, na perspectiva do nosso encontro? “ E mais adiante questiona-se se “esta efígie, este deus de beleza masculina, pleno de crueldade” não terá prazer em devorar mulheres (artistas), como ela. Fascinada pela auréola de tragédia e pelo mito que acompanhou sempre a figura de Hughes, Tennant recorda a histeria, o desregramento sexual e emocional que parecia comandar a sua vida e a de quem dele se aproximava. O destino das suas antecessoras não podia ter sido mais cruel: a loira e pálida Sylvia suicidou-se em 1963 e a morena Assia Wevill fez o mesmo, em 1969, levando consigo, para o abismo da morte, a filha de ambos. Segundo certas testemunhas, Hughes teria sido um pai extremoso para Frieda e Nicholas ( os filhos que teve de Sylvia) mas o seu comportamento fora inteiramente diferente em relação a Shura, a filha que teve de Assia. (Uma vez deu vinho a beber à criança para que esta dançasse para os convidados que ele tinha para jantar.)
Depois destas tragédias, Hughes tornou-se um recluso, casou outra vez, em 1970, ( diz-se agora que a mulher, Carol Orchard, também tentou o suicídio) e levantou um muro de silêncio em torno da sua vida privada, só voltando a falar do seu relacionamento com Sylvia na já referida obra, “Birthday Letters” Estes 88 poemas expõem o choque de titãs que foi a sua vida em comum (“O teu fantasma, inseparável da minha sombra…”) e lançam alguma luz sobre a relação neurótica do casal. Mas Hughes nunca se livrou do rasto de escândalo que o perseguiu e que ele usava como um poderoso afrodisíaco, como uma espécie de amuleto encantatório. O facto de se interessar pelo xamanismo e pela magia negra, só contribuiu para acentuar a ideia de que ele era um monstro.
Sylvia sentiu no corpo, “até aos ossos” a dor excruciante provocada pelas suas infidelidades. Em 1958, quando ainda estavam em Boston, discutiram selvaticamente quando ela o encontrou com uma mulher. No ano seguinte voltaram para Inglaterra e instalaram-se em Devon. Em Julho de 1962, Sylvia soube do affair de Hughes com Assia Wevil. Separaram-se e ela foi viver para um apartamento em Londres. Durante os poucos meses que lhe restavam para viver escreveu os seus melhores, mais iluminados e mais pungentes poemas. Numa manhã gelada de Fevereiro de 1963, enquanto os dois filhos pequenos dormiam no quarto ao lado, convenientemente isolados e com leite à cabeceira, ela meteu a cabeça no forno e ligou o gás. Ninguém apareceu em seu socorro. A salvação teria sido difícil. Sylvia estava há muito condenada pela sua depressão crónica e pelo fatalismo trágico que sempre a acompanhou desde criança. Quem a conheceu diz que ela tinha uma tendência marcante para a “teatralidade”, para um exacerbado desnudar de sentimentos que a deixava em carne viva. A sua biógrafa, Anne Stevenson, fala de uma “dualidade libidinosa”, de um “eu” profundo cheio de violência e fúria, que ela reprimia sob a capa de uma aparência cuidada e elegante”. Tudo isso ficou documentado: nos poemas, contos ( “Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos” ed. port. Relógio d’Água), diários, em The Bell Jar, (“ A Campânula de Vidro”, Ed. Portuguesa, Relógio d’Água) o romance autobiográfico publicado, sob pseudónimo, em Janeiro do ano da sua morte. O seu primeiro volume de poemas, The Colossus foi publicado em 1961. A sua principal colecção de poemas, Ariel , uma espécie de “crónica” do seu suplício, foi publicada postumamente em 1965. Quanto aos “Collected Poems” receberam um prémio Pulitzer, também a título póstumo, em 1982. O manuscrito de um romance inacabado, intitulado “Double Exposure ”, desapareceu em 1970.
Mas a beleza e força das suas palavras provocaram tal comoção que ela se tornou uma espécie de santa sacrificada no altar da misoginia masculina, uma mártir abandonada por todos, uma mulher que fora deixada entregue a si mesma, sem que o marido levantasse um dedo para a ajudar. Nos momentos imediatamente a seguir à sua morte, este, como seu executor testamentário, (apesar de separados, eles ainda estavam legalmente casados) destruiu parte dos Diários “para proteger os filhos” e apoderou-se da sua obra.
Será que a grandeza literária é ainda possível? perguntava Susan Sontag num ensaio. Será que, no caso de Sylvia Plath, essa “grandeza” resiste a anos e anos de especulações, análises exaustivas e muitos mexericos que envolveram ( e continuam a envolver) a sua vida e a de todos os que dela se aproximaram ? A sua história, intimamente ligada a uma obra genial, aparece-nos como uma verdadeira tragédia isabelina, cheia de golpes de teatro, de violência, de sangue e de muitas lágrimas. A sua morte continua a ser um mistério e conferiu-lhe a glória que tanto procurou em vida e o seu sofrimento foi o motor que transformou a sua arte em algo sublime. Ela foi capaz de descrever, como ninguém, os meandros da solidão, da angústia, da raiva e da fúria. Ao ritmo encantatório das suas palavras, como por magia, os objectos mais banais ganham estatuto de símbolos de uma vida exaltada e exaltante e os actos mais comuns transformam-se em gestos de eloquente heroísmo.

THE JOURNALS OF SYLVIA PLATH – 1950-1962. Editados e anotados por Karen V. Kukil, Faber and Faber, 24 Março 2000. Uma edição (quase) completa. Só faltam dois Diários: um, que parece ter-se perdido e outro que relatava os últimos dias de Sylvia e que foi queimado por Ted Hughes. Este, em 1982, co-editou uma versão muito “censurada”, que cobre, com muitas lacunas, os anos de 1950 a 1953.
Faltam também, mas não há a certeza de que alguma vez tenham existido, dois cadernos de notas, referentes aos dois anos que se seguiram à sua tentativa de suicídio, em 1953. Leituras Complementares:
BIRTHDAY LETTERS de Ted Hughes, Faber and Faber, Abril 1999
BURNT DIARIES e GIRLITUDE: A PORTRAIT OF THE 50S AND 60S de Emma Tennant, respectivamente, Canongate Books, Outubro 1999 e Jonathan Cape Books, Abril 1999
WOOROLOO – POEMS de Frieda Hughes, Harper Collins, Outubro 1998. Frieda Hughes tinha apenas três anos quando a mãe morreu. Ao contrário do que se poderia pensar, ela afirma que o pai sempre a educou, e ao irmão mais novo, na recordação da mãe. “Cresci a pensar nela como num anjo”. Frieda diz também que só percebeu quão famosos eram os seus progenitores quando teve de lhes estudar as obras, na escola. Ela própria começou a escrever poemas na juventude. Depois de uma adolescência tumultuosa marcada pela anorexia e por um casamento precipitado, aos 19 anos, viveu durante algum tempo na Austrália em Wooroloo, um local que serve de título ao seu volume de poemas. Casada com um pintor húngaro Frieda é também pintora e autora de livros para crianças. Sobre o culto que rodeia a figura da sua mãe, revolta-se contra aqueles que “a voltam e tornam a virar como carne em carvões em brasa” e afirma que, apesar de sentir que nunca saberá a verdade sobre o seu suicídio, não deseja remexer em feridas antigas.
WHERE DID IT ALL GO RIGHT de A. Alvarez, Richard Cohen Books, Setembro 1999. O crítico e escritor A. Alvarez confessa que falhou no seu apoio a Plath. Foi ele quem deu abrigo a Hughes quando este saiu de casa e foi ele também quem passou o último Natal (de 1962) com Sylvia. “ Falhei como amigo. Tinha 30 anos e era estúpido. Não percebia nada de depressões” disse Alvarez numa entrevista. Esta autobiografia complementa “The Savage God”, uma obra que relata e analisa o suicídio de Plath.
Filme "SYLVIA" - Direcção - Christine Jeffs: Script - John Brownlow; distribuição - Focus Features. COM: Gwyneth Paltrow (Sylvia Plath), Daniel Craig (Ted Hughes), Jared Harris (A. Alvarez), Blythe Danner (Aurelia Plath), Amira Casar (Assia Wevill) and Michael Gambon (Professor Thomas)-

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

No dia dos 200 anos de ORGULHO e PRECONCEITO de Jane Austen



No dia em que se celebram os 200 anos da publicação de ORGULHO e PRECONCEITO de Jane Austen , uma brevíssima incursão pelos estudos "austeneanos":
Nota: este texto faz parte de uma conferência sobre Jane Austen, proferida por mim, na Culturgest, Lisboa, inserida no ciclo Marcas,Abril- Maio, 2007.
“Depois da morte de Jane Austen, em 1817, os seus romances perderam popularidade com a escalada do romantismo e, mais tarde, com a crítica marxista que concordou com a apreciação de Ralph Waldo Emerson de que a escritora tinha sido uma conformista ao criar heroínas a quem não permitia a liberdade de seguirem os seus anseios mais profundos e de se libertarem dos constrangimentos da sociedade. Emerson concordava com a sua contemporânea Charlotte Brontë que criticou Austen chamando-lhe qualquer coisa como fria, racional, insensível, incapaz de expressar sentimentos genuínos, anseios do coração e dores pungentes da alma. (palavras minhas). Recorde-se, também que, quando Madame de Staël esteve em Londres quiseram proporcionar um encontro entre ela e Jane – esta esquivou-se habilmente - e a famosa e aclamada dama de Letras declarou que Austen era “vulgaire”.
O relutante Walter Scott não conseguiu, todavia, fugir à sua influência, embora lá no fundo se ressentisse da mordacidade da escritora; mas o sólido e visionário Richard Whately já em 1821 a comparava a Homero e a Shakespeare, opinião que partilhou com Lord Macauly (“ Como vêm, eu próprio tal como o senhor Darcy, não me preocuparei em ser orgulhoso”, escreveu ele às irmãs) ”e foi mais tarde recuperada por Harold Bloom. O filósofo e crítico George Henry Lewes escreveu entusiasticamente sobre Jane Austen numa série de artigos (entre 1840 e 1850) “The Novels of Jane Austen”.
No século XX, lenta mas inexoravelmente a reputação de Austen foi recuperada, apesar de alguns revezes como os duros golpes desferidos por Kingsley Amis e Edward Said. Foi Edmund Wilson, o mais importante crítico do século XX ( tal como Lionel Trilling, não esqueçamos) quem escreveu longamente sobre Austen tecendo-lhe louvores, sendo famosa a sua intervenção junto de Vladimir Nabokov quando este procedia à escolha de autores para o curso de Literatura Europeia na Universidade de Cornell. Apesar de uma resistência inicial – Nabokov era um misógino puro e só tinha escolhido escritores homens –o russo acabou por se render ao efeito Austen. Não será necessário referir a inteligentíssima apreciação que Virgínia Woolf fez da obra Austeneana” – contrariou em absoluto a ideia do conformismo das heroínas e contrapôs que basta atentar em Elizabeth, Catherine, Emma, Fanny e Anne (para mencionar apenas algumas das suas criações mais extraordinárias) para se chegar à conclusão de que estas figuras femininas possuem uma individualidade muito marcante e nada têm de dóceis. E até George Steiner demonstra que , ao contrário do que se diz, Jane Austen, “ao prestar tão detalhada e incisiva atenção aos aspectos da classe, da propriedade e do rendimento tornam-na a nossa romancista protomarxista emblemática” (em A Poesia do Pensamento, ed. Relógio D’ Água, Lisboa)

sábado, 19 de janeiro de 2013

Comunidades de Leitores CULTURGEST, Lisboa

Já começou a nova temporada da Comunidade de Leitores  na Culturgest, em Lisboa. A primeira sessão, na passada quinta-feira, foi muito concorrida e, como sempre, participativa e animada. Juntaram-se ao grupo novos membros e a discussão decorreu com enorme vivacidade e grande interesse.
Aqui fica o PROGRAMA completo:

COMUNIDADE LEITORES
CULTURGEST
Janeiro – Março, 2013

Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway: para onde foi a “geração perdida”? 

Década de 1920: chamaram-lhe a “era do Jazz”, a “idade de ouro”, os “loucos anos vinte”. Depois do trauma da Iª Grande Guerra, a Europa e os Estados Unidos pareciam ter recuperado o fôlego. Faziam-se fortunas de um dia para o outro, o champanhe corria a rodos e as festas não tinham fim. Francis Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, amigos e rivais, participaram activamente nesse tempo  em que Wall Street se misturava com a Côte d’Azur, a Arte com a alta finança. Scott e Ernest rapidamente se destacaram pela sua forma de estar e pela originalidade da sua escrita. Figuras actuantes no torvelinho do mundo, as suas acidentadas vidas tornaram-se matéria literária, explorada e revisitada, o que lhes valeu um lugar incontestado no panteão da literatura americana e mundial. Muito diferentes entre si, embora cúmplices no álcool e nas angústias existenciais, transpuseram para as respectivas obras os excessos, os traumas e a energia maníaca desses tempos conturbados. Nos seus romances e contos escalpelizaram a primeira metade do século XX, com todo o seu cortejo de guerras e banquetes, riqueza obscena e pobreza incalculável. Em Paris, ocuparam lugar cativo na grande revolução artística que juntou, principalmente em torno de Gertrude Stein, escritores, músicos, bailarinos, coreógrafos, pintores, estrelas de cinema, figuras da sociedade e da alta finança, ansiosos por participarem, a todo o custo, no (aparentemente) interminável banquete orgiástico que terminou abruptamente com a IIª Grande Guerra. 
É possível avançar com a ideia estereotipada de que Fitzgerald foi o rapaz bonito, tímido, sensível, inseguro e terno que escreveu sobre os confrontos mortalmente nefastos entre cônjuges e amantes e Hemingway foi o valente espalha-brasas, determinado, mulherengo e histriónico que escreveu sobre a guerra, a acção, a caça e as aventuras amorosas? Sim e não. Através das suas obras é possível detectar as contradições e incongruências, as falhas e oscilações das suas vidas, dedicadas à escrita e à intensa experiência existencial, mas atravessadas por tragédias e desregramentos.
Nesta altura em que a famosa “crise” mundial parece reflectir os grandes embates históricos do século XX, vale a pena reler as obras destes dois últimos românticos que estabeleceram os alicerces para uma literatura que moldou e marcou as gerações seguintes.

17 Janeiro, - Belos e Malditos - F. Scot Fitzgerald

31 Janeiro, - O Adeus às Armas – Ernest Hemingway

14 Fevereiro, - Paris é Uma Festa - Ernest Hemingway

28 Fevereiro - Terna é a Noite - F. Scot Fitzgerald

7 Março - O Sol Nasce Sempre - Ernest Hemingway

21 Março - O Último Magnate - F. Scot Fitzgerald

Nota: deixa-se ao critério dos participantes, a escolha das respectivas edições.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Lista dos melhores livros de 2012: AUTORES PORTUGUESES


30 Dezembro, 2012
Ora então julgavam que as célebres LISTAS são só para os jornais? Pois bem, aqui vai a MINHA LISTA dos livros de autores portugueses de 2012 – e só de 2012 – que li e de que mais gostei. Por favor, atentem às notas finais. Vá lá, é só mais um esforço.
Ficção:
1 -“As Mulheres da Fonte Nova”, Alice Brito, Editorial Planeta
2 - Teoria Geral do Esquecimento José Eduardo Agualusa, ed. Dom Quixote
3 – “O Murmúrio do Mundo”, Almeida Faria, Ed. Tinta da China
4 - “Somos todos um Bocado Ciganos”, Manuel Jorge Marmelo, Ed. Quetzal
5 - “E a Noite Roda”, Alexandra Lucas Coelho, ed. Tinta-da-china
6 - “A Mulher-Casa”, Tânia Ganho, Porto Editora
7 - O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro, D. Quixote

Não -Ficção
Biografia – “Rómulo de Carvalho. Príncipe Perfeito”, Cristina Carvalho, ed. Estampa
 - Diário – “O Próximo Outono”, João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, ed. Relógio D’ Água
Política, Sociedade – Estado de Guerra de Clara Ferreira Alves, ed. Clube do Autor
Ensaio – Sobre Julião Sarmento, Antologia de Textos, ed. Quetzal
Poesia:
1       - Poesia Reunida, Maria do Rosário Pedreira, ed. Quetzal
2       - Poemas para Leonor, Maria Teresa Horta, ed. Dom Quixote
3       - Como se Desenha uma Casa, Manuel António Pina, Assírio & Alvim.
Duas notas:
4       1ª: trata-se apenas das obras que li – faltam-me ler “Idade Maior” de Julieta Monginho, ed. Estampa, “Agora e na Hora da Nossa Morte”, de Susana Moreira Marques, ed. Tinta da China; Dentro de Ti Ver o Mar, Inês Pedrosa, ed. Dom Quixote, obras que me despertaram muito interesse;
2ª Não gosto de separar a Literatura portuguesa de tudo o resto mas nem sempre faço o que me parece mais ajuizado.
BOAS ESCRITAS, BOAS LEITURAS para 2013



quinta-feira, 4 de outubro de 2012



Comunidade de Leitores. É HOJE.
Na CULTURGEST, vamos sondar os mistérios de A VIAGEM (The Voyage Out) de Virginia Woolf, o seu primeiro romance, escrito e reescrito, vezes sem fim. O mais violentamente feminista de todos os seus romances, aquele em que VW se lançou na perigosa viagem da escrita... e da loucura.
Viria a ser publicado pela primeira vez, em 1915, em Inglaterra, mas começou por rascunhos delineados entre 1906/07. Em 1910, surgiu a primeira versão – não publicada – intitulada “Melymbrosia.” Pelo meio, houve mortes trágicas, surtos depressivos, internamentos e tentativas de suicídio. Virgínia começou o livro como jovem mulher, que ainda não se casou e que carrega já vários traumas, e terminou-o no regresso de uma lua-de-mel onde todos os seus receios de concretizam – medo da intimidade, estranheza em relação ao ser masculino, sentimento de perda.
Um romance sobre o casamento e os seus perigos - como contraponto a Jane Austen, sombra tutelar de Virginia.
De notar que este romance é uma espécie de resposta a "Coração das Trevas" de Joseph Conrad, autor muito admirado por Virginia Woolf. Curioso, também, o facto de Leonard Woolf ter publicado "A Village in the Jungle" antes de A Viagem.
Nas imagens: Virginia e Virginia e Leonard, no dia do seu casamento. A escritora snob, a intelectual insegura e o seu "penniless Jew".

quinta-feira, 20 de setembro de 2012


A reflexão de MIGUEL TORGA sobre a "descolonização" vem a propósito da leitura, marcada para hoje - início da nova COMUNIDADE de LEITORES, na CULTURGEST - de O RETORNO, de Dulce Maria Cardoso, ed Tinta da China, um extraordinário romance que relata o regresso dramático da então colónia de Angola, em 1975, de cerca de um milhão de pessoas - ou meio milhão - e a iniciação de um jovem de quinze anos num novo/velho mundo. Estes acontecimentos marcam, simbolicamente, o fim do Império - como hoje em dia assistimos ao fim do País. Mas agora não há lugar para retornos, apenas lugares de fuga.

Escreve Miguel Torga ..."Retorno maciço dos portugueses do Ultramar. Na aflição da fuga, até de barco de pesca vieram muitos, a ponto de alguém dizer que fomos descobrir o mundo de caravela e regressámos dele de traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem grandeza de uma aventura. Metade de Portugal a ser remorso da outra metade. Os judeus da diáspora ansiavam por regressar a Canaan. Povo messânico também mas de sentido exógeno, para nós o regresso é o exílio. A nossa Terra Prometida estava fora de Portugal.

--- MIGUEL TORGA, Diário XII, 3ª edição revista

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

COMUNIDADE de LEITORES, CULTURGEST, Lisboa


Programa da próxima COMUNIDADE de LEITORES, CULTURGEST, Lisboa.
Inscrições em www.culturgest.pt

"As viagens são os viajantes"
Bernardo Soares

Viajar e “fazer turismo” são atividades diferentes, embora partilhem o mesmo impulso físico, as mesmas alegrias e, por vezes, as mesmas agruras e privações. Mas se é verdade que as primeiras viagens se fizeram por necessidade absoluta – os nossos longínquos antepassados seguiam o rastro dos alimentos, fugiam de condições atmosféricas adversas, procuravam abrigo e comida onde lhes era mais propício – o turismo nasceu com a Revolução Industrial e com a “invenção” do conceito de lazer, algo inconcebível antes do século XIX. No entanto, o anseio de viajar tem raízes mais complexas e serve de metáfora da própria existência: à roda do quarto (como de Maistre) ou em paragens longínquas, por razões económicas (descoberta de novos lugares e de novas abastanças), políticas (espionagem, diplomacia), militares (conquistas, ocupação de território), religiosas (peregrinações, cruzadas), ou culturais (a partir do século XVIII, o “Grand Tour” tornou-se uma obrigação para o ritual da aprendizagem), o ato de partir, de procurar, de encontrar (ou não) é ânsia para muitos e maldição para alguns. Nesta Comunidade percorreremos os espaços de iniciação com Woolf e acompanharemos viagens de doloroso (re)conhecimento na obra de Dulce Maria Cardoso e na de Conrad – em direções opostas.
Theroux é de opinião que os turistas nunca sabem onde estiveram e os viajantes nunca sabem para onde vão, como bem demonstra na sua epopeia pela Índia e Chatwin, o grande vagabundo, cria, em Utz, um estranho não-viajante. Com Garrett e a viagem “novelística” fecha-se este ciclo de leituras, durante o qual tentaremos detetar as causas – curiosidade, inquietação, desejo, fuga, aprendizagem, emoção, antídoto contra o medo – e os efeitos das deambulações dos grandes e eternos inquietos. Mark Twain afirmou: “não existe nada mais prejudicial para o preconceito, para o fanatismo e para a intolerância do que as viagens”. Não podia ter mais razão. Viajemos, então, pelas palavras.

20 de setembro
O Retorno, Dulce Maria Cardoso, Ed. Tinta-da-China

4 de outubro
A Viagem, Virgínia Woolf, Ed. Presença

8 de novembro
Coração das Trevas, Joseph Conrad, Ed. Relógio D’Água
[ler também a Ode Marítima de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)]

22 de novembro
Utz, Bruce Chatwin, Ed. Quetzal

6 de dezembro
O Grande Bazar Ferroviário, Paul Theroux, Ed. Quetzal

20 de dezembro
Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett (qualquer edição)

Travelling and tourism are different activities, despite sharing the same joys and disappointments. While people first travelled out of necessity, tourism is based on the idea of “leisure”. The wish to travel can, however, be a metaphor for life itself. In this Community of Readers, we take our first steps with Woolf and move on to Dulce Maria Cardoso, Conrad, Theroux, Chatwin and Garrett, seeking to find why they travelled. Mark Twain said: “Travel is fatal to prejudice, bigotry, and narrow-mindedness”. How right he was! So, let us travel through words.