segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
No dia dos 200 anos de ORGULHO e PRECONCEITO de Jane Austen
No dia em que se celebram os 200 anos da publicação de ORGULHO e PRECONCEITO de Jane Austen , uma brevíssima incursão pelos estudos "austeneanos":
Nota: este texto faz parte de uma conferência sobre Jane Austen, proferida por mim, na Culturgest, Lisboa, inserida no ciclo Marcas,Abril- Maio, 2007.
“Depois da morte de Jane Austen, em 1817, os seus romances perderam popularidade com a escalada do romantismo e, mais tarde, com a crítica marxista que concordou com a apreciação de Ralph Waldo Emerson de que a escritora tinha sido uma conformista ao criar heroínas a quem não permitia a liberdade de seguirem os seus anseios mais profundos e de se libertarem dos constrangimentos da sociedade. Emerson concordava com a sua contemporânea Charlotte Brontë que criticou Austen chamando-lhe qualquer coisa como fria, racional, insensível, incapaz de expressar sentimentos genuínos, anseios do coração e dores pungentes da alma. (palavras minhas). Recorde-se, também que, quando Madame de Staël esteve em Londres quiseram proporcionar um encontro entre ela e Jane – esta esquivou-se habilmente - e a famosa e aclamada dama de Letras declarou que Austen era “vulgaire”.
O relutante Walter Scott não conseguiu, todavia, fugir à sua influência, embora lá no fundo se ressentisse da mordacidade da escritora; mas o sólido e visionário Richard Whately já em 1821 a comparava a Homero e a Shakespeare, opinião que partilhou com Lord Macauly (“ Como vêm, eu próprio tal como o senhor Darcy, não me preocuparei em ser orgulhoso”, escreveu ele às irmãs) ”e foi mais tarde recuperada por Harold Bloom. O filósofo e crítico George Henry Lewes escreveu entusiasticamente sobre Jane Austen numa série de artigos (entre 1840 e 1850) “The Novels of Jane Austen”.
No século XX, lenta mas inexoravelmente a reputação de Austen foi recuperada, apesar de alguns revezes como os duros golpes desferidos por Kingsley Amis e Edward Said. Foi Edmund Wilson, o mais importante crítico do século XX ( tal como Lionel Trilling, não esqueçamos) quem escreveu longamente sobre Austen tecendo-lhe louvores, sendo famosa a sua intervenção junto de Vladimir Nabokov quando este procedia à escolha de autores para o curso de Literatura Europeia na Universidade de Cornell. Apesar de uma resistência inicial – Nabokov era um misógino puro e só tinha escolhido escritores homens –o russo acabou por se render ao efeito Austen. Não será necessário referir a inteligentíssima apreciação que Virgínia Woolf fez da obra Austeneana” – contrariou em absoluto a ideia do conformismo das heroínas e contrapôs que basta atentar em Elizabeth, Catherine, Emma, Fanny e Anne (para mencionar apenas algumas das suas criações mais extraordinárias) para se chegar à conclusão de que estas figuras femininas possuem uma individualidade muito marcante e nada têm de dóceis. E até George Steiner demonstra que , ao contrário do que se diz, Jane Austen, “ao prestar tão detalhada e incisiva atenção aos aspectos da classe, da propriedade e do rendimento tornam-na a nossa romancista protomarxista emblemática” (em A Poesia do Pensamento, ed. Relógio D’ Água, Lisboa)
sábado, 19 de janeiro de 2013
Comunidades de Leitores CULTURGEST, Lisboa
Já começou a nova temporada da Comunidade de Leitores na Culturgest, em Lisboa. A primeira sessão, na passada quinta-feira, foi muito concorrida e, como sempre, participativa e animada. Juntaram-se ao grupo novos membros e a discussão decorreu com enorme vivacidade e grande interesse.
Aqui fica o PROGRAMA completo:
COMUNIDADE LEITORES
CULTURGEST
Janeiro – Março, 2013
Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway: para onde foi a “geração perdida”?
Década de 1920: chamaram-lhe a “era do Jazz”, a “idade de ouro”, os “loucos anos vinte”. Depois do trauma da Iª Grande Guerra, a Europa e os Estados Unidos pareciam ter recuperado o fôlego. Faziam-se fortunas de um dia para o outro, o champanhe corria a rodos e as festas não tinham fim. Francis Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, amigos e rivais, participaram activamente nesse tempo em que Wall Street se misturava com a Côte d’Azur, a Arte com a alta finança. Scott e Ernest rapidamente se destacaram pela sua forma de estar e pela originalidade da sua escrita. Figuras actuantes no torvelinho do mundo, as suas acidentadas vidas tornaram-se matéria literária, explorada e revisitada, o que lhes valeu um lugar incontestado no panteão da literatura americana e mundial. Muito diferentes entre si, embora cúmplices no álcool e nas angústias existenciais, transpuseram para as respectivas obras os excessos, os traumas e a energia maníaca desses tempos conturbados. Nos seus romances e contos escalpelizaram a primeira metade do século XX, com todo o seu cortejo de guerras e banquetes, riqueza obscena e pobreza incalculável. Em Paris, ocuparam lugar cativo na grande revolução artística que juntou, principalmente em torno de Gertrude Stein, escritores, músicos, bailarinos, coreógrafos, pintores, estrelas de cinema, figuras da sociedade e da alta finança, ansiosos por participarem, a todo o custo, no (aparentemente) interminável banquete orgiástico que terminou abruptamente com a IIª Grande Guerra.
É possível avançar com a ideia estereotipada de que Fitzgerald foi o rapaz bonito, tímido, sensível, inseguro e terno que escreveu sobre os confrontos mortalmente nefastos entre cônjuges e amantes e Hemingway foi o valente espalha-brasas, determinado, mulherengo e histriónico que escreveu sobre a guerra, a acção, a caça e as aventuras amorosas? Sim e não. Através das suas obras é possível detectar as contradições e incongruências, as falhas e oscilações das suas vidas, dedicadas à escrita e à intensa experiência existencial, mas atravessadas por tragédias e desregramentos.
Nesta altura em que a famosa “crise” mundial parece reflectir os grandes embates históricos do século XX, vale a pena reler as obras destes dois últimos românticos que estabeleceram os alicerces para uma literatura que moldou e marcou as gerações seguintes.
17 Janeiro, - Belos e Malditos - F. Scot Fitzgerald
31 Janeiro, - O Adeus às Armas – Ernest Hemingway
14 Fevereiro, - Paris é Uma Festa - Ernest Hemingway
28 Fevereiro - Terna é a Noite - F. Scot Fitzgerald
7 Março - O Sol Nasce Sempre - Ernest Hemingway
21 Março - O Último Magnate - F. Scot Fitzgerald
Nota: deixa-se ao critério dos participantes, a escolha das respectivas edições.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Lista dos melhores livros de 2012: AUTORES PORTUGUESES
Ora então julgavam que as célebres LISTAS são só para os jornais? Pois bem, aqui vai a MINHA LISTA dos livros de autores portugueses de 2012 – e só de 2012 – que li e de que mais gostei. Por favor, atentem às notas finais. Vá lá, é só mais um esforço.
Ficção:
1 -“As Mulheres da Fonte Nova”, Alice Brito, Editorial Planeta
2 - Teoria Geral do Esquecimento José Eduardo Agualusa, ed. Dom Quixote
3 – “O Murmúrio do Mundo”, Almeida Faria, Ed. Tinta da China
4 - “Somos todos um Bocado Ciganos”, Manuel Jorge Marmelo, Ed. Quetzal
5 - “E a Noite Roda”, Alexandra Lucas Coelho, ed. Tinta-da-china
6 - “A Mulher-Casa”, Tânia Ganho, Porto Editora
7 - O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro, D. Quixote
Não -Ficção
Biografia – “Rómulo de Carvalho. Príncipe Perfeito”, Cristina Carvalho, ed. Estampa
- Diário – “O Próximo Outono”, João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, ed. Relógio D’ Água
Política, Sociedade – Estado de Guerra de Clara Ferreira Alves, ed. Clube do Autor
Ensaio – Sobre Julião Sarmento, Antologia de Textos, ed. Quetzal
Poesia:
1 - Poesia Reunida, Maria do Rosário Pedreira, ed. Quetzal
2 - Poemas para Leonor, Maria Teresa Horta, ed. Dom Quixote
3 - Como se Desenha uma Casa, Manuel António Pina, Assírio & Alvim.
Duas notas:
Duas notas:
4 1ª: trata-se apenas das obras que li – faltam-me ler “Idade Maior” de Julieta Monginho, ed. Estampa, “Agora e na Hora da Nossa Morte”, de Susana Moreira Marques, ed. Tinta da China; Dentro de Ti Ver o Mar, Inês Pedrosa, ed. Dom Quixote, obras que me despertaram muito interesse;
2ª Não gosto de separar a Literatura portuguesa de tudo o resto mas nem sempre faço o que me parece mais ajuizado.
BOAS ESCRITAS, BOAS LEITURAS para 2013
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Comunidade de Leitores. É HOJE.
Na CULTURGEST, vamos sondar os mistérios de A VIAGEM (The Voyage Out) de Virginia Woolf, o seu primeiro romance, escrito e reescrito, vezes sem fim. O mais violentamente feminista de todos os seus romances, aquele em que VW se lançou na perigosa viagem da escrita... e da loucura.
Viria a ser publicado pela primeira vez, em 1915, em Inglaterra, mas começou por rascunhos delineados entre 1906/07. Em 1910, surgiu a primeira versão – não publicada – intitulada “Melymbrosia.” Pelo meio, houve mortes trágicas, surtos depressivos, internamentos e tentativas de suicídio. Virgínia começou o livro como jovem mulher, que ainda não se casou e que carrega já vários traumas, e terminou-o no regresso de uma lua-de-mel onde todos os seus receios de concretizam – medo da intimidade, estranheza em relação ao ser masculino, sentimento de perda.
Um romance sobre o casamento e os seus perigos - como contraponto a Jane Austen, sombra tutelar de Virginia.
De notar que este romance é uma espécie de resposta a "Coração das Trevas" de Joseph Conrad, autor muito admirado por Virginia Woolf. Curioso, também, o facto de Leonard Woolf ter publicado "A Village in the Jungle" antes de A Viagem.
Nas imagens: Virginia e Virginia e Leonard, no dia do seu casamento. A escritora snob, a intelectual insegura e o seu "penniless Jew".
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
A reflexão de MIGUEL TORGA sobre a "descolonização" vem a propósito da leitura, marcada para hoje - início da nova COMUNIDADE de LEITORES, na CULTURGEST - de O RETORNO, de Dulce Maria Cardoso, ed Tinta da China, um extraordinário romance que relata o regresso dramático da então colónia de Angola, em 1975, de cerca de um milhão de pessoas - ou meio milhão - e a iniciação de um jovem de quinze anos num novo/velho mundo. Estes acontecimentos marcam, simbolicamente, o fim do Império - como hoje em dia assistimos ao fim do País. Mas agora não há lugar para retornos, apenas lugares de fuga.
Escreve Miguel Torga ..."Retorno maciço dos portugueses do Ultramar. Na aflição da fuga, até de barco de pesca vieram muitos, a ponto de alguém dizer que fomos descobrir o mundo de caravela e regressámos dele de traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem grandeza de uma aventura. Metade de Portugal a ser remorso da outra metade. Os judeus da diáspora ansiavam por regressar a Canaan. Povo messânico também mas de sentido exógeno, para nós o regresso é o exílio. A nossa Terra Prometida estava fora de Portugal.
--- MIGUEL TORGA, Diário XII, 3ª edição revista
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
COMUNIDADE de LEITORES, CULTURGEST, Lisboa
Programa da próxima COMUNIDADE de LEITORES, CULTURGEST, Lisboa.
Inscrições em www.culturgest.pt
"As viagens são os viajantes"
Bernardo Soares
Viajar e “fazer turismo” são atividades diferentes, embora partilhem o mesmo impulso físico, as mesmas alegrias e, por vezes, as mesmas agruras e privações. Mas se é verdade que as primeiras viagens se fizeram por necessidade absoluta – os nossos longínquos antepassados seguiam o rastro dos alimentos, fugiam de condições atmosféricas adversas, procuravam abrigo e comida onde lhes era mais propício – o turismo nasceu com a Revolução Industrial e com a “invenção” do conceito de lazer, algo inconcebível antes do século XIX. No entanto, o anseio de viajar tem raízes mais complexas e serve de metáfora da própria existência: à roda do quarto (como de Maistre) ou em paragens longínquas, por razões económicas (descoberta de novos lugares e de novas abastanças), políticas (espionagem, diplomacia), militares (conquistas, ocupação de território), religiosas (peregrinações, cruzadas), ou culturais (a partir do século XVIII, o “Grand Tour” tornou-se uma obrigação para o ritual da aprendizagem), o ato de partir, de procurar, de encontrar (ou não) é ânsia para muitos e maldição para alguns. Nesta Comunidade percorreremos os espaços de iniciação com Woolf e acompanharemos viagens de doloroso (re)conhecimento na obra de Dulce Maria Cardoso e na de Conrad – em direções opostas.
Theroux é de opinião que os turistas nunca sabem onde estiveram e os viajantes nunca sabem para onde vão, como bem demonstra na sua epopeia pela Índia e Chatwin, o grande vagabundo, cria, em Utz, um estranho não-viajante. Com Garrett e a viagem “novelística” fecha-se este ciclo de leituras, durante o qual tentaremos detetar as causas – curiosidade, inquietação, desejo, fuga, aprendizagem, emoção, antídoto contra o medo – e os efeitos das deambulações dos grandes e eternos inquietos. Mark Twain afirmou: “não existe nada mais prejudicial para o preconceito, para o fanatismo e para a intolerância do que as viagens”. Não podia ter mais razão. Viajemos, então, pelas palavras.
20 de setembro
O Retorno, Dulce Maria Cardoso, Ed. Tinta-da-China
4 de outubro
A Viagem, Virgínia Woolf, Ed. Presença
8 de novembro
Coração das Trevas, Joseph Conrad, Ed. Relógio D’Água
[ler também a Ode Marítima de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)]
22 de novembro
Utz, Bruce Chatwin, Ed. Quetzal
6 de dezembro
O Grande Bazar Ferroviário, Paul Theroux, Ed. Quetzal
20 de dezembro
Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett (qualquer edição)
Travelling and tourism are different activities, despite sharing the same joys and disappointments. While people first travelled out of necessity, tourism is based on the idea of “leisure”. The wish to travel can, however, be a metaphor for life itself. In this Community of Readers, we take our first steps with Woolf and move on to Dulce Maria Cardoso, Conrad, Theroux, Chatwin and Garrett, seeking to find why they travelled. Mark Twain said: “Travel is fatal to prejudice, bigotry, and narrow-mindedness”. How right he was! So, let us travel through words.
sábado, 4 de agosto de 2012
GORE VIDAL, O SENTIDO da HISTÓRIA
O SENTIDO DA HISTÓRIA
In Jornal Público , 2009
Gore Vidal e o seu companheiro de mais de 50 anos, Howars Austen, têm já duas campas reservadas, lado a lado, no cemitério de Rock Creek, em Washington. Nas respectivas pedras estão gravados os nomes e as datas de nascimento, 1925 e 1928, respectivamente, com um hífen à frente e o espaço para colocar as datas finais. Nesse mesmo cemitério está enterrado Jimmie Trimble, que morreu com 20 anos em Iwo Jima e foi o grande amor de Vidal, a inspiração para o seu romance homoerótico “A Cidade e o Pilar”, publicado em 1948, que lhe deu fama e proveito, alguns dissabores e muita notoriedade. Este detalhe, aparentemente sem importância, ajuda a compreender a forma como Vidal encara a sua própria história. Quando se fala deste autor, hoje em dia, é impossível evitar a referência a um certo numero de informações e características que se lhe colam à pele como um fato de bom corte, permanentemente usado e renovado. Ele é uma espécie de último moicano, um guerreiro em luta por uma interpretação da História à margem da manipulação dos “media” e em permanente confronto com o lugar comum e a opinião publica. As suas origens, o seu percurso, a sua energia, a sua ironia, as suas preferências sexuais, a lista de notáveis que ele conta entre os seus amigos (e inimigos) fazem dele notícia permanente, algo que certamente o irrita e delicia, simultaneamente. O seu sucesso deve-se, como o de Andy Wharol por exemplo, ao facto de ter sabido sempre misturar a “low” com a “high culture”, a elegância de um grande senhor com o vigor de um combatente. Os seus livros torrenciais, delirantes, majestosos e sempre controversos, falam de sexo, violência, corrupção, dinheiro e poder, conceitos que tendem a fascinar e, ao mesmo tempo, assustar as pessoas. Vidal tem feito muito cinema e televisão e sabe o que cativa audiências, usando e abusando do humor para fazer as suas vitríolocas críticas à sociedade contemporânea e ao poder estabelecido. Gosta de dizer que ele e Noam Chomsky são os únicos radicais da América, onde 90% da população pertence ao status quo, isto é, são gente que apenas se preocupa em “construir carreiras”. Ele prefere repensar a História e contestar tudo o que já foi dito. A política é uma das suas paixões, algo que ele herdou do avô, o senador cego, T.P. Gore que caiu em desgraça durante a administração Roosevelt, criava galinhas nos terrenos da casa em Rock Creek Park, onde Vidal viveu até aos dez anos, e chegou a ser julgado (e ilibado) por tentativa de violação na pessoa de “uma tal Minnie Bond”, num hotel em Washington. T.P. ou “Dah”, como lhe chamava o neto, casou com Nina por gostar de lhe ouvir a voz, ignorando o facto de ela ser alcoólica, uma característica herdada pela detestada mãe de Vidal. (“Tenho que admitir que, para uma criança, a única vantagem de ter uma mãe alcoólica é que tem acesso, prematuramente a muitas informações preciosas” Gore dixit) O senador Gore, que inculcou no neto o “sentido da honra” e a admiração pela coragem pessoal, ensinou-lhe também como navegar nas águas turvas da política e transmitiu-lhe o sentimento de que pertencia a um diminuto grupo de seres de excepção numa sociedade que se considerava democrática. Vidal diz que herdou” a capacidade de detectar as notas falsas nas árias com que os guardadores de rebanhos embalam as nossas ovelhas”, querendo dizer com isso que rejeitou sempre as demagogias e nunca embarcou em promessas vãs.
Gore nasceu em 1925 na Academia de West Point, onde o pai, um homem que foi dono de companhias de aviação (e impulsionador da TWA, Eastern e Northeast Airlines) e o grande amor de Amelia Earhart, era instrutor de voo. Em “Palimpsest”, um livro de memórias publicado em 1997, fala detalhadamente do pai e da mãe, dos laços familiares que o ligavam a John e Jackie Kennedy e das suas inúmeras amizades, entre as quais se contavam Tenesse Williams, (The Glorious Bird) com quem partilhou um apartamento em Paris, Truman Capote, Jack Kerouac, com quem passou uma noite de sexo “inexplicável” no Chelsea Hotel, Peggy Guggenheim, Paul Bowles, Marlon Brando e outros grandes deste mundo.
Presentemente, Gore vive grande parte do ano na sua villa encravada num penhasco sobre o mar Tirreno perto de Ravello, uma cidade italiana por onde passaram Gide, D.H e Frida Lawrence, Maynard Keynes e Lytton Strachey e onde Stokowski e Greta Garbo tiveram um “ninho de amor”. (Vidal conta-se entre as atracções turísticas da terra e é mencionado nos guias como, “uma das antiguidades, com Pompeia, a não perder”.) O cenário que desfruta das suas janelas agrada-lhe particularmente, uma vez que lhe recorda o mundo clássico pagão, hedonista e iconoclasta que ele admira e recorda com certa nostalgia. (Em 1964 publicou “Julian”, a história do imperador romano apóstata que tentou restaurar o paganismo). Com Austen, recebe os seus inúmeros e célebres convidados com a grandeza e simplicidade de um verdadeiro sibarita. Vidal gosta de lembrar Montaigne e a ligação deste com Étienne de la Boétie que lhe recorda a sua situação com Austen com quem afirma não praticar o sexo, sendo esse o segredo do sucesso da união. O seu amor de adolescência por Jimmie Trimble, que morreu com dezassete anos, foi absolutamente físico. Mas esse ideal de juventude ficou para sempre enterrado nas areias de Iwo Jima e Vidal gosta de especular, um pouco misteriosamente, sobre as relações que manteve com Anaïs Nin e Diana Lynn, sem esquecer o “choque erótico” que sentiu quando a sua perna roçou a de Jackie Kennedy, num passeio de barco. (“Não se passou nada” afirma ele, laconicamente, em Palimpsest).
Agora, ao falar de sexo, prefere lembrar a frase de Sócrates, quando este afirmou que, com a idade “estava finalmente livre desse amo insano e cruel.” E acha que “nunca se deve ter sexo com amigos mas sim com perfeitos estranhos”. Uma fantasia muito cinematográfica. A sua ligação com Hollywood leva-o a manter uma outra casa, em Los Angeles, onde vai regularmente para estar com os amigos, Paul (Newman) e Joanne (Woodward), cujo casamento apadrinhou. (Tem outro afilhado, o filho de Tim Robbins e Susan Sarandon). E é importante não esquecer que ele assinou os guiões de filmes como “Ben-Hur”, “Paris já está a arder?”, ”Bruscamente no Verão Passado ”, o que, definitivamente o coloca entre as glórias da Meca do cinema.
Vidal que já foi candidato democrata ao Congresso dos E.U.A com o slogan “Get more with Gore” é uma velha raposa da política e um crítico acerbo, com opiniões que nem sempre lhe trazem popularidade. É decididamente contra a política externa americana e chegou a expressar toda a sua hostilidade em relação à participação do seu País na ultima Grande Guerra. O “Smithsonian Institution” que vai agora ser publicado em Portugal, é um manifesto contra a vocação imperial americana e uma sátira mordaz às teorias dos seus defensores.
“The Smithsonian Institution”, (um livro cuja capa, na edição americana, é absolutamente “camp”, esperando-se que seja mantida pela edição portuguesa) é uma mistura delirante de géneros como a ficção científica, o romance histórico, a sátira política e, neste caso velada, autobiografia, em que toda a experiência e conhecimentos do autor sobre o confuso mundo da política é utilizado em pleno com um resultado nem sempre esclarecedor mas decididamente divertido e perturbante. A acção tem início durante o período da Páscoa, no ano de 1939, mais propriamente na Sexta-Feira Santa, “ quando as nuvens negras da guerra se amontoam sobre a Europa” e a América está prestes a pôr em marcha toda a sua política imperialista. Um jovem prodígio de 13 anos, especialista em matemáticas e física quântica, cujo nome é tão misterioso como a sua missão, aluno de St Albans que, por sinal, era a escola de Gore Vidal, o lugar onde também conheceu Jimmie Trimble, é chamado a comparecer no Smithsonian, o complexo de museus e laboratórios na capital dos Estados Unidos. Esse local, aparentemente deserto quando não há visitantes, guarda a chave de inúmeros segredos. Quando as portas se fecham sobre T., ele descobre que as figuras históricas de cera do museu ganham vida própria, dedicando-se a várias actividades. T. penetra nessa estranha dimensão e inicia uma viagem que mais parece um jogo de computador, com saltos no tempo e a possibilidade de intervir nos acontecimentos. É recebido por uma das Primeiras Damas, Mrs. Benjamin Harrison, que o inicia nesse mundo onde "nada é o que parece", para, logo de seguida ser quase comido por Índios Iroqueses que se tornaram canibais. Por essa altura, conhece uma bela squaw, bastante mais velha que ele com quem vive uma experiência erótica muito satisfatória e que se revela ser, noutra sala e noutra dimensão, a mulher do Presidente Grover Cleveland ( uma democrata entre Republicanos), e que o acompanha em aventuras como caças ao bisonte e às baleias. T. passa também por momentos em que toma chá com Primeiras Damas mortas há muito, que o entretêm com as ultimas informações e o “gossip” da Casa Branca. No departamento dedicado à aeronáutica, encontra Charles Lindberg que o transporta no Spirit of St Louis. Entretanto, Abraham Lincoln, transformado num meio idiota pela bala que o atingiu na cabeça, passa o tempo a redescobrir a sua própria identidade pela leitura da biografia escrita por Carl Sandburg, o que piora bastante o seu estado de espírito.
T., que tem o dom de visualizar complicadas operações matemáticas, é notado por J. Robert Oppenheimer e envolvido no projecto Manhattan, ajudando na preparação de uma Bomba. ( A, H, de Neutrões?). (Numa exposição militar vê-se a si próprio, no futuro, morto no dia 1 de Março de 1945). O seu nome que pode ser, tanto a inicial da palavra Tempo, como a do nome de Trimble ( de Jimmy), carrega um significado muito caro a Vidal, a ideia de um todo harmonioso que ele refere em “Palimpsest” quando recorda o “Symposium” de Platão, no qual, pela boca de Aristófanes, fala da teoria dos três sexos, macho, fêmea e hermafrodita, divididos pelos deuses e em perpétua busca de uma reunificação.
T. refere também a ideia do sacrifício pessoal e da responsabilidade política e “tenta dar um sentido à História” e é por isso que quer contrariar o curso dos acontecimentos e evitar, assim, duas guerras atrozes. O mais interessante é que ele consegue levar avante os seus intentos e intervém no passado, (Hitler passa a ser um arquitecto que tinge os cabelos de loiro, por exemplo), mas com consequências que não se podem classificar de “ideais”. T. , ao fazer o papel de Deus, o que se revela complicado e muito perigoso, navega nos meandros vertiginosos do tempo T. para salvar o mundo, os seus clones e a sua própria vida. Um encontro final com um alguém que dá pelo nome de Walt ( Disney) pode contribuir para um reajuste de (ir)realidades.
Para Vidal “os americanos estão a tornar-se animais domésticos” e já têm um Big Brother numa sociedade com um controle muito apertado. Em sua opinião, os E.U.A são uma oligarquia, em que o poder verdadeiro está na mão de cerca de 1% dos seus habitantes. Os pontos nevrálgicos, a informação, a educação e o “entertainment” são regidos por essa minoria. É um país onde “põem as crianças a engolirem a doutrina do consumismo e não lhes ensinam nada sobre os valores de cada país. Na América toda a História que é ensinada às crianças é deturpada.” Vidal, ao longo da sua obra, tem comentado com minúcia as correntes que perpassam por Washington D.C. Depois da Guerra, com o New Deal de Roosevelt e a Guerra Fria, os Estados Unidos assumiram-se como super potência imperial, afastando-se da sua vocação mais dirigida para uma política interna equilibrada e “livre”.
Vidal põe à prova, neste livro, todo o seu talento de satirista, com resquícios de ilusionista e malabarista para nos transmitir as suas ideias sobre a política, o sexo e a História, numa viagem amaldiçoada pelos acontecimentos mais importantes dos últimos tempos, sem esquecer nunca o rancor contra aqueles que, ao provocarem guerras sangrentas, cercearam a vida de muitos, sem que disso se tivesse tirado qualquer proveito. Vidal nunca esquece o seu amor de juventude e a sua própria experiência na guerra. E responsabiliza a política do seu País por essas perdas, sem possibilidade de redenção. Toda a sua obra é o espelho dessa revolta e um libelo contra o conformismo.
In Jornal Público , 2009
Gore Vidal e o seu companheiro de mais de 50 anos, Howars Austen, têm já duas campas reservadas, lado a lado, no cemitério de Rock Creek, em Washington. Nas respectivas pedras estão gravados os nomes e as datas de nascimento, 1925 e 1928, respectivamente, com um hífen à frente e o espaço para colocar as datas finais. Nesse mesmo cemitério está enterrado Jimmie Trimble, que morreu com 20 anos em Iwo Jima e foi o grande amor de Vidal, a inspiração para o seu romance homoerótico “A Cidade e o Pilar”, publicado em 1948, que lhe deu fama e proveito, alguns dissabores e muita notoriedade. Este detalhe, aparentemente sem importância, ajuda a compreender a forma como Vidal encara a sua própria história. Quando se fala deste autor, hoje em dia, é impossível evitar a referência a um certo numero de informações e características que se lhe colam à pele como um fato de bom corte, permanentemente usado e renovado. Ele é uma espécie de último moicano, um guerreiro em luta por uma interpretação da História à margem da manipulação dos “media” e em permanente confronto com o lugar comum e a opinião publica. As suas origens, o seu percurso, a sua energia, a sua ironia, as suas preferências sexuais, a lista de notáveis que ele conta entre os seus amigos (e inimigos) fazem dele notícia permanente, algo que certamente o irrita e delicia, simultaneamente. O seu sucesso deve-se, como o de Andy Wharol por exemplo, ao facto de ter sabido sempre misturar a “low” com a “high culture”, a elegância de um grande senhor com o vigor de um combatente. Os seus livros torrenciais, delirantes, majestosos e sempre controversos, falam de sexo, violência, corrupção, dinheiro e poder, conceitos que tendem a fascinar e, ao mesmo tempo, assustar as pessoas. Vidal tem feito muito cinema e televisão e sabe o que cativa audiências, usando e abusando do humor para fazer as suas vitríolocas críticas à sociedade contemporânea e ao poder estabelecido. Gosta de dizer que ele e Noam Chomsky são os únicos radicais da América, onde 90% da população pertence ao status quo, isto é, são gente que apenas se preocupa em “construir carreiras”. Ele prefere repensar a História e contestar tudo o que já foi dito. A política é uma das suas paixões, algo que ele herdou do avô, o senador cego, T.P. Gore que caiu em desgraça durante a administração Roosevelt, criava galinhas nos terrenos da casa em Rock Creek Park, onde Vidal viveu até aos dez anos, e chegou a ser julgado (e ilibado) por tentativa de violação na pessoa de “uma tal Minnie Bond”, num hotel em Washington. T.P. ou “Dah”, como lhe chamava o neto, casou com Nina por gostar de lhe ouvir a voz, ignorando o facto de ela ser alcoólica, uma característica herdada pela detestada mãe de Vidal. (“Tenho que admitir que, para uma criança, a única vantagem de ter uma mãe alcoólica é que tem acesso, prematuramente a muitas informações preciosas” Gore dixit) O senador Gore, que inculcou no neto o “sentido da honra” e a admiração pela coragem pessoal, ensinou-lhe também como navegar nas águas turvas da política e transmitiu-lhe o sentimento de que pertencia a um diminuto grupo de seres de excepção numa sociedade que se considerava democrática. Vidal diz que herdou” a capacidade de detectar as notas falsas nas árias com que os guardadores de rebanhos embalam as nossas ovelhas”, querendo dizer com isso que rejeitou sempre as demagogias e nunca embarcou em promessas vãs.
Gore nasceu em 1925 na Academia de West Point, onde o pai, um homem que foi dono de companhias de aviação (e impulsionador da TWA, Eastern e Northeast Airlines) e o grande amor de Amelia Earhart, era instrutor de voo. Em “Palimpsest”, um livro de memórias publicado em 1997, fala detalhadamente do pai e da mãe, dos laços familiares que o ligavam a John e Jackie Kennedy e das suas inúmeras amizades, entre as quais se contavam Tenesse Williams, (The Glorious Bird) com quem partilhou um apartamento em Paris, Truman Capote, Jack Kerouac, com quem passou uma noite de sexo “inexplicável” no Chelsea Hotel, Peggy Guggenheim, Paul Bowles, Marlon Brando e outros grandes deste mundo.
Presentemente, Gore vive grande parte do ano na sua villa encravada num penhasco sobre o mar Tirreno perto de Ravello, uma cidade italiana por onde passaram Gide, D.H e Frida Lawrence, Maynard Keynes e Lytton Strachey e onde Stokowski e Greta Garbo tiveram um “ninho de amor”. (Vidal conta-se entre as atracções turísticas da terra e é mencionado nos guias como, “uma das antiguidades, com Pompeia, a não perder”.) O cenário que desfruta das suas janelas agrada-lhe particularmente, uma vez que lhe recorda o mundo clássico pagão, hedonista e iconoclasta que ele admira e recorda com certa nostalgia. (Em 1964 publicou “Julian”, a história do imperador romano apóstata que tentou restaurar o paganismo). Com Austen, recebe os seus inúmeros e célebres convidados com a grandeza e simplicidade de um verdadeiro sibarita. Vidal gosta de lembrar Montaigne e a ligação deste com Étienne de la Boétie que lhe recorda a sua situação com Austen com quem afirma não praticar o sexo, sendo esse o segredo do sucesso da união. O seu amor de adolescência por Jimmie Trimble, que morreu com dezassete anos, foi absolutamente físico. Mas esse ideal de juventude ficou para sempre enterrado nas areias de Iwo Jima e Vidal gosta de especular, um pouco misteriosamente, sobre as relações que manteve com Anaïs Nin e Diana Lynn, sem esquecer o “choque erótico” que sentiu quando a sua perna roçou a de Jackie Kennedy, num passeio de barco. (“Não se passou nada” afirma ele, laconicamente, em Palimpsest).
Agora, ao falar de sexo, prefere lembrar a frase de Sócrates, quando este afirmou que, com a idade “estava finalmente livre desse amo insano e cruel.” E acha que “nunca se deve ter sexo com amigos mas sim com perfeitos estranhos”. Uma fantasia muito cinematográfica. A sua ligação com Hollywood leva-o a manter uma outra casa, em Los Angeles, onde vai regularmente para estar com os amigos, Paul (Newman) e Joanne (Woodward), cujo casamento apadrinhou. (Tem outro afilhado, o filho de Tim Robbins e Susan Sarandon). E é importante não esquecer que ele assinou os guiões de filmes como “Ben-Hur”, “Paris já está a arder?”, ”Bruscamente no Verão Passado ”, o que, definitivamente o coloca entre as glórias da Meca do cinema.
Vidal que já foi candidato democrata ao Congresso dos E.U.A com o slogan “Get more with Gore” é uma velha raposa da política e um crítico acerbo, com opiniões que nem sempre lhe trazem popularidade. É decididamente contra a política externa americana e chegou a expressar toda a sua hostilidade em relação à participação do seu País na ultima Grande Guerra. O “Smithsonian Institution” que vai agora ser publicado em Portugal, é um manifesto contra a vocação imperial americana e uma sátira mordaz às teorias dos seus defensores.
“The Smithsonian Institution”, (um livro cuja capa, na edição americana, é absolutamente “camp”, esperando-se que seja mantida pela edição portuguesa) é uma mistura delirante de géneros como a ficção científica, o romance histórico, a sátira política e, neste caso velada, autobiografia, em que toda a experiência e conhecimentos do autor sobre o confuso mundo da política é utilizado em pleno com um resultado nem sempre esclarecedor mas decididamente divertido e perturbante. A acção tem início durante o período da Páscoa, no ano de 1939, mais propriamente na Sexta-Feira Santa, “ quando as nuvens negras da guerra se amontoam sobre a Europa” e a América está prestes a pôr em marcha toda a sua política imperialista. Um jovem prodígio de 13 anos, especialista em matemáticas e física quântica, cujo nome é tão misterioso como a sua missão, aluno de St Albans que, por sinal, era a escola de Gore Vidal, o lugar onde também conheceu Jimmie Trimble, é chamado a comparecer no Smithsonian, o complexo de museus e laboratórios na capital dos Estados Unidos. Esse local, aparentemente deserto quando não há visitantes, guarda a chave de inúmeros segredos. Quando as portas se fecham sobre T., ele descobre que as figuras históricas de cera do museu ganham vida própria, dedicando-se a várias actividades. T. penetra nessa estranha dimensão e inicia uma viagem que mais parece um jogo de computador, com saltos no tempo e a possibilidade de intervir nos acontecimentos. É recebido por uma das Primeiras Damas, Mrs. Benjamin Harrison, que o inicia nesse mundo onde "nada é o que parece", para, logo de seguida ser quase comido por Índios Iroqueses que se tornaram canibais. Por essa altura, conhece uma bela squaw, bastante mais velha que ele com quem vive uma experiência erótica muito satisfatória e que se revela ser, noutra sala e noutra dimensão, a mulher do Presidente Grover Cleveland ( uma democrata entre Republicanos), e que o acompanha em aventuras como caças ao bisonte e às baleias. T. passa também por momentos em que toma chá com Primeiras Damas mortas há muito, que o entretêm com as ultimas informações e o “gossip” da Casa Branca. No departamento dedicado à aeronáutica, encontra Charles Lindberg que o transporta no Spirit of St Louis. Entretanto, Abraham Lincoln, transformado num meio idiota pela bala que o atingiu na cabeça, passa o tempo a redescobrir a sua própria identidade pela leitura da biografia escrita por Carl Sandburg, o que piora bastante o seu estado de espírito.
T., que tem o dom de visualizar complicadas operações matemáticas, é notado por J. Robert Oppenheimer e envolvido no projecto Manhattan, ajudando na preparação de uma Bomba. ( A, H, de Neutrões?). (Numa exposição militar vê-se a si próprio, no futuro, morto no dia 1 de Março de 1945). O seu nome que pode ser, tanto a inicial da palavra Tempo, como a do nome de Trimble ( de Jimmy), carrega um significado muito caro a Vidal, a ideia de um todo harmonioso que ele refere em “Palimpsest” quando recorda o “Symposium” de Platão, no qual, pela boca de Aristófanes, fala da teoria dos três sexos, macho, fêmea e hermafrodita, divididos pelos deuses e em perpétua busca de uma reunificação.
T. refere também a ideia do sacrifício pessoal e da responsabilidade política e “tenta dar um sentido à História” e é por isso que quer contrariar o curso dos acontecimentos e evitar, assim, duas guerras atrozes. O mais interessante é que ele consegue levar avante os seus intentos e intervém no passado, (Hitler passa a ser um arquitecto que tinge os cabelos de loiro, por exemplo), mas com consequências que não se podem classificar de “ideais”. T. , ao fazer o papel de Deus, o que se revela complicado e muito perigoso, navega nos meandros vertiginosos do tempo T. para salvar o mundo, os seus clones e a sua própria vida. Um encontro final com um alguém que dá pelo nome de Walt ( Disney) pode contribuir para um reajuste de (ir)realidades.
Para Vidal “os americanos estão a tornar-se animais domésticos” e já têm um Big Brother numa sociedade com um controle muito apertado. Em sua opinião, os E.U.A são uma oligarquia, em que o poder verdadeiro está na mão de cerca de 1% dos seus habitantes. Os pontos nevrálgicos, a informação, a educação e o “entertainment” são regidos por essa minoria. É um país onde “põem as crianças a engolirem a doutrina do consumismo e não lhes ensinam nada sobre os valores de cada país. Na América toda a História que é ensinada às crianças é deturpada.” Vidal, ao longo da sua obra, tem comentado com minúcia as correntes que perpassam por Washington D.C. Depois da Guerra, com o New Deal de Roosevelt e a Guerra Fria, os Estados Unidos assumiram-se como super potência imperial, afastando-se da sua vocação mais dirigida para uma política interna equilibrada e “livre”.
Vidal põe à prova, neste livro, todo o seu talento de satirista, com resquícios de ilusionista e malabarista para nos transmitir as suas ideias sobre a política, o sexo e a História, numa viagem amaldiçoada pelos acontecimentos mais importantes dos últimos tempos, sem esquecer nunca o rancor contra aqueles que, ao provocarem guerras sangrentas, cercearam a vida de muitos, sem que disso se tivesse tirado qualquer proveito. Vidal nunca esquece o seu amor de juventude e a sua própria experiência na guerra. E responsabiliza a política do seu País por essas perdas, sem possibilidade de redenção. Toda a sua obra é o espelho dessa revolta e um libelo contra o conformismo.
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