quinta-feira, 8 de março de 2012

"Morte em Veneza" de Thomas Mann


Hoje, dia 8 de Março de 2012 é dia de Comunidade de Leitores, na Culturgest. O livro?
"MORTE em VENEZA" de Thomas Mann
Aproveito para retirar um excerto do capítulo dedicado a este autor do meu livro "A Infância ´um Território Desconhecido", edição Quetzal, Lisboa, 2009
"Em 1901, depois de se ter livrado do serviço militar, Mann publicou “Os Buddenbrook: Decadência de uma Família”, uma saga em dois volumes, para a qual se socorreu das memórias e relatos da sua própria família e da sociedade da sua cidade natal, Lübeck. O livro acabou por ser considerado escandaloso e muitos habitantes seus conterrâneos sentiram-se atingidos naquelas páginas. Chegou a haver uma lista que identificava as personagens com os nomes de pessoas reais e , por alturas da ascensão do nazismo, as críticas a Mann foram subindo de tom. (É preciso não esquecer o facto de que a sua mulher, Katjia, era meio-judia.)
Mann viajava bastante e trabalhou arduamente enquanto esteve em Itália com o irmão, Heinrich, entre 1896 e 1898, continuando a utilizar material autobiográfico, aquilo a que chamava “os símbolos zelosamente urdidos da sua vida”, como explicou numa carta ao seu editor. Tanto “Tonio Kröger” (1903) como “Sua Alteza Real” (1909) reflectem uma vivência pessoal, as ideias sobre a arte e o artista e o seu papel no mundo, muito influenciadas pelas leituras de Friedrich Nietzsche, principalmente na antinomia, estabelecida por este último, entre arte e vida. Enquanto produzia “Sua Alteza Real” que segundo ele, seria o romance alegórico da “irreal existência simbólica”, preparava-se para escrever uma novela sobre Goethe, um romance sobre Frederico, o Grande e uma recreação do mito de Fausto. (Este último projecto só ficou concluído depois da II Grande Guerra , em 1947).
Quanto aos dois primeiros são habilmente aproveitados e incorporados em “Morte em Veneza”. A personagem Aschenbach – a quem Mann chamava “ o meu falecido amigo” – diz-se autor da “prosa épica vigorosa e lúcida sobre a vida de Frederico, o Grande” e refere outros títulos que, ironia à parte, poderiam ser do próprio Mann, incluindo a “poderosa narrativa “O Abjecto” que ensinou, a uma geração agradecida, que um homem é capaz de tomar uma resolução moral mesmo depois de ter mergulhado nos abismos do conhecimento” . (Seria exactamente devido à força que lhe advinha desse conhecimento que ele podia olhar Tadzio e tantos outros rapazes sem levar avante o acto da sedução mais crua).
Outro aspecto curioso é que Mann, ao descrever a obra de Aschenbach, os seus fins literários e as suas preocupações, faz o papel de crítico de si próprio. Com enorme desfaçatez, fala do “peso da genialidade”; ele tinha bem a noção do seu valor como escritor e acrescenta, “ a alma de Aschenbach… desde muito cedo que estava predestinada para a fama… e o seu engenho estava calculado de forma a ganhar a adesão do público em geral bem como a admiração, tão simpática quanto estimulante, do conhecedor”.

E, mais à frente:
"Já foi dito que esta novela, que se tornou uma das peças mais importantes da Literatura do século XX, é largamente autobiográfica e que surgiu a partir de uma sucessão de acontecimentos na vida de Thomas Mann que, aliás, escreveu o seguinte: “Não inventei nada em “Morte em Veneza”. O “peregrino” no North Cemetery, o horrível barco em Pola, o homem dissoluto encanecido, o gondoleiro sinistro, Tadzio e a sua família, a viagem interrompida pelo extravio da bagagem, a cólera, o mangas de alpaca pomposo na agência de viagens, o cantor de baladas rasca, todos esses e mais os que quiserem, estiveram lá. Eu limitei-me a dispô-los da forma a mostrá-los o mais estranhamente possível, em prol da composição”.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Thomas Mann na Comunidade de Leitores


Ontem foi dia de Comunidade de Leitores, na CULTURGEST. Um dia BOM, portanto!. Discutimos e analisámos contos, principalmente "Tristan" uma "novela" do início da carreira literária de THOMAS MANN onde o autor coloca já, com pertinência e ironia, as questões que o irão ocupar ao longo da vida: a Arte e a Vida, a condição do artista no mundo, a sua ( dele, Thomas Mann) ligação a Wagner e a Schopenhauer e, principalmente, as suas dúvidas num momento histórico conturbado. Thomas Mann foi um homem de dilemas. E nós?

A Poesia de Dorothea Tanning


NEVER MIND

DOROTHEA TANNING

Never mind the pins
And needles I am on.
Let all the other instruments
Of torture have their way.
... While air-conditioners
Froze my coffee
I caught the toaster
Eating my toast.
Did I press the right
Buttons on all these
Buttonless surfaces,
Daring me to press them?
Did you gasp on seeing what
The mailman just brought?

Will the fellow I saw pedalling
Across the bridge live long
After losing his left leg,
His penis, and his bike
To fearlessness?
Will his sad wife find
Consolation with the
Computer wizard called in
Last year to deal with glitches?

Did you defuse the boys’
Bomb before your house
Was under water, same
As everything else?
My sister grabbed her
Silver hand mirror
Before floating away.
The dog yelped constantly,
Tipping our canoe.
Silly dog.

O ano da morte de Dorothea Tanning - 2012


Dorothea Tanning (25 Agosto, 1910, pintora, poeta escultora, gravadora morreu no dia 31 de Janeiro passado, com 101 anos. Tanning era a última sobrevivente de uma época de grandes transformações e produtividade artísticas. Tanning estudou no Knox College, viveu em Chicago e, em 1935, estabeleceu-se em Nova Iorque onde entrou em contacto com o movimento Dada e com o Surrealismo. Foi Julien Levy que a integrou no círculo de surrealistas imigrados e foi assim que conheceu Max Ernst. Nas suas Memórias, “Birthday and Between Lives”, conta como Ernst fez uma visita ao seu estúdio em 1942, como jogaram xadrez e se apaixonaram. Casaram em 1946, numa cerimónia dupla com Man Ray e Juliet Browner.
O círculo de amigos de Dorothea Tanning contava com Marcel Duchamp, Roland Penrose, Lee Miller, Yves Tanguy, Kay Sage e George Balanchine, para quem ela desenhou guarda-roupa e cenários para vários Ballets – como por exemplo, "The Night Shadow".

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

THOMAS MANN na Culturgest, em Lisboa


Inicia-se amanhã um novo ciclo das minhas Comunidades de Leitores na Culturgest, desta feita totalmente dedicado à obra do escritor alemão Thomas Mann ( 1875-1955). Começaremos com "Os Buddenbrook. O Declínio de uma Família" (1901), romance de estreia de Mann, então com 25 anos. Mann desejou seguir o exemplo do seu bem amado Goethe que publicou "Werther" com a mesma idade.
“Os Buddenbrook” relata a história de uma abastada família de comerciantes, sediada na cidade hanseática de Lubëck, ao longo de um espaço de tempo compreendido entre 1835 e 1977.
Inicialmente Mann teve a intenção de se centrar na figura de Hanno, o mais jovem membro da família, sensível e fraco que ama a música e não corresponde ao ideal paterno de solidez empresarial e de agressividade empreendedorística. Mas foi necessário recuar para situar melhor a história e o autor acabou por escrever um romance “naturalista” que cobre quatro gerações. O pai de Hanno, Thomas, o “degenerado” tio Christian e, principalmente, a tia Tony – que é uma peça importantíssima no xadrez familiar – são algumas das figuras chave deste livro.
Thomas Mann era, ele próprio, filho do rico negociante – e senador – Heinrich Mann e da brasileira de origem portuguesa Júlia da Silva Bruhns. Ganhou o Prémio Nobel em 1929.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

NOVO LIVRO


O meu novo livro está pronto. Sairá em finais de Fevereiro, será "lançado" em as Correntes D'Escritas na Póvoa do Varzim - 25 de Fevereiro - e, depois, haverá uma fantástica apresentação, em Lisboa. (Ainda não sei a data nem o local)
Para quem , no Facebook mostrou interesse - MUITO OBRIGADA - aqui fica uma sinopse de
"Humilhação e Glória. Algumas Histórias de Mulheres Singulares", Ed. Quetzal, Lisboa, Fevereiro, 2012:

"É uma verdade universalmente conhecida que a História, ao longo dos tempos, tem sido registada, escrita, analisada, comentada e, em boa verdade, dominada pelos homens.
Por que razão as mulheres permitiram – e muitas vezes encorajaram – uma tão flagrante distorção da realidade?
Se sabemos, hoje em dia, que as mulheres são perfeitamente capazes de levar a cabo todas as tarefas tradicionalmente desempenhadas exclusivamente pelos homens, se o ser do sexo feminino é tão provido de génio criativo quanto o ser do sexo masculino, se, ao contrário do que foi apregoado durante séculos, o cérebro feminino e o masculino se completam em vez de se excluírem mutuamente, como explicar o facto de as mulheres, na sua esmagadora maioria, se terem mantido arredadas dos centros de decisão, remetidas a um recatado silêncio e a uma inércia e submissão insondáveis, ao longo de milénios?
E, apesar do obscurantismo a que o género feminino foi votado, apesar das perseguições, das repetidas humilhações, da violência e da incompreensão, como explicar a acção de mulheres que, mesmo em momentos da História turbulentos e pouco propícios, quebraram as regras mais rígidas e as leis mais severas, soltando-se da servidão e revelando-se em toda a sua grandeza e glória, por vezes pondo em risco a própria vida?
Questões como estas continuam, ainda hoje, a estar na origem de debates acalorados. Neste livro, para além da referência aos chamados Estudos Femininos – ou "de género" –que conheceram um incremento extraordinário nos últimos cinquenta anos, procurei dar relevo a figuras femininas do Ocidente, enquadrando, também, as mulheres portuguesas num espaço geográfico cultural e político que sempre lhes pertenceu por direito e do qual estiveram afastadas, intermitentemente, por questões de índole religiosa ou política.
Esta obra tenta, ainda, uma reapreciação do papel das mulheres em diversas épocas e diferentes lugares. Políticas panfletárias e revolucionárias como Mary Woolstonecraft e Gertrudes Margarida de Jesus, escritoras como Virginia Woolf e Maria Teresa Horta, cientistas como Marie Curie e Matilde Bensaúde, pintoras como Sofonisba Anguissola, Artemesia Gentileschi , Josefa d’ Óbidos e Paula Rego, entre tantas e tantas outras que se distinguiram nas múltiplas áreas do saber, na guerra e na paz, na revolução e na evolução, na criação artística e no mundo das ideias, para o melhor e para o pior, são aqui mencionadas e enaltecidas, no sentido de dar o devido relevo a grandes figuras femininas – algumas bem conhecidas, outras quase esquecidas – que têm um lugar perene na História da humanidade."

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Programa da próxima COMUNIDADE de LEITORES


Comunidade de Leitores
Thomas Mann, nosso contemporâneo?
por Helena Vasconcelos
Imagem: Fotografia das mãos de Thomas Mann de Yousuf Karsh

QUINTAS-FEIRAS 19 de JANEIRO
2 e 23 de FEVEREIRO
8 e 22 de MARÇO
12 de ABRIL

Sala 1 • 18h30
Inscrições até 13 de janeiro (limite 40 pessoas) na bilheteira da Culturgest, pelo tel. 217905155 ou pelo e-mail culturgest.bilheteira@cgd.pt

19 de janeiro
Os Buddenbrook
Ed. Dom Quixote

2 de fevereiro
Tristão e Outros Contos
Ed. Ulisseia

23 de fevereiro
A Montanha Mágica
Ed. Dom Quixote

8 de março
Morte em Veneza
Ed. Relógio D’Água

22 de março
As Confissões de Félix Krull – Cavalheiro de Indústria
Ed. Relógio D’Água

12 de abril
Doutor Fausto
Ed. Dom Quixote


Com a “crise europeia” na ordem do dia, torna-se imperioso repensar a herança que nos coube do século XX, com os seus ciclos de destruição e renovação. Filósofos, escritores e artistas, em todas as áreas da Cultura, viveram intensamente a turbulência desses tempos de perigo, destruição, exaltação e cosmopolitismo e criaram obras perenes que se tornaram marcos de resistência à barbárie. Entre esses intelectuais que se destacaram, tanto pela obra como pela forma como viveram, está Thomas Mann, o alemão oriundo de uma antiga família hanseática que acabou os seus dias na Suíça, aos oitenta anos. Em 1901 Mann publicou Os Buddenbrook, uma saga com fortes traços autobiográficos, para a qual se socorreu das memórias e relatos da sua própria família e da sociedade, na sua cidade natal, Lübeck. Mann, intimamente ligado à cultura germânica, profundamente influenciado pelo humanismo de Goethe, pelo pensamento de Nietzsche e pelo lirismo de Heine e Schiller, foi também um homem do mundo, fruto do exílio e, também, das raízes familiares – a mãe de Thomas, Júlia da Silva Bruhns era brasileira filha de portugueses. Mann, o “escritor mestiço”, casado com uma judia, abandonou a Pátria ao dar-se conta do avanço nazi e da falência de uma Alemanha que renegava a sua própria herança cultural. A sua vasta obra é a prova cabal da sua resistência intelectual e da busca incessante pelo significado da existência. As suas ideias sobre a arte, o artista e o seu papel no mundo (Morte em Veneza, Doutor Fausto), o inferno da pulsão erótica, o conflito entre vida e morte, (Tristão e outros Contos), o absurdo existencial, bem como uma ironia caustica que atravessa obras como A Montanha Mágica (uma meditação profunda sobre a experiência espiritual e mental do ser humano) e Félix Krull, fazem dele um escritor total, um homem lúcido e genial que não se eximiu de explorar as suas próprias ambiguidades e fraquezas e de questionar a nossa matriz clássica europeia comum.
Thomas Mann ganhou o Prémio Nobel em 1929. Foi um dos poucos intelectuais alemães que nunca se enganou em relação a Hitler.

In this current “European crisis”, it is crucial to rethink the legacy we have inherited from the 20th century, with its cycles of destruction and renewal. Of the philosophers, writers and artists who lived through these turbulent times and left us with enduring works denouncing the barbarity, one of the few German intellectuals who refused to be taken in by Hitler was the 1929 Nobel Prize winner, Thomas Mann, a man of the world who died in exile in Switzerland, aged 80, a total writer who never ceased to explore his own ambiguities and weaknesses and to question our common European heritage.