sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O ano da morte de Dorothea Tanning - 2012


Dorothea Tanning (25 Agosto, 1910, pintora, poeta escultora, gravadora morreu no dia 31 de Janeiro passado, com 101 anos. Tanning era a última sobrevivente de uma época de grandes transformações e produtividade artísticas. Tanning estudou no Knox College, viveu em Chicago e, em 1935, estabeleceu-se em Nova Iorque onde entrou em contacto com o movimento Dada e com o Surrealismo. Foi Julien Levy que a integrou no círculo de surrealistas imigrados e foi assim que conheceu Max Ernst. Nas suas Memórias, “Birthday and Between Lives”, conta como Ernst fez uma visita ao seu estúdio em 1942, como jogaram xadrez e se apaixonaram. Casaram em 1946, numa cerimónia dupla com Man Ray e Juliet Browner.
O círculo de amigos de Dorothea Tanning contava com Marcel Duchamp, Roland Penrose, Lee Miller, Yves Tanguy, Kay Sage e George Balanchine, para quem ela desenhou guarda-roupa e cenários para vários Ballets – como por exemplo, "The Night Shadow".

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

THOMAS MANN na Culturgest, em Lisboa


Inicia-se amanhã um novo ciclo das minhas Comunidades de Leitores na Culturgest, desta feita totalmente dedicado à obra do escritor alemão Thomas Mann ( 1875-1955). Começaremos com "Os Buddenbrook. O Declínio de uma Família" (1901), romance de estreia de Mann, então com 25 anos. Mann desejou seguir o exemplo do seu bem amado Goethe que publicou "Werther" com a mesma idade.
“Os Buddenbrook” relata a história de uma abastada família de comerciantes, sediada na cidade hanseática de Lubëck, ao longo de um espaço de tempo compreendido entre 1835 e 1977.
Inicialmente Mann teve a intenção de se centrar na figura de Hanno, o mais jovem membro da família, sensível e fraco que ama a música e não corresponde ao ideal paterno de solidez empresarial e de agressividade empreendedorística. Mas foi necessário recuar para situar melhor a história e o autor acabou por escrever um romance “naturalista” que cobre quatro gerações. O pai de Hanno, Thomas, o “degenerado” tio Christian e, principalmente, a tia Tony – que é uma peça importantíssima no xadrez familiar – são algumas das figuras chave deste livro.
Thomas Mann era, ele próprio, filho do rico negociante – e senador – Heinrich Mann e da brasileira de origem portuguesa Júlia da Silva Bruhns. Ganhou o Prémio Nobel em 1929.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

NOVO LIVRO


O meu novo livro está pronto. Sairá em finais de Fevereiro, será "lançado" em as Correntes D'Escritas na Póvoa do Varzim - 25 de Fevereiro - e, depois, haverá uma fantástica apresentação, em Lisboa. (Ainda não sei a data nem o local)
Para quem , no Facebook mostrou interesse - MUITO OBRIGADA - aqui fica uma sinopse de
"Humilhação e Glória. Algumas Histórias de Mulheres Singulares", Ed. Quetzal, Lisboa, Fevereiro, 2012:

"É uma verdade universalmente conhecida que a História, ao longo dos tempos, tem sido registada, escrita, analisada, comentada e, em boa verdade, dominada pelos homens.
Por que razão as mulheres permitiram – e muitas vezes encorajaram – uma tão flagrante distorção da realidade?
Se sabemos, hoje em dia, que as mulheres são perfeitamente capazes de levar a cabo todas as tarefas tradicionalmente desempenhadas exclusivamente pelos homens, se o ser do sexo feminino é tão provido de génio criativo quanto o ser do sexo masculino, se, ao contrário do que foi apregoado durante séculos, o cérebro feminino e o masculino se completam em vez de se excluírem mutuamente, como explicar o facto de as mulheres, na sua esmagadora maioria, se terem mantido arredadas dos centros de decisão, remetidas a um recatado silêncio e a uma inércia e submissão insondáveis, ao longo de milénios?
E, apesar do obscurantismo a que o género feminino foi votado, apesar das perseguições, das repetidas humilhações, da violência e da incompreensão, como explicar a acção de mulheres que, mesmo em momentos da História turbulentos e pouco propícios, quebraram as regras mais rígidas e as leis mais severas, soltando-se da servidão e revelando-se em toda a sua grandeza e glória, por vezes pondo em risco a própria vida?
Questões como estas continuam, ainda hoje, a estar na origem de debates acalorados. Neste livro, para além da referência aos chamados Estudos Femininos – ou "de género" –que conheceram um incremento extraordinário nos últimos cinquenta anos, procurei dar relevo a figuras femininas do Ocidente, enquadrando, também, as mulheres portuguesas num espaço geográfico cultural e político que sempre lhes pertenceu por direito e do qual estiveram afastadas, intermitentemente, por questões de índole religiosa ou política.
Esta obra tenta, ainda, uma reapreciação do papel das mulheres em diversas épocas e diferentes lugares. Políticas panfletárias e revolucionárias como Mary Woolstonecraft e Gertrudes Margarida de Jesus, escritoras como Virginia Woolf e Maria Teresa Horta, cientistas como Marie Curie e Matilde Bensaúde, pintoras como Sofonisba Anguissola, Artemesia Gentileschi , Josefa d’ Óbidos e Paula Rego, entre tantas e tantas outras que se distinguiram nas múltiplas áreas do saber, na guerra e na paz, na revolução e na evolução, na criação artística e no mundo das ideias, para o melhor e para o pior, são aqui mencionadas e enaltecidas, no sentido de dar o devido relevo a grandes figuras femininas – algumas bem conhecidas, outras quase esquecidas – que têm um lugar perene na História da humanidade."

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Programa da próxima COMUNIDADE de LEITORES


Comunidade de Leitores
Thomas Mann, nosso contemporâneo?
por Helena Vasconcelos
Imagem: Fotografia das mãos de Thomas Mann de Yousuf Karsh

QUINTAS-FEIRAS 19 de JANEIRO
2 e 23 de FEVEREIRO
8 e 22 de MARÇO
12 de ABRIL

Sala 1 • 18h30
Inscrições até 13 de janeiro (limite 40 pessoas) na bilheteira da Culturgest, pelo tel. 217905155 ou pelo e-mail culturgest.bilheteira@cgd.pt

19 de janeiro
Os Buddenbrook
Ed. Dom Quixote

2 de fevereiro
Tristão e Outros Contos
Ed. Ulisseia

23 de fevereiro
A Montanha Mágica
Ed. Dom Quixote

8 de março
Morte em Veneza
Ed. Relógio D’Água

22 de março
As Confissões de Félix Krull – Cavalheiro de Indústria
Ed. Relógio D’Água

12 de abril
Doutor Fausto
Ed. Dom Quixote


Com a “crise europeia” na ordem do dia, torna-se imperioso repensar a herança que nos coube do século XX, com os seus ciclos de destruição e renovação. Filósofos, escritores e artistas, em todas as áreas da Cultura, viveram intensamente a turbulência desses tempos de perigo, destruição, exaltação e cosmopolitismo e criaram obras perenes que se tornaram marcos de resistência à barbárie. Entre esses intelectuais que se destacaram, tanto pela obra como pela forma como viveram, está Thomas Mann, o alemão oriundo de uma antiga família hanseática que acabou os seus dias na Suíça, aos oitenta anos. Em 1901 Mann publicou Os Buddenbrook, uma saga com fortes traços autobiográficos, para a qual se socorreu das memórias e relatos da sua própria família e da sociedade, na sua cidade natal, Lübeck. Mann, intimamente ligado à cultura germânica, profundamente influenciado pelo humanismo de Goethe, pelo pensamento de Nietzsche e pelo lirismo de Heine e Schiller, foi também um homem do mundo, fruto do exílio e, também, das raízes familiares – a mãe de Thomas, Júlia da Silva Bruhns era brasileira filha de portugueses. Mann, o “escritor mestiço”, casado com uma judia, abandonou a Pátria ao dar-se conta do avanço nazi e da falência de uma Alemanha que renegava a sua própria herança cultural. A sua vasta obra é a prova cabal da sua resistência intelectual e da busca incessante pelo significado da existência. As suas ideias sobre a arte, o artista e o seu papel no mundo (Morte em Veneza, Doutor Fausto), o inferno da pulsão erótica, o conflito entre vida e morte, (Tristão e outros Contos), o absurdo existencial, bem como uma ironia caustica que atravessa obras como A Montanha Mágica (uma meditação profunda sobre a experiência espiritual e mental do ser humano) e Félix Krull, fazem dele um escritor total, um homem lúcido e genial que não se eximiu de explorar as suas próprias ambiguidades e fraquezas e de questionar a nossa matriz clássica europeia comum.
Thomas Mann ganhou o Prémio Nobel em 1929. Foi um dos poucos intelectuais alemães que nunca se enganou em relação a Hitler.

In this current “European crisis”, it is crucial to rethink the legacy we have inherited from the 20th century, with its cycles of destruction and renewal. Of the philosophers, writers and artists who lived through these turbulent times and left us with enduring works denouncing the barbarity, one of the few German intellectuals who refused to be taken in by Hitler was the 1929 Nobel Prize winner, Thomas Mann, a man of the world who died in exile in Switzerland, aged 80, a total writer who never ceased to explore his own ambiguities and weaknesses and to question our common European heritage.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Obra recomendada por Jorge Almeida


Jorge Almeida é um dos magníficos, atentos e críticos leitores que fazem parte da Comunidade de Leitores da Culturgest. As suas intervenções e respectivas notas são dignas de registo. Aqui fica uma recomendação que me parece muito pertinente. É indispensável estarmos bem informados.
OBRIGADA JORGE ALMEIDA

After-Shock por Robert B. Reich


Nas últimas três décadas a economia americana tem vindo a expandir-se a bom ritmo. Mas os benefícios desse crescimento foram praticamente todos apropriados pelos 10% dos americanos que estão no topo. O salário mediano estagnou durante este longo período.

E no entanto o consumo aumentou fortemente. A parte de leão do consumo foi feita pelos mais ricos – os 10% do topo consumiram mais de 40% do total do consumo!!

A classe média contudo também aumentou o seu consumo. E como o fizeram se o seu rendimento ficou estagnado? Recorrendo a três mecanismos de compensação. A entrada das mulheres no mercado de trabalho adicionou mais um ordenado aos rendimentos do casal e o recurso a mais horas de trabalho.

Quando os estes dois mecanismos se esgotaram (a maioria das mulheres já trabalha e já não é possível aos americanos trabalhar mais horas) a classe média recorreu ao crédito, dando como garantia as suas casas. Enquanto durou a bolha imobiliária foi possível obter empréstimos cada vez maiores com base na mesma casa que continuamente se valorizava e permitia ao proprietário aumentar o seu empréstimo. Com o rebentar da crise do crédito imobiliário (crise do subprime) este mecanismo de compensação também se esgotou.

Reich argumenta então que na ausência de possibilidade de consumo da classe média (que define como os 40% da população para cima e para baixo do rendimento mediano) a economia não pode recuperar. Como resolver então esta crise?

A resposta é simples e evidente. Redistribuir a riqueza entre os que mais têm e os outros. Assim advoga uma reforma do imposto sobre o rendimento (todo o rendimento, independentemente da sua fonte seria taxado à mesma taxa) que colecte os mais ricos e distribua dinheiro à classe média. Advoga também a introdução de um cheque escola regressivo (tanto maior quanto menor o rendimento da família) que permitisse aos americanos mais pobres colocar os filhos nas melhores escolas. Lista ainda outras medidas de redistribuição activa.

Reich defende que uma maior distribuição do rendimento seria benéfica quer para a classe média quer para os ricos, porque colocaria a economia numa rota de crescimento sustentado que a todos beneficiaria.

Por outro lado, identifica o risco de a indignação dos americanos da classe média cada vez mais empobrecidos num país cada vez mais rico, se materializar na eleição de radicais de direita para o Congresso e mesmo para a Presidência. Isso seria, na sua opinião, catastrófico. Uma redistribuição reporia a justiça social e o daria corpo ao famoso “sonho americano”.

Reich relembra que antes da grande depressão os Estados Unidos também tiveram uma distribuição de rendimento tão desigual como a actual e que esta foi uma das causas da crise (os americanos não podiam, por falta de recursos, consumir os bens produzidos e a economia parou). Por outro lado quando a distribuição de rendimento foi mais equilibrada, como no período que se seguiu à II Guerra Mundial, a economia cresceu a ritmos fortes no que foi conhecido como os Trinta anos gloriosos.

Excelente livro. Devia ser bem divulgado.

Robert B. Reich foi secretário do trabalho na administração Clinton e é professor na Universidade da Califórnia.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sylvia Plath - Na Caverna do Barba-Azul



Em 2000, por ocasião da publicação de ” THE JOURNALS OF SYLVIA PLATH – 1950-1962", escrevi o seguinte texto, que aqui fica, com algumas (ligeiras) alterações:

NA CAVERNA DO BARBA AZUL
Sylvia Plath, escritora e poeta americana – 1932- 1963

Como é que uma mulher de trinta anos, inteligente, bela e capaz de escrever a melhor poesia, foi capaz de se suicidar de uma forma tão brutal, deixando duas crianças pequenas e uma vida que poderia ter sido brilhante, em todos os sentidos? Esta é a questão colocada por todos aqueles que, muito tempo depois da sua morte, continuam obcecados pela poetisa americana Sylvia Plath. A publicação da versão (quase) integral dos seus Diários poderá fornecer algumas pistas aos leitores e estudiosos, sedentos de encontrarem mais um detalhe revelador da sua personalidade. Santa ou frívola, vítima ou carrasco, amante da vida ou fascinada com a morte é principalmente nos seus poemas que se devem procurar as respostas. No entanto, a excitação que continua a acompanhar esta edição, tornada possível depois da morte do Poeta Laureado Ted Hughes, que foi seu marido e, para muitos, a razão da sua perda, poderá lançar alguma luz sobre o assunto.

Sylvia começou a escrever os Diários ainda em criança. Chamava-lhes o seu “Mar de Sargasso” e funcionavam como o repositório das suas experiências e como exercícios de escrita. Eram, também, o lugar privilegiado onde ela registava as ideias para os poemas. É notória a sua ânsia de perfeição, o seu desejo urgente, intenso, absorvente, em relação à poesia. O seu rigor, a exigência em relação a si própria, detectáveis nos seus esforços quando ainda era aluna do Smith College, levaram Ted Hughes a descrevê-la como sendo “alguém excepcional” que podia ser “intensamente artificial” mas que juntava a tudo o que fazia, uma “excitação única”. No som e textura das suas linhas existia “uma sensação de profunda inevitabilidade matemática”, um fatalismo que contribuiu para a empurrar para o abismo da depressão e da neurose.
Estas páginas mostram bem o carácter obsessivo de Sylvia, a sua sexualidade exacerbada, o seu ciúme, a paixão pela escrita, as dificuldades de relacionamento com a própria mãe por quem sentia uma antipatia profunda ( desmentida pelo tom das cartas que lhe escrevia, nas quais era sempre a jovem americana prática e trasbordante de energia), o desgosto pela morte do pai quando ela tinha oito anos, o seu esgotamento, em 1953, que a levou a uma primeira tentativa de suicídio e que ela descreveu em The Bell Jar. (“A Câmpanula de Vidro”). Esta edição também inclui os dois diários que Ted Hughes manteve selados e escondidos dos olhares e interpretações até pouco tempo antes da sua morte: o primeiro data de Agosto de 1957, quando Plath se esforçava por se dedicar exclusivamente à sua poesia, e o segundo refere o espaço de tempo entre Setembro de 1959, altura em que ela iniciou sessões privadas de terapia, e Novembro desse mesmo ano, quando o casal decidiu abandonar Boston e voltar para Inglaterra.
Para compreender melhor os factos é importante conhecer a constelação de personagens que participaram, directa ou indirectamente nesta tragédia, em que os principais actores foram Sylvia, a beleza pálida que usava batom demasiado vermelho e Ted Hughes, o gigante sedutor, de voz portentosa que atraía com selvagem magnetismo todos os que dele se aproximavam. Em torno deste casal maldito, manteve-se vivo o mito da “bacante” que queria escrever sobre assuntos tabus, como os distúrbios mentais, a maternidade e a morte, e que dizia que devia ter estudado medicina em vez de literatura para ver “crianças a nascer e cadáveres a serem retalhados”.
Sylvia nasceu em 1932 em Boston, Massachusetts, de ascendência austríaca e alemã. Em 1955 terminou os seus estudos no Smith College (“summa cum laude”) e foi para Inglaterra continuar a sua educação. Foi aí que, a 3 de Março de 1956, a jovem americana que chegara recentemente a Cambridge munida de uma Bolsa Fullbright conheceu, numa festa, um “poeta brilhante”, “o único homem suficientemente forte à (sua) altura”. Para ele escreveu o seu melhor poema até então, chamado Pursuit, que fala de uma pantera que a persegue até à morte e a quem ela lança o seu próprio coração, numa tentativa para a apaziguar. Esta premonição fatal marcou o início de uma relação trágica e tumultuosa cujas sequelas se têm feito sentir, como um terramoto, muito para além do suicídio de Plath em 1963 e da morte de Ted Hughes, vítima de cancro, em 1998.
Este primeiro encontro ficou, como de resto toda a vida do casal, bem documentado. No poema The St. Botolph’s Review, incluído no famoso “Birthday Letters”, o volume de poemas que Hughes publicou antes de morrer e que funciona como o seu testamento literário, ajuste de contas e pacificação com Sylvia, Hughes conta como ela o mordeu na face até fazer sangue e como ele lhe roubou um brinco e um lenço azul, (para Plath o lenço era vermelho), que mais tarde encontrou num bolso. Casaram em Junho desse mesmo ano. Os primeiros tempos da sua relação foram uma espécie de milagre, o encontro perfeito de duas mentes possuídas de ardor criativo e amoroso. Mudaram-se para Boston, onde passaram um tempo de relativa felicidade, a ensinar e a escrever. Mas Plath tinha já atrás de si, uma longa história de depressão, a que não era estranha a conturbada e muito freudiana relação com o seu poderoso e assustador pai, (o tenebroso professor Otto, criador de abelhas), que morrera quando ela tinha oito anos e cujo fantasma a perseguiu durante toda a vida. Hughes, pelo seu lado, era um homem extremamente promíscuo, sexualmente, e que sabia como atrair poderosamente as mulheres. A sua infidelidade era notória e fazia parte da sua natureza, tanto quanto a morte fazia parte da de Sylvia.
Ted Hughes é, assim, frequentemente apontado como o “ogre” que arrastou Sylvia para a sua destruição. Até à sua morte, e apesar da sua enorme importância como Poeta Laureado, ele foi considerado como uma espécie de “Barba Azul”, uma reputação que o seu gosto pelas ciências ocultas contribuiu para acentuar. A sua irmã Olwyn, executora testamentária e educadora dos seus filhos, queixou-se sempre dos problemas que ele tinha com as mulheres e tudo fez para mitigar as acusações de que foi alvo, principalmente por parte das feministas.
A rica e extravagante escritora Emma Tennant ( n. 20 Outubro, 1937) foi uma das suas amantes. Emma pertence a uma família antiga e cheia de pergaminhos: a sua tia avó era Margot Asquith, mulher de um primeiro-ministro, Colin, o seu irmão mais velho, namorou a princesa Margaret, chegando a oferecer-lhe uma casa nas Caraíbas, a sua sobrinha é a super modelo Stella Tennant e um tio, Stephen Tennant, foi um esteta famoso. Emma foi quem comparou Hughes sucessivamente a “Barba Azul”, o mágico falhado que atraía irremediavelmente as mulheres com modos encantadores que escondiam a sua natureza predadora e o seu gosto pelo sangue, e a Mr Rochester, o herói do romance Jane Eyre de Charlote Brontë, outra dessas figuras que as mulheres vêem como a promessa do cumprimento de um rito de iniciação, o desvendar de um conhecimento perigoso mas sedutor.
Lobo, touro, garanhão, leão, são estas as imagens que Tennant associa a Hugues, com quem manteve uma relação intermitente, desde a primavera de 1977 até ao outono de 1979. Em “Burnt Diaries”, publicados em Outubro de 1998, no mesmo mês em que o seu antigo amante acabaria por morrer, Tennant conta como se deixou seduzir por Hughes. “ O seu rosto, semelhante a uma dessas estátuas da Ilha de Páscoa, parece dominar a paisagem circundante: irritação, certeza e orgulho conferem uma espécie de impassibilidade aos seus traços mas, como que a contragosto, um sorriso leve e nervoso, brinca-lhe nos lábios. Será que ele está tão devorado pelo medo como eu, na perspectiva do nosso encontro? “ E mais adiante questiona-se se “esta efígie, este deus de beleza masculina, pleno de crueldade” não terá prazer em devorar mulheres (artistas), como ela. Fascinada pela auréola de tragédia e pelo mito que acompanhou sempre a figura de Hughes, Tennant recorda a histeria, o desregramento sexual e emocional que parecia comandar a sua vida e a de quem dele se aproximava demasiado.
O destino das antecessoras de Tennant não pode ter sido mais cruel: a loira e pálida Sylvia suicidou-se em 1963 e a morena Assia Wevill fez o mesmo, em 1969, levando consigo a filha de ambos. Segundo certas testemunhas, Hughes foi um pai extremoso para Frieda e Nicholas (os filhos que teve de Sylvia) mas portou-se de uma forma inteiramente diferente em relação a Shura, a filha que teve de Assia. (Uma vez deu vinho a beber à criança para que esta dançasse para os convidados que ele tinha para jantar.)
Depois destas tragédias, Hughes tornou-se um recluso, casou outra vez, em 1970, (diz-se agora que a mulher, Carol Orchard, também tentou o suicídio) e levantou um muro de silêncio em torno da sua vida privada, só voltando a falar do seu relacionamento com Sylvia na já referida obra, “Birthday Letters”, 88 poemas que expõem o choque de titãs que foi a sua vida em comum (“O teu fantasma, inseparável da minha sombra…”) e lançam alguma luz sobre a relação neurótica do casal. Mas Hughes nunca se livrou da atmosfera de escândalo que sempre o rodeou e que ele usava como um poderoso afrodisíaco, como uma espécie de amuleto encantatório. O facto de se interessar pelo xamanismo e pela magia negra, só contribuiu para acentuar a ideia de que ele era um monstro.
Sylvia sentiu no corpo, “até aos ossos” a dor excruciante provocada pelas suas infidelidades. Em 1958, quando ainda estavam em Boston, discutiram selvaticamente quando ela o encontrou com uma mulher. No ano seguinte voltaram para Inglaterra e instalaram-se em Devon. Em Julho de 1962, Sylvia soube do affair de Hughes com Assia Wevil. Separaram-se e ela foi viver para um apartamento em Londres. Durante os poucos meses que lhe restavam de vida escreveu os seus melhores, mais iluminados e mais pungentes poemas. Numa manhã gelada de Fevereiro de 1963, enquanto os dois filhos pequenos dormiam no quarto ao lado, convenientemente isolados e com leite à cabeceira, ela meteu a cabeça no forno e ligou o gás. Ninguém apareceu em seu socorro. A salvação teria sido difícil. Sylvia estava há muito condenada pela sua depressão crónica e pelo fatalismo trágico que sempre a acompanhou desde criança. Quem a conheceu diz que ela tinha uma tendência marcante para a “teatralidade”, para um exacerbado desnudar de sentimentos que a deixava em carne viva. A sua biógrafa Anne Stevenson fala de uma “dualidade libidinosa”, de um “eu” profundo cheio de violência e fúria, que ela reprimia sob a capa de uma aparência cuidada e elegante”. Tudo isso ficou documentado: nos poemas, contos, Diários, em The Bell Jar, o romance autobiográfico publicado, sob pseudónimo, em Janeiro do ano da sua morte. O seu primeiro volume de poemas, The Colossus foi publicado em 1961 e a sua principal colecção de poemas, Ariel , uma espécie de “crónica” do seu suplício, foi publicada postumamente, em 1965. Quanto aos “Collected Poems” receberam um prémio Pulitzer, também a título póstumo, em 1982. O manuscrito de um romance inacabado, intitulado “Double Exposure”, desapareceu em 1970.
Mas a beleza e força das suas palavras provocaram tal comoção que ela se tornou uma espécie de santa sacrificada no altar da misóginia masculina, uma mártir abandonada por todos, uma mulher que fora deixada entregue a si mesma, sem que o marido levantasse um dedo para a ajudar. Nos momentos imediatamente a seguir à sua morte, este, como seu executor testamentário, (apesar de separados, eles ainda estavam legalmente casados) destruiu parte dos Diários “para proteger os filhos” e apoderou-se da sua obra.
“Será que a grandeza literária é ainda possível”, perguntou Susan Sontag num dos seus ensaios. Será que, no caso de Sylvia Plath, essa “grandeza” poderá continuar a resistir a anos e anos de especulações, análises exaustivas e muitos mexericos que envolveram (e continuam a envolver) a sua vida e a de todos os que dela se aproximaram? A sua história, intimamente ligada a uma obra genial, aparece-nos como uma verdadeira tragédia isabelina, cheia de golpes de teatro, de violência, de sangue e de muitas lágrimas. A sua morte continua a ser um mistério e conferiu-lhe a glória que tanto procurou em vida. O seu sofrimento foi o motor que transformou a sua arte em algo sublime. Ela foi capaz de descrever, como ninguém, os meandros da solidão, da angústia, da raiva e da fúria. Ao ritmo encantatório das suas palavras, como por magia, os objectos mais banais ganharam estatuto de símbolos de uma vida exaltada e exaltante e os actos mais comuns transformaram-se em gestos de sublime heroísmo.

THE JOURNALS OF SYLVIA PLATH – 1950-1962. Editados e anotados por Karen V. Kukil, Faber and Faber, 24 Março 2000. Uma edição (quase) completa. Só faltam dois Diários: um, que parece ter-se perdido e outro que relatava os últimos dias de Sylvia e que foi queimado por Ted Hughes. Este, em 1982, co-editou uma versão muito “censurada”, que cobre, com muitas lacunas, os anos de 1950 a 1953.
Faltam também, mas não há a certeza de que alguma vez tenham existido, dois cadernos de notas, referentes aos dois anos que se seguiram à sua tentativa de suicídio, em 1953.

Leituras Complementares:
BIRTHDAY LETTERS de Ted Hughes, Faber and Faber, Abril 1999
BURNT DIARIES e GIRLITUDE: A PORTRAIT OF THE 50S AND 60S de Emma Tennant, respectivamente, Canongate Books, Outubro 1999 e Jonathan Cape Books, Abril 1999

WOOROLOO – POEMS de Frieda Hughes, Harper Collins, Outubro 1998. Frieda Hughes tinha apenas três anos quando a mãe morreu. Ao contrário do que se possa pensar, ela afirma que o pai sempre a educou, e ao irmão mais novo, na recordação da mãe. “Cresci a pensar nela como num anjo”. Frieda diz também que só percebeu quão famosos eram os seus progenitores quando teve de lhes estudar as obras, na escola. Ela própria começou a escrever poemas na juventude. Depois de uma adolescência tumultuosa marcada pela anorexia e por um casamento precipitado, aos 19 anos, viveu durante algum tempo na Austrália em Wooroloo, um local que serve de título ao seu volume de poemas. Casada com um pintor húngaro Frieda é também pintora e autora de livros para crianças. Sobre o culto que rodeia a figura da sua mãe, revolta-se contra aqueles que “a viram e tornam a virar como carne em carvões em brasa” e afirma que, apesar de sentir que nunca saberá a verdade sobre o seu suicídio, não deseja remexer em feridas antigas.

WHERE DID IT ALL GO RIGHT de A. Alvarez, Richard Cohen Books, Setembro 1999. O crítico e escritor A. Alvarez declarou mais tarde que falhou no seu apoio a Plath. Foi ele quem deu abrigo a Hughes quando este saiu de casa e foi ele também quem passou o último Natal (de 1962) com Sylvia. “ Falhei como amigo. Tinha 30 anos e era estúpido. Não percebia nada de depressões” disse Alvarez numa entrevista. Esta autobiografia complementa “The Savage God”, uma obra que relata e analisa o suicídio de Plath.

Nota: O filho de Sylvia Plath e Ted Hughes suicidou-se na sua casa no Alaska, em Março de 2009, 46 anos depois da mãe. Nicholas (Nick) era biologista marinho e sofria de depressão.

sábado, 17 de setembro de 2011

Hildegard von Bingen


E porque hoje é dia 17 de Setembro, aproveito para lembrar uma mulher extraordinária : HILDEGARD von BINGEN, filósofa, mística, compositora, poeta, que morreu há 932 anos no Mosteiro de Rupertsberg.

"A Hildegarda de Bermershiem – ou Hildegard von Bingen, ou a SIBILA do RENO, como ficou justamente conhecida – são atribuídos muitos adjectivos dos quais “luminosa, arrebatadora, surpreendente, sábia,... inspirada, visionária, santa” são apenas alguns entre os inúmeros encómios que fizeram dela uma das mais fascinantes personagens da Idade Média.
Apesar da sua vida ter sido amplamente discutida, as suas visões minuciosamente analisadas e a sua obra musical cuidadosamente divulgada, o livro “Música Escarlate” de Jean Ohanneson é especialmente revelador por desvendar as extraordinárias aptidões de uma mulher, num tempo considerado de obscurantismo e de “trevas”. E numa altura em que as religiões mostram a sua face mais extremista, a vida de von Bingen surge como um exemplo e como uma iluminação. Ohanneson, que levou dez anos para escrever este livro, depois de uma quase clausura em bibliotecas e uma exaustiva consulta de arquivos, foi educada na fé católica e trabalha com afinco no campo das ideias, desenvolvendo esforços para uma melhor compreensão da liberdade humana, focando essencialmente a espiritualidade e a sexualidade bem como o papel da mulher na Igreja e sociedade contemporâneas."
Se estiverem interessadas(os) em ler o resto, vão até www.storm-magazine.com O texto está logo na capa.
A Vida de Hildegard von Bingen, A SIBILA do RENO, no livro “ Música Escarlate” de Jean Ohanneson