sexta-feira, 19 de agosto de 2011

COMUNIDADE de LEITORES, Culturgest, Lisboa



Imagem: Thalia, musa da Comédia, pormenor do sarcófago das Musas, Museu do Louvre, Paris
PROGRAMA
O RISO e o ESQUECIMENTO

É uma verdade universalmente conhecida que o riso faz parte das expressões mais profundas e sérias do ser humano e que a comédia – como um dos géneros classificados por Aristóteles na sua Poética – surge com força renovada nos mais terríveis momentos de crise política, social, individual. E se a função da Literatura era a mimesis, ou imitação da vida, a comédia ao invés (ou como complemento) da tragédia tinha, e continua a ter, a árdua tarefa de recriar a existência com elevação e solenidade, ao mesmo tempo que faz despertar o riso. A “comédia” nem sempre esteve ligada aos mesmos pressupostos – Dante chama à sua obra-prima A Comédia no sentido alegórico da cosmogonia medieval – mas Geoffrey Chaucer e Boccaccio foram mestres na criação (século XIV) de personagens cómicas em inusitadas peripécias com o propósito de recriar a farsa como espelho do mundo. Essas figuras-tipo – o frade, o médico, o mercador, a “esposa”, a freira, etc. – foram utilizadas por grandes dramaturgos como Molière e Lope de Veja e por autores como Eça de Queirós e Machado de Assis que se encarregaram de zurzir violentamente os seus contemporâneos. Quanto a Jacobson e Heller vão também buscar atributos tradicionalmente “cómicos” – a viuvez em "A Questão Finkler" e a ingenuidade em "Catch 22" – para demolirem, respectivamente, a sociedade inglesa, especialmente a judaica, e a loucura assassina da guerra. Recuando para a Inglaterra isabelina, onde se seguia a distinção clássica – as tragédias acabavam mal e as comédias tinham um final feliz – "Como vos Aprouver" de William Shakespeare é um exemplo perfeito da “alta comédia” pela forma refinada como são tratados os temas das mudanças de identidade e confusão de géneros. Os mal-entendidos são também o catalisador de toda a acção em "Ema", uma heroína com uma personalidade tão forte como a de Rosalind mas à qual Austen, com a sua capacidade para dizer sempre o contrário do que está implícito, atribui uma enorme falta de bom senso. A comédia é um género essencialmente democrático mas não deixa, por isso, de se revelar como indispensável. Os grandes tiranos, na sua solidão, sempre precisaram de um bobo para os obrigar a olhar a realidade do mundo, aquilo a que o filósofo Thomas Hobbes, referindo-se ao riso, chamou a “súbita glória” do ser humano.

Qui 22 de Setembro - Ema, Jane Austen, Ed. Europa-América

Qui 13 de Outubro, A Relíquia, Eça de Queirós, Porto Editora

Qui 3 de Novembro - A Questão Finkler, Howard Jacobson, Porto Editora

Qui 17 de Novembro- Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis, Ed. Dom Quixote

Qua 30 de Novembro - Catch 22, Joseph Heller, Ed. Dom Quixote

Qui 15 de Dezembro - Como vos Aprouver (As You Like It), William Shakespeare, Ed. Campo das Letras, 2008

Laughter is one of the most profound and serious expressions of the human being, and comedy tends to reappear with renewed vigour in times of individual, social and political crisis. As the reverse (or complement) of tragedy, comedy has the difficult task of recreating existence with dignity and solemnity, while still making people laugh. In literary terms, “comedy” is not always based on the same premises: it is an essentially democratic, but nonetheless indispensable genre, with laughter providing what Hobbes described as the “sudden glory” of the human being.

domingo, 7 de agosto de 2011

Apontamentos sobre Shelley no dia do seu aniversário


Como poderia deixar passar o dia 4 e Agosto sem recordar Percy Bysshe Shelley, uma das personalidades mais carismáticas, impetuosas, generosas, belas e talentosas do Romantismo inglês?
Escrevi o seguinte sobre Shelley: ( para Conferências, Cascais, Museu Paula Rego, Maio, 2011)
"Aos 20 anos Percy Shelley ( que nasceu em Field Place, Horsham, a 4 de Agosto de 1792e morreu afogado, em Itália, no Mar Lígure, Golfo de Spezia, a 8 de Julho de 1822) já escrevia cartas indignadas, demonstrando o seu ódio pela tirania e pela injustiça e rebelando-se contra actos e leis que considerava indignos . Desde muito novo ligou profundamente a sua poesia ao activismo político e considerava um imperativo, como puro herói romântico que era, encontrar uma causa nobre pela qual pudesse lutar. Em 1813 já era anti-monarquia e um radical ardentíssimo. Tornou-se rapidamente uma figura de referência, depois de ter sido expulso de Oxford por causa de um panfleto – que escrevera com um amigo – sobre a “Necessidade do Ateísmo”. Mas o abandono de Oxford e a rejeição por parte da sua aristocrática família representaram um momento de viragem na sua vida.
Sobre Percy e Mary Shelley:
"Um encontro perfeito de espíritos e de inteligências - uma paixão, tão emotiva quanto intelectual, entre Percy Shelley (nasceu a 4 de Agosto de 1792) e Mary Shelley:
(Escrevi o seguinte sobre Shelley: ( para Conferências, Cascais, Museu Paula Rego, Maio, 2011)
"Shelley foi arrebatado pela inteligência de Mary – que ele considerava sua igual – e que comungava das suas ideias, incluindo o vegetarianismo. A relação íntima com os Godwin e a crescente paixão por Mary levaram Shelley a escrever o seu primeiro longo poema "Queen Mab: A Philosophical Poem". A rainha Mab, que aparece em Romeu e Julieta, é retomada por Shelley como uma ninfa que desce à terra para construir uma sociedade utópica futura, virando costas ao passado de opressão. Shelley escreveu o poema com o intuito de veicular as suas teorias revolucionárias que implicavam a necessidade de mudanças radicais que se operariam através da natureza e dos actos dos homens ( e mulheres)."
Já no exílio italiano , em 1819, Shelley escreveu “A Máscara da Anarquia”, poema na sequência do que ficou conhecido pelo Massacre de Peterloo, uma declaração política de protesto contra a cavalaria que carregou sobre uma multidão de 60 a 80 mil pessoas em Manchester – zona essencialmente industrial - que pediam representação parlamentar. (O nome foi posto num tom de ironia em relação a Waterloo, que acontecera quatro anos antes.) Shelley usa neste poema imagens grotescas para mostrar o lado trágico da força bruta contra pessoas indefesas e expressa a violência dos seus sentimentos de repulsa contra as forças dominantes. Com imagens muito fortes tinha a intenção de provocar nos leitores o mesmo que ele sentia: repugnância pela brutalidade das forças de repressão".
Os Shelley, os Byron e a "rede":
Foram todos para Itália: Keats, Byron, Claire Clairmont, Mary, Fanny Imlay, o médico de Byron, Polidori, a que se juntaram, mais tarde, Leigh Hunt e a família. Primeiro estiveram na Suiça.
(Em Conferências, Cascais, Museu Paula Rego, Maio, 2011):" O casal ( Mary e Percy) fugiu de Inglaterra em Julho de 1814. Mary tinha então dezasseis anos e estava grávida, aliás como Harriet, que continuava a ser a mulher legítima de Shelley. Perseguidos pelo escândalo e pela ira de Godwin (que apesar das suas teorias deixou de falar à filha durante anos), percorreram a Europa acompanhados da meia-irmã de Mary, Fanny Imlay. Finalmente estabeleceram-se na Suiça, nas margens do Lago Genéve.
No seu diário Mary conta que em fevereiro de 1815, nasceu-lhe uma menina prematura que ela a alimentou ao peito; que a sua meia irmã, Fanny, estava com eles; que Claire Clairmont entretinha Shelley; que Napoleão tinha invadido a Europa. Mas a bébé morreu em Março e este drama foi o primeiro de uma série de calamidades num ano particularmente difícil. Claire (Clairmont) que tinha seduzido Lord Byron, estava grávida . Byron fugira dela e deixara a Inglaterra a caminho da Suiça, perseguido também pelo escândalo da sua relação com Lady Caroline Lamb. No mês de Junho, de novo à espera de bébé, Mary começou a escrever Frankenstein. Em Outubro, Fanny Imlay suicidou-se ao saber que não era filha de Godwin mas sim de Mary Wollstonecraft e do seu amante americano. O seu corpo nem sequer foi reclamado por Godwin, sendo lançado na vala comum juntamente com os pobres anónimos de Londres. Em Dezembro, a mulher de Shelley, Harriet, depois de saber que também ela estava grávida de outro que não o marido, afogou-se na Serpentine. Já quase no fim do ano Shelley e Mary, relutantemente, casaram-se.
A opinião pública inglesa atacou-os violentamente, o que os fez exilarem-se em Itália onde parece terem sido felizes."

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Herman Melville


"Chamem-me Ismael". Penso em nomes como Queequeg, Ahab, Elijah, Tashtego, figuras criadas por Herman Melville que nasceu a 1 de Agosto de 1819 em Nova Iorque. (Morreu a 28 de Setembro, 1891). Em primeiro lugar devo dizer que é um dos escritores mais bonitos que eu conheço, rivalizando apenas com Samuel Beckett em "good looks". Depoi...s, gosto dele porque era um aventureiro, um viajante incansável e inquieto, algo que admiro num homem e num escritor. Passando a questões mais "profundas", toda a gente sabe que ele escreveu "Moby Dick" ( visão messiânica, Shakespeare, baleias, a Bíblia, Milton, um navio mítico, o Nantucket, "selvagens tatuados" e muito mais) que, apesar de ser um livro chato no início - muita gente não o lê todo, até porque logo na edição inglesa, de Peter Bentley , foi logo cortado o epílogo - muito falocrata e moralista, é, na realidade, um romance deslumbrante por todas as razões contrárias aquelas que são, normalmente , apontadas. Recorde-se que Melville aprendeu muito sobre as "Sperm Whales" com os arpoadores açorianos que viviam - os seus descendentes ainda vivem - na orla marítima americana, em New Bedford. E depois há "Bartleby, o Escriba: uma História de Wall Street" que é um conto/novela genial e "Benito Cereno", de que é raro falar-se. Ironicamente, o maior sucesso que Melville conheceu em vida foi por causa dos seus piores livros - "Typee" e "Omoo", por exemplo - e o melhor da sua obra só foi elevada à categoria de cânone, no século XX. Melville claro que morreu esquecido e abandonado à sua sorte mas hoje (quase) toda a gente o conhece.

Emily Bronte


A 30 de Julho de 1818 - nasceu EMILY BRONTE, poetisa e escritora inglesa (m. 1848).
Algumas coisas que escrevi (e disse) sobre ela no Museu Paula Rego, ao comparar "O Monte dos Vendavais com "Frankenstein" de Mary Shelley.
"É sempre com espanto que releio “O Monte dos Vendavais” (1847) esse romance apocalíptico e demoníaco, tendo em me...nte que a autora, quando o escreveu, era uma jovem de vinte e tal anos que pouco conhecia do mundo e parece nunca ter experimentado uma paixão amorosa. É claro que - tal como Frankenstein não é somente uma história de arrepiar mas sim uma “fantasia enigmática de horror metafísico” - o "Monte dos Vendavais" não é apenas uma história de amores contrariados mas sim um “romance enigmático de uma paixão metafísica”. Mary Shelley produziu um texto “masculino” em que as figuras femininas se encontram obviamente dependentes de figuras masculinas heróicas – e anti-heróicas - enquanto Emily Brontë criou um universo onde mulheres de espírito indomável e independente desafiam constantemente os homens. No entanto, ambos os romances seguem um padrão de narrativas concêntricas, ambos possuem histórias dentro da história, ambos colocam uma ênfase forte na sorte de órfãos e de mendigos. Não é por acaso que tanto Mary Shelley como as irmãs Brontë viveram sem as mães respectivas e colocaram essa condição de orfandade de uma forma obsessiva, nos seus livros."
Imagem: retrato de Emily Brontë pelo seu irmão Branwell Brontë.

domingo, 15 de maio de 2011

Último dia da Feira do Livro, Lisboa, 2011



É hoje, 15 de Maio de 2011, o último dia da Feira do Livro de Lisboa. Aproveito para deixar aqui a versão completa de uma breve crónica que escrevi para o P2, suplemento do Jornal Público.




Ir à Feira do Livro é como uma antecipação de férias, o que para mim é bastante irónico uma vez que os meus dias se passam entre livros e mais livros. Sinto-me como um pasteleiro na loja de doces, como uma criança entre brinquedos, como se fosse Natal e sem qualquer Scrooge a ensombrá-lo – será que Dickens está traduzido para português? - e poderia passar o tempo à procura de mais associações tontas deste tipo, a olhar para os jacarandás gloriosamente em flor, se não me ocorresse que estou aqui “em missão”.
E é assim que me faço ao caminho por entre escaparates que apresentam o seu “produto” com a alegria, o movimento de um mercado exótico, e sob um sol glorioso deslizo, parque acima, no melhor estilo “flâneuse”, à procura de “Ilha Teresa”, o novo livro de Richard Zimler, um autor cuja obra acompanho com devoção. De passagem, procuro o lugar da Tinta da China para ver aquelas belas capas, todas juntas, e aproveito para adquirir mais um exemplar de “Caderno Afegão” de Alexandra Lucas Coelho, para oferecer a alguém que seja merecedor. A tentação de gastar dinheiro é grande – o que me parece leviano, dada a crise – mas chego à conclusão de que não existe nada mais saudável do que esbanjar euros em livros, pelo o que decido mandar as preocupações às urtigas, num momento de grande irresponsabilidade mental, cívica e política. Dou por mim a fixar as costas do carrancudo e orgulhoso Marquês, lá no alto, com a sua orgulhosa pose de tirano iluminado e lembro-me logo do Pedro Almeida Vieira e dos seus romances históricos onde Pombal paira, como uma nuvem aziaga. É neste estado de espírito que me encontra um amigo de longa data – abraçamo-nos, emocionados – e recordo imediatamente “As Mulheres Cantoras “ de Lídia Jorge (“Lembras-te de mim? Perguntou. Abraçámo-nos. O seu corpo estava tão leve que dançávamos sem dar por isso….”), um romance tão belo que arrepia, com personagens deslumbrantes que percorrem as páginas ao ritmo da música das palavras desta escritora incomparável.
De novo só, distraio-me a contemplar o rio, lá em baixo, a beleza absoluta desta “Cidade de Ulisses” … e pronto, lá vou eu a correr comprar o romance do mesmo nome de Teolinda Gersão, tão apaixonante, tão bem escrito, um romance cinzelado em palavras certeiras e poéticas por esta grande escritora cuja carreira literária já conta trinta anos de labor ! Pelo caminho faço uma visita à “Casa das Auroras” da Cristina Carvalho, um livro que quero reler – uma e outra vez para apreender bem o sentido deste livro singular - e rio-me sem querer ao ver uma senhora opulenta de carnes, carregada de livros, a deixá-los cair, no momento em que é vigorosamente puxada por um nervoso rafeiro que se deita a arfar, tão afogueado quanto a dona. É um momento de humor à la Jacques Tati, o que me remete para a douta reflexão de quão humano é rirmo-nos quando alguém tropeça ou diz baboseiras, ou põe o pé em falso (em todos os sentidos). Acontecimentos destes são a matéria-prima dos humoristas mas se rir é fácil e fazer rir é difícil, mais difícil será, como observou o velho Quintiliano, acrescentar à hilaridade espontânea o dom da ironia, que implica agilidade mental, facilidade de expressão, cultura, charme, um pouco de picante, etc., tudo o que Shakespeare possuía – aliás como Camões. "Melhor um louco com graça do que um engraçado doido” dizia ele, Shakespeare, um conselho que certamente não é necessário recordar quando se trata de Machado de Assis ou de Howard Jacobson que, em épocas diferentes, souberam utilizar o “wit” de forma memorável. O brilhante, impagável, cáustico “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e a “A Questão Finkler” farão parte do programa da minha próxima Comunidade de Leitores na Culturgest. Ainda me falta escolher quatro livros dedicados ao mesmo tema. Quão difícil é encontrar obras em que a comédia seja um assunto sério! A visita continua.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Curso Breve



Começa amanhã o meu Curso de Introdução à Literatura inglesa e americana na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. São 4 sessões - dias 7, 14, 21, 28 de Maio. Das 15 às 18 horas com intervalo para café.Estou ansiosa por começar. Aqui fica o Programa:


Uma breve viagem pelo universo da Literatura de Língua Inglesa, do século XIX aos nossos dias.

O óbvio interesse de Paula Rego pela Literatura parece enfatizar a importância de tramas e narrativas na sua obra. Para além de reformular a leitura de textos literários – caso do romance “Jane Eyre” de Charlotte Brontë e dos escritos de George Orwell, entre outros – a sua constante referência a temas e imagens dos contos tradicionais e a ironia crítica com que retrata o papel das mulheres em casa e na sociedade, são sinais de um intenso escrutínio e de uma profunda reflexão no que diz respeito à ligação entre o seu imaginário e o processo narrativo. Na verdade, o que é a Literatura senão a fixação de histórias na escrita? Qual a diferença entre contar a história de um príncipe dinamarquês, cuja mãe casou com o tio, que avista o fantasma do pai, que perde a cabeça e leva toda a gente à morte, e ler – e levar à cena – uma das peças-chave da dramaturgia mundial, de William Shakespeare? O que separa a história de uma jovem mulher que encontra um homem com o estúpido nome de Darcy, aparentemente insuportável mas que acaba por se revelar simpático e que a convence a casar e a viver feliz com ele para sempre, e a obra de Jane Austen? Ou ainda como descortinar, na história de uma jovem maltratada (Jane Eyre) que vai trabalhar como governanta e se apaixona pelo seu arrebatador patrão – vento e neblina acompanham os seus suspiros, sótãos e incêndios desorganizam-lhe a mente – uma das mais apaixonantes tramas de todos os tempos? E como entender a forma como as misteriosas e assustadoras histórias contadas às crianças antes de adormecerem se transmutaram em semente de uma literatura que chegou aos nossos dias com os seus terrores urbanos, o receio da globalização descontrolada, o caos das perturbações sociais e a desagregação de um modelo familiar que parecia imutável e sólido? No vasto território da Literatura poderá haver respostas a estas e a outras questões.

I – 7 Maio, 2011 – 15:00h
As Contadoras de Histórias – de Jane Austen a Zadie Smith.

As mulheres, contadoras de histórias por excelência, conhecedoras profundas do mundo privado e do espaço público, guardadoras de palavras e de mitos têm desempenhado um papel único e pioneiro na Literatura anglo-saxónica. As inglesas Jane Austen – criadora do “romance moderno” – e Zadie Smith – actual representante da escrita “pós-colonialista”, urbana e sofisticada – podem funcionar como marcos que separam mais de dois séculos de Literatura alimentada pelo poder feminino. Do “romance gótico” ao “romance fantástico”, que transitou do século XVIII para o século XIX – com a marca indelével da genial Mary Shelley – passando pelas poetas vitorianas Elizabeth Barrett Browning e Christina Rossetti e, nos Estados Unidos, Emily Dickinson, até chegar a romancistas contemporâneas como Margaret Atwood, Nadine Gordimer, Doris Lessing e Joyce Carol Oates, tudo indica que é importante ressalvar o papel de uma escrita “feminina” – questão, por si só, controversa – e tentar delinear um mapa que demonstre a importância de tantas e tão talentosas autoras.

II – 14 Maio, 2011 – 15:00h
Os Românticos – Somos todos heróis “byroneanos”?

Os primeiros Românticos, jovens, impetuosos e revolucionários, viveram paixões intensas por pessoas, por políticas, pela arte e pela aventura intelectual. A geração que foi buscar o seu ímpeto aos ideais subjacentes à Revolução Francesa – que lhes moldou o carácter e a arte de escrever – inclui William Wordsworth, Samuel Taylor Coleridge e William Blake que formaram o “trio de ataque” e foram seguidos por Byron, Shelley e Keats cujo trabalho poético é já contemporâneo do rescaldo da derrota de Napoleão em Waterloo, em 1815. É possível detectar heróis – e anti-heróis – “byroneanos” em criações literárias das irmãs Brontë, de Oscar Wilde, até de James Joyce e, mais recentemente, de autores como Saul Bellow e Martin Amis. De referir, a luta (em certa medida inglória) de D.H. Lawrence para criar personagens romanticamente “revolucionárias”, de ambos os sexos, apostadas em quebrar tabus no que diz respeito às relações humanas, algo que os membros do famoso Bloomsbury Group, puseram em prática, de uma forma mais cerebral mas não menos utópica, dando origem a movimentos que tiveram o seu apogeu nos anos sessenta e setenta do século XX. Ainda hoje o termo “romântico” é aplicado de uma forma indiscriminada e por vezes “leviana” sem ter perdido o seu carisma inicial. A Literatura, a sociedade e as pessoas chegam a ressentir-se de tão pesada herança, salvaguardando a raiz revolucionária mas usando a ironia para desconstruir os excessos e o pessimismo mórbido deste movimento.

III – 21 Maio, 2011, 15:00h
Maçã Envenenada e Bosque Encantado – a Idade de Vitória

O século XIX é, por excelência, o tempo da rainha Vitória da Grã-Bretanha, que deu origem a um termo, “vitorianismo”, aplicado à literatura, às artes, à política, aos costumes, à moda, à ciência e, praticamente a todas as manifestações sociais e individuais do seu tempo. A Literatura reflecte plenamente as contradições de uma época que estremece, ainda, no rescaldo de três Revoluções – a Americana, a Francesa e a Industrial – e que dá os primeiros passos naquilo a que se convencionou chamar a Idade Moderna. Desenvolvem-se novas ideias de organização da sociedade, da família, do papel das mulheres e das crianças. Por um lado a ciência dá passos gigantescos, a migração para as cidades é maciça, o individualismo manifesta-se como crença e a família nuclear estabelece-se em força; por outro lado, a miséria invade as ruas, a prostituição e o trabalho infantil são realidades obscenas – Charles Dickens escreveu sem parar sobre este tema – e os traumas e as neuroses mais violentas desenvolvem-se no ambiente fechado e sombrio das “nurseries”, dentro de casas confortáveis – fruto do progresso – mas com as janelas firmemente fechadas ao mundo exterior. É o tempo de relações funestas e delírios alucinados, de jogos mentais e de transformações fantásticas – aliados a um erotismo poderoso e latente - que autores como as irmãs Brontë, Lewis Carroll, Robert Louis Stevenson, Oscar Wilde, Sir Arthur Connan Doyle, bem como os americanos Edgar Allan Poe, Herman Melville e Walt Whitman não se cansaram de explorar. Até nós, chegam os ecos e a influência do que Freud chamou “o romance familiar dos neuróticos”, principalmente nos escritores irlandeses contemporâneos como Michael Collins e Anne Enright ou nos “pastiches” vitorianos da autora inglesa A. S. Byatt.

IV – 28 Maio, 2011, 15:00h
Da “morte” de Deus à globalização – Modernismo e pós-modernismo.
Recusando violentamente o aparente optimismo vitoriano, o Modernismo rebela-se contra as regras impostas pela tradição e reage duramente contra pressupostos religiosos, sociais e políticos. A carnificina da Iª Grande Guerra revela o vazio e a descrença, dando origem à “Geração Perdida” de Hemingway e Scott Fitzgerald. É, também, o tempo de Virgínia Woolf, de James Joyce e dos americanos T. S. Eliot, Edith Wharton e Henry James. George Orwell, o “santo – proletário” é figura exemplar numa época em que se tenta desesperadamente – e sem grande êxito – desmascarar os perigos das ideologias e evitar erros futuros. A segunda metade do século XX assiste ao eclodir do pós-modernismo e da tomada do poder por parte de escritores que, no universo da Língua Inglesa, desbravam caminhos perigosos que vão do humor negro à fantasia satírica, passando pelo anti-realismo, pela fabulação, pelo absurdismo, pela pornografia dura e por muitas outras ficções “etiquetadas” pelos críticos que tanto escrevem em suportes tradicionais como em blogues ou se fazem ouvir no Youtube . Nomes como Martin Amis, Salman Rushdie, Kasuo Ishiguro e Ian McEwan procuram uma voz particular e única por entre a avalanche de influências que lhes chegam dos quatro cantos do mundo de expatriados como Nabokov e Saul Bellow à escrita daqueles que, depois da queda de impérios e de muros, enriquecem, com a sua experiência, uma Literatura em constante efervescência, multi-cultural, mestiça e visionária.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Última sessão desta Comunidade de Leitores na Culturgest


Hoje, na Culturgest, Lisboa, última sessão desta Comunidade de Leitores dedicada ao tema do "medo". Vamos discutir, de Henry James, "A Volta do Parafuso" , um conto de arrepiar que Oscar Wilde classificou da seguinte forma: "é um conto maravilhoso, terrível e venenoso”. Será um "conto de fadas", uma história de fantasmas ou um estudo da histeria (feminina, claro!)? Até agora nem mesmo Edmund Wilson, o grande crítico americano,conseguiu dar uma resposta clara. Aliás, James - que acompanhava os estudos de psicologia do seu irmão William James - tratou de criar uma "opacidade" absoluta, deixando o leitor no escuro... e às voltas com os seus próprios fantasmas.”

A história é contada por alguém que a ouviu de uma jovem governanta que é contratada para tomar conta de duas crianças numa recôndita casa de campo. Aí, ela começa a "ver" os fantasmas de um antigo criado , Peter Quint e da anterior preceptora, Miss Jessel - mortos em circunstâncias suspeitas - e fica aterrorizada com a hipótese de eles terem "voltado" para se apoderarem das duas encantadoras, belas e misteriosas crianças, Flora e Miles.

Só ela é que avista os fantasmas - nunca há uma confirmação de outras pessoas - e é por isso que a grande questão se coloca: existirão mesmo almas do outro mundo ou será tudo produto de uma mente perturbada fruto de uma sexualidade reprimida - neste caso, a da governanta?

A mestria com que James conta a história provoca grandes dúvidas nos leitores que, tal como eu, vasculham o texto à procura de indícios.

"A Volta do Parafuso" será um conto da literatura "gótica" - há uma referência no texto a "Os Mistérios de Udolpho" de Ann Radcliffe - ou uma crítica a essa mesma literatura? A relação com "Jane Eyre" de Charlotte Brontë é óbvia. Mas "esta" governanta não tem a fortaleza de espírito de Jane Eyre. Uma coisa é certa: o sexo é um assunto latente. Miss Jessel e Peter Quint (este último ainda mais estigmatizado por ser de uma classe inferior) são "demoníacos" porque mantiveram uma relação "ilícita". E o que dizer do segredo que envolve a expulsão de Miles - o menino da casa - do colégio onde se encontrava? Não há respostas e as questões são deixadas em aberto pelo autor que prega partidas sobre partidas ao leitor, empurrando-o cada vez mais para um labirinto sem saída.

Na Storm Magazine está publicado um texto sobre Henry James. Em http://www.storm-magazine.com/