sexta-feira, 6 de maio de 2011

Curso Breve



Começa amanhã o meu Curso de Introdução à Literatura inglesa e americana na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. São 4 sessões - dias 7, 14, 21, 28 de Maio. Das 15 às 18 horas com intervalo para café.Estou ansiosa por começar. Aqui fica o Programa:


Uma breve viagem pelo universo da Literatura de Língua Inglesa, do século XIX aos nossos dias.

O óbvio interesse de Paula Rego pela Literatura parece enfatizar a importância de tramas e narrativas na sua obra. Para além de reformular a leitura de textos literários – caso do romance “Jane Eyre” de Charlotte Brontë e dos escritos de George Orwell, entre outros – a sua constante referência a temas e imagens dos contos tradicionais e a ironia crítica com que retrata o papel das mulheres em casa e na sociedade, são sinais de um intenso escrutínio e de uma profunda reflexão no que diz respeito à ligação entre o seu imaginário e o processo narrativo. Na verdade, o que é a Literatura senão a fixação de histórias na escrita? Qual a diferença entre contar a história de um príncipe dinamarquês, cuja mãe casou com o tio, que avista o fantasma do pai, que perde a cabeça e leva toda a gente à morte, e ler – e levar à cena – uma das peças-chave da dramaturgia mundial, de William Shakespeare? O que separa a história de uma jovem mulher que encontra um homem com o estúpido nome de Darcy, aparentemente insuportável mas que acaba por se revelar simpático e que a convence a casar e a viver feliz com ele para sempre, e a obra de Jane Austen? Ou ainda como descortinar, na história de uma jovem maltratada (Jane Eyre) que vai trabalhar como governanta e se apaixona pelo seu arrebatador patrão – vento e neblina acompanham os seus suspiros, sótãos e incêndios desorganizam-lhe a mente – uma das mais apaixonantes tramas de todos os tempos? E como entender a forma como as misteriosas e assustadoras histórias contadas às crianças antes de adormecerem se transmutaram em semente de uma literatura que chegou aos nossos dias com os seus terrores urbanos, o receio da globalização descontrolada, o caos das perturbações sociais e a desagregação de um modelo familiar que parecia imutável e sólido? No vasto território da Literatura poderá haver respostas a estas e a outras questões.

I – 7 Maio, 2011 – 15:00h
As Contadoras de Histórias – de Jane Austen a Zadie Smith.

As mulheres, contadoras de histórias por excelência, conhecedoras profundas do mundo privado e do espaço público, guardadoras de palavras e de mitos têm desempenhado um papel único e pioneiro na Literatura anglo-saxónica. As inglesas Jane Austen – criadora do “romance moderno” – e Zadie Smith – actual representante da escrita “pós-colonialista”, urbana e sofisticada – podem funcionar como marcos que separam mais de dois séculos de Literatura alimentada pelo poder feminino. Do “romance gótico” ao “romance fantástico”, que transitou do século XVIII para o século XIX – com a marca indelével da genial Mary Shelley – passando pelas poetas vitorianas Elizabeth Barrett Browning e Christina Rossetti e, nos Estados Unidos, Emily Dickinson, até chegar a romancistas contemporâneas como Margaret Atwood, Nadine Gordimer, Doris Lessing e Joyce Carol Oates, tudo indica que é importante ressalvar o papel de uma escrita “feminina” – questão, por si só, controversa – e tentar delinear um mapa que demonstre a importância de tantas e tão talentosas autoras.

II – 14 Maio, 2011 – 15:00h
Os Românticos – Somos todos heróis “byroneanos”?

Os primeiros Românticos, jovens, impetuosos e revolucionários, viveram paixões intensas por pessoas, por políticas, pela arte e pela aventura intelectual. A geração que foi buscar o seu ímpeto aos ideais subjacentes à Revolução Francesa – que lhes moldou o carácter e a arte de escrever – inclui William Wordsworth, Samuel Taylor Coleridge e William Blake que formaram o “trio de ataque” e foram seguidos por Byron, Shelley e Keats cujo trabalho poético é já contemporâneo do rescaldo da derrota de Napoleão em Waterloo, em 1815. É possível detectar heróis – e anti-heróis – “byroneanos” em criações literárias das irmãs Brontë, de Oscar Wilde, até de James Joyce e, mais recentemente, de autores como Saul Bellow e Martin Amis. De referir, a luta (em certa medida inglória) de D.H. Lawrence para criar personagens romanticamente “revolucionárias”, de ambos os sexos, apostadas em quebrar tabus no que diz respeito às relações humanas, algo que os membros do famoso Bloomsbury Group, puseram em prática, de uma forma mais cerebral mas não menos utópica, dando origem a movimentos que tiveram o seu apogeu nos anos sessenta e setenta do século XX. Ainda hoje o termo “romântico” é aplicado de uma forma indiscriminada e por vezes “leviana” sem ter perdido o seu carisma inicial. A Literatura, a sociedade e as pessoas chegam a ressentir-se de tão pesada herança, salvaguardando a raiz revolucionária mas usando a ironia para desconstruir os excessos e o pessimismo mórbido deste movimento.

III – 21 Maio, 2011, 15:00h
Maçã Envenenada e Bosque Encantado – a Idade de Vitória

O século XIX é, por excelência, o tempo da rainha Vitória da Grã-Bretanha, que deu origem a um termo, “vitorianismo”, aplicado à literatura, às artes, à política, aos costumes, à moda, à ciência e, praticamente a todas as manifestações sociais e individuais do seu tempo. A Literatura reflecte plenamente as contradições de uma época que estremece, ainda, no rescaldo de três Revoluções – a Americana, a Francesa e a Industrial – e que dá os primeiros passos naquilo a que se convencionou chamar a Idade Moderna. Desenvolvem-se novas ideias de organização da sociedade, da família, do papel das mulheres e das crianças. Por um lado a ciência dá passos gigantescos, a migração para as cidades é maciça, o individualismo manifesta-se como crença e a família nuclear estabelece-se em força; por outro lado, a miséria invade as ruas, a prostituição e o trabalho infantil são realidades obscenas – Charles Dickens escreveu sem parar sobre este tema – e os traumas e as neuroses mais violentas desenvolvem-se no ambiente fechado e sombrio das “nurseries”, dentro de casas confortáveis – fruto do progresso – mas com as janelas firmemente fechadas ao mundo exterior. É o tempo de relações funestas e delírios alucinados, de jogos mentais e de transformações fantásticas – aliados a um erotismo poderoso e latente - que autores como as irmãs Brontë, Lewis Carroll, Robert Louis Stevenson, Oscar Wilde, Sir Arthur Connan Doyle, bem como os americanos Edgar Allan Poe, Herman Melville e Walt Whitman não se cansaram de explorar. Até nós, chegam os ecos e a influência do que Freud chamou “o romance familiar dos neuróticos”, principalmente nos escritores irlandeses contemporâneos como Michael Collins e Anne Enright ou nos “pastiches” vitorianos da autora inglesa A. S. Byatt.

IV – 28 Maio, 2011, 15:00h
Da “morte” de Deus à globalização – Modernismo e pós-modernismo.
Recusando violentamente o aparente optimismo vitoriano, o Modernismo rebela-se contra as regras impostas pela tradição e reage duramente contra pressupostos religiosos, sociais e políticos. A carnificina da Iª Grande Guerra revela o vazio e a descrença, dando origem à “Geração Perdida” de Hemingway e Scott Fitzgerald. É, também, o tempo de Virgínia Woolf, de James Joyce e dos americanos T. S. Eliot, Edith Wharton e Henry James. George Orwell, o “santo – proletário” é figura exemplar numa época em que se tenta desesperadamente – e sem grande êxito – desmascarar os perigos das ideologias e evitar erros futuros. A segunda metade do século XX assiste ao eclodir do pós-modernismo e da tomada do poder por parte de escritores que, no universo da Língua Inglesa, desbravam caminhos perigosos que vão do humor negro à fantasia satírica, passando pelo anti-realismo, pela fabulação, pelo absurdismo, pela pornografia dura e por muitas outras ficções “etiquetadas” pelos críticos que tanto escrevem em suportes tradicionais como em blogues ou se fazem ouvir no Youtube . Nomes como Martin Amis, Salman Rushdie, Kasuo Ishiguro e Ian McEwan procuram uma voz particular e única por entre a avalanche de influências que lhes chegam dos quatro cantos do mundo de expatriados como Nabokov e Saul Bellow à escrita daqueles que, depois da queda de impérios e de muros, enriquecem, com a sua experiência, uma Literatura em constante efervescência, multi-cultural, mestiça e visionária.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Última sessão desta Comunidade de Leitores na Culturgest


Hoje, na Culturgest, Lisboa, última sessão desta Comunidade de Leitores dedicada ao tema do "medo". Vamos discutir, de Henry James, "A Volta do Parafuso" , um conto de arrepiar que Oscar Wilde classificou da seguinte forma: "é um conto maravilhoso, terrível e venenoso”. Será um "conto de fadas", uma história de fantasmas ou um estudo da histeria (feminina, claro!)? Até agora nem mesmo Edmund Wilson, o grande crítico americano,conseguiu dar uma resposta clara. Aliás, James - que acompanhava os estudos de psicologia do seu irmão William James - tratou de criar uma "opacidade" absoluta, deixando o leitor no escuro... e às voltas com os seus próprios fantasmas.”

A história é contada por alguém que a ouviu de uma jovem governanta que é contratada para tomar conta de duas crianças numa recôndita casa de campo. Aí, ela começa a "ver" os fantasmas de um antigo criado , Peter Quint e da anterior preceptora, Miss Jessel - mortos em circunstâncias suspeitas - e fica aterrorizada com a hipótese de eles terem "voltado" para se apoderarem das duas encantadoras, belas e misteriosas crianças, Flora e Miles.

Só ela é que avista os fantasmas - nunca há uma confirmação de outras pessoas - e é por isso que a grande questão se coloca: existirão mesmo almas do outro mundo ou será tudo produto de uma mente perturbada fruto de uma sexualidade reprimida - neste caso, a da governanta?

A mestria com que James conta a história provoca grandes dúvidas nos leitores que, tal como eu, vasculham o texto à procura de indícios.

"A Volta do Parafuso" será um conto da literatura "gótica" - há uma referência no texto a "Os Mistérios de Udolpho" de Ann Radcliffe - ou uma crítica a essa mesma literatura? A relação com "Jane Eyre" de Charlotte Brontë é óbvia. Mas "esta" governanta não tem a fortaleza de espírito de Jane Eyre. Uma coisa é certa: o sexo é um assunto latente. Miss Jessel e Peter Quint (este último ainda mais estigmatizado por ser de uma classe inferior) são "demoníacos" porque mantiveram uma relação "ilícita". E o que dizer do segredo que envolve a expulsão de Miles - o menino da casa - do colégio onde se encontrava? Não há respostas e as questões são deixadas em aberto pelo autor que prega partidas sobre partidas ao leitor, empurrando-o cada vez mais para um labirinto sem saída.

Na Storm Magazine está publicado um texto sobre Henry James. Em http://www.storm-magazine.com/

quinta-feira, 31 de março de 2011

Comunidade de Leitores na Culturgest, Lisboa


Hoje, dia de Comunidade de Leitores na Culturgest, Lisboa. Vamos discutir "NUNCA ME DEIXES" de Kazuo Ishiguro. Uma história sombria que levanta questões éticas no campo da investigação científica. Tudo servido por uma linguagem com os condimentos líricos próprios deste autor inglês de origem japonesa. Politicamente é um romance que é, também, uma alegoria ao totalitarismo: Hailsham é uma "sociedade ideal" onde vivem "pessoas especiais" - mimadas, protegidas – mas que não podem escapar ao futuro para eles traçado. A “ordem” é imposta, o futuro das pessoas está traçado e o pior é que, todos (quase todos) estão “conformados” e aceitam o que os espera. A perfeita imagem de um distopia, portanto… É, ainda, uma reflexão sobre a morte ou antes, o "completar de um ciclo" seja para as personagens do livro - clones doadores de órgãos - ou para todos nós. Logo veremos a que conclusões poderemos chegar - ou não. Será um livro sobre o hipotético poder do amor, sobre o medo da solidão, sobre a discussão em torno da existência da "alma"? As hipóteses são inúmeras. Leituras Complementares: "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley (1931) "1984" de George Orwell (1949) "Do Androids Dream of Electric Sheep?" de Philip K. Dick (1968) - deu origem ao filme Blade Runner. Para explorar a ideia de “distopias” : ler Roland Barthes em “Sade, Fourier e Loiola”. A eterna ideia de construção de um “sistema” perfeito, sexual, social, religioso.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Tenho recebido mensagens de pessoas a perguntarem onde acontecem estas Comunidades de Leitores. Há dez anos que lidero dois blocos de 6 sessões cada, na Culturgest, em Lisboa, Portugal - um no princípio do ano e outro depois do Verão. A programação, além de ser colocada aqui no blogue, está disponível no site da CULTURGEST - www.culturgest.pt - que tem um programa cultural extraordinário.
Podem, também, ler o que escrevo na revista on-line Storm-Magazine - www.storm-magazine.com
Obrigada pelo vosso interesse.

Hoje recomeçam as sessões da Comunidade de Leitores na Culturgest. O livro desta tarde - 18:30, Lisboa - é "A Boa Vida" de Jay Mcinerney. A obra já estava escolhida há muito mas causa-me um certo arrepio a coincidência de tratar um tema que está muito presente (vidé a situação no Japão): a forma como as pessoas mudam (ou não) a sua maneira de sentir, de viver, de estar, depois de uma catástrofe. Seja por causas naturais (terramotos), seja por intervenção humana (ataques de 11 de Setembro em Nova Iorque), será que os sobreviventes podem retomar as suas vidas no "ponto onde as deixaram"?

Esta é uma das múltiplas questões levantadas neste romance elegíaco, bem à maneira de Scott Fitzgerald, um autor que McInerney reconhece como seu mestre desde o já distante "Brigh Lights, Big City". Na edição portuguesa, na página 148, está escrito: “A festa acabou. É altura de partir. Não tínhamos dito isso em 1987? Que a festa tinha acabado?”

Sim, parece que a "festa" - essa extravaganza dos anos oitenta que agora nos custa tanto a "pagar" - acabou mesmo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

As Cartas de Bruce Chatwin

Depois da sessão de ontem da Comunidade de Leitores – David Lodge e "o perigo de se estar vivo", a fragilidade da velhice e a solidão com momentos hilariantes, durante duas e tal horas muito empolgantes e intensas – regressei hoje às minhas leituras e escritas.
Mandei vir a recente edição das cartas do escritor de viagens Bruce Chatwin " UNDER THE SUN. The Letters of Bruce Chatwin" numa edição da mulher, Elizabeth Chatwin, e do seu biógrafo Nicholas Shakespeare, Ed. Viking. Confesso que gosto muito dos livros de Chatwin – ou pelo menos gostei, nos anos 70 e 80, não os reli recentemente – mas a sua personalidade sempre me provocou sentimentos contraditórios. No entanto, como as pessoas excêntricas me atraem, não resisti a comprar mais este volume. Chatwin, autor de “Na Patagónia”, “O Vice-rei de Ajudá” , “Que Faço eu Aqui” e “ O Canto Nómada”, entre outros, nasceu em 1940 e morreu de sida em 1989. Trabalhou como jornalista no Sunday Times Magazine e ficou famosa a sua carta de demissão onde escreveu apenas, “Fui para a Patagónia”. Foi antiquário mas principalmente viajante e atraía tanto homens como mulheres com o seu ar de rapaz atrevido – na realidade, Chatwin era totalmente narcísico e havia nele qualquer coisa de "podre" como afirma Dwight Garner. O mais interessante tem a ver com as suas incontáveis viagens solitárias, os seus hábitos pouco "ortodoxos" – conta-se que fazia caminhadas pelo campo, nu, com botas e flores atadas ao pénis – a sua amizade com Susan Sontag – que dizia que Chatwin era o único amigo capaz de partilhar com ela uma refeição em Chinatown de "intestinos fritos e unhas dos pés" – e com Paul Theroux. Foi através de Sontag que poderá ter conhecido Sam Wagstaff, o patrono e amante de Robert Mapplethorpe que Chatwin dizia ter sido quem o infectou com o HIV – outras vezes contava que tinha sido repetidamente violado no Daomé. Na sua correspondência, torna-se visível o tipo de relação que teve com a mulher de quem viveu separado a maior parte do tempo – casaram em 1965 – mas que o tratou devotadamente durante a doença. Uma personagem complexa e trágica que provocou polémicas devido ao facto de nem sempre descrever as culturas, as pessoas e os lugares que conheceu com objectividade. Ao fim e ao cabo Chatwin era um escritor e não um sociólogo, historiador ou antropólogo…

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Comunidade de Leitores na Culturgest, Lisboa


Dia de Comunidade de Leitores, dia de David Lodge e de "A Vida em Surdina", ainda no âmbito do ciclo dedicado ao "medo".
Um professor aposentado, surdo e a braços com a sua crescente incapacidade; a mulher, rejuvenescida e activa; a discípula provocante e perturbada; o pai viúvo, solitário, a perder o juízo: os filhos a viverem as suas vidas. Se nos dois primeiros livros que lemos, "A Insígnia Vermelha da Coragem" de Stephen Crane e "O Deus das Moscas" de William Golding, analisámos acontecimentos em situações "excepcionais" – guerra, desastres – agora estamos em território "normal", até mesmo banal, inerente à vida de todos nós. O que David Lodge faz, com a sua incomparável mestria, é retomar os grandes temas da tragédia e da comédia clássicos e juntá-los numa mesma obra. A frase-chave de "A Vida em Surdina", que em inglês se chama "Deaf Sentence" , uma ambiguidade (deaf-surdo/dead-morto) impossível de traduzir à letra, é a seguinte: " a cegueira é trágica, a surdez é cómica".
É claro que todos somos cegos e surdos a qualquer coisa ou em relação a alguém, a cada instante. No livro existem muitas evidências deste fenómeno. Por isso, a nossa vida é tão complicada, por isso é que os nossos medos se avolumam. E será sobre isto tudo que iremos conversar, hoje, a partir das 18:30 na Culturgest, em Lisboa.