quinta-feira, 31 de março de 2011

Comunidade de Leitores na Culturgest, Lisboa


Hoje, dia de Comunidade de Leitores na Culturgest, Lisboa. Vamos discutir "NUNCA ME DEIXES" de Kazuo Ishiguro. Uma história sombria que levanta questões éticas no campo da investigação científica. Tudo servido por uma linguagem com os condimentos líricos próprios deste autor inglês de origem japonesa. Politicamente é um romance que é, também, uma alegoria ao totalitarismo: Hailsham é uma "sociedade ideal" onde vivem "pessoas especiais" - mimadas, protegidas – mas que não podem escapar ao futuro para eles traçado. A “ordem” é imposta, o futuro das pessoas está traçado e o pior é que, todos (quase todos) estão “conformados” e aceitam o que os espera. A perfeita imagem de um distopia, portanto… É, ainda, uma reflexão sobre a morte ou antes, o "completar de um ciclo" seja para as personagens do livro - clones doadores de órgãos - ou para todos nós. Logo veremos a que conclusões poderemos chegar - ou não. Será um livro sobre o hipotético poder do amor, sobre o medo da solidão, sobre a discussão em torno da existência da "alma"? As hipóteses são inúmeras. Leituras Complementares: "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley (1931) "1984" de George Orwell (1949) "Do Androids Dream of Electric Sheep?" de Philip K. Dick (1968) - deu origem ao filme Blade Runner. Para explorar a ideia de “distopias” : ler Roland Barthes em “Sade, Fourier e Loiola”. A eterna ideia de construção de um “sistema” perfeito, sexual, social, religioso.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Tenho recebido mensagens de pessoas a perguntarem onde acontecem estas Comunidades de Leitores. Há dez anos que lidero dois blocos de 6 sessões cada, na Culturgest, em Lisboa, Portugal - um no princípio do ano e outro depois do Verão. A programação, além de ser colocada aqui no blogue, está disponível no site da CULTURGEST - www.culturgest.pt - que tem um programa cultural extraordinário.
Podem, também, ler o que escrevo na revista on-line Storm-Magazine - www.storm-magazine.com
Obrigada pelo vosso interesse.

Hoje recomeçam as sessões da Comunidade de Leitores na Culturgest. O livro desta tarde - 18:30, Lisboa - é "A Boa Vida" de Jay Mcinerney. A obra já estava escolhida há muito mas causa-me um certo arrepio a coincidência de tratar um tema que está muito presente (vidé a situação no Japão): a forma como as pessoas mudam (ou não) a sua maneira de sentir, de viver, de estar, depois de uma catástrofe. Seja por causas naturais (terramotos), seja por intervenção humana (ataques de 11 de Setembro em Nova Iorque), será que os sobreviventes podem retomar as suas vidas no "ponto onde as deixaram"?

Esta é uma das múltiplas questões levantadas neste romance elegíaco, bem à maneira de Scott Fitzgerald, um autor que McInerney reconhece como seu mestre desde o já distante "Brigh Lights, Big City". Na edição portuguesa, na página 148, está escrito: “A festa acabou. É altura de partir. Não tínhamos dito isso em 1987? Que a festa tinha acabado?”

Sim, parece que a "festa" - essa extravaganza dos anos oitenta que agora nos custa tanto a "pagar" - acabou mesmo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

As Cartas de Bruce Chatwin

Depois da sessão de ontem da Comunidade de Leitores – David Lodge e "o perigo de se estar vivo", a fragilidade da velhice e a solidão com momentos hilariantes, durante duas e tal horas muito empolgantes e intensas – regressei hoje às minhas leituras e escritas.
Mandei vir a recente edição das cartas do escritor de viagens Bruce Chatwin " UNDER THE SUN. The Letters of Bruce Chatwin" numa edição da mulher, Elizabeth Chatwin, e do seu biógrafo Nicholas Shakespeare, Ed. Viking. Confesso que gosto muito dos livros de Chatwin – ou pelo menos gostei, nos anos 70 e 80, não os reli recentemente – mas a sua personalidade sempre me provocou sentimentos contraditórios. No entanto, como as pessoas excêntricas me atraem, não resisti a comprar mais este volume. Chatwin, autor de “Na Patagónia”, “O Vice-rei de Ajudá” , “Que Faço eu Aqui” e “ O Canto Nómada”, entre outros, nasceu em 1940 e morreu de sida em 1989. Trabalhou como jornalista no Sunday Times Magazine e ficou famosa a sua carta de demissão onde escreveu apenas, “Fui para a Patagónia”. Foi antiquário mas principalmente viajante e atraía tanto homens como mulheres com o seu ar de rapaz atrevido – na realidade, Chatwin era totalmente narcísico e havia nele qualquer coisa de "podre" como afirma Dwight Garner. O mais interessante tem a ver com as suas incontáveis viagens solitárias, os seus hábitos pouco "ortodoxos" – conta-se que fazia caminhadas pelo campo, nu, com botas e flores atadas ao pénis – a sua amizade com Susan Sontag – que dizia que Chatwin era o único amigo capaz de partilhar com ela uma refeição em Chinatown de "intestinos fritos e unhas dos pés" – e com Paul Theroux. Foi através de Sontag que poderá ter conhecido Sam Wagstaff, o patrono e amante de Robert Mapplethorpe que Chatwin dizia ter sido quem o infectou com o HIV – outras vezes contava que tinha sido repetidamente violado no Daomé. Na sua correspondência, torna-se visível o tipo de relação que teve com a mulher de quem viveu separado a maior parte do tempo – casaram em 1965 – mas que o tratou devotadamente durante a doença. Uma personagem complexa e trágica que provocou polémicas devido ao facto de nem sempre descrever as culturas, as pessoas e os lugares que conheceu com objectividade. Ao fim e ao cabo Chatwin era um escritor e não um sociólogo, historiador ou antropólogo…

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Comunidade de Leitores na Culturgest, Lisboa


Dia de Comunidade de Leitores, dia de David Lodge e de "A Vida em Surdina", ainda no âmbito do ciclo dedicado ao "medo".
Um professor aposentado, surdo e a braços com a sua crescente incapacidade; a mulher, rejuvenescida e activa; a discípula provocante e perturbada; o pai viúvo, solitário, a perder o juízo: os filhos a viverem as suas vidas. Se nos dois primeiros livros que lemos, "A Insígnia Vermelha da Coragem" de Stephen Crane e "O Deus das Moscas" de William Golding, analisámos acontecimentos em situações "excepcionais" – guerra, desastres – agora estamos em território "normal", até mesmo banal, inerente à vida de todos nós. O que David Lodge faz, com a sua incomparável mestria, é retomar os grandes temas da tragédia e da comédia clássicos e juntá-los numa mesma obra. A frase-chave de "A Vida em Surdina", que em inglês se chama "Deaf Sentence" , uma ambiguidade (deaf-surdo/dead-morto) impossível de traduzir à letra, é a seguinte: " a cegueira é trágica, a surdez é cómica".
É claro que todos somos cegos e surdos a qualquer coisa ou em relação a alguém, a cada instante. No livro existem muitas evidências deste fenómeno. Por isso, a nossa vida é tão complicada, por isso é que os nossos medos se avolumam. E será sobre isto tudo que iremos conversar, hoje, a partir das 18:30 na Culturgest, em Lisboa.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Leituras de fim-de-semana

Passei o fim-de-semana a ler o que, no meu caso, é como fazer um maratonista a preparar-se para uma caminhada de centenas de quilómetros. Não sou o Professor Marcelo Rebello de Sousa que lê vinte livros numa só noite mas quando vejo a pilha dos "não-lidos" a aumentar perigosamente, há que fazer um esforço.
Para já, quero referir o óptimo trabalho da editora Temas e Debates que pôs cá fora, em rápida sucessão, reedições de três obras fundamentais para a formação filosófica, política e literária de qualquer ser humano que se preze. São livros para consulta frequente e para releituras assíduas:
"Tratado Político" de Espinosa
"O Príncipe" de Maquiavel
"O Cânone Ocidental" do decano Harold Bloom, este último um utensílio indispensável – embora de conteúdo polémico, o que é sempre uma boa coisa – para quem quer que se interesse por Literatura. O único português incluído é, evidentemente, Fernando Pessoa por quem Bloom tem uma verdadeira obsessão.
Quanto a outros livros:
Mão Morta. Um Crime em Calcutá” do veterano de literatura de viagens – e não só – Paul Theroux, (Ed. Quetzal) com um relato de crimes e castigos no ambiente tórrido e húmido da populosa cidade asiática. Tão elogiado como criticado, este romance é uma espécie de tributo à Índia – caótica, fascinante, para alguns, repelente – e para quem gosta, com longas e por vezes exaustivas descrições de sexo tântrico. Theroux é um desses autores que sem nunca chegar aos píncaros, não tem dificuldade em mostrar a sua competência e versatilidade. Mistura géneros, liberta-se de dogmas e fala do que lhe interessa. Theroux que é filho de um canadiano e de uma italiana e foi escuteiro e católico na juventude, tem levado uma vida de aventuras e viajado por todo o mundo. Num dos seus primeiros livros, passado em África – “amor à primeira vista “ – escreveu sobre “a futilidade das políticas africanas e a desintegração da vida tribal”.

Também li, numa noite em que recordei os tempos em que só apagava a luz de madrugada, “O Último Homem Americano” de Elizabeth Girlbert, Ed Bertrand. E ADOREI. É um livro sobre a figura (real) de Eustace Conway, que vive como os primeiros pioneiros americanos ou, mais propriamente como os nativos americanos antes do avanço industrial e tecnológico. Mas não pensem que é (apenas) uma apologia do “bom selvagem” ou uma história sobre um hippie retardado. Eustace é um fenómeno e é preciso ler o livro para perceber que Gilbert desejou falar – e fá-lo de uma forma inteligente – sobre o que significa a “vida alternativa” e como estas podem ser mantidas ou, como na maioria dos casos, destruídas em pouco tempo. Gilbert é divertida, entusiasta e apesar de eu saber calcular que poucas pessoas falarão do livro nos jornais – muito “light” – eu li tudo com o maior prazer, enquanto relembrava a minha própria infância quando, em África, tal como Eustace nos Estados Unidos, as crianças iam para o mato brincar sem supervisão de adultos e comíamos formigas, raízes, bagas e apanhávamos cobras e outros animais. Uma espécie de viagem desvairada - como as que fez Eustace - a um ponto de não retorno. Eustace Conway é uma espécie de cruzamento entre Davy Crockett e Henry David Thoreau o que permite à autora escrever sobre as sociedades utópicas do século XIX, o movimento Beat e outras experiências. Fascinante. Só espero que não façam deste livro um filme tão mau como o que fizeram a partir de outro livro desta autora "Comer, Orar, Amar" que não era fabuloso mas não merecia um tratamento à la Bardem e à la Julia Roberts.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

E ontem fui ao Teatro. Estreia de "Azul Longe nas Colinas" de Dennis Potter. Na Sala Estúdio do TNDM II.

E ontem fui ao Teatro. Estreia de "Azul Longe nas Colinas" de Dennis Potter. Na Sala Estúdio do TNDM II.

Um texto cuja temática me fez lembrar "O Deus das Moscas" de William Golding e me pareceu "datado" e cheio de clichés. Mas o que importa MESMO é o trabalho dos ACTORES e a encenação de Beatriz BATARDA - esta, irrepreensível, rigorosa, exigente, bem trabalhada, apaixonante. Quanto aos ACTORES, dão tudo por tudo numa entrega arrepiante. Corpo-a-corpo muito físico, extenuante, num difícil balanço entre o muito intenso e o registo histérico. Ontem foram BRILHANTES. São todos magníficos mas gostaria de destacar Albano Jerónimo, cheio de testosterona ("creepy"), Luisa Cruz à la Meryl Streep – a fazer tudo o que lhe pediram e muito mais, com subtilezas deslumbrantes - e Bruno Nogueira, trágico e tão comovente. Falo de Bruno Nogueira porque, no final, ouvi no átrio comentários pouco simpáticos a seu respeito - como se pelo facto de ele ser essencialmente um actor cómico não tivesse "direito" a este papel. "Que ele tem sempre o mesmo registo!” ouvi dizer a almas caridosas. Pois eu não acho nada. Não o conheço, só o vi nos Contemporâneos mas fiquei pregada aquele corpo demasiado esguio - aquelas pernas que nunca mais acabam, altas demais - preso de tristezas e de fantasmas. Um espectáculo hipnotizante com música de Bernardo Sassetti.