domingo, 16 de janeiro de 2011

O próximo romance de Lídia Jorge


Será um vício quiçá punido por lei no futuro - espero que não!- esta minha alegre antecipação quanto a obras que estão prestes a ser editadas. Como se não tivesse já muito para ler - e continuo a achar que a morte seria absolutamente suportável se houvesse livros "do outro lado" - fico a "salivar" à espera do que aí vem.
Depois de ter escrito, aqui, sobre a programação da Porto Editora - e esqueci-me de mencionar o próximo livro de Pedro Almeida Vieira que deverá ser mais um romance histórico tão singular e apaixonante como os que o precederam - quero falar de uma obra que aguardo com bastante expectativa. Trata-se do próximo romance de Lídia Jorge, " A Noite das Mulheres Cantoras", a editar pela D. Quixote. O que me agrada na obra de Lídia Jorge é o facto de ela não se limitar aos temas que assolam a nossa - e muitas outras -Literatura (s) - abrangendo um universo alargado que transcende o que é local, nacional e "de género". Tal aconteceu com o magnífico "Combateremos a Sombra" e espero que aconteça com este que, de acordo com as palavras da sua editora Cecília Andrade, será sobre a "idolatria e construção do êxito". É um assunto que não pode estar mais na ordem do dia e, atrever-me-ia a acrescentar, na agenda das nossas vidas. Porque esta história do êxito tem muito que se lhe diga, é uma faca de dois gumes: em meu entender é positivo ter-se êxito "a partir de dentro", isto é, de acordo com as nossas vitórias seja lá no que nos propusermos fazer; mas o êxito procurado "de fora para dentro", rápido, fugaz e sem contrapartida real e forte - sem uma "reserva do tesouro" como nas finanças - baseado em sinais exteriores e acontecimentos superficiais será, a meu ver, efémero e até prejudicial. Estou bastante moralista, hoje, mas espero aprender com Lídia Jorge sobre o "êxito e a perda, sobre um equívoco e a passagem do tempo". O facto de se passar nos anos 80 - uma década onde se construiu o mundo destruído de hoje - ainda mais desperta a minha curiosidade.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Primeiro semestre de 2011 na PORTO EDITORA


Fotos: Howard Jacobson e Joyce Carol Oates
No passado dia 10 de Janeiro fui convidada, pela Porto Editora, para a apresentação da sua temporada editorial referente ao primeiro semestre deste ano (2011); seguiu-se um almoço muito simpático onde encontrei amigos - fiquei ao lado do Eduardo Pitta, de quem gosto muito - e conheci novos companheiros e companheiras destas lides. Houve muita conversa, trocaram-se mexericos singelos e inofensivos, comeu-se a sopa e o resto e, como seria de esperar, falou-se principalmente de Literatura. Os críticos e editores da Cultura são exigentes, caprichosos e muito - mas mesmo muito - ávidos de mais livros, mais e mais volumes, mais e mais frases, mais e mais palavras. (O que é óptimo). Discutimos autores e títulos de obras com o à-vontade de quem fala de velhos amigos ou de família e não nos coibimos, obviamente, de lançar uma palavra mais áspera sobre este ou aquele outro - alguns, por estarem já mortos não se devem importar minimamente! - sempre com um bom vinho no copo e interrompidos por um ou outro toque de telemóvel nos bolsos rapidamente revirados dos mais assoberbados pelo trabalho.
No que toca à temporada editorial - a razão principal deste texto - aproveito para referir, aqui, as minhas "apostas" ou "prognósticos" que, neste caso são "antes do jogo", exceptuando o último romance de Joyce Carol Oates "A Filha do Coveiro" porque já o li e é um espanto - a 15 de Fevereiro sairá nos Estados Unidos "A Widow 's Story" sobre a sua vida depois da morte do marido, em 2008 - e "A Questão Finkler" de Howard Jacobson que ganhou o último Booker Prize e que me deu tanto prazer a ler que até tenho vergonha de confessar. É hilariante, magistral e, embora já tenham colado um rótulo ao senhor - o Philip Roth inglês - parece-me que ele se valerá a si próprio. Sai em Fevereiro, creio eu, e espero ter a oportunidade de falar mais sobre esta obra.
De resto, estou ansiosa por ler "O Ar que Respiras" de Maria João Martins - até porque a autora teve a simpatia de me convidar para o apresentar - e porque a história está ligada à poeta Elizabeth Barrett Browning, uma das senhoras vitorianas que habitam o meu espaço.
E ainda: "Os Demónios de Berlim", um romance histórico passado na IIª Grande Guerra de Ignacio del Valle e o livro de Rubem Fonseca "Bufo e Spallanzani" bem como "Room" de Emma Donoghue que ainda não li mas que já tenho cá em casa - não sei se consigo esperar pela edição portuguesa que só chegará no fim da Primavera.
Claro que há muitos mais títulos , para todos os gostos e idades, como se diz. Mas, por enquanto ficar-me-ei por aqui.




quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O "realismo histérico" de Jonathan Franzen


De Jonathan Franzen li "CORRECÇÕES", em português - edição D. Quixote - e "FREEDOM" em inglês, enquanto não chega às livrarias a edição portuguesa. Estou a escrever sobre o autor que muito tem dado que falar. Na linha desse meu trabalho, tenho mergulhado na leitura das críticas e deparei-me com uma classificação - provavelmente já por demais conhecida dos meus companheiros e companheiras das recensões e dos blogues - que me parece interessante. Não sei se foi a poderosa Michiko Kakutani do New York Times ou qualquer outro "guru" das tendências literárias que cunharam as obras de autores como Don DeLillo, Denis Johnson e o suicidário David Foster Wallace como parte do novo "Realismo Histérico", um termo amplamente discutido nos vários orgãos competentes.
Fico a pensar no que dirá Harold Bloom desta "nouvelle vague".

"Um Traidor dos Nossos" John LeCarré




Acabei de ler o último romance de le Carré - isto é, do senhor David Cornwell - e escrevi um texto sobre este livro para o Ípsilon - Público. (Não sei quando sairá mas avisar-vos-ei). "Um Traidor dos Nossos" mostra a grande maestria do autor, o seu humor negro e uma espécie de desespero "filosófico" perante o barulho do mundo. Le Carré não poupa nada nem ninguém: a conivência dos governos, das entidades reguladoras e dos chamados "impérios financeiros" com as máfias e o submundo - tendo em vista lucros cada vez mais astronómicos - a ingenuidade dos "idealistas" e a indiferença geral da população perante as manigâncias do poder. É um livro amargamente cómico e alegremente trágico. A edição é da D. Quixote, Lisboa, 2010. Tradução de J. Teixeira de Aguilar.

Aqui fica uma pequeníssima passagem.

Diz Hector a Perry: (pág. 123) - sobre os Serviços Secretos britânicos:
" Sabemos o que o senhor pensa de nós. Alguns de nós pensamos o mesmo, e temos razão. O problema é que somos a única coisa que se aproveita. O governo é uma desgraça e metade do funcionalismo público não mexe uma palha. Os Negócios Estrangeiros têm tanta utilidade como uma viola num enterro, o país está de tanga e os banqueiros ficam-nos com o dinheiro e fazem-nos um manguito. Que havemos nós de fazer? Queixinhas à mamã, ou consertar as coisas?"

Haverá algo que soa familiar, neste cenário?
E quem diz que "conserta" as coisas será de fiar?


quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Comunidade de Leitores na Biblioteca de Loures

EXPIAÇÃO de Ian McEwan, Ed. Gradiva, Lisboa, 2002

No dia 6 de Janeiro, estarei na Biblioteca Municipal de Loures - Biblioteca José Saramago - para mais uma sessão da Comunidade de Leitores. Vamos discutir "Expiação" de Ian McEwan, um livro de que gosto particularmente e que está associado à vinda a Lisboa do autor, da apresentação que ficou a meu cargo - na Faculdade de Letras de Lisboa (Universidade Clássica) - e de um subsequente jantar numa casa de fados - que McEwan adorou.

Deixo aqui uma citação de um texto sobre este autor que faz parte de uma série de intervenções minhas, dedicadas à Literatura anglo-saxónica, intitulada "Marcas":

"(Com a publicação, em 2001 de "Expiação") ... McEwan surpreendeu todos com um livro que contém em si todas as suas preocupações habituais mas que conta uma história bastante diferente. "Expiação" é um romance contemporâneo com características singulares, um exemplo de como este género literário pode ser extremamente complexo e até erudito, mantendo, no entanto, a faculdade indispensável de estar perto do leitor e de ser reconhecido como género popular. Numa primeira leitura, “Expiação” pode passar por ser mais uma boa história para “distrair”. Ou seja, satisfaz o leitor com os ingredientes habituais: um romance familiar que refere temas como o idílio da infância destroçada, a juventude iluminada pelo amor, a paixão, a violência, a vida, a guerra, a morte, um certo “suspense”, enganos e desenganos, belas paisagens, casas de campo inglesas, lealdades e traições, nobreza de sentimentos e, principalmente, a noção da passagem inexorável do tempo. Mas quem se der ao trabalho de ler com mais atenção descobre que “Expiação” é um romance sobre o romance a começar pela citação de “Northanger Abbey” de Jane Austen, a abrir o livro."

domingo, 26 de dezembro de 2010

Os melhores LIVROS de 2010

Uma vez que creio que há pessoas que compram livros mesmo que já não seja Natal, aqui fica a minha lista, a mesma que entreguei no Jornal Público, Suplemento Ípsilon - balanço do ano 2010.
Os 20 Melhores livros estrangeiros – de realçar as óptimas traduções que valorizam as obras:

LIVROS 2010

Helena Vasconcelos

1- As Aventuras de Augie March, Saul Bellow, Ed. Quetzal
2 - Verão, J.M. Coetzee, Ed. Dom Quixote
3 - Um Traidor dos Nossos, John Le Carré, Ed. Dom Quixote
4 - O Sonho do Celta, Mario Vargas Llosa, Ed. Quetzal
5 - Woolf Hall, Hillary Mantel, Ed. Civilização
6 – Doutor Fausto, Thomas Mann, Ed. D. Quixote
7 - Ao Cair da Noite, Michael Cunningham, Ed. Gradiva
8 – O Quinto da Discórdia – Robertson Davies, Ed. Ahab
9 - Na Sombra do Pai, Richard Russo, Porto Editora
10 - A Beleza e a Tristeza, Yasunari Kawabata, Ed. Dom Quixote
11 – As Serviçais, Kathryn Stockett, Ed. Saída de Emergência
12 - Coluna de Fumo – Denis Johnson, Ed. Casa das Letras
13 – O Escriturário Indiano, David Leavitt, Ed. Teorema
14 - A Viúva Grávida, Martin Amis, Ed. Quetzal
15 – Tempestade, William Boyd, Casa das Letras
16 – Águas da Primavera, Ivan Turgénev, Ed. Relógio D’ Água
17 – Memento Mori, Muriel Spark, Ed. Relógio D’Água
18 – Raparigas de Província, Edna O’Brien, Ed. Relógio D’ Água
19 – Falconer, John Cheever, Sextante Editora
20 - A Mecânica da Ficção, James Wood, Ed. Quetzal

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Próxima Comunidade Leitores CULTURGEST, Lisboa


Já posso anunciar o programa da próxima Comunidade de Leitores na CULTURGEST, em Lisboa.

As nossas leituras andarão em torno da ideia de O MEDO.

Aqui ficam o texto, as datas e a lista dos livros.

Para mais indicações contactem, por favor, a CULTURGEST

"O medo é uma constante da vida, tanto nos seres humanos como nos animais. (Há quem defenda que até as plantas experimentam medo). Nos animais, o medo funciona como um sinal de alarme perante perigos reais, levando-os a pôr em marcha os seus mecanismos de defesa. E quanto aos seres humanos? Numa sociedade urbana, laica e racionalista, as trevas foram afastadas e o inferno é experimentado em vida e não como promessa de castigo divino depois da morte. Até mesmo as velhas superstições – quem, hoje em dia, não sai de casa numa sexta-feira, 13 – têm sido relegadas para o quase esquecimento. No entanto, o que poderá acontecer quando desaparecem as regras civilizacionais que damos como certas e nos vemos confrontados com a Natureza em toda a sua selvajaria – como acontece com os rapazes de O Deus das Moscas – ou nos encontramos num cenário de guerra como o assustado soldado de A Insígnia Vermelha da Coragem de Stephen Crane? Em contrapartida, numa sociedade dita “pacífica” mas fortemente preocupada com a segurança, monitorizada por redes de vigilância, despudoradamente esquadrinhada graças às tecnologias da comunicação, porque continuamos a sentirmo-nos ameaçados? E quais os receios que mais nos atormentam? Certamente o das doenças e do envelhecimento, como acontece com o personagem principal de A Vida em Surdina de David Lodge; mas, também, com o possível descontrolo no âmbito das experiências científicas, uma questão perturbadora que se encontra no âmago de Nunca me Deixes de Kazuo Ishiguro, onde também se fala de afectos e do pavor de perder entes queridos; esta questão remete-nos para este nosso tempo, no qual convivemos intensamente com o terror público, aleatório, cruel. O ataque de 11 de Setembro, 2001, teve consequências que ainda estão por apurar – e o nova-iorquino Jay McInerney não se coíbe de as aprofundar em A Boa Vida. Finalmente, como lidar com o medo do inexplicável como acontece na arrepiante novela de Henry James, A Volta do Parafuso, um digno representante da Literatura dita de terror?"


Programa

20 de Janeiro
A Insígnia Vermelha da Coragem
Stephen Crane, Ed. Vega

3 de Fevereiro
O Deus das Moscas
William Golding Ed. Dom Quixote

17 de Fevereiro
A Vida em Surdina
David Lodge, Ed. Asa

17 de Março
A Boa Vida
Jay McInerney, Ed. Teorema

31 de Março
Nunca me Deixes
Kazuo Ishiguro, Ed. Gradiva

14 de Abril
A Volta do Parafuso
Henry James, Ed. Relógio D’Água

In most animals fear is a defence mechanism. And in humans? In our rational society hell is experienced in life and not after death, and even old superstitions are almost forgotten. But what happens when savagery returns, such as in Lord of the Flies, or The Red Badge of Courage? And yet in a “peaceful” society concerned with security and monitored by CCTV, why do we feel threatened? What fears torment us? Old-age ailments, yes, as portrayed by David Lodge; but also out-of-control science, as examined by Kazuo Ishiguro. The repercussions of the 9/11 attacks are still not fully understood, as Jay McInerney shows in The Good Life. And how do we deal with fear of the unknown, as in Henry James’s The Turn of the Screw?