terça-feira, 16 de março de 2010

"O Fardo do Amor" Ian McEwan


Hoje, na Culturgest, em Lisboa, Comunidade de Leitores, 18:30 h. Vamos discutir "O Fardo do Amor" de Ian McEwan, Ed Gradiva . Aqui, o amor observado à luz do avanço científico - neurociências. Um romance que abre o debate em torno dessas mesmas teorias e descobertas.
O título em inglês, "Enduring Love" é mais complexo - implica suportar e resistir.

Qual a ligação com "Werther" de Goethe, a nossa leitura anterior?
Mas de que amor se trata neste livro? Um amor obsessivo (Jed)? Um amor racional (Joe Rose)? Um amor com reminiscências românticas ( Clarissa)?
Jed é místico - "irracional"
Joe é um cientista - "racional"
Clarissa estuda o poeta romântico John Keats - emotiva

Como apreender o curso de um romance que é, fundamentalmente, um longo debate em torno da percepção, esgrimindo teorias? Darwinistas versus anti - evolucionistas?

Onde entram as teorias de António Damásio?

Como é que as pessoas se apaixonam e se desapaixonam?

O que é a Religião e como é que ela se pode ligar (ou não) ao Amor?

Quem é mais obsessivo - Jed ou Joe?

Estas são algumas questões soltas. O resto ficará para a sessão.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Os Sofrimentos do Jovem Werther


Amanhã é dia de WERTHER, na Comunidade de Leitores. Sem nos sentirmos atingidos ou a sofrer da síndrome com o mesmo nome, analisaremos esta história de paixão funesta.
Werther amará assim porque o objecto do seu amor é inacessível, inatingível? Uma vez que Lotte vai casar – e casa – com Albert e nunca diz que retribui o seu amor, o que acontece "dentro" de Werther?
Como resolver este triângulo amoroso?
Uma vez que Goethe experimentou uma situação semelhante, mas evidentemente não se matou – essa foi a história de um outro seu conhecido do tempo de Leipzig – estaria Goethe a fazer uma crítica subtil ao movimento romântico? A esse "Sturm und Drang" de que ele é o expoente máximo?
Qual o papel da Natureza nesta história. (Goethe estava próximo de Rousseau e contra Voltaire?)
Será "Werther", o livro, um manual de paixão não correspondida ou um vigoroso aviso contra os excessos?
(De notar que tudo o que acontece a Werther não é provocado por "factores adversos", exteriores, mas sim por causa da sua própria natureza).

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

"LE ROUGE ET LE NOIR"

LE ROUGE ET LE NOIR
Para Stendhal, o grande admirador de Napoleão, tudo era político... incluindo o AMOR. Hoje, na Culturgest, Lisboa, é dia de "Síndrome de Stendhal". A sessão da Comunidade de Leitores é dedicada à leitura de "O Vermelho e o Negro".
Falaremos do conceito de Amor expresso por Stendhal - a célebre "cristalização" - do donjuanismo, das várias faces do Amor : Amour-passion, o único que Stendhal subscrevia; Amour-physique; Amour-goût; Amour-vanité.
Discutiremos se o Amor em Stendhal é (poderá ser) uma fraude; se o Amor possui poderes evocativos de associação mental, se a ideia de dotar o (a) amado(a) de qualidades superiores não será um embuste sério.
Falaremos, também, do grande retrato de época que é "O Vermelho e o Negro", dos diferentes níveis da sociedade, de Julien Sorel, o self-made man, e o seu destino.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ode ao Amor

Imagem De Chirico
Já que estamos a falar de AMOR nas nossas sessões de leitura, aqui fica um Poema de Jorge de Sena - ODE AO AMOR.

(Dedicado à Aldina Duarte, ao seu cantar, à sua Arte)


Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo à flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e súbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos, amor...
ah tu, senhor da sombra e da ilusão sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuportável triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.

Distantemente uma alegria foi,
imensa, já tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,
obscuro sexo à flor da pele... amor... amor...
ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria...
rei destronado, deus lembrado, homem cumprido.
Distantemente, irónico, esquecido.


Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Ligações Perigosas

Imagem: Filme de Stephen Frears com Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer


Depois de amanhã, dia 4 de Fevereiro, é dia de "Ligações Perigosas", isto é, de "jogos" amorosos no decadente e libertino século XVIII. De acordo com Dennis de Rougemont em "O Amor e o Ocidente" este é o tempo de Sade , Casanova e D. Juan - este último um mito recuperado da história de 1630 de Tirso de Molina, "El Burlador de Sevilla y convidado de piedra" - uma época em que se distinguem dois traços característicos nos heróis - amantes: o pérfido e o celerado. A antítese das verdades do amor cavalheiresco, isto é, a candura e a cortesia.
Valmont e a Marquesa de Merteuil em "Ligações Perigosas" inscrevem-se nesta tipologia erótica.
No entanto, Rougemont faz notar que D. Juan - que encarna o mito - é uma "espécie pura", é todo instinto, combinando todas as possibilidades da "infidelidade perpétua", desafiando perigos e convenções pelo mero prazer de "roubar prazer". Quanto a Valmont e Merteuil são os rostos de ums sociedade moribunda, afogada no seu excesso, dançando até à morte - D. Juan entrega-se a ela - sem conhecer limites.
Diz Rougemont depois de comentar " o ideal destruído no século XVII: " Este recalcamento do mito pela ironia universal e o triunfo aplaudido dos "traidores" preparam as mais estranhas reaparições. Entre tantas facilidades, saciedades e requintes intelectuais ou voluptuosos, uma das necessidades mais profundas do homem permanece privada de satisfação: o desejo de sofrer". (Pág. 191, Ed. Moraes, Lisboa, 1982). O que nos remete para Sade, evidentemente, e para o seu "método" analisado por Roland Barthes em "Sade, Fourier e Loyola" onde escreve em Sade II: “Attendu qu’il est tout a fait préférable pour le plaisir que les choses se passent de façon ordonné…”
Ordem e calculismo, método e objectivos bem definidos , assim se passa o tempo em jogos amorosos ao longo de muitas cartas trocadas entre os vários e várias intervenientes das “Ligações Perigosas”.
A seguir com atenção…
A questão é sempre a mesma: Quem ama verdadeiramente quem? Por que parâmetros? Que tipo(s) de amor é (são) este(s)?
Quem ama "à antiga" ? E será esse um amor mais "nobre"?
O que dizer da "pureza" de Madame de Tourvel ou da "inocência" de Cecile de Volanges' Qual o papel de Madame de Volanges e de Madame de Rosemond? Será Danceny - Le Chevalier - uma espécie de Romeu perdido no tempo?
Até 5ª

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Ligações Perigosas


Estou a (re)ler "Ligações Perigosas" ( 1782) de Choderlos de Laclos para a próxima sessão da Comunidade. Devo confessar que estou um pouco entediada. Mas vou avançar. Dentro em breve escreverei aqui alguma coisa que sirva de pistas de leitura. Lembrei-me que poderíamos ler , também, as cartas de Soror Mariana Alcoforado, a desavergonhada freira que se antecipou a tudo isto. E referir o Marquês de Sade. A época é a mesma. Ah! E podíamos ler a adaptação do Heiner Müller, de 1981, chamada "Quartet".

Fiquemo-nos, por agora, com a imagem de Fragonnard.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Quinta-Feira, dia 21 Janeiro 2010 é dia de Romeu e Julieta


19 Janeiro 2010

Vamos iniciar uma nova edição da Comunidade de Leitores na Culturgest com a leitura de “Romeu e Julieta” de William Shakespeare. Não poderíamos começar melhor. Se há texto que melhor exprime o ardor juvenil do amor e a força da paixão que se sobrepõe a todos os obstáculos, temo-lo entre as nossas mãos.
É claro que este amor tão intenso e tão puro está condenado desde o início e o destino de ambos – “the star-crossed lovers” – está selado.
A história encontra-se toda no Prólogo:
"Two households, both alike in dignity,In fair Verona, where we lay our scene,From ancient grudge break to new mutiny,Where civil blood makes civil hands unclean.From forth the fatal loins of these two foesA pair of star-cross'd lovers take their life;"

Na cidade de Verona, duas famílias (casas) de alta linhagem mantêm uma longa e feroz guerra que mancha de sangue a comunidade. Romeu e Julieta atravessam este campo de batalha, com o seu “amor proibido” sedentos um do outro, animados por uma força que os transcende e que os levará à morte.
Sabemos quais foram as fontes de Shakespeare para compor esta peça. De acordo com Harold Bloom não podemos esquecer Chaucer, principalmente “Troilus e Créssida” escrito entre 1374 e 1386.
De acordo com Bloom em “The Invention of the Human," Shakespeare e Geoffrey Chaucer encaravam o amor e a morte da mesma forma: "Love dies or else lovers die: these are the pragmatic possibilities for the two poets, each of them experientially wise beyond wisdom" . Quanto a Shakespeare, Bloom observa que dramaturgo mais depressa mataria os amantes do que o próprio Amor e Romeu e Julieta servem de exemplo perfeito, para esta ideia.
Questões:
- Quais as diferenças de carácter entre Romeu e Julieta? O que é que os atrai imediatamente?
Julieta : "My bounty is as boundless as the sea, My love as deep."

E Romeu, quando a vê no esplendor da sua casa:
"What lady's that which doth enrich the hand

Of yonder knight? O she doth teach the torches to burn bright;

Her beauty hangs upon the cheek of night,

Like a rich jewel in an Ethiop's ear."
Será possível pensar que o amor de ambos continuaria a ser tão fecundo – referência constante a flores “blooming” – se tivessem sobrevivido?
- Poderá a impossibilidade do amor servir de aguilhão que os mantém numa ansiedade erótica?
- Poderemos comparar o par Romeu e Julieta com Tristão e Isolda, a narrativa fundadora do amor no Ocidente?

- Será que a espada que Tristão e Isolda colocam entre eles quando estão adormecidos no bosque – e são surpreendidos pelo rei Mark, marido de Isolda? – representa também um impedimento que mantém viva a chama do desejo?

- E quanto ao par Dante e Beatriz, poderá haver semelhanças ou são histórias totalmente distintas?
- Será que tal como em Dante, em Romeu e Julieta se aplica a “religião do amor”?
- Compare-se Mercutio com Romeu? O que os separa e o que os une?
- Que papel desempenham a Ama e o Frade, figuras bem menos nobres de sentimentos?
- Como encarar o ambiente – e a importância – familiar dos Montague e dos Capuletos?

Muito mais será dito e discutido na quinta-feira. Espero que esta pequena amostra vos sirva de incentivo.