quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A Próxima Comunidade Leitores na CULTURGEST

Já me chamaram a atenção por andar tão preguiçosa em relação ao blog. Por isso, aqui fica a indicação dos livros com os quais nos iremos deliciar na próxima Comunidade de Leitores na Culturgest, em Lisboa.
Uma Comunidade dedicada ao tema do AMOR com início a 21 de Janeiro, 2010. Sempre às 18:30 h
* Inscrições até 15 de Janeiro (limite 40 pessoas) na bilheteira da Culturgest, pelo telf. 21 7905155, pelo fax 21 7905154 ou pelo e-mail culturgest.bilheteira@cgd.pt.)
Informações 21 790 51 55culturgest.bilheteira@cgd.pt

Imagem : Detalhe de "O Rapto de Proserpina" de Gian Lorenzo Bernini, 1621-22

O que é o Amor? Perguntem a quem vive o que é a vida ; perguntem a quem adora o que é Deus? in Sobre o Amor, Percy Shelley


O Amor, tal como o entendemos no mundo ocidental, só apareceu na nossa cultura a partir do século XI, na forma do celebrado “amor cortês”. É o que propõe Denis de Rougemont no clássico O Amor e o Ocidente, partindo do mito de Tristão e Isolda. Secundado, mais drasticamente, pelo autor católico C.S. Lewis em A Alegoria do Amor (1936) e por outros pensadores, Rougemont conjuga todas as formas do verbo amar, do amor-paixão ao amor-gosto, do amor físico ao amor-vaidade, passando pelos inúmeros autores que, em Poesia, Romance ou Teatro – para não falar do discurso filosófico – continuam indefinidamente a recriar o sentimento amoroso. Mas o que fazer de textos anteriores como "Fedro" de Platão, como os fragmentos de poemas inflamados de Safo ou como a obra de Ovídio, tão profundamente ligada à celebração do Amor? Sabemos que a influência dos grandes pares míticos – Tristão e Isolda, Heloísa e Abelardo, Romeu e Julieta, Dante e Beatriz, Dom Quixote e Dulcineia – ou de grandes amorosos como Don Juan, Casanova ou Sade, se faz sentir até aos dias de hoje. Os maiores poetas de todos os tempos – Shakespeare e Camões, por exemplo – foram, também, grandes amantes e o Amor nunca abandonou o curso existencial do ser humano: tem estado presente em batalhas e revoluções, em arroubos místicos e carnais, faz o papel de Musa e serve de álibi para actos reprováveis. Nos nossos dias, teóricos como Allan Bloom e, mais recentemente, Christina Nehring – que, no seu apaixonado Uma Reivindicação do Amor para o século XXI, se rebela contra o que lhe parece um desinteresse por esse sentimento, abafado por uma cultura consumista e imediatista – têm continuado a analisar os grandes textos da Literatura amorosa. Para deslindar este longo e tortuoso percurso – do mito à apropriação burguesa, do sentimento romântico ao materialismo do século XX – esta Comunidade de Leitores irá debruçar-se sobre alguns dos clássicos do género.


Helena Vasconcelos

Qui 21 de Janeiro - Romeu e Julieta, William Shakespeare, Ed. Europa-América
Qui 4 de Fevereiro - As Ligações Perigosas, Choderlos de Laclos, Ed. Relógio D’Água
Qui 18 de Fevereiro - O Vermelho e o Negro, Stendhal, Livraria Clássica Editora
Qui 4 de Março- Werther, Johann Wolfgang von Goethe, Guimarães Editores
Ter 16 de Março - O Fardo do Amor, Ian McEwan, Ed. Gradiva
Qui 1 de Abril - O Amor nos Tempos da Cólera, Gabriel Garcia Marquez, Ed. Dom Quixote

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os Melhores Livros de 2009 (cont.)


Esqueci-me de mencionar um romance - primeira obra - de Maria da Conceição Caleiro, intitulado "O Cão das Ilhas", Ed. Sextante. Foi uma grande surpresa.

Escrevi o seguinte no Público:

«”O Cão das Ilhas” é um livro surpreendente e poderoso, uma tragédia clássica, com fontes gregas e shakespeareanas, a primeira obra de uma autora que escreve com segurança e mestria. A construção da narrativa, a utilização de uma voz (principal) masculina e de três vozes femininas, a passagem de umas para as outras com agilidade e autoridade, a beleza quase onírica de certas imagens fazem deste livro uma obra excepcional [...].» Se quiser ler o resto vá até www.storm-magazine.com e procure em Arquivo

domingo, 3 de janeiro de 2010

Os Melhores Livros de 2009


Os meus autores favoritos: Richard Zimler e Cristina Carvalho. Haverá melhor do que ter amigos que admiramos e amamos pelas suas qualidades como pessoas e, também, como escritores? Até dá gosto...
Fazer listas de livros preferidos do ano que passou é uma tarefa que alguns acham horrível. Pela minha parte, confesso que gosto. Gosto de os recordar, de os colocar juntos na minha cabeça, de reler certas páginas que marquei, de ver as minhas notas...
Quando me pedem, todos os anos, do Jornal, as minhas escolhas, já sei que só serão mencionadas as obras mais "votadas" entre todos os colaboradores. Por isso, escrito por mim, no Ípsilon, só saiu a referência a "O Homem Sem Qualidades", do Musil, Vol III com a magnífica tradução do João Barrento.
Mas aqui, no BLOG, quero fazer a MINHA LISTA. Resta dizer três coisas: primeiro, os títulos foram colocados por ordem de descoberta - ou de data de edição - e não qualitativamente porque gostei de todos com a mesma intensidade por razões diferentes ; segundo, continuo a falhar muito em relação aos escritores portugueses por razões profissionais e só menciono aqui dois, que li com atenção; terceiro, confesso que li mais não-ficção do que ficção, tanta que não cabe aqui mencioná-la. Aborreceria, certamente, os leitores, referir livros que só a mim interessam - provavelmente.
Assim, e depois de tantas explicações, aqui vão as obras que me agradaram mais, que creio serem as melhores, publicadas em Portugal, em 2009:
VENEZA, Jan Morris, Ed. Tinta da China
LOVE, Toni Morrison, Ed. Dom Quixote
2666, Roberto Bolaño, Ed. Quetzal
CONTOS COMPLETOS I , John Cheever, Ed. Sextante
CADERNO AFEGÃO, Alexandra Lucas Coelho, Ed. Tinta da China
OS ANAGRAMAS DE VARSÓVIA, Richard Zimmler, Ed. Oceanos
NOCTURNO, Cristina Carvalho, Ed. Sextante
O ASSASSINO CEGO Margaret Atwood, Ed. Bertrand
A RAINHA NO PALÁCIO DAS CORRENTES DE AR, Stieg Larsson, Ed. Oceanos
ILUSÃO ( OU O QUE QUISEREM), Luisa Costa Gomes, Ed. Dom Quixote
A EDIÇÃO DE LIVROS E A GESTÃO ESTRATÉGICA, José Afonso Furtado, Ed. Booktailors - não ficção
Reedições:
A MONTANHA MÁGICA, Thomas Mann, Ed. Dom Quixote
O HOMEM SEM QUALIDADES, Volume III, Robert Musil, Ed. Dom Quixote
OUTRAS VOZES, OUTROS LUGARES, Truman Capote, Ed. Sextante
AS CONFISSÕES DE NAT TURNER , William Styron, Ed. Bertrand
O que li em 2009 que ainda não está publicado em Portugal e que recomendo vivamente:
A GATE AT THE STAIRS, Lorrie Moore, Ed. Alfred A. Knopf
HALF BROKE HORSES: A True-Life Novel, Jeannette Walls, Ed. Scribner
A SHORT HISTORY OF WOMEN, Kate Walbert, Ed. Scribner
WOLF HALL, Hilary Mantel, Ed. Fourth Estate
THE CHILDREN'S BOOK, A.S. Byatt, Ed. Chatto & Windus
THE AGE OF WONDER: How the Romantic Generation Discovered the Beauty and Terror of Science, Richard Holmes, Ed. Harper Collins - non-fiction
RAYMOND CARVER: A Writer’s Life, Carol Sklenicka, Ed. Scribner - non-fiction.



sábado, 2 de janeiro de 2010

Literatura Masculina




Lembram-se quando se falava aguerridamente em "escrita feminina", em "literatura feminina"? Esse tempo já passou. E agora? A preocupação vai para a sobrevivência da escrita dos homens, daqueles de barba rija e que gostam do "cheiro a napalm pela manhã". No New York Times de 31 de Dezembro do extinto ano de 2009, a escritora KATIE ROIPHE, faz um balanço da escrita de autores "viris" como Roth, Updike, Bellow e outros. Ler tudo em http://www.nytimes.com/2010/01/03/books/review/Roiphe-t.html?ref=review


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A última sessão da Comunidade Leitores Culturgest 2009



Acabou mais um bloco de sessões da nossa Comunidade na Culturgest. Agora, só haverá mais em Janeiro. Terminámos com muita conversa e várias discussões sobre "o Mar" de John Banville, em tom elegíaco. Porque é a história de um viúvo, Max Morden (o nome diz tudo) que regressa ao lugar onde, na infância, passou um verão decisivo, iniciático e perturbante.
"O Mar"é um romance sobre a morte, sobre a perda, o luto. E é um livro deslumbrante. Terrível, também. Chegámos a conclusões bastante controversas. Por exemplo, que a história é profundamente perversa – porque, "embrulhada" num linguagem poética, encantatória conta coisas terríveis. E porque Max, o narrador – por quem é suposto o leitor sentir simpatia – é, na verdade um monstro egocêntrico e cruel que, como o seu nome indica, espalha a "morte" a devastação à sua volta. Nada cresce, medra ou vive junto dele.
Mas falámos também das referências aos mitos clássicos, da ligação clara com a pintura – Bonnard, Miguel Ângelo, Fantin-Latour, etc. – do simbolismo e das metáforas. Mais, falámos de fantasmas e de espíritos e das inúmeras armadilhas colocadas pelo autor aos leitores.
E prometi que colocaria aqui o poema de Rilke, "Der Geiste Ariel" – por causa da alusão que Banville faz ao arcanjo Ariel. Não sem reproduzir uma das pinturas de Bonnard - a mulher dele, no banho - que evoca o ar salgado e marítimo deste livro. De notar que a banheira parece um esquife.


ARIEL - tradução inglesa
(After reading Shakespeare’s Tempest)

Once, somewhere, somehow, you had set him free
with that sharp jolt which as a young man tore you
out of your life and vaulted you to greatness.
Then he grew willing: and, since then, he serves,
after each task impatient for his freedom.
And half imperious, half almost ashamed,
you make excuses, say that you still need him
for this and that, and, ah, you must describe
how you helped him. Yet you feel, yourself,
that everything held back by his detention
is missing from the air. How sweet, how tempting:
to let him go – to give up all your magic,
submit yourself to destiny like the others,
and know that his light frendship, without strain now,
with no more obligations, anywhere,
an intensifying of this space you breathe,
is working in the element, thoughtlessly.
Henceforth dependent, never again empowered
to shape the torpid mouth into that call
at which he dived. Defenseless, aging, poor,
and yet still breathing him in, like a fragrance
spread endlessly, which makes the invisible
complete for the first time. Smiling that you ever
could summon him and feel so much at home
in that vast intimacy. Weeping too, perhaps,
When you remember how he loved and yet
wished to leave you: always both, at once.

(Have I let go, already? I look on,
terrified by this man who has become
a duke again. How easily he draws
the wire through his head and hangs himself
up with the other puppets; then steps forward
to ask the audience for their applause
and their indulgence... What consummate power:
to lay aside, to stand there nakedly
with no strengh but one’s own, “which is most faint”)

“Uncollected Poems” Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Comunidade Leitores


Amanhã, quinta-feira - às 18h30, como é hábito - vamos discutir "Corpo Presente" de Anne Enright. Uma irlandesa com um dilacerante humor negro que desvenda os segredos mais obscuros de uma família bastante peculiar. A escrita desta vencedora do Booker Prize é muito original e encantatória. A história é terrível e muito bem contada.

No centro de tudo está a questão: como é que conhecemos tão mal as pessoas que nos estão mais próximas?

E por que razão é possível odiar tanto quem mais se ama?

Quão longos são os tentáculos da memória. Amanhã veremos.

Quem estiver interessado(a) poderá ler a recensão deste romance em http://www.storm-magazine.com/

domingo, 29 de novembro de 2009

NOCTURNO de Cristina Carvalho

A LER SEM DEMORA

Primeiro foi “O Gato de Upsala” que me apanhou de surpresa e me prendeu à escrita de Cristina Carvalho. Depois, conhecemo-nos – nestas rondas de afinidades electivas da escrita e da leitura – e depois foram os seus outros livros, a sua atitude apaixonada e intensa em relação à vida, à arte e à literatura, os seus risos e boa disposição aliados a uma quase timidez e discrição, um saber estar sem pose, sem artifícios. Uma mulher total, pensei eu.
E, depois, chegou este “Nocturno”, um livro único, à margem dos modismos da Literatura Portuguesa actual, com um trabalho esforçado de pesquisa e uma linguagem solta, dinâmica, vibrante e encantatória. É impossível parar de ler esta biografia ficcionada do romântico Fryderyk Chopin, cuja curta vida foi plena de som e de fúria mas não sem significado. Amante e boémio, complexo e delicado, apaixonado e apaixonante, intenso e frágil, Chopin representa uma época e uma forma de estar que parece distante da nossa mas que continua a intrigar-nos e a seduzir-nos. Ele viveu um tempo de grandes convulsões, quando a morte e a vida dançavam a mesma feroz melodia e em que o ser humano comungava estreitamente com a Natureza, encontrando nela – e no Amor – um profundo encanto e uma razão para o absurdo da existência. Frédéric, Fryc fez mais do que viver intensamente. Transpôs para a sua música toda a energia, Beleza, sentimento e Transcendência que, haja o que houver, será sempre tudo aquilo que nós, homens e mulheres, almejamos no mais íntimo do nosso corpo e do nosso espírito. Cristina Carvalho, em “Nocturno” devolve-nos esse desejo e coloca perante o nosso olhar o espelho das nossas dúvidas e ansiedades.
“Nocturno” é um romance de uma vida. De uma vida romântica, na verdadeira assumpção do termo. Escrito por uma mulher que vive romanticamente.
Com a música, sempre a música, a tocar.

Nota : não confundir “romântico” com “sentimental”. Cristina Carvalho nunca é sentimental. E escreve como se respirasse. Com uma cadência perfeita. Com prazer.

“Nocturno”, Cristina Carvalho, Ed. Sextante, Lisboa, Novembro, 2009