domingo, 3 de janeiro de 2010

Os Melhores Livros de 2009


Os meus autores favoritos: Richard Zimler e Cristina Carvalho. Haverá melhor do que ter amigos que admiramos e amamos pelas suas qualidades como pessoas e, também, como escritores? Até dá gosto...
Fazer listas de livros preferidos do ano que passou é uma tarefa que alguns acham horrível. Pela minha parte, confesso que gosto. Gosto de os recordar, de os colocar juntos na minha cabeça, de reler certas páginas que marquei, de ver as minhas notas...
Quando me pedem, todos os anos, do Jornal, as minhas escolhas, já sei que só serão mencionadas as obras mais "votadas" entre todos os colaboradores. Por isso, escrito por mim, no Ípsilon, só saiu a referência a "O Homem Sem Qualidades", do Musil, Vol III com a magnífica tradução do João Barrento.
Mas aqui, no BLOG, quero fazer a MINHA LISTA. Resta dizer três coisas: primeiro, os títulos foram colocados por ordem de descoberta - ou de data de edição - e não qualitativamente porque gostei de todos com a mesma intensidade por razões diferentes ; segundo, continuo a falhar muito em relação aos escritores portugueses por razões profissionais e só menciono aqui dois, que li com atenção; terceiro, confesso que li mais não-ficção do que ficção, tanta que não cabe aqui mencioná-la. Aborreceria, certamente, os leitores, referir livros que só a mim interessam - provavelmente.
Assim, e depois de tantas explicações, aqui vão as obras que me agradaram mais, que creio serem as melhores, publicadas em Portugal, em 2009:
VENEZA, Jan Morris, Ed. Tinta da China
LOVE, Toni Morrison, Ed. Dom Quixote
2666, Roberto Bolaño, Ed. Quetzal
CONTOS COMPLETOS I , John Cheever, Ed. Sextante
CADERNO AFEGÃO, Alexandra Lucas Coelho, Ed. Tinta da China
OS ANAGRAMAS DE VARSÓVIA, Richard Zimmler, Ed. Oceanos
NOCTURNO, Cristina Carvalho, Ed. Sextante
O ASSASSINO CEGO Margaret Atwood, Ed. Bertrand
A RAINHA NO PALÁCIO DAS CORRENTES DE AR, Stieg Larsson, Ed. Oceanos
ILUSÃO ( OU O QUE QUISEREM), Luisa Costa Gomes, Ed. Dom Quixote
A EDIÇÃO DE LIVROS E A GESTÃO ESTRATÉGICA, José Afonso Furtado, Ed. Booktailors - não ficção
Reedições:
A MONTANHA MÁGICA, Thomas Mann, Ed. Dom Quixote
O HOMEM SEM QUALIDADES, Volume III, Robert Musil, Ed. Dom Quixote
OUTRAS VOZES, OUTROS LUGARES, Truman Capote, Ed. Sextante
AS CONFISSÕES DE NAT TURNER , William Styron, Ed. Bertrand
O que li em 2009 que ainda não está publicado em Portugal e que recomendo vivamente:
A GATE AT THE STAIRS, Lorrie Moore, Ed. Alfred A. Knopf
HALF BROKE HORSES: A True-Life Novel, Jeannette Walls, Ed. Scribner
A SHORT HISTORY OF WOMEN, Kate Walbert, Ed. Scribner
WOLF HALL, Hilary Mantel, Ed. Fourth Estate
THE CHILDREN'S BOOK, A.S. Byatt, Ed. Chatto & Windus
THE AGE OF WONDER: How the Romantic Generation Discovered the Beauty and Terror of Science, Richard Holmes, Ed. Harper Collins - non-fiction
RAYMOND CARVER: A Writer’s Life, Carol Sklenicka, Ed. Scribner - non-fiction.



sábado, 2 de janeiro de 2010

Literatura Masculina




Lembram-se quando se falava aguerridamente em "escrita feminina", em "literatura feminina"? Esse tempo já passou. E agora? A preocupação vai para a sobrevivência da escrita dos homens, daqueles de barba rija e que gostam do "cheiro a napalm pela manhã". No New York Times de 31 de Dezembro do extinto ano de 2009, a escritora KATIE ROIPHE, faz um balanço da escrita de autores "viris" como Roth, Updike, Bellow e outros. Ler tudo em http://www.nytimes.com/2010/01/03/books/review/Roiphe-t.html?ref=review


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A última sessão da Comunidade Leitores Culturgest 2009



Acabou mais um bloco de sessões da nossa Comunidade na Culturgest. Agora, só haverá mais em Janeiro. Terminámos com muita conversa e várias discussões sobre "o Mar" de John Banville, em tom elegíaco. Porque é a história de um viúvo, Max Morden (o nome diz tudo) que regressa ao lugar onde, na infância, passou um verão decisivo, iniciático e perturbante.
"O Mar"é um romance sobre a morte, sobre a perda, o luto. E é um livro deslumbrante. Terrível, também. Chegámos a conclusões bastante controversas. Por exemplo, que a história é profundamente perversa – porque, "embrulhada" num linguagem poética, encantatória conta coisas terríveis. E porque Max, o narrador – por quem é suposto o leitor sentir simpatia – é, na verdade um monstro egocêntrico e cruel que, como o seu nome indica, espalha a "morte" a devastação à sua volta. Nada cresce, medra ou vive junto dele.
Mas falámos também das referências aos mitos clássicos, da ligação clara com a pintura – Bonnard, Miguel Ângelo, Fantin-Latour, etc. – do simbolismo e das metáforas. Mais, falámos de fantasmas e de espíritos e das inúmeras armadilhas colocadas pelo autor aos leitores.
E prometi que colocaria aqui o poema de Rilke, "Der Geiste Ariel" – por causa da alusão que Banville faz ao arcanjo Ariel. Não sem reproduzir uma das pinturas de Bonnard - a mulher dele, no banho - que evoca o ar salgado e marítimo deste livro. De notar que a banheira parece um esquife.


ARIEL - tradução inglesa
(After reading Shakespeare’s Tempest)

Once, somewhere, somehow, you had set him free
with that sharp jolt which as a young man tore you
out of your life and vaulted you to greatness.
Then he grew willing: and, since then, he serves,
after each task impatient for his freedom.
And half imperious, half almost ashamed,
you make excuses, say that you still need him
for this and that, and, ah, you must describe
how you helped him. Yet you feel, yourself,
that everything held back by his detention
is missing from the air. How sweet, how tempting:
to let him go – to give up all your magic,
submit yourself to destiny like the others,
and know that his light frendship, without strain now,
with no more obligations, anywhere,
an intensifying of this space you breathe,
is working in the element, thoughtlessly.
Henceforth dependent, never again empowered
to shape the torpid mouth into that call
at which he dived. Defenseless, aging, poor,
and yet still breathing him in, like a fragrance
spread endlessly, which makes the invisible
complete for the first time. Smiling that you ever
could summon him and feel so much at home
in that vast intimacy. Weeping too, perhaps,
When you remember how he loved and yet
wished to leave you: always both, at once.

(Have I let go, already? I look on,
terrified by this man who has become
a duke again. How easily he draws
the wire through his head and hangs himself
up with the other puppets; then steps forward
to ask the audience for their applause
and their indulgence... What consummate power:
to lay aside, to stand there nakedly
with no strengh but one’s own, “which is most faint”)

“Uncollected Poems” Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Comunidade Leitores


Amanhã, quinta-feira - às 18h30, como é hábito - vamos discutir "Corpo Presente" de Anne Enright. Uma irlandesa com um dilacerante humor negro que desvenda os segredos mais obscuros de uma família bastante peculiar. A escrita desta vencedora do Booker Prize é muito original e encantatória. A história é terrível e muito bem contada.

No centro de tudo está a questão: como é que conhecemos tão mal as pessoas que nos estão mais próximas?

E por que razão é possível odiar tanto quem mais se ama?

Quão longos são os tentáculos da memória. Amanhã veremos.

Quem estiver interessado(a) poderá ler a recensão deste romance em http://www.storm-magazine.com/

domingo, 29 de novembro de 2009

NOCTURNO de Cristina Carvalho

A LER SEM DEMORA

Primeiro foi “O Gato de Upsala” que me apanhou de surpresa e me prendeu à escrita de Cristina Carvalho. Depois, conhecemo-nos – nestas rondas de afinidades electivas da escrita e da leitura – e depois foram os seus outros livros, a sua atitude apaixonada e intensa em relação à vida, à arte e à literatura, os seus risos e boa disposição aliados a uma quase timidez e discrição, um saber estar sem pose, sem artifícios. Uma mulher total, pensei eu.
E, depois, chegou este “Nocturno”, um livro único, à margem dos modismos da Literatura Portuguesa actual, com um trabalho esforçado de pesquisa e uma linguagem solta, dinâmica, vibrante e encantatória. É impossível parar de ler esta biografia ficcionada do romântico Fryderyk Chopin, cuja curta vida foi plena de som e de fúria mas não sem significado. Amante e boémio, complexo e delicado, apaixonado e apaixonante, intenso e frágil, Chopin representa uma época e uma forma de estar que parece distante da nossa mas que continua a intrigar-nos e a seduzir-nos. Ele viveu um tempo de grandes convulsões, quando a morte e a vida dançavam a mesma feroz melodia e em que o ser humano comungava estreitamente com a Natureza, encontrando nela – e no Amor – um profundo encanto e uma razão para o absurdo da existência. Frédéric, Fryc fez mais do que viver intensamente. Transpôs para a sua música toda a energia, Beleza, sentimento e Transcendência que, haja o que houver, será sempre tudo aquilo que nós, homens e mulheres, almejamos no mais íntimo do nosso corpo e do nosso espírito. Cristina Carvalho, em “Nocturno” devolve-nos esse desejo e coloca perante o nosso olhar o espelho das nossas dúvidas e ansiedades.
“Nocturno” é um romance de uma vida. De uma vida romântica, na verdadeira assumpção do termo. Escrito por uma mulher que vive romanticamente.
Com a música, sempre a música, a tocar.

Nota : não confundir “romântico” com “sentimental”. Cristina Carvalho nunca é sentimental. E escreve como se respirasse. Com uma cadência perfeita. Com prazer.

“Nocturno”, Cristina Carvalho, Ed. Sextante, Lisboa, Novembro, 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Amanhã temos Sessão Comunidade


Amanhã temos Sessão Comunidade de Leitores, na Culturgest - 18:30

O livro em discussão será "LOVE" de Toni Morrison

Que "AMOR" será este? Que espécies de "amores" existem neste romance circular, apaixonado e encantatório?

Onde está situada a fronteira entre o amor e o ódio?

E será que o amor faz com que as pessoas sejam melhores? Ou piores?

Se tiverem interesse, leiam a minha recensão a este mesmo livro em www.storm-magazine.com

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Para a semana é tempo de AGUSTINA


NOTA DE IMPRENSA:

De 26 a 31 de Outubro têm lugar na FNAC – Chiado, em Lisboa, 4 conversas sobre 4 grandes temas do universo de Agustina Bessa-Luís, com a presença de personalidades destacadas da nossa vida cultural. Modera as sessões “Agustina na FNAC” a crítica literária Helena Vasconcelos.
Agustina é uma das grandes e renovadas revelações da literatura portuguesa dos últimos cinquenta anos – e a sua assombrosa frescura torna-se cada vez mais evidente. São os novos públicos que a vão, de novo, descobrindo – e que, nessa descoberta, a vão tornando a revelar. Objecto de um verdadeiro culto académico, Agustina é o contrário do academismo. Irreverente, desconcertante, irrepetível, corrosiva, bem-humorada, é uma escritora do nosso tempo para o nosso tempo.
Esta inicitaiva da FNAC Portugal, com o apoio da Guimarães Editores, integra-se no projecto “ADN – Agustina Desígnio Nacional”, um ciclo de iniciativas que visa celebrar a autora e consagrá-la como um dos maiores escritores vivos de língua portuguesa. A Associação da FNAC a este projecto é mais um sinal da actualidade e vitalidade desta escritora intemporal.
Informação também disponível em HTTP://CULTURA.FNAC.PT
Rui Morais e Castro
Guimarães Editores

PROGRAMA : AGUSTINA NA FNAC (Chiado – Lisboa)

Moderadora : Helena Vasconcelos (crítica literária)

ENTRADA LIVRE

SEG. 26 OUT. - 18h30

I. As Artes de Agustina

§ Graça Morais
§ João Botelho
§ Mónica Baldaque

TER. 27 OUT. • 18h30

II. Os Homens e as Mulheres em Agustina

§ Inês Pedrosa
§ Francisco José Viegas
§ Patrícia Reis

QUA. 28 OUT. • 18h30

III. Agustina e as Relações de Poder

§ Lídia Jorge
§ Filipa Melo
§ Miguel Real

SAB. 31 OUT. • 19h00

IV. Os Aforismos de Agustina

§ Pedro Mexia
§ José Manuel dos Santos
§ Maria Helena Padrão

AGUSTINA NA FNAC

Quantos mundos cabem no universo de Agustina? A escritora criou uma galáxia de personagens e lugares, de emoções e sensações, de ímpetos e desejos que a tornam única e, evidentemente, imprescindível para a compreensão da nossa identidade e da nossa cultura. Agustina arrasta-nos pelas paisagens férteis do Douro, pelas ruas e traseiras dos prédios do Porto, pelas salas, corredores e recantos das casas rurais ou citadinas, acompanhando homens e mulheres, fortes e fracos, fiéis e desleais, a braços com o tumulto do mundo. Agustina, com os seus 87 anos bem vividos, detentora de inúmeros Prémios, autora de uma obra vastíssima, exploradora de todas as formas de comunicação, vai ser falada e discutida na FNAC.. Nunca é demais celebrar Agustina.

I - As Artes de Agustina
Realizadores de cinema como Manoel de Oliveira e João Botelho compreenderam bem o potencial das luxuriantes descrições das paisagens – interiores e exteriores – da vida dos objectos que abundam nos seus livros. Mas se Agustina “dá a ver” através da escrita, ela é, também, uma observadora curiosa e atenta. A sua cumplicidade com Maria Helena Vieira da Silva ficou registada em “Longos Dias Têm Cem Anos” e o fascínio por Rembrandt deu origem a “A Ronda da Noite” com o seu inquietante mistério.

II - Homens e Mulheres em Agustina
A sua galeria de personagens masculinas e femininas – a que se deve acrescentar a de alguns animais emblemáticos – rivaliza com as de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós. É através das suas figuras femininas e masculinas, de todas as idades, que Agustina define um sistema de valores que rege um universo aparentemente rígido. Mas a força imanente e telúrica do lado feminino e o exercício da vontade do lado masculino estabelecem um desequilíbrio constante e perigoso.

III - Agustina e as Relações de Poder
Em Agustina, nada é pacífico. Por essa razão não admira que a busca e exercício do poder seja um dos temas mais constantes da sua obra. E, uma vez que o poder se adquire através da luta, há inúmeras batalhas nos seus livros. Daí também o fascínio por figuras da política, como o Marquês de Pombal (em “Sebastião José”) e como Francisco de Sá Carneiro (em “Os Meninos de Oiro”) . Ela sabe bem como os seres humanos atravessam a vida esgrimindo agilmente todas as possibilidades de dominação.

IV - Os Aforismos de Agustina
A leitura dos aforismos de Agustina transforma-se numa resolução de charadas. Mais do que provérbios, ditados ou sentenças em torno de temas que vão do amor à morte, do desejo às virtudes, do sofrimento à felicidade, estas frases lacónicas e cortantes, aproximam-se da reflexão filosófica e fazem as vezes de revelações ditas por um oráculo esclarecido e visionário. Um aforismo pode ser sibilino, luminoso, pacífico ou escandaloso. Agustina dá-nos a provar o sabor de todos eles.
Helena Vasconcelos