sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A última sessão da Comunidade Leitores Culturgest 2009



Acabou mais um bloco de sessões da nossa Comunidade na Culturgest. Agora, só haverá mais em Janeiro. Terminámos com muita conversa e várias discussões sobre "o Mar" de John Banville, em tom elegíaco. Porque é a história de um viúvo, Max Morden (o nome diz tudo) que regressa ao lugar onde, na infância, passou um verão decisivo, iniciático e perturbante.
"O Mar"é um romance sobre a morte, sobre a perda, o luto. E é um livro deslumbrante. Terrível, também. Chegámos a conclusões bastante controversas. Por exemplo, que a história é profundamente perversa – porque, "embrulhada" num linguagem poética, encantatória conta coisas terríveis. E porque Max, o narrador – por quem é suposto o leitor sentir simpatia – é, na verdade um monstro egocêntrico e cruel que, como o seu nome indica, espalha a "morte" a devastação à sua volta. Nada cresce, medra ou vive junto dele.
Mas falámos também das referências aos mitos clássicos, da ligação clara com a pintura – Bonnard, Miguel Ângelo, Fantin-Latour, etc. – do simbolismo e das metáforas. Mais, falámos de fantasmas e de espíritos e das inúmeras armadilhas colocadas pelo autor aos leitores.
E prometi que colocaria aqui o poema de Rilke, "Der Geiste Ariel" – por causa da alusão que Banville faz ao arcanjo Ariel. Não sem reproduzir uma das pinturas de Bonnard - a mulher dele, no banho - que evoca o ar salgado e marítimo deste livro. De notar que a banheira parece um esquife.


ARIEL - tradução inglesa
(After reading Shakespeare’s Tempest)

Once, somewhere, somehow, you had set him free
with that sharp jolt which as a young man tore you
out of your life and vaulted you to greatness.
Then he grew willing: and, since then, he serves,
after each task impatient for his freedom.
And half imperious, half almost ashamed,
you make excuses, say that you still need him
for this and that, and, ah, you must describe
how you helped him. Yet you feel, yourself,
that everything held back by his detention
is missing from the air. How sweet, how tempting:
to let him go – to give up all your magic,
submit yourself to destiny like the others,
and know that his light frendship, without strain now,
with no more obligations, anywhere,
an intensifying of this space you breathe,
is working in the element, thoughtlessly.
Henceforth dependent, never again empowered
to shape the torpid mouth into that call
at which he dived. Defenseless, aging, poor,
and yet still breathing him in, like a fragrance
spread endlessly, which makes the invisible
complete for the first time. Smiling that you ever
could summon him and feel so much at home
in that vast intimacy. Weeping too, perhaps,
When you remember how he loved and yet
wished to leave you: always both, at once.

(Have I let go, already? I look on,
terrified by this man who has become
a duke again. How easily he draws
the wire through his head and hangs himself
up with the other puppets; then steps forward
to ask the audience for their applause
and their indulgence... What consummate power:
to lay aside, to stand there nakedly
with no strengh but one’s own, “which is most faint”)

“Uncollected Poems” Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Comunidade Leitores


Amanhã, quinta-feira - às 18h30, como é hábito - vamos discutir "Corpo Presente" de Anne Enright. Uma irlandesa com um dilacerante humor negro que desvenda os segredos mais obscuros de uma família bastante peculiar. A escrita desta vencedora do Booker Prize é muito original e encantatória. A história é terrível e muito bem contada.

No centro de tudo está a questão: como é que conhecemos tão mal as pessoas que nos estão mais próximas?

E por que razão é possível odiar tanto quem mais se ama?

Quão longos são os tentáculos da memória. Amanhã veremos.

Quem estiver interessado(a) poderá ler a recensão deste romance em http://www.storm-magazine.com/

domingo, 29 de novembro de 2009

NOCTURNO de Cristina Carvalho

A LER SEM DEMORA

Primeiro foi “O Gato de Upsala” que me apanhou de surpresa e me prendeu à escrita de Cristina Carvalho. Depois, conhecemo-nos – nestas rondas de afinidades electivas da escrita e da leitura – e depois foram os seus outros livros, a sua atitude apaixonada e intensa em relação à vida, à arte e à literatura, os seus risos e boa disposição aliados a uma quase timidez e discrição, um saber estar sem pose, sem artifícios. Uma mulher total, pensei eu.
E, depois, chegou este “Nocturno”, um livro único, à margem dos modismos da Literatura Portuguesa actual, com um trabalho esforçado de pesquisa e uma linguagem solta, dinâmica, vibrante e encantatória. É impossível parar de ler esta biografia ficcionada do romântico Fryderyk Chopin, cuja curta vida foi plena de som e de fúria mas não sem significado. Amante e boémio, complexo e delicado, apaixonado e apaixonante, intenso e frágil, Chopin representa uma época e uma forma de estar que parece distante da nossa mas que continua a intrigar-nos e a seduzir-nos. Ele viveu um tempo de grandes convulsões, quando a morte e a vida dançavam a mesma feroz melodia e em que o ser humano comungava estreitamente com a Natureza, encontrando nela – e no Amor – um profundo encanto e uma razão para o absurdo da existência. Frédéric, Fryc fez mais do que viver intensamente. Transpôs para a sua música toda a energia, Beleza, sentimento e Transcendência que, haja o que houver, será sempre tudo aquilo que nós, homens e mulheres, almejamos no mais íntimo do nosso corpo e do nosso espírito. Cristina Carvalho, em “Nocturno” devolve-nos esse desejo e coloca perante o nosso olhar o espelho das nossas dúvidas e ansiedades.
“Nocturno” é um romance de uma vida. De uma vida romântica, na verdadeira assumpção do termo. Escrito por uma mulher que vive romanticamente.
Com a música, sempre a música, a tocar.

Nota : não confundir “romântico” com “sentimental”. Cristina Carvalho nunca é sentimental. E escreve como se respirasse. Com uma cadência perfeita. Com prazer.

“Nocturno”, Cristina Carvalho, Ed. Sextante, Lisboa, Novembro, 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Amanhã temos Sessão Comunidade


Amanhã temos Sessão Comunidade de Leitores, na Culturgest - 18:30

O livro em discussão será "LOVE" de Toni Morrison

Que "AMOR" será este? Que espécies de "amores" existem neste romance circular, apaixonado e encantatório?

Onde está situada a fronteira entre o amor e o ódio?

E será que o amor faz com que as pessoas sejam melhores? Ou piores?

Se tiverem interesse, leiam a minha recensão a este mesmo livro em www.storm-magazine.com

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Para a semana é tempo de AGUSTINA


NOTA DE IMPRENSA:

De 26 a 31 de Outubro têm lugar na FNAC – Chiado, em Lisboa, 4 conversas sobre 4 grandes temas do universo de Agustina Bessa-Luís, com a presença de personalidades destacadas da nossa vida cultural. Modera as sessões “Agustina na FNAC” a crítica literária Helena Vasconcelos.
Agustina é uma das grandes e renovadas revelações da literatura portuguesa dos últimos cinquenta anos – e a sua assombrosa frescura torna-se cada vez mais evidente. São os novos públicos que a vão, de novo, descobrindo – e que, nessa descoberta, a vão tornando a revelar. Objecto de um verdadeiro culto académico, Agustina é o contrário do academismo. Irreverente, desconcertante, irrepetível, corrosiva, bem-humorada, é uma escritora do nosso tempo para o nosso tempo.
Esta inicitaiva da FNAC Portugal, com o apoio da Guimarães Editores, integra-se no projecto “ADN – Agustina Desígnio Nacional”, um ciclo de iniciativas que visa celebrar a autora e consagrá-la como um dos maiores escritores vivos de língua portuguesa. A Associação da FNAC a este projecto é mais um sinal da actualidade e vitalidade desta escritora intemporal.
Informação também disponível em HTTP://CULTURA.FNAC.PT
Rui Morais e Castro
Guimarães Editores

PROGRAMA : AGUSTINA NA FNAC (Chiado – Lisboa)

Moderadora : Helena Vasconcelos (crítica literária)

ENTRADA LIVRE

SEG. 26 OUT. - 18h30

I. As Artes de Agustina

§ Graça Morais
§ João Botelho
§ Mónica Baldaque

TER. 27 OUT. • 18h30

II. Os Homens e as Mulheres em Agustina

§ Inês Pedrosa
§ Francisco José Viegas
§ Patrícia Reis

QUA. 28 OUT. • 18h30

III. Agustina e as Relações de Poder

§ Lídia Jorge
§ Filipa Melo
§ Miguel Real

SAB. 31 OUT. • 19h00

IV. Os Aforismos de Agustina

§ Pedro Mexia
§ José Manuel dos Santos
§ Maria Helena Padrão

AGUSTINA NA FNAC

Quantos mundos cabem no universo de Agustina? A escritora criou uma galáxia de personagens e lugares, de emoções e sensações, de ímpetos e desejos que a tornam única e, evidentemente, imprescindível para a compreensão da nossa identidade e da nossa cultura. Agustina arrasta-nos pelas paisagens férteis do Douro, pelas ruas e traseiras dos prédios do Porto, pelas salas, corredores e recantos das casas rurais ou citadinas, acompanhando homens e mulheres, fortes e fracos, fiéis e desleais, a braços com o tumulto do mundo. Agustina, com os seus 87 anos bem vividos, detentora de inúmeros Prémios, autora de uma obra vastíssima, exploradora de todas as formas de comunicação, vai ser falada e discutida na FNAC.. Nunca é demais celebrar Agustina.

I - As Artes de Agustina
Realizadores de cinema como Manoel de Oliveira e João Botelho compreenderam bem o potencial das luxuriantes descrições das paisagens – interiores e exteriores – da vida dos objectos que abundam nos seus livros. Mas se Agustina “dá a ver” através da escrita, ela é, também, uma observadora curiosa e atenta. A sua cumplicidade com Maria Helena Vieira da Silva ficou registada em “Longos Dias Têm Cem Anos” e o fascínio por Rembrandt deu origem a “A Ronda da Noite” com o seu inquietante mistério.

II - Homens e Mulheres em Agustina
A sua galeria de personagens masculinas e femininas – a que se deve acrescentar a de alguns animais emblemáticos – rivaliza com as de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós. É através das suas figuras femininas e masculinas, de todas as idades, que Agustina define um sistema de valores que rege um universo aparentemente rígido. Mas a força imanente e telúrica do lado feminino e o exercício da vontade do lado masculino estabelecem um desequilíbrio constante e perigoso.

III - Agustina e as Relações de Poder
Em Agustina, nada é pacífico. Por essa razão não admira que a busca e exercício do poder seja um dos temas mais constantes da sua obra. E, uma vez que o poder se adquire através da luta, há inúmeras batalhas nos seus livros. Daí também o fascínio por figuras da política, como o Marquês de Pombal (em “Sebastião José”) e como Francisco de Sá Carneiro (em “Os Meninos de Oiro”) . Ela sabe bem como os seres humanos atravessam a vida esgrimindo agilmente todas as possibilidades de dominação.

IV - Os Aforismos de Agustina
A leitura dos aforismos de Agustina transforma-se numa resolução de charadas. Mais do que provérbios, ditados ou sentenças em torno de temas que vão do amor à morte, do desejo às virtudes, do sofrimento à felicidade, estas frases lacónicas e cortantes, aproximam-se da reflexão filosófica e fazem as vezes de revelações ditas por um oráculo esclarecido e visionário. Um aforismo pode ser sibilino, luminoso, pacífico ou escandaloso. Agustina dá-nos a provar o sabor de todos eles.
Helena Vasconcelos

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Marguerite Yourcenar


Estamos a ler Marguerite Yourcenar. Não resisto a mencionar outros Zenão, anteriores ao protagonista de "A Obra ao Negro":
Zenão de Citium, filósofo grego, fundador da Escola Estóica. Ensinou em Atenas nos anos 300 a. C. . Baseando-se nas ideias morais dos Cínicos, o Estoicismo colocava grande ênfase na bondade e na paz de espírito que seriam alcançadas através de uma vida de virtude e em concordância com a Natureza.
Zenão de Eléia (hoje em Itália), filósofo grego, terá nascido cerca de 490-485 a. C., e desafiou os conceitos de movimento e de tempo através de quatro paradoxos que criaram uma certa agitação, ainda hoje visível. As teorias do movimento estão intimamente relacionadas com as teorias sobre a natureza do espaço e do tempo. Na Antiguidade, foram defendidas duas perspectivas opostas: a hipótese do Uno, defendida por Parménides (n. 515-510 a.C.), e a dos seus adversários, que defendiam o pluralismo.Zenão era discípulo de Parménides e tentou fazer com que os seus adversários caíssem em contradição. De facto, Zenão mostrou que examinando a questão a fundo se obtêm consequências mais absurdas partindo da hipótese da pluralidade do que da hipótese do Uno.As hipóteses contra as quais Zenão dirigiu o seu talento destrutivo foram principalmente a da pluralidade e a do movimento, que eram indiscutivelmente aceites por todos, salvo pelos próprios Eleatas.

sábado, 26 de setembro de 2009

E, agora, vamos ler "A Obra ao Negro" de Marguerite Yourcenar

O tempo foi escasso para a discussão sobre "A Costa dos Murmúrios" de Lídia Jorge. Dissecámos o seu olhar nada romantizado nem complacente sobre a Guerra, a noção de prisão- os vários compartimentos, do Stella Maris (uma espécie de colmeia) à casa de Helena, dos contentores na praia ao Moulin Rouge - o sentido da desumanização e do caos, o poder da hierarquia militar ( e o porquê dessa força), o lado anti-épico do romance, os ritos iniciáticos, o percurso de descoberta pessoal de Evita/Eva Lobo, a cicatriz de Forza Leal e o seu simbolismo, a tarefa de Helena - abrir a caixa de Pândora - o significado de um conflito que teve três nomes : Guerra Colonial, Gurra da Libertação e Guerra de África, consoante os lados assumidos. E conversámos ainda, longamente, sobre a magnificência da escrita, a desconstrução da narrativa, a forma como os odores e as cores se infiltram na mente do leitor, etc. Discutimos mais : a Ilíada e a "glória" dos guerreiros, Penélope e os Ulisses deste mundo, a necessidade (ou não) da Guerra, a violência inata - discussão: seremos todos capazes de matar e de cometer atrocidades e em que circunstâncias - a situação das mulheres na segunda metade do século XX, a ambiguidade e complexidade de África, a descoberta do "outro", o racismo, o imperialismo. Não esgotámos os temas, muito mais ficou por dizer.
A seguir vamos mergulhar noutro século tão complexo e "acelerado" como o século XX, com "A Obra ao Negro" de Marguerite Yourcennar. Preparem-se que vai ser duro.