terça-feira, 21 de julho de 2009

Alice Hoffman



"Confissões ao Luar" da americana Alice Hoffman é um daqueles casos em que a capa e o título são perfeitamente desastrosos e repelem, em vez de atrair. Se não fosse eu já conhecer a autora de outras obras, não teria pegado neste. E afinal é um romance muito interessante, forte e pungente. É um drama familiar, uma fábula sobre os efeitos da paixão e sobre as forças negativas de personalidades irreconciliáveis. É sobre o amor e o ódio entre pessoas da mesma família - disfuncional, complexa - e sobre a fantasia da infância e adolescência, sobre as desilusões na idade adulta e como lidar (ou não) com elas. É realista, brutal e, ao mesmo tempo, estranhamente poético. A casa de vidro que habitam é uma metáfora sobre a fragilidade da vida, o orgulho e o fosso que existe entre as fantasias e a vida de todos os dias. Um livro que aconselho.

Alice Hoffman, que nasceu em 1952, é também autora de livros para crianças e adolescentes. mesmo aqui, um livro para adultos, ela mostra que está familiarizada com o universo da infância e dos teenagers principalmente no que diz respeito às dificuldades no crescimento e o confronto com dramas inultrapassáveis. Hoffman tem, também, a particularidade de introduzir cenas oníricas - chamam-lhe realismo mágico mas não gosto dessa classificação - e de tratar o tema de ralações amorosas que não são as mais convencionais, no género "romance".

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Hoje é dia de Poema - Os Ricos


Tenho pensado muito nos ricos e na crise que atravessam - banqueiros, gestores, eu nem sei como eles se chamam, são tantos, coitadinhos. O Governo, os comentadores, os políticos e não políticos, à esquerda, à direita, ao centro, em baixo e em cima só falam dos pobres. E então os ricos? Por isso, aqui vai um poema do Charles Tomlinson. É o da semana no Times Literary Supplement.





The Rich
I like the rich – the way
they say: 'I'm not made of money':
their favourite pastoral
is to think they're not rich at all –
poorer, perhaps, than you or me,
for they have the imagination of that fall
into the pinched decency
we take for granted.
Of course,they do not want to be wanted
by all the skivvies and scrapers
who neither inherited nor rose.But are they daft or deft,
when they proclaim themselves
men of the left, as if prepared
at the first premonitory flush
of the red dawn
to go rushing into the street
and, share by share,
add to the common conflagration
their scorned advantage?
They know that it can't happen
in Worthing or Wantage:
with so many safety valves
between themselves and scalding,
all they have to fear
is wives, children, breath and balding.
And at worst
there is always some sunny
Aegean prospect. I like the rich –
they so resemble the rest
of us, except for their money.

Ontem foi dia de RTPN

Ontem, gravei umas coisas, a convite - muito simpático - da Isabel Gomes da RTPN, para o seu programa "Estação das Artes". Foi ao fim da tarde no CCB com o rio ao fundo e uma luz que só existe em Lisboa. O pretexto era a inevitável questão de "livros para férias". É difícil porque, para mim, férias, é um estado em que (quase) não leio. É estar a olhar para o mar, nadar, apanhar sol e ficar a divagar sobre coisas boas e a escrever livros na minha cabeça. É fazer compras e andar descalça todo o dia. É comer, beber, dormir e estar bem acompanhada, com silêncios e ao ritmo natural do tempo. É verdade que não faço férias dessas há milhares de anos. Mas, enfim, nada disto tem importância e ontem, fartei-me de recomendar livros. A maior parte deles, calhamaços de todo o tamanho o que provavelmente, desmotivará os mais afoitos. Mas talvez seja esta a altura para voltar a ler "A Montanha Mágica" de Thomas Mann (nova edição impecável da Dom Quixote) e outros "clássicos" que estão a ser reeditados - obras de John dos Passos (Ed Presença), de Balzac, Yourcenar, Conrad, uma quantidade deles. Uma espécie de Natal para os bibliófilos.

sábado, 11 de julho de 2009

Centenários e Notícias


Nota: A fotografia de Nelson Algren em Division Street é do seu amigo Art Shay. O retrato de Swinburne pode ser de Dante Gabriel Rossetti mas não tenho a certeza


Tenho estado sem Internet, sem visitas ao Facebook e a trabalhar recorrendo às velhas Enciclopédias - para datas e verificação de dados - das quais não me desfaço nem por nada porque isto das novas tecnologias é muito bonito... quando funcionam. Rapidamente, e antes que o sinal desapareça como tem acontecido nestes últimos dias, gostava de vos contar que estive a escrever um texto para o Público sobre o último livro do Miguel Sousa Tavares, uma tarefa que é uma espécie de "batata quente"que me atiraram para as mãos, mas que fiz com prazer. Também reparei que os editores portugueses não têm ligado nenhuma ao facto de, este ano, se comemorar o centenário do nascimento do escritor norte-americano Nelson Algren. Creio - e posso estar muito enganada - que não existem traduções portuguesas de "Man With the Golden Arm" - que foi passado para o cinema pelo Otto Preminger com um Frank Sinatra a fazer de drug addict - nem de "A Walk on the Wild Side" que também foi adaptado ao cinema. São bons romances, duros e violentos e o próprio Algren - mais conhecido pelo affair tórrido com Simone de Beauvoir - é uma figura interessante. Escrevi um texto sobre ele que irá sair na revista ELLE de Outubro - meteu-se pelo meio outro texto sobre o Elia Kazan que não é personagem das minhas simpatias, antes pelo contrário, mas cujo centenário também é de assinalar, este ano - e avisar-vos-ei quando aparecer.
Outra efeméride que merece uma nota: os 100 anos sobre a morte do poeta Swinburne. O esquecimento não é de admirar, neste caso: Swinburne com o seu sentimentalismo - apreciado pelos pré-rafaelitas - é já um pouco indigesto mas tem algumas coisas excitantes como o poema em que ele sonha que visita Lesbos:
Ah the singing, ah the delight, the passion!
All the Loves wept, listening; sick with anguish,
Stood the crowned nine Muses about Apollo;
Fear was upon them,
While the tenth sang wonderful things they knew not.
Ah the tenth, the Lesbian! the nine were silent,
None endured the sound of her song for weeping; Laurel by laurel,
Faded all their crowns; but about her forehead,
Round her woven tresses and ashen temples
White as dead snow, paler than grass in summer,
Ravaged with kisses,
Shone a light of fire as a crown forever.
Yea, almost the implacable Aphrodite
Paused, and almost wept; such a song was that song.
Yea, by her name too ...
E vai por aí fora, não consigo transcrever mais. A Rainha Vitória gostava bastante.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

De volta


Regressei a casa, depois de uns dias no Alentejo. Tinha resolvido "descansar" mas levei as minhas netas e... o resto é história. No entanto - e como estava a tentar gozar aquilo a que os comuns mortais chamam "férias" - levei para ler o último livro da trilogia Millennium do pobre do Stieg Larsson - "A Rainha no Palácio das Correntes de Ar". É fascinante, não tão emocionante como os outros dois, mas com informação muito específica - neste caso sobre a "secreta" sueca e, por extensão, sobre o jogo sujo das "secretas" em todo o mundo (ou quase). Mostra bem como o terrorismo serve de pretexto para os maiores abusos.

Estou a menos de meio - e vou ter que deixar o resto para depois porque tenho trabalho à minha espera - mas já me apercebi de uma coisa. Tudo o que li sobre o livro diz que é mais centrado na figura da Lisbeth Salander: é verdade em termos do seu passado mas não em termos de acção. Até agora, ela ainda está presa no hospital. O que dá para ver é que o Stieg Larsson devia ser um jornalista genial. E incómodo. Este livro mostra um trabalho de investigação bastante alargado. No entanto, é um romance e não me esqueço desse pormenor. Deixo-vos com estas pistas. Agora, vou trabalhar.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Um cenário magistral para uma peça que o não merece


Ontem fui ver Agosto em Osage de Tracy Letts, ao Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. E detestei. Não percebo como é que um texto, com colagens decalcadas descaradamente de Tenesse Williams, de Faulkner e de Jim Thomson ( não são influências, são autores que ele copia sem vergonha) com piscadelas de olho a tudo e todos - incluindo aos "nativos americanos", mais uma vez achincalhados pelo mau gosto - em que cabe tudo, do suicídio ao incesto, da violação à loucura, de traição a abandono, pode ter ganho um Pulitzer. Não percebo como é que uma grande senhora como a Fernanda Lapa - que muito prezo e admiro - deixa Lia Gama aos gritos e aos tombos, a tomar conta das cenas sem dar espaço aos outros actores - alguns deles óptimos como João Grosso ( que mal aparece) , Isabel Medina, Mário Jacques ( que começa tão bem a peça) ou Luis Lucas - a dar uma de Blanche DuBois, misturada com a versão burlesca da Martha de "Who's Afraid of Virginia Woolf." Não percebo como é que um cenário tão belo, funcional e maravilhoso - de António Lagarto - acolhe tanto disparate e um texto tão infeliz ou como uma peça daquelas vai parar a um Teatro Nacional. Não percebo como é que o público se fartou de rir alarvemente ou nervosamente - o problema é meu, evidentemente - quando se trata da história de uma família disfuncional, dramaticamente dividida e amputada por uma louca viciada, em que uma miúda de quinze anos é violada, um homem se mata, três irmãs se odeiam e o resto é ruído. Tracy Letts é um produto dos tempos Bush, com a sua moralidade duvidosa? Expliquem-me por favor.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Rachel Cusk





Acabei de ler "Arlington Park" ( Ed. Asa) da canadiana Rachel Cusk, de quem já conhecia "Saving Agnes" e "The Lucky Ones", que me lembre, agora. Este romance, publicado originalmente em 2006, contém um desespero tão palpável, uma angustia tão premente que fiquei com uma espécie de gosto a metal e cinzas na boca. Conta as histórias de várias mulheres que habitam um condomínio alargado de luxo, nos subúrbios de Londres. A sua movimentação - migração - é motivada por factores díspares mas acabam todas (quase) na mesma situação: descontentes, frustradas, vazias, amargas, enlouquecidas com a rotina, as crianças, as idas ao centro comercial, os maridos que elas entrevêem de relance. Chove sempre em Arlington Park, as bátegas de água não param de cair de um céu de chumbo. As casas são demasiado grandes ou demasiado pequenas, arrumadas maniacamente ou desleixadas pela impotência.
É um romance sobre mulheres que sofrem horrores sem saberem porquê ou devido a quê, numa antevisão apocalíptica do "crash" de 2008, entre poluição, solidão, mau gosto e abandono. São donas de casa desesperadas à beira da morte mental, cheias de medo da vida.
Assustador, verídico, incómodo, trágico-cómico - mães que detestam os filhos , que os acham feios, que se sentem felizes por comprar um "top" numa loja, que não têm amigas, apenas conhecidas que criticam abertamente, que mal reconhecem os maridos, etc., etc. - e muito bem escrito. Ainda bem que já não tenho trinta e tal anos. Nem nada que se pareça. UFFFF!