sábado, 11 de julho de 2009

Centenários e Notícias


Nota: A fotografia de Nelson Algren em Division Street é do seu amigo Art Shay. O retrato de Swinburne pode ser de Dante Gabriel Rossetti mas não tenho a certeza


Tenho estado sem Internet, sem visitas ao Facebook e a trabalhar recorrendo às velhas Enciclopédias - para datas e verificação de dados - das quais não me desfaço nem por nada porque isto das novas tecnologias é muito bonito... quando funcionam. Rapidamente, e antes que o sinal desapareça como tem acontecido nestes últimos dias, gostava de vos contar que estive a escrever um texto para o Público sobre o último livro do Miguel Sousa Tavares, uma tarefa que é uma espécie de "batata quente"que me atiraram para as mãos, mas que fiz com prazer. Também reparei que os editores portugueses não têm ligado nenhuma ao facto de, este ano, se comemorar o centenário do nascimento do escritor norte-americano Nelson Algren. Creio - e posso estar muito enganada - que não existem traduções portuguesas de "Man With the Golden Arm" - que foi passado para o cinema pelo Otto Preminger com um Frank Sinatra a fazer de drug addict - nem de "A Walk on the Wild Side" que também foi adaptado ao cinema. São bons romances, duros e violentos e o próprio Algren - mais conhecido pelo affair tórrido com Simone de Beauvoir - é uma figura interessante. Escrevi um texto sobre ele que irá sair na revista ELLE de Outubro - meteu-se pelo meio outro texto sobre o Elia Kazan que não é personagem das minhas simpatias, antes pelo contrário, mas cujo centenário também é de assinalar, este ano - e avisar-vos-ei quando aparecer.
Outra efeméride que merece uma nota: os 100 anos sobre a morte do poeta Swinburne. O esquecimento não é de admirar, neste caso: Swinburne com o seu sentimentalismo - apreciado pelos pré-rafaelitas - é já um pouco indigesto mas tem algumas coisas excitantes como o poema em que ele sonha que visita Lesbos:
Ah the singing, ah the delight, the passion!
All the Loves wept, listening; sick with anguish,
Stood the crowned nine Muses about Apollo;
Fear was upon them,
While the tenth sang wonderful things they knew not.
Ah the tenth, the Lesbian! the nine were silent,
None endured the sound of her song for weeping; Laurel by laurel,
Faded all their crowns; but about her forehead,
Round her woven tresses and ashen temples
White as dead snow, paler than grass in summer,
Ravaged with kisses,
Shone a light of fire as a crown forever.
Yea, almost the implacable Aphrodite
Paused, and almost wept; such a song was that song.
Yea, by her name too ...
E vai por aí fora, não consigo transcrever mais. A Rainha Vitória gostava bastante.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

De volta


Regressei a casa, depois de uns dias no Alentejo. Tinha resolvido "descansar" mas levei as minhas netas e... o resto é história. No entanto - e como estava a tentar gozar aquilo a que os comuns mortais chamam "férias" - levei para ler o último livro da trilogia Millennium do pobre do Stieg Larsson - "A Rainha no Palácio das Correntes de Ar". É fascinante, não tão emocionante como os outros dois, mas com informação muito específica - neste caso sobre a "secreta" sueca e, por extensão, sobre o jogo sujo das "secretas" em todo o mundo (ou quase). Mostra bem como o terrorismo serve de pretexto para os maiores abusos.

Estou a menos de meio - e vou ter que deixar o resto para depois porque tenho trabalho à minha espera - mas já me apercebi de uma coisa. Tudo o que li sobre o livro diz que é mais centrado na figura da Lisbeth Salander: é verdade em termos do seu passado mas não em termos de acção. Até agora, ela ainda está presa no hospital. O que dá para ver é que o Stieg Larsson devia ser um jornalista genial. E incómodo. Este livro mostra um trabalho de investigação bastante alargado. No entanto, é um romance e não me esqueço desse pormenor. Deixo-vos com estas pistas. Agora, vou trabalhar.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Um cenário magistral para uma peça que o não merece


Ontem fui ver Agosto em Osage de Tracy Letts, ao Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. E detestei. Não percebo como é que um texto, com colagens decalcadas descaradamente de Tenesse Williams, de Faulkner e de Jim Thomson ( não são influências, são autores que ele copia sem vergonha) com piscadelas de olho a tudo e todos - incluindo aos "nativos americanos", mais uma vez achincalhados pelo mau gosto - em que cabe tudo, do suicídio ao incesto, da violação à loucura, de traição a abandono, pode ter ganho um Pulitzer. Não percebo como é que uma grande senhora como a Fernanda Lapa - que muito prezo e admiro - deixa Lia Gama aos gritos e aos tombos, a tomar conta das cenas sem dar espaço aos outros actores - alguns deles óptimos como João Grosso ( que mal aparece) , Isabel Medina, Mário Jacques ( que começa tão bem a peça) ou Luis Lucas - a dar uma de Blanche DuBois, misturada com a versão burlesca da Martha de "Who's Afraid of Virginia Woolf." Não percebo como é que um cenário tão belo, funcional e maravilhoso - de António Lagarto - acolhe tanto disparate e um texto tão infeliz ou como uma peça daquelas vai parar a um Teatro Nacional. Não percebo como é que o público se fartou de rir alarvemente ou nervosamente - o problema é meu, evidentemente - quando se trata da história de uma família disfuncional, dramaticamente dividida e amputada por uma louca viciada, em que uma miúda de quinze anos é violada, um homem se mata, três irmãs se odeiam e o resto é ruído. Tracy Letts é um produto dos tempos Bush, com a sua moralidade duvidosa? Expliquem-me por favor.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Rachel Cusk





Acabei de ler "Arlington Park" ( Ed. Asa) da canadiana Rachel Cusk, de quem já conhecia "Saving Agnes" e "The Lucky Ones", que me lembre, agora. Este romance, publicado originalmente em 2006, contém um desespero tão palpável, uma angustia tão premente que fiquei com uma espécie de gosto a metal e cinzas na boca. Conta as histórias de várias mulheres que habitam um condomínio alargado de luxo, nos subúrbios de Londres. A sua movimentação - migração - é motivada por factores díspares mas acabam todas (quase) na mesma situação: descontentes, frustradas, vazias, amargas, enlouquecidas com a rotina, as crianças, as idas ao centro comercial, os maridos que elas entrevêem de relance. Chove sempre em Arlington Park, as bátegas de água não param de cair de um céu de chumbo. As casas são demasiado grandes ou demasiado pequenas, arrumadas maniacamente ou desleixadas pela impotência.
É um romance sobre mulheres que sofrem horrores sem saberem porquê ou devido a quê, numa antevisão apocalíptica do "crash" de 2008, entre poluição, solidão, mau gosto e abandono. São donas de casa desesperadas à beira da morte mental, cheias de medo da vida.
Assustador, verídico, incómodo, trágico-cómico - mães que detestam os filhos , que os acham feios, que se sentem felizes por comprar um "top" numa loja, que não têm amigas, apenas conhecidas que criticam abertamente, que mal reconhecem os maridos, etc., etc. - e muito bem escrito. Ainda bem que já não tenho trinta e tal anos. Nem nada que se pareça. UFFFF!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Hemingway de novo


Ernest Hemingway com a sua primeira e segunda mulher, respectivamente, Hadley Richardson, Pauline Pfeiffer.
O neto de Ernest Hemingway Seán Hemingway, editou versão restaurada de "A Moveable Feast" ("Paris é uma Festa") que irá sair pela Simon & Schuster no início do mês que vem. As memórias do escritor em Paris quando começou a trocar de mulheres e pôs a nu as suas indecisões e (alguns) remorsos por ter acabado o primeiro casamento. A história desta nova edição é, também , interessante - em causa está o último capítulo trabalhado a partir de pequenos textos e notas do escritor, por Mary Hemingway, a última mulher, que foi quem editou este livro em 1964 - e demonstra o fascínio que ainda perdura em relação ao escritor. Na realidade muitos estudiosos da sua obra sempre consideraram que "A Moveable Feast" não ficara terminado quando do suicídio do autor em 1961.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Maria da Conceição Caleiro

Na quinta-feira próxima, 25 de Junho, 2009, dia em que chego a Lisboa, vou apresentar este livro da Maria da Conceição Caleiro, na Livraria Barata da Avenida de Roma, às 18:30 h. É um romance poderoso e surpreendente. É preciso lê-lo porque revoluciona por completo a Literatura Portuguesa contemporânea. Não é a minha área, como sabem, mas tenho quase a certeza de que não há nada que se lhe compare. Depois vos darei mais pormenores. Mesmo que não possam aparecer, aconselho-vos a leitura. Rapidamente. A edição é da Sextante.

Longe de casa com Siri Hustved


Longe de Portugal, a escrever.
Também acabei de ler "Elegia para um Americano" de Siri Hustvedt, Edições Asa, recentemente publicado em Lisboa. Ela também esteve por lá, com o famoso marido, Paul Auster, o qual me parece bem mais fraco, como escritor, do que ela - não sou, decididamente fã, do Auster e gosto do que a Siri escreve - destaque para "Aquilo que Eu Amava", também da Asa - embora não veja isto como uma competição dentro do casal - que talvez exista, embora me pareça que ambos sabem muito bem o que estão a fazer. "Elegia para um Americano" é narrado por um psicanalista - o que levou aos disparates do costume ( uma parangona: "Siri Hustvedt escreve como um homem") - e é um dos livros que se pode inscrever na chamada "literatura pós-9/11". É uma meditação sobre a morte - tanto individual como colectiva - sobre a memória e sobre as transformações nas vidas das pessoas - principalmente dos habitantes de Nova Iorque - à sombra da catástrofe. Como recuperam o passado - bem ou mal - como ajustam ou desajustam os afectos, como tentam sarar feridas morais, psicológicas, afectivas. Em comum com Auster, a escrita de Hustvedt assenta em dois pilares fundamentais : o tema das origens (relação com a Europa de onde vieram tantos imigrantes que colonizaram a América) e uma escrita "cinematográfica" muito visual, e formatada como uma película. É, também, um romance "autobiográfico"uma vez que as memórias do pai de Hustedt - um imigrante norueguês que faleceu em 2003 - - são expressamente citadas e compõem a espinha dorsal do romance, o ponto fulcral de onde tudo emana e para o qual tudo converge.
Na realidade, o livro é uma elegia para "esse americano" - vindo de outros lugares, forte, corajoso, honesto, "vertical", amante da sua nova terra, heróico - e para a própria América com todos os seus traumas acumulados.
Um romance muito interessante que aconselho e que completa outra leitura, a de "A Boa Vida" de Jay McInerney, também recentemente editado em Portugal.