sexta-feira, 12 de junho de 2009

Comunidade de Leitores Culturgest


Em Setembro, começará a segunda das Comunidades de Leitores deste ano, 2009, na Culturgest. Eu sei que já tinha dado uma primeira indicação em relação aos livros escolhidos mas acabei por mudar dois deles. O primeiro foi "A Montanha Mágica" de Thomas Mann porque é uma obra que merece, pelo menos, três sessões e não apenas uma: há demasiadas questões, demasiada informação e muitas páginas para serem deglutidas em 15 dias. O segundo foi "O Paciente Inglês" de Michael Ondaatje porque tive reclamações. (Muita gente já o lera. )
Com estas explicações, espero que a nova escolha agrade a toda a gente.
Já enviei o texto para a Culturgest.
E aqui fica a versão definitiva:
A Imagem é de Eugéne Delacroix e o quadro em questão chama-se "Heliodorus expulso do Templo"
O Tema é :
"Confrontos, Guerras, Escaramuças"
E os Livros:

24/09 - "A Costa dos Murmúrios", Lídia Jorge, Ed. Dom Quixote
8/10 - "A Obra ao Negro", Marguerite Yourcenar, Ed. Dom Quixote
29/10 - "Lillias Fraser", Hélia Correia, Ed. Relógio D'Água
19/11 - "Love", Toni Morrison, Ed. Dom Quixote
3/12 - "Corpo Presente" Anne Enright. Ed. Gradiva
17/12 - "O Mar", John Banville, Ed. Asa

Só os insensatos preferem a guerra; em tempo de paz, os filhos enterram os pais; em tempo de guerra, os pais enterram os filhos.” Heródoto

Vivemos em guerras permanentes, verdadeiras e falsas, grandes e pequenas; entre países, raças, culturas, no seio de comunidades, de associações, de famílias. Lutamos contra os elementos, contra as políticas, contra a pobreza, contra a riqueza, contra quem amamos, contra quem odiamos e contra nós próprios. Nesta Comunidade iremos reflectir sobre as várias faces da Guerra ou, melhor ainda, sobre a Face das várias guerras, começando por aquela que nos é sugerida pela leitura de “A Costa dos Murmúrios”. Este é um dos três romances que abarcam um tempo “histórico” e que ocuparão a primeira metade desta Comunidade. Aqui, trata-se da Guerra Colonial que funciona como um cenário, uma respiração, uma espécie de doença que a todos aflige, embora de maneiras diversas. No entanto, o que verdadeiramente se passa está relacionado com confrontos entre géneros, com a subordinação sexual, as lutas de raças e de ideologias, as escaramuças contra o poder patriarcal e colonial . Acontece sempre algo semelhante em tempos perturbados por grandes mudanças, como em “A Obra ao Negro”, onde Zenão, médico e alquimista do século XVI, luta pela liberdade da acção e do pensamento, na passagem da Idade Média para o Renascimento. E, no século XVIII, Lillias Fraser, a menina dos olhos dourados e poderes sobrenaturais, escapa da Escócia para Portugal depois da mortífera batalha de Culloden.
Das Guerras públicas passaremos para as privadas em “Love”, onde uma luta implacável é travada entre duas mulheres por causa de um homem, Bill Cosbey, que já está morto no início da história. Christine, a neta, e Heed, a viúva, não admitem tréguas, apesar de serem da mesma idade, viverem debaixo do mesmo tecto e terem sido amigas na juventude.
Em “Corpo Presente”, conta-se a velha história das batalhas familiares. Desta feita, trata-se da dos Hegarty, os irlandeses com olhos de um azul intenso e alucinado, dados ao alcoolismo, ao humor negro e à tendência para a autodestruição. Há um corpo a enterrar tal como em “O Mar”, um romance sobre a luta contra o esquecimento, na memória eternamente incandescente de Max Morden, o homem que foi menino e salvo pela família Grace.
Em última instância, todas as lutas são contra a morte, embora se morra sempre ( e se mate), lutando.
Nota: por favor, não se esqueçam de confirmar as datas quando sair o Programa da Culturgest.

sábado, 6 de junho de 2009

A Exposição "Homenagem e Esquecimento" em Évora



De regresso do Alentejo, depois da sessão com o meu livro em Évora - uma apresentação perfeita, inteligente, bem disposta e perspicaz de Cláudia Sousa Pereira que deu direito a perguntas da assembleia e muita conversa - depois de ver bons amigos, de dormir, comer e beber maravilhosamente, não quero deixar de vos aconselhar uma exposição que se encontra, também em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida.
Tem como (belo) título "Homenagem e Esquecimento" e é comissariada por Leonor Nazaré, em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian.
Inaugurou a 4 de Junho - exactamente à mesma hora da apresentação do meu livro - mas tive tempo de ver a exposição "antes" e de estar um pouco com a minha amiga Graça Pereira Coutinho, cuja obra prezo muitíssimo.
A exposição tem peças lindíssimas e a ideia é muito interessante, com o tema do esquecimento a dominar. Esquecemos por defesa natural ou por indiferença? Pelo peso dos anos, pela passagem do tempo ou por egoísmo? Ao exercer a prática da homenagem - privada ou pública, silenciosa ou estridente - lutamos contra a perda de memória, contra a queda no buraco negro do olvido.
Estes artistas, nas suas respectivas obras - escultura, pintura, fotografia e gravura - marcam, cravam, deixam vestígios das suas memórias, da sua passagem pelo mundo. Os 16 artistas escolhidos são : João Cutileiro, Henry Moore, José Pedro Croft, Noronha da Costa, Daniel Blaufuks, Ana Vieira, Canto da Maia, Almada Negreiros, Gaëtan, Fernando Lemos, Maria Beatriz, Rui Sanches, João Onofre, Cabrita Reis e Alexandre Estrela e Graça Pereira Coutinho.
Para mim, as mais belas obras expostas são as de Graça Pereira Coutinho, José Pedro Croft, Gaëtan, Rui Sanches, Pedro Cabrita Reis, talvez porque as conheça bem e reveja aqui, mais uma vez, a intrínseca qualidade que têm mantido ao longo de décadas e o chamamento profundo que provocam. Mas todas as obras são interessantes e merecem mais do que uma visita.
Não se esqueçam, a Fundação Eugénio de Almeida é em Évora, muito perto da Biblioteca e do Templo de Diana.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

"A Infância é um País Estrangeiro" em Évora

Hoje, o meu livro, "A Infância é um País Estrangeiro", Ed. Quetzal, vai ser apresentado na Biblioteca Pública de Évora, pela Professora Cláudia Sousa Pereira, às 18:30h.
Estou muito feliz por esta oportunidade de voltar a ver as amigas e amigos de Évora, principalmente aqueles que participaram numa Comunidade de Leitores, nesta mesma Biblioteca, no Inverno 2008 - 2009. Vou agora meter-me ao caminho.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Ainda a Granta

Falava eu da Granta e soube agora que Alex Clark, a editora em chefe, se demitiu sem cumprir sequer um ano de trabalho, à frente da publicação. Clark, que começou em Setembro do ano passado, foi a primeira mulher a dirigir a Granta e sucedera a Jason Cowley que também se aguentou pouco tempo e largou a revista para se tornar director do New Statesman. Não se sabem as razões destas mudanças. John Freenab, o editor americano ficará, por agora a comandar os destinos da revista.

domingo, 31 de maio de 2009

Uma noite de estreia no S. Carlos, em Lisboa



Foi uma noite magnífica. Ontem estreou "Don Giovanni" de W.A. Mozart numa sala cheia e entusiasta com toda a garra, alegria e espírito festivo das grandes estreias mundiais. Lisboa e , principalmente o Chiado estavam animadíssimos na noite quente e feérica. Dentro do S. Carlos havia a azáfama habitual, circulavam flûtes de champanhe, homens e mulheres bem vestidos e elegantes. (Recordei com saudades terríveis as vezes que ali fui com o meu avô que, como era hábito naquele tempo, tinha sempre lugares cativos durante as várias temporadas.) Os habituées apressavam-se a tomar os seus lugares e o ambiente era de expectativa e excitação. Não admira, uma vez que se tratava do grande conquistador de Sevilha.
Esta ópera é uma das minhas favoritas. Música maravilhosa, um libreto genial do grande Lorenzo da Ponte, um tema que tem tanto de farsa como de tragédia, uma figura central emblemática. As feministas podem arrasar o D. Juan, apontar a sua impotência e até a sua homossexualidade - não são grandes notícias, toda a gente sabe que os grandes machões têm estas contrapartidas - a sua brutalidade, violência e falta de moral - o catálogo das conquistas (só em Espanha, 1003) a displicência com que trata as mulheres - bens de consumo, descartáveis e abandonadas, lançadas ao lixo mal provadas - o exagero na luxúria. Um glutão em todos os sentidos, um predador insaciável, um provocador cheio de bazófia e de indiferença perante o próximo. Mas que dizer daquelas mulheres insuportáveis? Da sonsa Dona Anna, à insuportável "lapa" da Elvira, passando pela pseudo ingénua Zerlina? Pelo menos, Don Juan é valente e engenhoso: é um estratega do amor, enfrenta os perigos - e também obriga o pobre Leporello a correr alguns - desafia o fantasma do Comendador, não se arrepende perante o castigo e deixa a sua marca perene nas fantasias femininas e masculinas. O célebre texto de Tirso de Molina, "El burlador de Sevilla y convidado de piedra" foi publicado em Espanha por volta de 1630 e tem conhecido, até aos nossos dias, a apropriação por parte de escritores, artistas plásticos, músicos, etc. (Só para citar alguns: Moliére, Lord Byron, E.T.A. Hoffmann, Pushkin, Kierkegaard, George Bernard Shaw, Albert Camus. )
É claro que a história também é interessante porque para além do confronto de géneros também existe o confronto de classes e o fascinante drama das relações humanas nunca inteiramente límpidas ou "puras", antes facilmente tentadas para o irresistível jogo da manipulação de sentimentos - relação Don Ottavio/Donna Anna, Don Juan/ Leporello, Zerlina/Masetto e todas as combinações possíveis entre eles.
Mas chega de elucubrações sobre o texto. Esta produção do S. Carlos é MAGNÍFICA. A Cenografia de António Lagarto é muito inteligente, com soluções magistrais e muitas referências à arquitectura, à escultura, a quadros e pintores célebres: Magritte, de Chirico, Ingres ("as odaliscas" lânguidas da ceia de Don Juan), sem esquecer os néons à Dan Flavin ou o piscar de olho à estrutura das gelosias andaluzes. Tanto a cenografia - extraordinariamente inventiva e sempre surpreendente - como os figurinos - um cruzar de referências verdadeiramente espantoso - são uma das mais valias deste espectáculo, encenado - e bem - por Maria Emília Correia com óptimos cantores. Saliento Nicola Ulivieri, um Don Juan cheio de garra, óptima figura e voz portentosa e desafiadora, o barítono Kevin Short, um Leporello vivo, sagaz, malandro e enganador e Musa Nkuna que começou timidamente o seu Don Ottavio e se desenvolveu numa voz e numa personagem admiráveis.
Gostei de Carla Caramujo como Donna Anna, a mostrar maturidade e elegância bem como de Chelsey Schill (Zerlina) que me pareceu ser - com a de Ulivieri - a voz mais bem sucedida da noite, ao longo de toda a ópera. Tive pena que a orquestra me parecesse um pouco chocha e que Katharina von Bülow tivesse falhado tanto numa Elvira que nunca se conseguiu impor. Mas estes pequenos percalços não diminuíram o brilho da noite. Gostei muito da sequência de cenas, sempre dinâmica e bem marcada, de soluções brilhantes como a aparição da estátua do Comendador no cemitério - normalmente, em outras produções, penosamente arrastada para o palco - que se mostra agigantada numa sombra - o cantor, o baixo Andreas Hörl é majestosamente mortífero e assustador - a festa dos camponeses é belíssima, a ceia final e a morte de Don Juan, arrepiantes e belíssimas . Mas a noite foi de estrelas, a ceia foi em boa companhia, cá fora passeavam-se milhares de jovens, famílias inteiras, crianças em carrinhos e avós mais lentas, o ar era doce e tenho a certeza que Don Juan, do seu Inferno, sorria ...
Nota: A ópera de Wolfgang Amadeus Mozart estreou no Teatro Nacional de Praga, a 29 de Outubro de 1787 com o grande Casanova entre os espectadores. A versão apresentada em Viena, a 7 de Maio do ano seguinte já apresentava algumas alterações - final "moral" mais adequado ao público da Corte e introdução de novas árias.

Novas leituras


Se é verdade que não escrevo aqui uns dias, isso não quer dizer que tenha abrandado as leituras. Acabei "Roubo. Uma História de Amor", Edição Dom Quixote, de Peter Carey ( o tal australiano que partilha somente com J. M. Coetzee a façanha de ter ganho dois Booker Prize) e escrevi o texto correspondente para o Público. Recebi o novo New York Review of Books, leitura lenta e que me dá grande prazer, principalmente nestas tardes de calor. (Atenção ao texto de Julian Barnes sobre John Updike, para quem quiser tentar aceder ao site da revista.) E recebi o último número da Granta, uma edição especial de "nova ficção " - e não só. Também é para ler devagar e com um certo método. Os textos são todos tão bons que é difícil escolher. Sou fã da Granta desde o primeiro número sob a direcção de Bill Buford que, em 1979, tomou as rédeas desta quase moribunda publicação universitária e a transformou no LUGAR para todas as informações sobre o que andam a fazer os escritores nesse vasto universo da Língua Inglesa. Lembram-se que, logo no primeiro número, Buford apresentou os novos talentos americanos, o que fez levantar algumas sobrancelhas britânicas mas resultou num sucesso absoluto com edições posteriores a aproximar os dois lados do Atlântico? Não é possível esquecer tão pouco - e eu assino a Granta desde o princípio - "The End of the English Novel" (Granta 3), "Dirty Realism" (Granta 8) e, de dez em dez anos, números dedicados a "Best of Young British Novelists" e "Best of Young American Novelists". Nem vale a pena nomear os Amis, Auters, Barnes, Carvers, Munros, McInerneys que por lá têm passado. Para não falar de fotógrafos, poetas, etc.
Neste número, o 106, leiam-se textos de John Banville, Eleanor Catton, Ha Jin, Helen Simpson, uma entrevista feita por Jhumpa Lahiri à contista Mavis Gallant, William Pierce, Chris Ware, Adam Thirlwell, Amy Bloom e Paul Auster bem como um poema de Fanny Howe.
O melhor dos melhores.
São quatro números por ano que valem cada letra impressa.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Alice Munro vence o Man Booker Prize International




Alice Munro, a escritora canadiana nascida em 1931, e uma das mais célebres contistas contemporâneas, ganhou o Prémio Booker Internacional deste ano, 2009. Nada mais justo para esta mulher que se tem dedicado a explorar a alma humana - principalmente feminina - com ardor e minúcia.
O júri, constituído por Jane Smiley, escritora; Amit Chaudhuri, escritor, académico e músico; e Andrey Kurkov, escritor, ensaísta e argumentista justificaram, da seguinte forma, a sua decisão: " Alice Munro é conhecida, principalmente, como autora de contos; no entanto, ela consegue incutir tanta profundidade, sabedoria e precisão em cada história quanto certos romancistas na obra de uma vida inteira. Ler Munro é aprender sempre qualquer coisa de que nunca nos apercebemos antes."
Alice Munro irá receber o seu Prémio de 60 mil libras, a 25 de Junho de 2009, no Trinity College, Dublin.
Em Outubro de 2009 será publicada a sua nova colecção de contos, com o título "Too Much Happiness". Vem mesmo a propósito...
Para quem estiver interessado em saber um pouco mais sobre esta extraordinária escritora, leia-se a recensão sobre "O Amor de Uma Boa Mulher" , edição Relógio D’Água, Lisboa, em www.storm-magazine.com que foi publicada no Jornal Público - Ípsilon. Maio, 2008