domingo, 31 de maio de 2009

Novas leituras


Se é verdade que não escrevo aqui uns dias, isso não quer dizer que tenha abrandado as leituras. Acabei "Roubo. Uma História de Amor", Edição Dom Quixote, de Peter Carey ( o tal australiano que partilha somente com J. M. Coetzee a façanha de ter ganho dois Booker Prize) e escrevi o texto correspondente para o Público. Recebi o novo New York Review of Books, leitura lenta e que me dá grande prazer, principalmente nestas tardes de calor. (Atenção ao texto de Julian Barnes sobre John Updike, para quem quiser tentar aceder ao site da revista.) E recebi o último número da Granta, uma edição especial de "nova ficção " - e não só. Também é para ler devagar e com um certo método. Os textos são todos tão bons que é difícil escolher. Sou fã da Granta desde o primeiro número sob a direcção de Bill Buford que, em 1979, tomou as rédeas desta quase moribunda publicação universitária e a transformou no LUGAR para todas as informações sobre o que andam a fazer os escritores nesse vasto universo da Língua Inglesa. Lembram-se que, logo no primeiro número, Buford apresentou os novos talentos americanos, o que fez levantar algumas sobrancelhas britânicas mas resultou num sucesso absoluto com edições posteriores a aproximar os dois lados do Atlântico? Não é possível esquecer tão pouco - e eu assino a Granta desde o princípio - "The End of the English Novel" (Granta 3), "Dirty Realism" (Granta 8) e, de dez em dez anos, números dedicados a "Best of Young British Novelists" e "Best of Young American Novelists". Nem vale a pena nomear os Amis, Auters, Barnes, Carvers, Munros, McInerneys que por lá têm passado. Para não falar de fotógrafos, poetas, etc.
Neste número, o 106, leiam-se textos de John Banville, Eleanor Catton, Ha Jin, Helen Simpson, uma entrevista feita por Jhumpa Lahiri à contista Mavis Gallant, William Pierce, Chris Ware, Adam Thirlwell, Amy Bloom e Paul Auster bem como um poema de Fanny Howe.
O melhor dos melhores.
São quatro números por ano que valem cada letra impressa.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Alice Munro vence o Man Booker Prize International




Alice Munro, a escritora canadiana nascida em 1931, e uma das mais célebres contistas contemporâneas, ganhou o Prémio Booker Internacional deste ano, 2009. Nada mais justo para esta mulher que se tem dedicado a explorar a alma humana - principalmente feminina - com ardor e minúcia.
O júri, constituído por Jane Smiley, escritora; Amit Chaudhuri, escritor, académico e músico; e Andrey Kurkov, escritor, ensaísta e argumentista justificaram, da seguinte forma, a sua decisão: " Alice Munro é conhecida, principalmente, como autora de contos; no entanto, ela consegue incutir tanta profundidade, sabedoria e precisão em cada história quanto certos romancistas na obra de uma vida inteira. Ler Munro é aprender sempre qualquer coisa de que nunca nos apercebemos antes."
Alice Munro irá receber o seu Prémio de 60 mil libras, a 25 de Junho de 2009, no Trinity College, Dublin.
Em Outubro de 2009 será publicada a sua nova colecção de contos, com o título "Too Much Happiness". Vem mesmo a propósito...
Para quem estiver interessado em saber um pouco mais sobre esta extraordinária escritora, leia-se a recensão sobre "O Amor de Uma Boa Mulher" , edição Relógio D’Água, Lisboa, em www.storm-magazine.com que foi publicada no Jornal Público - Ípsilon. Maio, 2008

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Visitem os blogtailors

Os simpáticos e dinâmicos Paulo Ferreira e Nuno Lopes convidaram-me para escrever um texto sobre a Leitura e as Comunidades. Como sempre, excedi-me em palavras mas quem quiser ter a paciência de ler, tem os BLOGTAILORS à disposição em
http://blogtailors.blogspot.com/

domingo, 24 de maio de 2009

Em Nova Iorque, o Teatro está cheio de estrelas

Da esquerda para a direita: Janet McTeer, Harriet Walter, Jane Alexander, Allison Janney, Alice Ripley; sentadas, da esquerda para a direita: Tovah Feldshuh, Angela Lansbury, Liza Minnelli.

Vejam só... adoro esta fotografia.
Em Nova Iorque, o Teatro está cheio de estrelas... mas quem faz parar o trânsito são as actrizes mais velhas. Elas estão a "dar cartas" em varidíssimos papéis que confirmam os seus enormes talentos respectivos. E não esqueçam Joan Allen, Jane Fonda, Susan Sarandon e Kristin Scott Thomas, umas mais velhas que outras mas todas em grandes performances, tanto no Teatro como no Cinema e na Televisão. Sou suspeita, claro, mas é fantástico tê-las connosco.
Se quiser saber o que estas grandes damas estão a fazer, leia o artigo todo no New York Times em http://www.nytimes.com:80/2009/05/24/theater/24cohe.html?th&emc=th

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Centenário do nascimento de Francis Bacon (pintor)

Inaugurou há dois dias - 20 de Maio - a grande retrospectiva do artista irlandês Francis Bacon, no Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. São mais de 130 obras, das quais 65 são pinturas. Há, também, muito material de colecções públicas e, principalmente privadas, o que atrai a nossa atenção porque esta oportunidade para o ver, pode ser única. Para além disso, a exposição abrange praticamente toda a vida do pintor.
Francis Bacon nasceu a 28 de Outubro de 1909 e morreu a 28 de Abril de 1992.

Francis Bacon: A Centenary Retrospective - May 20, 2009–August 16, 2009
Nota: consultar o Arquivo da Storm-Magazine www.storm-magazine.com e procurar por título - "Francis Bacon - O Grito da Besta"- ou por autor - Helena Vasconcelos - o texto publicado quando da Exposição em Serralves, no Porto - 2003


quinta-feira, 21 de maio de 2009

Brooklyn, Colm Tóibin


Acabou de ser publicado nos Estados Unidos e em Inglaterra. O livro de hoje é uma sugestão de leitura e uma chamada de atenção para os editores portugueses. Vale a pena lê-lo.


BROOKLYN, Colm Tóibin ,
Saiu o novo livro de Colm Tóibin que está já em todas as listas da mais reputada crítica anglo-saxónica. O título evoca um “bairro” muito particular de Nova Iorque, onde desaguavam vagas e mais vagas de imigrantes, imigrantes esses que fizeram toda a diferença no início dos anos 50 do século XX, altura em que se passa esta história. “Brooklyn” relata as desventuras de Eilis Lacey, uma irlandesa cuja família passa grandes dificuldades - o pai morre, os irmãos vão viver para Londres, só lhe resta a mãe e a irmã - e que é convencida a emigrar para a América, por um padre. Em Brooklyn, Eilis arranja trabalho numa loja e estuda contabilidade à noite. Mas o mais triste é que ela nunca desejou verdadeiramente deixar a sua pátria, apesar das condições em que vivia, e o “sonho americano” é algo pesado, sombrio e nada, mas mesmo nada, excitante ou exaltante. Neste romance melancólico, onde as personagens sentem profundamente mas pouco revelam de si mesmas, o tom é definitivamente pouco exuberante e as expectativas dos leitores que contam com um certo desenvolvimento da acção - as pistas deixadas pelo autor, desviam-se do seu curso natural - são inteiramente goradas. Aliás, o mais interessante neste livro - para além do autor escrever bem - é o facto de , apesar de aparentemente banal, a história nunca entrar em clichés. Colm Tóibin - autor de, entre outros, “O Mestre”, uma biografia romanceada de Henry James, e por duas vezes finalista do Booker Prize - é um escritor a seguir com atenção.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Viva a Inteligência, a Perspicácia e o Civismo




Não parei desde que comecei a ler "Há Raposas no Parque. Crónicas de Uma Portuguesa em Londres" de Clara Macedo Cabral, Lisboa, Maio, 2009, Edição Quidnovi.
Trata-se de uma obra em que a autora, a viver em Londres, regista, anota , recorda e comenta o seu quotidiano com grande sagacidade e inteligência. É um género literário (infelizmente) pouco utilizado em Portugal mas que possui antecedentes notáveis, principalmente a partir do século XVII. São-nos familiares os livros sobre Portugal e os portugueses que grandes viajantes acharam por bem escrever para a posteridade: da terrível Princesa Rattazzi que no seu "Portugal à Vol d'Oiseau" deixou a pátria em polvorosa com os seus mordazes comentários, passando por Hans Christian Andersen, ("A Visit to Portugal", 1866), Daniel Defoe ( século XVII), Lord Byron e muitos outros. Reconhecemo-nos, por vezes com algum desconforto em páginas e páginas escritas sobre nós e amiúde acreditamos que ninguém nos conhece verdadeiramente . No caso de Clara Macedo Cabral a visão é contrária - uma portuguesa a observar uma cidade estrangeira, e a tecer comentários muito oportunos sobre o dia-a-dia, os hábitos, os rituais, a história, o ambiente criado pelos britânicos e as histórias de algumas das principais figuras deste País. Macedo Cabral é uma jovem mãe e, no início do livro acompanhamo-la no parto, nos passeios com a criança, no contacto com as outras mães, enquanto se vai adaptando e integrando. O aspecto mais proeminente do seu relato é a constatação do civismo dos ingleses, civismo esse que é quase automaticamente adoptado por quem passa a viver no País. Outros aspectos abordados com grande sentido de oportunidade por Macedo Cabral são os que contrastam com a nossa (portuguesa) forma de estar na vida. A autora realça, nos ingleses, a ausência de auto-piedade e de "lamechice" - eles são práticos, pragmáticos e resistentes - a forma "lógica" e criteriosa como enfrentam dificuldades, a maneira de lidar com o stress - calmamente e até com displicência - a ausência de burocracia, o cultivar de boas maneiras, o respeito pelo "outro" e o exercício da liberdade verdadeiramente democrática. Numa palavra, o exercício em pleno, da cidadania.
Cito, da página 84:
" Ganha-se bastante em conhecer e respeitar o núcleo (de normas), o mesmo que se perde em infringi-lo. Aceitação, integração, sucesso. Quem para aqui imigra depressa integra os modos educados da cultura britânica. Esse saudável impulso que o imigrante sente de querer copiar e por vezes ser mais papista que o papa, tal é o medo de ser reconhecido e estigmatizado, beneficia a todos, indivíduo e sociedade".
"Há Raposas no Parque" - um título misterioso, cuja chave se encontra na leitura, é uma obra essencial. Cada vez mais precisamos de aprender com os outros a melhor forma de conviver com todos. E não nos faz mal nenhum copiar o que funciona e por de lado vícios arreigados de um comportamento pouco civilizado. Esperamos ter já percorrido algum caminho desde que Byron escreveu a seguinte carta:

[Ao Sr. Hodgson]
"Lisboa, 16 de Julho de 1809."

"Até ao momento temos seguido a nossa rota, e visto todo o tipo de panorâmicas maravilhosas, palácios, conventos, & c., - o que, estando para ser contado na próxima obra, Book of Travels, do meu amigo Hobhouse, eu não anteciparei transmitindo-lhe qualquer relato de uma maneira privada e clandestina. Devo apenas observar que a vila de Cintra, na Estremadura, é talvez a mais bela do mundo.
Sinto-me muito feliz aqui, porque adoro laranjas, e falo um latim macarrónico com os monges, que o compreendem, uma vez que é como o deles, - e frequento a sociedade (com as minhas pistolas de bolso), e nado ao longo do Tejo, e monto em burros ou mulas, e digo palavrões em Português, e sou mordido pelos mosquitos. Mas quê? Aqueles que efectuam digressões não devem esperar conforto.
Quando os portugueses são pertinazes, eu digo 'Carracho!' - a grande praga dos fidalgos, que muito bem ocupa o lugar de 'Damme!' - e quando fico aborrecido com o meu vizinho declaro-o 'Ambra di merdo' [por 'Homem de merda' ?]. Com estas duas frases, e uma terceira, 'Avra bouro' [por 'Arre burro' ?], que significa 'Get an ass' ['Arranja um burro' ...!?!, obviamente uma tradução incorrecta.], sou universalmente reconhecido como pessoa de categoria e mestre em línguas. Quão alegremente vivemos sendo viajantes! - se tivermos comida e vestuário. Mas, em sóbria tristeza, qualquer coisa é melhor do que Inglaterra e eu estou infinitamente divertido com a minha peregrinação, até ao momento..."
A carta continua mas aqui está o que nos interessa.
P.S. Tenho apenas um reparo a fazer sobre este livro: há o hábito de se dizer , em português, (e escrever), "desfolhar revistas... jornais... livros" e, aqui, "desfolhar notícias". "Desfolhar é "tirar a folha", por isso, folhear é o verbo adequado. De resto, "Há Raposas no Parque" está muitíssimo bem escrito, os temas - da imigração, dos direitos humanos e das mulheres por exemplo - impecavelmente tratados, mostrando erudição, boa informação e agilidade crítica.
A não perder.