terça-feira, 28 de abril de 2009

O Criador de Letras


Recebi, de um companheiro das artes da Literatura e do Jornalismo, Pedro Foyos, um interessante livro que nos remete para um tempo recuado - mais de 3 mil anos atrás - e para um lugar a que se chamou Fenícia. Aí, o Rei confia ao seu Mestre-Escriba uma tarefa ciclópica: a de criar um alfabeto. Numa época de grandes confrontos religiosos, políticos, económicos e sociais a pressão sobre o Escriba é imensa. O Rei tem pressa porque uma tal descoberta poderá consolidar o seu poder. O Escriba, sábio e experiente, já entrado nos anos, compreende a imensidão da sua empreitada. É um livro denso e complexo com uma linguagem poética e encantatória que remete o leitor para uma época longínqua e palpitante. Foyos, como bom jornalista que é, consegue transmitir na perfeição o ambiente e os acontecimentos, dando a "ver" ao leitor o quotidiano de um universo em plena revolução.
(Sim, porque a invenção da escrita fonética poderá ser considerada como a maior de todas as revoluções. )
Para além destas indicações, percebe-se que o autor levou a cabo uma pesquisa intensiva, pelo o que as informações sobre o sagrado e o profano são aqui copiosas e cheias de mistérios por desvendar.
Neste nosso espaço - de leitores e leitoras - nada melhor do que um livro sobre o poder e o encanto da escrita.
"O Criador de Letras", Pedro Foyos, Ed. Hespéria, Lisboa, Fevereiro, 2009

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Aldina Duarte

Aldina Duarte - Foto de Isabel Pinto

Fui ao concerto da Aldina Duarte, "Mulheres ao Espelho" , há dois dias, na Culturgest, em Lisboa.
E foi maravilhoso. Sou uma leiga em relação a Fado, tenho sérias dúvidas quanto à cultura do Fado - as mulheres sofrem, esperam e desesperam, são abandonadas, violentadas, escorraçadas e os homens são marialvas, malandros e muito pouco amigos e/ou companheiros - mas a Aldina é esplendorosa com uma voz poderosa, uma simplicidade desarmante, um pathos devastador. E uma grande coragem. Esteve sempre em palco - despojado, limpo - com os seus músicos, os seus gestos comedidos e elegantes. E um sorriso deslumbrante, uma presença física que enchia a sala. (Sala apinhada e em silêncio, no final explodindo em aplausos calorosos ).
Conheço a Aldina e ela tem lugar de destaque aqui, neste espaço, uma vez que é nossa companheira de leituras, na Comunidade. (E quanta gente lá estava, dos leitores da Culturgest, a apoiarem e a vibrarem com a Aldina!). Aí, é possível apercebermo-nos de quão inteligente é esta mulher com uma personalidade forte, uma grande cultura, enorme sensibilidade e sem quaisquer tiques de vedeta. Outra característica a favor dela: é genuína, um pouco selvagem, diz o que tem a dizer sem "cartas na manga". Algo que transparece na sua grande Arte.
Por isso, VIVA a ALDINA

E tomem nota:

No próximo Domingo é a antestreia do filme ALDINA DUARTE – PRINCESA PROMETIDA
NO INDIELISBOA’09 com realização de Manuel Mozos, uma produção da Midas Filmes. Na secção IndieMusic, no domingo, dia 26 de Abril, às 21h45, no Cinema São Jorge, na sala 1.

De acordo com o press-release :
É um retrato da figura única que é Aldina Duarte, senhora-menina, fadista por convicção e amor. Traçando o seu perfil, desvendando a sua personalidade, viajando com ela através da sua cidade, Lisboa, pelos locais que lhe são mais queridos e que ela tão bem conhece, expondo-se livre e aberta, generosa e viva, inocente mas sábia, com a frontalidade e certa malícia cheia de pudor e respeito que tão bem a caracterizam.
Para o filme foi gravado um concerto de Aldina Duarte na Sala das Batalhas do Palácio Fronteira, em que Aldina foi acompanhada por José Manuel Neto na guitarra portuguesa e Nuno Miguel Ramos na viola.
Uma produção Midas Filmes com o patrocínio Câmara Municipal de Lisboa, FNAC e Roda-lá Musiceste e teve o investimento do FICA - FUNDO DE INVESTIMENTO PARA O CINEMA E AUDIOVISUAL.

Para mais informações contacte
Marta Fernandes
MIDAS FILMES www.midas-filmes.pt
Tel/Fax + 351 213479088 Mob + 351 919466309
Praça de S. Paulo, 19, 2ºE 1200-425 Lisboa PORTUGAL

domingo, 19 de abril de 2009

Samuel Beckett


Quase um mês sem escrever, aqui!
E não é hoje que recomeço...
Mas quero deixar uma chamada de atenção para a leitura de um texto que vem no último número do The New York Review of Books sobre a publicação da correspondência de Samuel Beckett. Deixo o link http://www.nybooks.com/articles/22612 para consulta. Aproveitem porque dentro em pouco sairá da net.
É uma boa leitura de Domingo.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Ainda Jane Austen

- Será que concordam comigo que "O Parque de Mansfield" poderia intitular-se "A Lenta e Segura Ascensão até ao Topo de Fanny Price"?
- Fanny Price foi a heroína favorita de Jane Austen - será que ela dizia, "Fanny c'est moi!"?
- Fanny revela-se como o "preço" a pagar por todos para atingirem a felicidade? Será ela o prémio, o troféu dos bons ou dos que melhoram ao longo do livro? ( De notar que, no final é a família Price - William e Susan - que melhor servem a comunidade e os Beltram. )
- Repare-se que Fanny Price é a única que mostra carácter, ao longo do livro. É a única que é contra a corrente, que não é consumista nem vaidosa, nem inconstante ou caprichosa.Na verdade ela tem uma forte personalidade, sem nunca fazer alarde disso.
O que acham?

segunda-feira, 23 de março de 2009

O que fazer com Jane Austen?



É já na próxima quarta-feira, dia 25 de Março, a última sessão desta série, da Comunidade de Leitores na Culturgest. O livro que vamos discutir é " O Parque de Mansfield" de Jane Austen.
Não existe nenhum escritor que se tenha preocupado tanto com o dinheiro e com a felicidade como Jane Austen. Com ela estão mesmo intimamente ligados. Tão intimamente que há muita gente que a apelida de cínica. Aliás, Austen, uma das poucas autoras que se aproxima de Shakespeare naquilo a que Harold Blomm chamou a "invenção do humano" é muitas vezes mal compreendida.
Para começar, os seus romance são cómicos e as figuras que ele recria nunca deixam de passar pelo escrutínio do seu olhar atentíssimo e irónico. (Mesmo quando a ironia é simpática e terna). Depois, ela é a construtora de um universo cheio de vida, de pessoas, animais, coisas, casas e paisagens que são examinados à lupa e descritos com uma minúcia invejável. E, embora ainda não existisse Freud nem a psicanálise, ninguém como Jane para desvendar os segredos e mistérios da alma humana com todos os seus pecadilhos e (alguns) belos sentimentos.
Vejamos "O Parque de Mansfield": como interessar os leitores por este romance, o primeiro da idade "madura" da escritora, em que não existe nenhuma personagem totalmente aceitável e em que o "par romântico" que ocupa o cerne da narrativa é composto pelas duas pessoas mais aborrecidas e sem graça da história da literatura? Fanny é uma autêntica "lula" e Edmund não lhe fica atrás. Nem um nem outro são interessantes ou particularmente inteligentes, espirituosos ou belos. São ambos muito bonzinhos e, se acabam por ficar juntos, não é porque tenham feito qualquer esforço para isso. São as próprias circunstâncias - e os erros dos outros - que finalmente os empurram para os braços um do outro. (É um pouco como no futebol quando uma equipa ganha graças às asneiras e aos autogolos da equipa contrária!)
Assim, deixo aqui, as duas primeiras perguntas: o que é mais interessante em "O Parque de Mansfield"? Qual a personagem determinante, em toda a acção?

Como sabem, Jane Austen tem provocado, nos últimos anos, uma autêntica mania. Não têm conta os filmes, as séries de televisão, os artigos, os livros. Há tratados inteiros sobre a moda, a jardinagem, a arquitectura, a culinária, a música, os transportes, as jóias e acessórios, nos romances de Jane Austen.
Podem ter uma ideia se consultarem este blog http://janeaustensworld.wordpress.com/

domingo, 22 de março de 2009

"A Tempestade" de Shakespeare



Fui ontem ver "A Tempestade" no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, pela Cornucópia. Estava uma noite magnífica - nada tempestuosa - mas dentro do Teatro o arrebatamento foi total.
Como sabem "A Tempestade" é suposta ser a última peça de Shakespeare, partilhando com "Sonho de Uma Noite de Verão" a "categoria" de "comédias visionárias", como lhes chamou Harold Bloom.
Não sou crítica de Teatro mas aconselho vivamente esta encenação. Nunca tinha visto (ouvido) esta peça em Português e fiquei muito surpreendida porque a cadência, o embalo, o fulgor e a ironia shakespereanas foram preservadas. E o mesmo acontece em relação à encenação, sem concessões, rigorosa, forte. Para mim, "A Tempestade" é uma peça sobre a velhice, não a velhice caduca mas sim a velhice sábia, poderosa, experiente, encarnada em Próspero, o grande mago que domina os elementos, que manipula a Natureza e os seres humanos e perdoa, no final, aos seus inimigos. No entanto, esta figura é tão complexa e contraditória que o que aqui fica escrito é apenas um ténue apontamento. Luis Miguel Sintra é um Próspero pungente e poderoso, inquietante e, por vezes, melancólico. A sua ternura por Miranda e a alegria por a ver feliz são próprios de um pai atento e a sua relação com Caliban, esse ser não totalmente humano - ou antes, a de Caliban com ele - é, apropriadamente, desprovida de sentimentalismo. Dr Johnson, em relação à tão polémica figura de Caliban falou da "gloominess of his temper and the malignity of his purposes" e Auden, colou-lhe a célebre frase , "the love nothing, the fear all". Claro que Caliban é um bruto e Ariel um espírito requintado mas ambos foram escravizados por Próspero, cada qual à sua maneira. É ainda Bloom quem faz notar que Próspero, ao contrário de Hamlet ( na peça infinita, do mesmo nome) que morre, dizendo que ainda teria muito mais para nos contar, diz "let it be" no final. As casas familiares estão finalmente arrumadas, ele regressa a Milão e retoma as rédeas do poder usurpado, casa a filha, perdoa aos inimigos e liberta os espíritos. Miranda não é a minha figura favorita em Shakespeare - parece tão etérea como os espíritos da ilha - mas cumpre o seu destino. Ariel, no seu amável e familiar pacto com Próspero, fornece a este último o apoio que é o oposto ao que Mefistófeles prodigaliza a Fausto e funciona como a chave para a compreensão da complexa personalidade de Próspero ( ajuda-o na sua "prosperidade")
Fontes: "Naufragius" de Erasmo, "Os Canibais" de Montaigne, "Metamorfoses de Ovídio, a commedia dell'arte italiana, entre outras.
Muito mais haveria para dizer. Mas o que interessa é ver a peça e ler os valiosos textos do Programa, como sempre muito informativo, com os ensinamentos de Luís Miguel Sintra e uma explicação excelente do porquê das suas opções, como encenador e actor. Uma palavra especial para a cenografia de Cristina Reis (deslumbrante), maravilhosamente acompanhada pelo desenho de luzes de Daniel Worm D’Assumpção. Gostei de ver actores muito jovens a contracenarem com o Mestre, com força e maturidade, gostei da música, do encantamento.
E não esqueçamos que os truques e a magia de Próspero são puro teatro dentro da peça, num palco - a ilha - que dá azo a todas as possibilidades.
De 12 de Março a 26 de Abril de 2009
Teatro do Bairro Alto, Lisboa
Terça a Sábado às 21:00h. Domingo às 16:00h
Duração do espectáculo 3:15h com intervalo de 15 min.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Questões sobre Duras e "Barragem contra o Pacífico"

Em "Barragem contra o Pacífico" :

1 - Como classificar a figura da Mãe?
- Uma déspota, uma "mãe-coragem"? Uma figura admirável ou sinistra? Uma pessoa que impõe um regime totalitário - os filhos só crescem quando ela morre - e que exerce uma força centrípeta, de forma a que tudo se concentre nela? Palavras chave : retenção, resistência, luta, manipulação, coacção violenta - física e psicológica
2 - Será este romance uma narrativa iniciática? De Joseph, de Suzanne?
3 - O que diz Duras sobre o sistema colonial em decadência? Como explicar a imagem dos vermes a corroerem o texto da casa?
4 - Como ilustrar, neste romance, os seguintes temas: o racismo, as diferenças sociais, o sadismo familiar, a solidão, a ganância, a extrema pobreza
5 - O que representa o diamante? Como explicar as oscilações de valor que lhe são atribuídas?
6 - Como classificar Joseph? Como é que ele se liberta do jugo maternal? Será que se liberta, verdadeiramente?
7 - Porque sofrem tanto os filhos, no final, quando a mãe morre?