quarta-feira, 18 de março de 2009

Questões sobre Duras e "Barragem contra o Pacífico"

Em "Barragem contra o Pacífico" :

1 - Como classificar a figura da Mãe?
- Uma déspota, uma "mãe-coragem"? Uma figura admirável ou sinistra? Uma pessoa que impõe um regime totalitário - os filhos só crescem quando ela morre - e que exerce uma força centrípeta, de forma a que tudo se concentre nela? Palavras chave : retenção, resistência, luta, manipulação, coacção violenta - física e psicológica
2 - Será este romance uma narrativa iniciática? De Joseph, de Suzanne?
3 - O que diz Duras sobre o sistema colonial em decadência? Como explicar a imagem dos vermes a corroerem o texto da casa?
4 - Como ilustrar, neste romance, os seguintes temas: o racismo, as diferenças sociais, o sadismo familiar, a solidão, a ganância, a extrema pobreza
5 - O que representa o diamante? Como explicar as oscilações de valor que lhe são atribuídas?
6 - Como classificar Joseph? Como é que ele se liberta do jugo maternal? Será que se liberta, verdadeiramente?
7 - Porque sofrem tanto os filhos, no final, quando a mãe morre?

terça-feira, 17 de março de 2009

De novo Duras e "A Barragem Contra o Pacífico"

A Luisa mandou-me a seguinte mensagem cujo conteúdo publico com a sua permissão.
Aqui vai:

Este livro da Marguerite Duras, SIM, com o maior prazer o li e reli, o nosso passado colonial, o igual sofrimento dos pequenos colonos, que a grande maré da descolonização injustamente deixou nestas praias ocidentais. O mal sempre recorrente, a injustiça exercida sobre os inocentes e os miseráveis, a Natureza implacável e selvagem ... e no entanto fonte de riqueza para uns, mortífera para outros, seiva ... e sangue dos oprimidos. A feroz lei da sobrevivência que leva a jovem mãe a entregar a criança e partir, o pé roído símbolo do mal que insidiosamente tudo corrompe, como a melopeia da mulher andrajosa e louca do o “vice-cônsul“...A escrita depurada de ornamentos denuncia essa «coisa» monstruosa que a todos gangrena; ela é a «barragem» contra o «pacifique», ironia da palavra que denota o seu contrário... Frágil barreira erguida e logo destruída, não só pela força da maré viva mas pelo trabalho de sapa dos caranguejos anões - preciosa imagem da nossa cumplicidade cobarde...A grande figura do Feminino arcaico, aquela mãe voluntariosa que só desiste da vida quando o filho parte, ele que afinal é o que guarda a carta (súmula de todas as que foi escrevendo), tremendo libelo acusatório, ela que sabe a força e a fraqueza da escrita, ela que diz que prefere os filhos mortos a que não saibam ESCREVER, o que aqui significa denunciar a falha, o campo do ... afinal inominável.

Hoje, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa


Porque: "Faz hoje 50 anos que morreu António Botto, em consequência do atropelamento de que foi vítima no dia 4 de Março de 1959, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, do Rio de Janeiro" . Não percam... É a Conferência de Eduardo Pitta sobre o poeta genial e (tão) mal conhecido. Às 18:30 na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.

E consultem o blog do Eduardo - tem muito que se lhe diga: vivo, actual, polémico. Indispensável

segunda-feira, 16 de março de 2009

"Uma Barragem Contra o Pacífico" de Marguerite Duras

A Família Donnadieu

Comunidade de Leitores Culturgest - 5º Livro
Para além da "Barragem... " estou a reler, também, a biografia de Duras por Laure Adler. (Ed. Gallimard, 2000). Embora os franceses a produzirem biografias me irritem um bocado - aqui, a autora passa a vida a fazer perguntas aos leitores, do género, "será que a Duras pensou isto, fez aquilo, viu o quê?" , o que é frustrante e pouco rigoroso - à parte estes pormenores, é interessante descobrir como é difícil escrever uma biografia sobre uma escritora que falou incessantemente de si própria e que, evidentemente, se "criou" a si própria, com todos os mitos, fantasias, verdades e mentiras a caberem no vasto campo da liberdade artística. Por essa razão é importante verificar que Adler fez pesquisa em inúmeros documentos, tanto em França como no Vietname (antiga Indochina, onde Duras nasceu) e conheceu bem Duras.
Quanto a "Barragem..." estou a gostar muitíssimo, talvez porque vivi bastantes anos "ofuscada" por "L'Amant" (1984) - e, já agora, por "L'Amant de La Chine du Nord" (1991) - livros nos quais ela reescreveu a história da sua infância. Em "Barragem Contra o Pacífico", o relato é mais cru, mais "limpo", mais cruel, também.
Depois de "A Herdeira" de Henry James, continuamos no território das relações familiares que, como toda a gente sabe, é uma reserva inesgotável para o criação do romance, como género. O circuito familiar é a arena onde se travam as batalhas mais ferozes, onde os sentimentos são mais fortes e as paixões mais exacerbadas. Se Catherine Slopper foi sacrificada pelo pai por ter dinheiro a mais, aqui é Suzanne - que poderá ser considerada como oposto de Catherine - quem é empurrada para o gesto sacrificial pela falta absoluta desse mesmo dinheiro.
Será assim?
Como podemos tratar a figura da mãe de Suzanne? E a do irmão? De que forma o ambiente em que vivem tem importância para o romance?
Até quarta-feira. Se me lembrar, colocarei mais perguntas. Alguém quer fazer o mesmo?

quarta-feira, 11 de março de 2009

O meu livro vai ser lançado... espero que para bons lugares, entre as estrelas!




É no dia 24 de Março, às 18:30h, na Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa. Portugal. Vai ser Inês Pedrosa, a escritora, crítica e Directora da Casa Fernando Pessoa, a falar sobre "A Infância É Um Território Desconhecido". Parece excessivo falar, aqui, do meu livro? Talvez.
No entanto, é uma obra que partiu de uma Comunidade de Leitores, leitores esses a quem agradeço veementemente.
Gostava que viessem a este lançamento.
Espero-vos.
E aqui fica o texto da contracapa:

Ler bons livros implica sempre o desvendar de mistérios. Estes textos dão a conhecer o universo de grandes autores que escolheram crianças como heróis e heroínas dos seus romances, revelando, através das suas personagens, as alegrias, traumas e anseios que associam à sua própria experiência e às características do tempo em que estão inseridos. Vitorianos como Charles Dickens, J.M. Barrie, Lewis Carroll, Mark Twain e Louisa May Alcott encaram as crianças, preferencialmente, como “anjos” travessos, no rasto de Rousseau e Wordsworth, enquanto que, no século XX , Thomas Mann, Vladimir Nabokov e William Golding, associam os seus meninos e meninas a um “mal” inato e sempre prestes a ser revelado. Ian McEwan e K. D. Rowling, nossos contemporâneos, exploram um vasto leque de possibilidades através dos múltiplos e complexos seres que povoam as suas obras. Todos perscrutam o território fértil da imaginação, da inocência (perversa e gloriosa), enquanto nos dão conta da ligação estreita entre a fantasia e a realidade, entre o vivido e o imaginado, entre o desejo e a consumação.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

1ª Comunidade de Leitores 2009 Culturgest


Estamos a caminho da próxima etapa, isto é, da discussão em torno de "Washington Square", ou "A Herdeira" (em português da Ed. Estampa ) de Henry James. Espero deixar aqui algumas notas e questões, antes da sessão.


Ainda em relação a "O Último Magnate" de Scott Fitzgerald, no passado dia 25 de Fevereiro, e respondendo ao repto de criar um final para o inacabado romance, recebi uma interessantíssima proposta - várias propostas - de Jorge Almeida. Aqui vai o teor da sua mensagem:


"Caros (as) Participantes da Comunidade de Leitores

Aceitando o desafio de imaginar como poderia acabar a história do magnate, mas sem capacidades para o descrever de forma literária, opto por o fazer na forma de 10 ideias soltas.

Recomeço a história no momento em que Stahr descobre a traição de Brady.

1 - Cecília alerta Stahr para as intenções do seu pai. Stahr resolve enfrentar o adversário mas recusa desde o primeiro momento fazê-lo nos mesmos termos.


2. O seu sustentáculo vão ser os accionistas e os trabalhadores. Para financiar aumentos salariais e conseguir o apoio do sindicato desiste temporariamente do seu filme "artístico" que faria perder dinheiro aos accionistas.

3 - Consegue que o Príncipe da Dinamarca invista na produção de uma nova grande metragem.
Com os aumentos salariais e a intervenção de alguns homens que o seguem incondicionalmente consegue que o Sindicato o apoie.
Reata relação com Kathleen e o marido desta descobre e tenta fazer chantagem com Stahr que o enfrenta. Cecília resigna-se: Stahr não será seu.


4. Stahr parte para Nova Iorque negociar um empréstimo decisivo para o futuro dos Estúdios e que, a ser concedido, convenceria finalmente os accionistas a afastar Brady. No avião conhece um jovem e brilhante cirurgião a quem conta o seu problema de saúde. Ao chegar a Nova Iorque Stahr desmaia. É levado para o hospital. Quando acorda, com Kathleen à cabeceira, o jovem médico comunica-lhe as boas notícias. Foi operado. Está curado. Vai viver.


5. Consegue o empréstimo. Regressa triunfante. É recebido como um herói. É de novo o grande magnate. Brady é afastado mas jura vingança. O assassino que contratou recebe ordem para avançar e matar Stahr no jantar da Assembleia Geral de accionistas.


6 - O marido de Kathleen regressa para tentar fazer chantagem a Stahr. Combinam encontrar-se. Stahr leva uma quantia avultada para lhe dar. No último minuto arrepende-se e recusa pagar-lhe. O marido de Kathleen rouba-lhe o casaco para ficar com a carteira. Ao sair o assassino confunde-o com Stahr e mata-o. A polícia prende o assassino que acaba por confessar. Brady vai preso. Cecília regressa à Universidade. Stahr e Kathleen entram juntos, no Estúdio.

Aproveito este ensejo para a todos convidar a visitar o blogue (
http://livros2009.blogspot.com/) que mantenho sobre as minhas leituras. "

Estas propostas prestam-se a discussões que poderemos manter, aqui, neste espaço. Para já gostaria de saber pelo nosso amigo médico e companheiro da Comunidade se a hipótese 4 seria viável, naquele tempo. Sabemos que Stahr sofre de um problema cardíaco, tão sério que o médico que o acompanha lhe dá pouco tempo de vida. Não seria esta a forma de o autor o condenar, desde o início - nenhuma salvação - uma vez que ele seria o "último" magnate? Ou este "último" terá a ver com o fim de uma era, de uma determinada mentalidade, de uma forma "nobre" de agir em relação aos outros?

Aqui ficam as sugestões. Boas leituras. E não se esqueçam de ir consultando o blog do Jorge. Tem óptimas sugestões.




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Comunidade Leitores Culturgest 1ª 2009


"O Dinheiro e /ou a Felicidade" é o tema que atravessa as nossas leituras nesta Comunidade. Depois de "Status. Ansiedade" de Alain de Botton, discutimos "Money" de Martin Amis, discussão essa que não pude acompanhar, aqui no blog, pelas razões que já conhecem. Tive pena, uma vez que a sessão na Culturgest foi fantástica, acesa, muito útil e entusiasmante.

A próxima obra a ser escrutinada - no dia 25 de Fevereiro - será "O Último Magnate" de Scott Fitzgerald ( 1941). Como sabem, foi o último romance do escritor americano, que o não chegou a acabar. Foi o escritor e crítico Edmund Wilson, amigo de Fitzgerald ( mais amigo para o fim da vida do escritor) quem editou o livro e o fez publicar. "O Último Magnate" é um romance de fim de vida, amargo em relação ao universo muito específico de Hollywood e desencantado no que diz respeito ao "grande sonho americano", em geral. Tal como acontece em "O Grande Gatsby", são os mais idealistas os que sofrem, principalmente de desilusão e vazio, num mundo materialista e fútil.

A história do produtor Monroe Stahr, que possui tudo e nada tem, é paradigmática deste sentimento, desta sensação niilista e "moderna". ( Comparar com "The Waste Land" de T.S. Eliot e ler "A Diamond as Big as the Ritz", um conto do próprio Fitzgerald.)

Para muitos críticos, este romance seria o melhor de Scott Fitzgerald e a personagem de Monroe Stahr é definitivamente considerada como a mais perfeitamente conseguida na sua galeria de figuras.

Algumas pistas para discussão:

- Porquê Hollywood como principal cenário?

- Como definir o judaísmo de Monroe Stahr - atenção ao nome

- Como classificar a forma como Stahr "faz negócios"

- Quais as diferenças - e semelhanças - entre as principais personagens femininas - Cecelia Brady e Kathleen Moore. ( Moore/Monroe) O que é que cada uma representa?

- Porquê as referências enfáticas a aviões?

- O que representa o tremor de terra em Los Angeles? Se é que representa alguma coisa?

- Porque é que Kathleen, a princípio, se sente "ameaçada" por Stahr, pela sua intensidade?

- Stahr tem uma casa por acabar, um amor que não se concretiza, vive para o trabalho, não tem saúde. O que quis o autor dizer ao criar esta personagem?


Bem, com isto, já ficamos com algumas pistas. Não esquecer que o título do livro completo, em inglês, é "The Love of the Last Tycoon: A Western". Revelador, não acham?

Até quarta...