quarta-feira, 8 de maio de 2013

MICHAEL BIBERSTEIN - Corpos de Luz e filme de Fernando Lopes

  1. Corpos de luz  



NOTA: Este texto foi escrito para a revista ELLE, em 2009, quando da exposição individual de Michael Biberstein na Galeria Cristina Guerra, em Lisboa.

Fim de uma tarde do Verão alentejano: enquanto o sol desce relutantemente no horizonte, o pintor Michael Biberstein fala da sua próxima exposição na Galeria Cristina Guerra, em Lisboa . Com gestos pausados abre o computador e mostra a maqueta do espaço e fotografias de duas pinturas que irão fazer parte da mostra. Ainda não está tudo pronto e o próprio artista gosta de manter um certo suspense. Mas é possível compreender que nada é deixado ao acaso e cada pormenor - o volume das salas, a exposição à luz , o recuo necessário ao espectador - é estudado, ajustado e aplicado. Discute-se a alteração subtil no tratamento da cor, a luz doirada que parece emanar das várias camadas translúcidas de tinta, rasgadas por uma ocasional aparição de azul, a sugestão de algo etéreo e simultaneamente solar, mais apropriado à atmosfera deste lugar, um “Monte“, confortável e acolhedor, implantado num vasto terreno, onde Biberstein vive, quase em permanência, com a mulher, a escritora Ana Nobre de Gusmão. O artista, que está prestes a completar 60 anos, mostra a sua faceta bem disposta e tranquila e hoje, como aliás é costume, o jantar está a ser preparado para uma dezena ou mais de convivas e há gente à nossa volta que se afadiga, ajudando aqui e ali. Biberstein, o criador filósofo, o homem que aprecia a calma e o sossego, o seu trabalho e a família, o viciado em música e em cinema de autor, é o mesmo que se irá sentar à cabeceira da mesa, qual patriarca benévolo, presidindo ao animado repasto que reúne pessoas vindas dos mais variados lugares, de todas as idades e profissões. A conversa não pára, cruzam-se copos, pratos e travessas, a luz desvanece-se por detrás da colina. É a hora mágica alentejana quando o silêncio se instala por momentos e as vozes se calam, para melhor apreciar o momento. Retoma-se a fala, come-se e bebe-se, acendem-se lanternas e velas - que atraem milhares de insectos - mas nada afecta o bom andamento da refeição nem a excelente disposição. Afinal, estamos na Fonte Santa, lugar de importantes peregrinações desde tempos imemoriais, o espaço onde se encontram vestígios arqueológicos que atestam o facto de que aqui se instalaram populações, ao longo de milénios. A proximidade de um rio pode explicar a predilecção por este local e nós todos, em pleno século XXI, talvez sejamos atraídos pelo mesmo desejo atávico de ter água por perto. É possível que seja essa uma das razões - a outra é, evidentemente, a afabilidade e disponibilidade dos anfitriões - que faz com que este sítio seja ponto de encontro, de discussão e criatividade, para o qual convergem todos aqueles que desejam partilhar o convívio com o casal Biberstein. Na casa, quase permanentemente ocupada, há sempre lugar para mais um.

Mas como foi que um pintor suíço, amante das montanhas geladas e austeras do seu país, adepto ferrenho do esqui que praticou com entusiasmo até ao acidente que o fez abrandar o ímpeto, trocou a bruma e a neve pela ondulação suave das terras alentejanas, com a sua atmosfera agreste e selvagem? 
Michael Biberstein nasceu em 1948 na cidade de Solothurn, entre Berna e Basileia, com dupla nacionalidade, de pai suíço e mãe americana. Quando os pais se divorciaram, optou por seguir a mãe quando esta regressou aos Estados Unidos e aí estudou e aprendeu muita coisa, nesses turbulentos anos 60. O professor que mais o marcou foi David Sylvester, o grande mestre e crítico inglês de História de Arte, e foi sob a sua influência que começou a delinear um caminho artístico, enquanto se deixava cativar pela filosofia hippy e se envolvia a fundo nos movimentos cívicos e pró Direitos Humanos, numa América em efervescente mudança. Frequentou Swarthmore, uma Universidade quaker , o que o poderá explicar o seu desejo de viver com simplicidade, o seu pacifismo drástico e até uma certa austeridade puritana. Ao longo desses anos 60 e princípios de 70 levou uma existência nómada - atravessar o Atlântico era uma rotina que o levava regularmente à Europa - e acabou por se instalar na Grécia, com a primeira mulher, de quem teve duas filhas. A sua carreira como artista começou nos Estados Unidos mas foi na Suiça que expôs pela primeira vez. Um convite para vir a Portugal e a amizade que estabeleceu com o artista Julião Sarmento transformaram a sua vida. Aqui conheceu a sua segunda mulher e por cá ficou, com muitas viagens pelo meio e escapadelas regulares para, entre outras actividades - visitar Museus e Galerias, ver muita pintura de todos os tempos, encontrar-se com amigos artistas e críticos de Arte -  ir à Suiça, contemplar “as suas montanhas”.

Mas a verdade é que Michael Biberstein se sente em casa no Alentejo, e é difícil fazer sair o artista deste lugar encantado, tanto mais que, para trabalhar, ele necessita apenas de percorrer meia dúzia de quilómetros até ao espaçoso hangar que lhe serve de atelier, onde enormes telas em vários estados de concretização esperam pelo gesto do artista, enquanto a música - muito Jazz mas também música clássica e experimental - soa bem alto e as tintas, pigmentos e pincéis se perfilam numa desordem que é apenas aparente. Dentro da propriedade tem outro estúdio mais pequeno, onde produz obras de menores dimensões, um lugar privado que lhe serve de retiro para ler, pensar e imaginar.
Biberstein pinta paisagens - um género com uma longa e nobre tradição - mas o resultado nada tem de óbvio ou de imediatamente reconhecível. Numa entrevista a Maria João Seixas explicou que as suas obras “não são paisagens reais ( e ele) nunca tenta representar uma parte da natureza que realmente existe”. [1]O que lhe interessa é criar atmosferas que funcionam como o reflexo do olhar do espectador, preso num determinado momento por uma visão intemporal e uma sensação específica, num espaço infinito. São muitas as pessoas que confessam passar por experiências muito particulares quando olham as suas telas e se deixam arrebatar pelas visões de lugares fantasmagóricos que parecem emergir da névoa como construções fantásticas da Natureza.
A pintura - e os desenhos - de Michael Biberstein colocam questões muito pertinentes e suscitam controvérsia. Não existem pessoas, animais, objectos, casas ou prédios nos seus quadros, apenas o espaço, esculpido pelas montanhas, pela luz, pelo ar, pelos acidentes do terreno. É um universo primordial, idílico, intocado, imprevisível, por vezes violento, outras, apaziguador. O que muitos dos admiradores do pintor vêm nas suas exposições, é uma espécie de exaltação religiosa, o que contradiz a postura de um homem que diz interessar-se pela Ciência e não pela Religião. A sua paixão pela Filosofia e pela Física bem como o seu interesse pela pintura chinesa e japonesa,  são pistas possíveis para a compreensão do seu trabalho. Muitas das suas telas poderiam ser olhadas como uma celebração metafísica, um hino à comunhão com um qualquer Deus. Mas Biberstein rejeita essa leitura - diz-se “agnóstico militante” -  e revela as suas intenções em pistas fornecidas pelos títulos que atribui aos quadros: é comum encontrarmos  “Compressores”, “ Aceleradores”, “Atractores” e “Planadores” - tudo referências a medidas, massas, velocidades, atracção e repulsão - e os quadros da série “O Sonho de Dirac” de 2004, chamam a atenção para a referência directa a Paul Dirac, o físico britânico que contribuiu para o desenvolvimento da mecânica e da electrodinâmica quânticas, uma matéria que tem sido atentamente estudada por Biberstein e aplicada numa sua pintura. 
O conjunto da obra que Biberstein tem produzido ao longo de mais de trinta anos - e que inclui , para além de pinturas,  desenhos de uma incalculável delicadeza e esculturas que funcionam como um (contra)peso ao intrínseco carácter etéreo das imagens - é devidamente apreciada nos circuitos internacionais, tendo os críticos sempre valorizado o carácter misterioso da sua arte, o seu questionamento sobre a essência da pintura e o desenvolvimento das noções do belo e do sublime.
Na Galeria Cristina Guerra vai ser possível ver pinturas muito especiais. O artista dividiu o espaço e três grandes telas ficarão na sala principal. Outras ( ou outra) serão colocadas no “corredor” que leva até à escada e ao espaço inferior, mais escuro e intimista, onde ficará a obra que produziu enquanto Fernando Lopes e a sua equipa o filmavam. O documentário do cineasta será projectado ao lado da pintura.  Esperamos com ansiedade esta grande e importante exposição.

Galeria Cristina Guerra, Contemporary Art
Rua de Santo António à Estrela, nº 33
Tel. 213 959 559
 
 

2 - O FILME

Fernando Lopes diz que este projecto com Michael Biberstein foi como um “sorriso do destino”, parafraseando Joseph Conrad.  Os dois homens tornaram-se amigos depois de um dos já célebres jantares na Fonte Santa e imediatamente encontraram pontos de contacto, depois de, durante anos, terem acompanhado e apreciado o trabalho um do outro. A Fernando Lopes intrigava-o a aparente discrepância entre a figura de Biberstein e o seu trabalho. “Tinha curiosidade em saber como é que um homem tão grande podia pintar telas tão delicadas” disse Fernando Lopes com um certo humor. Quanto ao pintor, conhecia bem a obra do realizador, com especial predilecção por “Belarmino”, “Uma Abelha na Chuva” e o recente “98 Octanas”. Foi em amena conversa que ficou resolvido que o cineasta iria acompanhar a execução de um quadro desde a sua gestação até ao momento final. Fernando Lopes partiu da referência fundamental que é o documentário de Henri-Georges Clouzot sobre Picasso, no qual o artista desenha num vidro e as formas vão surgindo como que por magia ,mas cedo se apercebeu que desejava resolver o problema de outra maneira, sem truques nem efeitos especiais, tendo optado por colocar uma câmara fixa, direccionada para o quadro que Biberstein começou a pintar e que era ligada sempre que o artista entrava no estúdio. Este jogo entre os dois criadores - um olhar permanente do realizador sobre o artista que, por sua vez, estava consciente desse olhar - só foi possível graças à confiança e cumplicidade que se estabeleceram entre ambos. Na verdade, o feito de pintar é tão privado que esta intromissão poderia ser considerada como um acto de “voyeurismo”.  Mas o realizador filmou com uma equipa pequena, constituída por pessoas muito chegadas e habituadas a trabalhar com o “mestre” que, imediatamente, criaram laços estreitos com o pintor e o seu ambiente. Durante cerca de duas semanas de filmagem, de manhã à noite - quando todos se juntavam para jantar e discutir o trabalho do dia - a câmara registou cada gesto e cada etapa da construção do quadro: o cortar, lavar e secar da tela, a sua colocação na parede, a longa e metódica aplicação das várias camadas de tinta, o tempo de observação e contemplação. Todo este ritual contribuiu, também, para a escolha da trilha sonora que acompanha o filme. O silêncio e os pássaros evocaram  “Le Réveil des Oiseaux” do compositor e ornitologista francês Olivier Messiaen, um mestre do mistério e das variações simbólicas que contribuiu para acentuar a atmosfera intimista deste “bailado a dois”. E não se fala aqui de dança por acaso. Fernando Lopes é  um grande documentarista e, entre outros, dirigiu um filme dedicado à coreógrafa e dançarina Pina Bausch. Esta peça que, no seu todo, tem mais de 30 horas de filmagens, foi uma experiência diferente em torno de um produto artístico muito distinto. No entanto, e de acordo com o realizador, o trabalho sobre Biberstein é “ melhor do que o (que fiz sobre) Pina Bausch”. E acrescenta: “as imagens vão surgindo como num processo mágico, alquímico”, o que produz um efeito “muito fora do comum.” E conclui:  “Percebi que o olhar do pintor não é muito diferente do de um cineasta. Até propus ao Mike trocarmos de lugar!”.  

“Mike ao Trabalho” é o título do documentário de Fernando Lopes sobre Michael Biberstein



 

[1] “Entre/Vistas “, Maria João Seixas, Ed Ambar, 2007

segunda-feira, 25 de março de 2013

Comunicação Correntes de Escritas

Comunicação Correntes de Escritas, dia 22 de Fevereiro, 2013, 10:30 h

Helena Vasconcelos

De que armas disporemos, se não destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia da polis, resgatada
Hélia Correia, “A Terceira Miséria"


Falemos de POESIA e deste livro de combate que é "A Terceira Miséria"  de Hélia Correia – de onde foi extraído o verso desta Mesa

Foi há mais de 300 anos antes da nossa era, que Aristóteles compôs aquele que é considerado como o primeiro tratado de teoria literária – a Poética – onde nos dá uma visão do que ele chama Poesia, um termo que, como todos sabem, quer dizer em grego “fazer”. É claro que Aristóteles remetia para o Drama – que incluía a comédia, a tragédia, a sátira, o poema lírico, o épico e o ditirâmbico – e foi nos seguintes termos que avançou com a sua teoria: 
“Proponho-me tratar a poesia em si mesma e nos seus vários géneros; não apenas as qualidades de cada um deles, mas também a questão da estrutura da trama – para que se alcance um bom poema – e, mais ainda, tudo o que seja abrangido por estas mesmas questões. Desta feita, pela ordem ditada pela Natureza, comecemos por aquilo que vem primeiro.”

Esta mesma obra tem sido objecto de inúmeras, diria mesmo infindáveis, discussões, até porque foi composta em resposta à ideia de Poesia do seu mestre Platão que, em “A República” argumentou que a Poesia é mera representação de aparências e, por essa mesma razão, perigosamente enganadora e moralmente suspeita. Creio que Platão era um fantástico agente provocador, senhor de uma ironia notável e que o sentencioso Aristóteles, com toda a sua carga intelectual, é mais enfadonho. A sua aproximação ao texto serve para descrever as suas funções sociais – a utilidade ética da Arte – enquanto que Platão, sem grandes contemplações, consciente da força insuperável da Poesia – das palavras usadas pelos Poetas e poetisas, desse “fazer” – veicula a ideia de que estes, os poetas e poetisas deveriam ser banidos de uma sociedade perfeita.

Mas, também, quem é que quer viver numa sociedade perfeita que nos possa custar o desaparecimento da Poesia?
Suponho que queremos uma sociedade com Poesia, com essa dinâmica do “fazer”.

(Um parêntesis para lembrar que, com Hélia Correia conhecedora da Cultura Clássica, quedamo-nos no centro da questão: Recordo, para já, o grande historiador alemão do Renascimento Abraham (Abby) Warburg que utilizou o termo “onda mnémica” para definir esse refluxo e expansão que sofremos em relação à nossa matriz cultural, ao nosso passado “habitado pelos pensadores e deuses da Grécia” que nos deixaram uma vasta matéria de reflexão e estudo.)
.

É claro que a perfeição não existe – os gregos sabiam-no e, por isso, criaram as suas estátuas que obedeciam a complicadas e rigorosas regras criadas no sentido de tentarem alcançar essa quimera suprema.
Hölderlin, o grande poeta idealista que sonhava com a Grécia e procurava insistentemente expressar uma visão mística na qual o ser humano se reconciliaria com a Natureza e com todas as formas do universo, acabou pobre, abandonado pelos familiares, a escrever versos, fechado numa torre
Nietzsche, na sua loucura, vampirizado pela irmã e pelo cunhado fascista que lhes distorceram as palavras e o pensamento, aproximou a Poesia da Música e referiu, em "A Origem da Tragédia, esses deuses, Apolo e Dionísio que para ele representavam um contraste flagrante, tanto nas origens como nos propósitos, entre as artes visuais (plásticas), apolíneas, e as artes não visuais, a música e a poesia (dionisíacas).”   

Assim, faço questão de perguntar de novo em relação à Poesia: o que representa? Qual a sua força? Ah, e já agora, uma vez que vivemos numa sociedade utilitária,” para que serve”? Como aliás, Hélia Correia começa por dizer em “A Terceira Miséria”, questionando, na sua infinita sabedoria, algo muito pertinente: “ para que servem os poetas em tempos de indigência?”

De onde vem a Poesia? Do cérebro como afirma Freud? Do corpo, desse corpo que segundo Hélia Correia “contém as armas” do pensamento que nos leva a resgatar a ideia da polis? Do coração, desse órgão vital e palpitante que representa a vida esfusiante, como clamavam os românticos? Dos dedos ágeis da poetisa ou do poeta que pega na pena ou na caneta – ou martela o teclado do computador? Dos seus músculos – porque há poesia bem musculada? Da sua língua que murmura palavras? Da sua “alma” esse lugar misterioso, recôndito e abstracto?
Sigmund Freud afirmou que o cérebro é exactamente um órgão fazedor de poesia. Para ele, a Poesia seria uma espécie de emanação proveniente do inconsciente – mais tarde alterou um pouco esta ideia – mas, o importante é que Freud transformou por completo a ideia da poesia. De um sopro dos deuses, da inspiração divina como proclamavam os Antigos, passou para um funcionamento orgânico o que, diga-se de passagem foi bastante subversivo mas absolutamente consistente com a sua época. Para Freud o cérebro funciona sob o garrote da lógica mas a poesia, como outras manifestações (os sonhos, por exemplo) escapam a essa tirania, partem daí e soltam-se. E embora façam parte integrante do poeta, habitando o seu eu corpóreo, a sua mente, onde se encontram enrolados como gatos, mais ou menos adormecidos, estão prontos a saltar e a escaparem-se no dorso das palavras. Um acto de libertação, em suma.

Agrada-me a ideia da Poesia ligada à liberdade.
Agrada-me a ideia de Shelley na sua  Defesa da Poesia  quando afirma orgulhosamente que  “Um poema é a própria imagem da vida, expressa na sua verdade eterna”
O grande romântico era romântico e impetuoso mas não era nada tolo.

Se pensarmos ainda em Aristóteles, recordemos que a Poesia deve provocar a “catarse” – um processo de que fala o filósofo grego (ainda não se sabe bem de que se trata verdadeiramente) – catarse essa que se supõe ser aquilo a que se chama “purga”.

E que felizes seríamos se os políticos contemporâneos, que se impõem a nós com violência cega e sem freio, lessem Shelley, Holderlin, Nietzsche, Maria Teresa Horta, Hélia Correia, tantos, tantos poetas e poetisas que pronunciam as palavras justas e certeiras, que constroem o discurso da justiça e da liberdade? Que bom seria se os fracos legisladores de agora trocassem a malfadada austeridade, a carga feroz sobre as nossas costas – que provoca o desequilíbrio, a queda e o desmembrar do tecido da “polis” – por doses maciças de Poesia para nos “purgar” definitivamente!!!
Vivemos um tempo de hecatombe, de holocausto cultural. Dos grandes pensadores restam poucos, George Steiner, Claudio Magris, Eduardo Lourenço – da autoridade do pensamento, da filosofia e da poesia passámos a estar sujeitos ao despotismo financeiro. Estamos à mercê de banqueiros e economistas. É preciso pegar em armas, essas armas de que fala Hélia Correia, as de que dispomos, o nosso corpo, a nossa voz.
Regresso a Percy Shelley – Ele que gritou bem alto “somos todos gregos!” – que escreveu quase no fim da sua  “A Defesa da Poesia”:
“O mais fiel arauto, o companheiro do despertar de um grande povo para operar uma mudança benéfica nas opiniões e nas instituições, é a POESIA… e acrescenta: Os poetas são os hierofantes de uma inspiração inapreendida; os espelhos das gigantescas sombras que o futuro lança sobre o presente; as palavras que exprimem o que não compreendemos; as trombetas que conduzem à batalha e não sentem o que inspiram; a influência que não é movida, mas move.”

E termina desafiadora e orgulhosamente:

“Os poetas são os legisladores não reconhecidos do mundo.”

Pois eu digo que devem, agora, ser reconhecidos e seguidos. Para um bem maior, o de todos nós.

Helena Vasconcelos
Fevereiro, 2013-03-25 Correntes de Escritas, Póvoa do Varzim

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

LER os CLÁSSICOS - Museu Nacional de Arqueologia


2013

Ler os Clássicos no Sítio Certo

Das18:15 às 20:00H 

Informações/Inscrições: Museu Nacional de Arqueologia, a/c Adília Antunes. Telefone: 213620000 - E-mail: mnarq.gamna@imc-ip.pt 
14 Março, 2013 – Como reaprender a amar. Com OVÍDIO – "A Arte de Amar" – Ed. Cotovia - e com PLATÃO – "O Banquete", Edições 70

4 Abril, 2013 – Como dar valor ao pensamento filosófico no sentido de melhorar a vida, com EPICURO – "Cartas, Máximas e Sentenças", Ed. Sílabo.

2 Maio, 2013 – Como perder a paciência quando está em causa a res publica. Com CÍCERO – "As Catilinárias", Edições 70

6 Junho, 2013 _ Como celebrar as vitórias com PÍNDARO – "Odes", Ed. Quetzal, 2010

3 Outubro, 2013 – Como rir – o “melhor remédio” em tempos de crise – com ARISTÓFANES –  “As Aves” – Edições 70.

7 Novembro, 2013 – Como honrar os mortos e cumprir os rituais sagrados com SÓFOCLES – "Antígona", Ed. Húmus

5 Dezembro, 2013 – Como revelar toda a sabedoria acumulada em relação à condição humana. Com SÉNECA – "Cartas a Lucílio” – Ed. Calouste Gulbenkian.

Em data a anunciar oportunamente: “Como Situar a Cultura Clássica na nossa Era” -  com MARGUERITE YOURCENAR e “Memórias de Adriano”.



Há quem defenda que não existe melhor remédio para o cérebro do que a leitura dos Clássicos. Mas quantas pessoas estarão dispostas, nos dias de hoje, a empreender uma viagem – perigosa, aventurosa e exaltante – ao passado mais recôndito, às raízes da nossa Cultura e da nossa Civilização? Ao revisitar esta epopeia milenar, será possível penetrar nas ideias, acompanhar a vivência e extrair ensinamentos dos nossos remotos antepassados, desses que estabeleceram as bases de toda uma forma de imaginar, de amar, de venerar, de sentir e de agir?

Haverá melhor lugar do que o Museu de Arqueologia de Lisboa para servir de cenário para esta nobre demanda? Ao apreciar devidamente os vestígios deixados por homens e mulheres que nos precederam é possível supor que existe uma forte possibilidade de transpor o fosso que nos separa dos Antigos. Constatamos sem dificuldade que, tal como nós e como outros seres humanos de todos os tempos, eles celebraram a vida, exaltaram os seus heróis e heroínas, veneraram os seus deuses, choraram e honraram os seus mortos e expressaram todas as emoções que nos são familiares, como o amor, a saudade, a amizade, a compaixão, a compreensão, a sabedoria, a raiva, a inimizade, a vingança, a dor, a descrença e a fúria. Não será difícil constatar que (quase) tudo é fruto da herança greco-romana: tragédia, comédia, lirismo, invocações, admoestações, imprecações, indicações, conselhos, preceitos, regras e maldições. (E note-se que apenas cerca de 10% do total de obras desse período chegou até nós.)
Ao longo destes meses, através de leituras e troca de ideias, tentaremos entrever e apreciar uma ínfima parte dessa sabedoria, à medida que levamos a cabo este périplo pelo universo da cultura mediterrânica, essa mesma que começou com Homero e emergiu pontualmente em génios como Shakespeare, Camões e Cervantes, para mencionar apenas três dos seus mais distintos discípulos.

Não se trata aqui de um “curso”, de um estudo aturado e académico da Antiguidade Clássica, dos seus autores, artistas, poetas, filósofos, generais, políticos. Trata-se, isso sim, de um convite à discussão para uma hipotética (e não definitiva) resposta à questão: estaremos, ainda, ligados às ideias e ao imaginário greco-latino? Sentiremos a sua influência directa, no nosso quotidiano? As nossas leis, os nossos deveres cívicos, os nossos hábitos, o nosso gosto pela vida – contrariado permanentemente pela “culpa “ cristã – estarão ligados a essa herança? Ou, pelo contrário, já pouco resta do esplendor solar dos Antigos gregos e romanos, revelado apenas e tão só em esparsas notas de rodapé e reduzido a umas tantas citações pomposas e fora de contexto?
Com o progressivo afastamento do estudo das chamadas Humanidades dos curricula das escolas, talvez seja a altura de o revivificarmos, revisitando e honrando este precioso legado.
  

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

SYLVIA PLATH: na Caverna do Barba-Azul

SYLVIA PLATH – NA CAVERNA DO BARBA AZUL


Uma mulher de trinta anos, muito inteligente e muito bela, capaz de escrever com fulgor inigualável, suicida-se num certo Inverno londrino, num apartamento gélido. Brutal e eficazmente. Sem ruído. Deixa dois filhos muito pequenos. Desaparece uma vida que poderia ter sido brilhante, em todos os sentidos. Porquê? Esta é a questão colocada por todos aqueles que, muito depois da sua morte, continuam obcecados pela poetisa americana Sylvia Plath. A publicação da versão (quase) integral dos seus Diários, em 2000, forneceu algumas pistas aos leitores e estudiosos, sedentos de encontrarem detalhes reveladores da sua personalidade e dos acontecimentos que foram transpostos para a sua obra. Santa ou frívola, vítima ou carrasco, amante da vida ou fascinada com a morte, é principalmente nos seus poemas que devemos procurar as respostas. No entanto, a agitação que acompanhou esta edição, tornada possível depois da morte do Poeta Laureado Ted Hughes, que foi seu marido e, para muitos, a razão da sua perda, poderá lançar alguma luz sobre o assunto.

Sylvia começou a escrever os Diários ainda em criança. Chamava-lhes o seu “Mar de Sargaço”. Funcionavam como o repositório das suas experiências e como exercícios de escrita. Eram, também, o lugar privilegiado onde ela registava ideias para poemas. É notória a sua ânsia de perfeição, o seu desejo urgente, intenso, absorvente, em relação à poesia. Esse rigor, essa exigência em relação a si própria, detectável  nos seus esforços quando ainda era aluna do Smith College, levaram Ted Hughes a descrevê-la como sendo “alguém excepcional” que podia ser “intensamente artificial” mas que juntava a tudo o que fazia, uma “excitação única”. No som e textura das suas linhas existia “uma sensação de profunda inevitabilidade matemática”, um fatalismo que contribuiu para a empurrar para o abismo da depressão e da neurose.
As páginas escritas pelo seu punho mostram o carácter obsessivo de Sylvia, a sua sexualidade exacerbada, o seu ciúme, a paixão pela escrita, as dificuldades de relacionamento com a própria mãe por quem sentia uma antipatia profunda (desmentida pelo tom das cartas que lhe escrevia, nas quais se colocava sempre no papel de jovem americana bem comportada, prática e trasbordante de energia), o desgosto pela morte do pai quando ela tinha oito anos, o seu esgotamento, em 1953, que a levou a uma primeira tentativa de suicídio e que ela descreveu em The Bell Jar.
Esta edição também inclui os dois diários que Ted Hughes manteve selados e escondidos de olhares e interpretações até pouco tempo antes da sua morte: o primeiro data de Agosto de 1957, quando Plath se esforçava por se dedicar exclusivamente à sua poesia, e o segundo refere o espaço de tempo entre Setembro de 1959, altura em que ela iniciou sessões privadas de terapia, e Novembro desse mesmo ano, quando o casal decidiu abandonar Boston e voltar para Inglaterra.
Para compreender melhor os factos é importante conhecer a constelação de personagens que participaram, directa ou indirectamente nesta tragédia, em que os principais actores foram Sylvia, a beleza pálida que usava batom demasiado vermelho e Ted Hughes, o gigante sedutor, de voz portentosa que atraía com selvagem magnetismo todos os que dele se aproximavam. Em torno deste casal maldito manteve-se vivo o mito da “bacante” que queria escrever sobre assuntos tabus, como os distúrbios mentais, a maternidade e a morte, e que dizia que devia ter estudado medicina em vez de literatura para ver “crianças a nascer e cadáveres a serem retalhados”.
Sylvia nasceu em 1932 em Boston, Massachusetts, de ascendência austríaca e alemã. Em 1955 terminou os seus estudos no Smith College ( “summa cum laude”) e foi para Inglaterra continuar a sua educação. Foi aí que, a 3 de Março de 1956, a jovem americana que chegara recentemente a Cambridge munida de uma Bolsa Fulbright conheceu, numa festa, um “poeta brilhante”, “o único homem suficientemente forte para poder estar à (sua) altura”. Para ele escreveu o seu melhor poema até então, chamado “Pursuit”, que fala de uma pantera que a persegue até à morte e a quem ela lança o seu próprio coração, numa tentativa para a apaziguar. Esta premonição fatal marcou o início de uma relação trágica e tumultuosa cujas sequelas se têm feito sentir, como um terramoto, muito para além do suicídio de Plath em 1963 e da morte de Ted Hughes, vitimado por um cancro, em 1998.
Este primeiro encontro ficou, como de resto toda a vida do casal, bem “documentado”. No poema “The St. Botolph’s Review”, incluído no já famoso “Birthday Letters” , o volume de poemas que Hughes publicou antes de morrer e que funciona como o seu testamento literário, ajuste de contas e pacificação com Sylvia, Hughes conta como ela o mordeu na face até fazer sangue e como ele lhe roubou um brinco e um lenço azul, ( para Plath o lenço era vermelho), que ele, mais tarde, encontrou num bolso. Casaram em Junho desse mesmo ano. Os primeiros tempos da sua relação foram uma espécie de milagre, o encontro perfeito de duas mentes possuídas de ardor criativo e amoroso. Mudaram-se para Boston, onde passaram um tempo de relativa felicidade, a ensinar e a escrever. Mas Plath tinha já atrás de si, uma longa história de depressão, a que não era estranha a conturbada e muito freudiana relação com o seu poderoso e assustador pai, (o tenebroso professor Otto, criador de abelhas), que morrera quando ela tinha oito anos e cujo fantasma a perseguiu durante toda a vida.
Quanto. a Hughes, ele era um homem que arrastava facilmente as mulheres para a sua zona de influência. Era, também, extremamente promíscuo, sexualmente. A sua infidelidade era notória e fazia parte da sua natureza, tanto quanto a morte fazia parte da de Sylvia. Neste contexto, Ted Hughes é frequentemente apontado como o “ogre” que arrastou Sylvia para a sua destruição. Até à morte e apesar da sua enorme importância como Poeta Laureado, ele foi considerado como uma espécie de “Barba Azul”, uma reputação que o seu gosto pelas ciências ocultas contribuiu para acentuar. A sua irmã Olwyn, executora testamentária e educadora dos seus filhos, queixou-se sempre dos problemas que ele tinha com as mulheres e tudo fez para mitigar as acusações de que ele foi alvo.
A escritora Emma Tennant foi uma das suas amantes. Emma pertencia a uma família antiga, rica e extravagante. A sua tia avó era Margot Asquith, mulher de um primeiro-ministro, Colin, o seu irmão mais velho, namorou a princesa Margaret, chegando a oferecer-lhe uma casa nas Caraíbas, a sua sobrinha é a super modelo Stella Tennant e um tio, Stephen Tennant, foi um esteta famoso. Emma foi quem comparou Hughes a “Barba Azul”, o mágico falhado que aliciava irremediavelmente as mulheres com modos encantadores que escondiam a sua natureza predadora e o seu gosto pelo sangue, e a Mr Rochester, o herói do romance Jane Eyre de Charlote Brontë, outra dessas figuras que as mulheres vêem como a promessa do cumprimento de um rito de iniciação, o desvendar de um conhecimento perigoso mas sedutor.
Lobo, touro, garanhão, leão, são estas as imagens que Tennant associa a Hugues, com quem manteve uma relação intermitente, desde a primavera de 1977 até ao Outono de 1979. Em “Burnt Diaries” publicados em Outubro 1998, no mesmo mês em que o seu antigo amante acabaria por morrer, Tennant conta como se deixou seduzir por Hughes: “ O seu rosto, semelhante a uma dessas estátuas da Ilha de Páscoa, parece dominar a paisagem circundante: irritação, certeza e orgulho conferem uma espécie de impassibilidade aos seus traços mas, como que a contragosto, um sorriso leve e nervoso, brinca-lhe nos lábios. Será que ele está tão devorado pelo medo como eu, na perspectiva do nosso encontro? “ E mais adiante questiona-se se “esta efígie, este deus de beleza masculina, pleno de crueldade” não terá prazer em devorar mulheres (artistas), como ela. Fascinada pela auréola de tragédia e pelo mito que acompanhou sempre a figura de Hughes, Tennant recorda a histeria, o desregramento sexual e emocional que parecia comandar a sua vida e a de quem dele se aproximava. O destino das suas antecessoras não podia ter sido mais cruel: a loira e pálida Sylvia suicidou-se em 1963 e a morena Assia Wevill fez o mesmo, em 1969, levando consigo, para o abismo da morte, a filha de ambos. Segundo certas testemunhas, Hughes teria sido um pai extremoso para Frieda e Nicholas ( os filhos que teve de Sylvia) mas o seu comportamento fora inteiramente diferente em relação a Shura, a filha que teve de Assia. (Uma vez deu vinho a beber à criança para que esta dançasse para os convidados que ele tinha para jantar.)
Depois destas tragédias, Hughes tornou-se um recluso, casou outra vez, em 1970, ( diz-se agora que a mulher, Carol Orchard, também tentou o suicídio) e levantou um muro de silêncio em torno da sua vida privada, só voltando a falar do seu relacionamento com Sylvia na já referida obra, “Birthday Letters” Estes 88 poemas expõem o choque de titãs que foi a sua vida em comum (“O teu fantasma, inseparável da minha sombra…”) e lançam alguma luz sobre a relação neurótica do casal. Mas Hughes nunca se livrou do rasto de escândalo que o perseguiu e que ele usava como um poderoso afrodisíaco, como uma espécie de amuleto encantatório. O facto de se interessar pelo xamanismo e pela magia negra, só contribuiu para acentuar a ideia de que ele era um monstro.
Sylvia sentiu no corpo, “até aos ossos” a dor excruciante provocada pelas suas infidelidades. Em 1958, quando ainda estavam em Boston, discutiram selvaticamente quando ela o encontrou com uma mulher. No ano seguinte voltaram para Inglaterra e instalaram-se em Devon. Em Julho de 1962, Sylvia soube do affair de Hughes com Assia Wevil. Separaram-se e ela foi viver para um apartamento em Londres. Durante os poucos meses que lhe restavam para viver escreveu os seus melhores, mais iluminados e mais pungentes poemas. Numa manhã gelada de Fevereiro de 1963, enquanto os dois filhos pequenos dormiam no quarto ao lado, convenientemente isolados e com leite à cabeceira, ela meteu a cabeça no forno e ligou o gás. Ninguém apareceu em seu socorro. A salvação teria sido difícil. Sylvia estava há muito condenada pela sua depressão crónica e pelo fatalismo trágico que sempre a acompanhou desde criança. Quem a conheceu diz que ela tinha uma tendência marcante para a “teatralidade”, para um exacerbado desnudar de sentimentos que a deixava em carne viva. A sua biógrafa, Anne Stevenson, fala de uma “dualidade libidinosa”, de um “eu” profundo cheio de violência e fúria, que ela reprimia sob a capa de uma aparência cuidada e elegante”. Tudo isso ficou documentado: nos poemas, contos ( “Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos” ed. port. Relógio d’Água), diários, em The Bell Jar, (“ A Campânula de Vidro”, Ed. Portuguesa, Relógio d’Água) o romance autobiográfico publicado, sob pseudónimo, em Janeiro do ano da sua morte. O seu primeiro volume de poemas, The Colossus foi publicado em 1961. A sua principal colecção de poemas, Ariel , uma espécie de “crónica” do seu suplício, foi publicada postumamente em 1965. Quanto aos “Collected Poems” receberam um prémio Pulitzer, também a título póstumo, em 1982. O manuscrito de um romance inacabado, intitulado “Double Exposure ”, desapareceu em 1970.
Mas a beleza e força das suas palavras provocaram tal comoção que ela se tornou uma espécie de santa sacrificada no altar da misoginia masculina, uma mártir abandonada por todos, uma mulher que fora deixada entregue a si mesma, sem que o marido levantasse um dedo para a ajudar. Nos momentos imediatamente a seguir à sua morte, este, como seu executor testamentário, (apesar de separados, eles ainda estavam legalmente casados) destruiu parte dos Diários “para proteger os filhos” e apoderou-se da sua obra.
Será que a grandeza literária é ainda possível? perguntava Susan Sontag num ensaio. Será que, no caso de Sylvia Plath, essa “grandeza” resiste a anos e anos de especulações, análises exaustivas e muitos mexericos que envolveram ( e continuam a envolver) a sua vida e a de todos os que dela se aproximaram ? A sua história, intimamente ligada a uma obra genial, aparece-nos como uma verdadeira tragédia isabelina, cheia de golpes de teatro, de violência, de sangue e de muitas lágrimas. A sua morte continua a ser um mistério e conferiu-lhe a glória que tanto procurou em vida e o seu sofrimento foi o motor que transformou a sua arte em algo sublime. Ela foi capaz de descrever, como ninguém, os meandros da solidão, da angústia, da raiva e da fúria. Ao ritmo encantatório das suas palavras, como por magia, os objectos mais banais ganham estatuto de símbolos de uma vida exaltada e exaltante e os actos mais comuns transformam-se em gestos de eloquente heroísmo.

THE JOURNALS OF SYLVIA PLATH – 1950-1962. Editados e anotados por Karen V. Kukil, Faber and Faber, 24 Março 2000. Uma edição (quase) completa. Só faltam dois Diários: um, que parece ter-se perdido e outro que relatava os últimos dias de Sylvia e que foi queimado por Ted Hughes. Este, em 1982, co-editou uma versão muito “censurada”, que cobre, com muitas lacunas, os anos de 1950 a 1953.
Faltam também, mas não há a certeza de que alguma vez tenham existido, dois cadernos de notas, referentes aos dois anos que se seguiram à sua tentativa de suicídio, em 1953. Leituras Complementares:
BIRTHDAY LETTERS de Ted Hughes, Faber and Faber, Abril 1999
BURNT DIARIES e GIRLITUDE: A PORTRAIT OF THE 50S AND 60S de Emma Tennant, respectivamente, Canongate Books, Outubro 1999 e Jonathan Cape Books, Abril 1999
WOOROLOO – POEMS de Frieda Hughes, Harper Collins, Outubro 1998. Frieda Hughes tinha apenas três anos quando a mãe morreu. Ao contrário do que se poderia pensar, ela afirma que o pai sempre a educou, e ao irmão mais novo, na recordação da mãe. “Cresci a pensar nela como num anjo”. Frieda diz também que só percebeu quão famosos eram os seus progenitores quando teve de lhes estudar as obras, na escola. Ela própria começou a escrever poemas na juventude. Depois de uma adolescência tumultuosa marcada pela anorexia e por um casamento precipitado, aos 19 anos, viveu durante algum tempo na Austrália em Wooroloo, um local que serve de título ao seu volume de poemas. Casada com um pintor húngaro Frieda é também pintora e autora de livros para crianças. Sobre o culto que rodeia a figura da sua mãe, revolta-se contra aqueles que “a voltam e tornam a virar como carne em carvões em brasa” e afirma que, apesar de sentir que nunca saberá a verdade sobre o seu suicídio, não deseja remexer em feridas antigas.
WHERE DID IT ALL GO RIGHT de A. Alvarez, Richard Cohen Books, Setembro 1999. O crítico e escritor A. Alvarez confessa que falhou no seu apoio a Plath. Foi ele quem deu abrigo a Hughes quando este saiu de casa e foi ele também quem passou o último Natal (de 1962) com Sylvia. “ Falhei como amigo. Tinha 30 anos e era estúpido. Não percebia nada de depressões” disse Alvarez numa entrevista. Esta autobiografia complementa “The Savage God”, uma obra que relata e analisa o suicídio de Plath.
Filme "SYLVIA" - Direcção - Christine Jeffs: Script - John Brownlow; distribuição - Focus Features. COM: Gwyneth Paltrow (Sylvia Plath), Daniel Craig (Ted Hughes), Jared Harris (A. Alvarez), Blythe Danner (Aurelia Plath), Amira Casar (Assia Wevill) and Michael Gambon (Professor Thomas)-

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

No dia dos 200 anos de ORGULHO e PRECONCEITO de Jane Austen



No dia em que se celebram os 200 anos da publicação de ORGULHO e PRECONCEITO de Jane Austen , uma brevíssima incursão pelos estudos "austeneanos":
Nota: este texto faz parte de uma conferência sobre Jane Austen, proferida por mim, na Culturgest, Lisboa, inserida no ciclo Marcas,Abril- Maio, 2007.
“Depois da morte de Jane Austen, em 1817, os seus romances perderam popularidade com a escalada do romantismo e, mais tarde, com a crítica marxista que concordou com a apreciação de Ralph Waldo Emerson de que a escritora tinha sido uma conformista ao criar heroínas a quem não permitia a liberdade de seguirem os seus anseios mais profundos e de se libertarem dos constrangimentos da sociedade. Emerson concordava com a sua contemporânea Charlotte Brontë que criticou Austen chamando-lhe qualquer coisa como fria, racional, insensível, incapaz de expressar sentimentos genuínos, anseios do coração e dores pungentes da alma. (palavras minhas). Recorde-se, também que, quando Madame de Staël esteve em Londres quiseram proporcionar um encontro entre ela e Jane – esta esquivou-se habilmente - e a famosa e aclamada dama de Letras declarou que Austen era “vulgaire”.
O relutante Walter Scott não conseguiu, todavia, fugir à sua influência, embora lá no fundo se ressentisse da mordacidade da escritora; mas o sólido e visionário Richard Whately já em 1821 a comparava a Homero e a Shakespeare, opinião que partilhou com Lord Macauly (“ Como vêm, eu próprio tal como o senhor Darcy, não me preocuparei em ser orgulhoso”, escreveu ele às irmãs) ”e foi mais tarde recuperada por Harold Bloom. O filósofo e crítico George Henry Lewes escreveu entusiasticamente sobre Jane Austen numa série de artigos (entre 1840 e 1850) “The Novels of Jane Austen”.
No século XX, lenta mas inexoravelmente a reputação de Austen foi recuperada, apesar de alguns revezes como os duros golpes desferidos por Kingsley Amis e Edward Said. Foi Edmund Wilson, o mais importante crítico do século XX ( tal como Lionel Trilling, não esqueçamos) quem escreveu longamente sobre Austen tecendo-lhe louvores, sendo famosa a sua intervenção junto de Vladimir Nabokov quando este procedia à escolha de autores para o curso de Literatura Europeia na Universidade de Cornell. Apesar de uma resistência inicial – Nabokov era um misógino puro e só tinha escolhido escritores homens –o russo acabou por se render ao efeito Austen. Não será necessário referir a inteligentíssima apreciação que Virgínia Woolf fez da obra Austeneana” – contrariou em absoluto a ideia do conformismo das heroínas e contrapôs que basta atentar em Elizabeth, Catherine, Emma, Fanny e Anne (para mencionar apenas algumas das suas criações mais extraordinárias) para se chegar à conclusão de que estas figuras femininas possuem uma individualidade muito marcante e nada têm de dóceis. E até George Steiner demonstra que , ao contrário do que se diz, Jane Austen, “ao prestar tão detalhada e incisiva atenção aos aspectos da classe, da propriedade e do rendimento tornam-na a nossa romancista protomarxista emblemática” (em A Poesia do Pensamento, ed. Relógio D’ Água, Lisboa)

sábado, 19 de janeiro de 2013

Comunidades de Leitores CULTURGEST, Lisboa

Já começou a nova temporada da Comunidade de Leitores  na Culturgest, em Lisboa. A primeira sessão, na passada quinta-feira, foi muito concorrida e, como sempre, participativa e animada. Juntaram-se ao grupo novos membros e a discussão decorreu com enorme vivacidade e grande interesse.
Aqui fica o PROGRAMA completo:

COMUNIDADE LEITORES
CULTURGEST
Janeiro – Março, 2013

Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway: para onde foi a “geração perdida”? 

Década de 1920: chamaram-lhe a “era do Jazz”, a “idade de ouro”, os “loucos anos vinte”. Depois do trauma da Iª Grande Guerra, a Europa e os Estados Unidos pareciam ter recuperado o fôlego. Faziam-se fortunas de um dia para o outro, o champanhe corria a rodos e as festas não tinham fim. Francis Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, amigos e rivais, participaram activamente nesse tempo  em que Wall Street se misturava com a Côte d’Azur, a Arte com a alta finança. Scott e Ernest rapidamente se destacaram pela sua forma de estar e pela originalidade da sua escrita. Figuras actuantes no torvelinho do mundo, as suas acidentadas vidas tornaram-se matéria literária, explorada e revisitada, o que lhes valeu um lugar incontestado no panteão da literatura americana e mundial. Muito diferentes entre si, embora cúmplices no álcool e nas angústias existenciais, transpuseram para as respectivas obras os excessos, os traumas e a energia maníaca desses tempos conturbados. Nos seus romances e contos escalpelizaram a primeira metade do século XX, com todo o seu cortejo de guerras e banquetes, riqueza obscena e pobreza incalculável. Em Paris, ocuparam lugar cativo na grande revolução artística que juntou, principalmente em torno de Gertrude Stein, escritores, músicos, bailarinos, coreógrafos, pintores, estrelas de cinema, figuras da sociedade e da alta finança, ansiosos por participarem, a todo o custo, no (aparentemente) interminável banquete orgiástico que terminou abruptamente com a IIª Grande Guerra. 
É possível avançar com a ideia estereotipada de que Fitzgerald foi o rapaz bonito, tímido, sensível, inseguro e terno que escreveu sobre os confrontos mortalmente nefastos entre cônjuges e amantes e Hemingway foi o valente espalha-brasas, determinado, mulherengo e histriónico que escreveu sobre a guerra, a acção, a caça e as aventuras amorosas? Sim e não. Através das suas obras é possível detectar as contradições e incongruências, as falhas e oscilações das suas vidas, dedicadas à escrita e à intensa experiência existencial, mas atravessadas por tragédias e desregramentos.
Nesta altura em que a famosa “crise” mundial parece reflectir os grandes embates históricos do século XX, vale a pena reler as obras destes dois últimos românticos que estabeleceram os alicerces para uma literatura que moldou e marcou as gerações seguintes.

17 Janeiro, - Belos e Malditos - F. Scot Fitzgerald

31 Janeiro, - O Adeus às Armas – Ernest Hemingway

14 Fevereiro, - Paris é Uma Festa - Ernest Hemingway

28 Fevereiro - Terna é a Noite - F. Scot Fitzgerald

7 Março - O Sol Nasce Sempre - Ernest Hemingway

21 Março - O Último Magnate - F. Scot Fitzgerald

Nota: deixa-se ao critério dos participantes, a escolha das respectivas edições.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Lista dos melhores livros de 2012: AUTORES PORTUGUESES


30 Dezembro, 2012
Ora então julgavam que as célebres LISTAS são só para os jornais? Pois bem, aqui vai a MINHA LISTA dos livros de autores portugueses de 2012 – e só de 2012 – que li e de que mais gostei. Por favor, atentem às notas finais. Vá lá, é só mais um esforço.
Ficção:
1 -“As Mulheres da Fonte Nova”, Alice Brito, Editorial Planeta
2 - Teoria Geral do Esquecimento José Eduardo Agualusa, ed. Dom Quixote
3 – “O Murmúrio do Mundo”, Almeida Faria, Ed. Tinta da China
4 - “Somos todos um Bocado Ciganos”, Manuel Jorge Marmelo, Ed. Quetzal
5 - “E a Noite Roda”, Alexandra Lucas Coelho, ed. Tinta-da-china
6 - “A Mulher-Casa”, Tânia Ganho, Porto Editora
7 - O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro, D. Quixote

Não -Ficção
Biografia – “Rómulo de Carvalho. Príncipe Perfeito”, Cristina Carvalho, ed. Estampa
 - Diário – “O Próximo Outono”, João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, ed. Relógio D’ Água
Política, Sociedade – Estado de Guerra de Clara Ferreira Alves, ed. Clube do Autor
Ensaio – Sobre Julião Sarmento, Antologia de Textos, ed. Quetzal
Poesia:
1       - Poesia Reunida, Maria do Rosário Pedreira, ed. Quetzal
2       - Poemas para Leonor, Maria Teresa Horta, ed. Dom Quixote
3       - Como se Desenha uma Casa, Manuel António Pina, Assírio & Alvim.
Duas notas:
4       1ª: trata-se apenas das obras que li – faltam-me ler “Idade Maior” de Julieta Monginho, ed. Estampa, “Agora e na Hora da Nossa Morte”, de Susana Moreira Marques, ed. Tinta da China; Dentro de Ti Ver o Mar, Inês Pedrosa, ed. Dom Quixote, obras que me despertaram muito interesse;
2ª Não gosto de separar a Literatura portuguesa de tudo o resto mas nem sempre faço o que me parece mais ajuizado.
BOAS ESCRITAS, BOAS LEITURAS para 2013



quinta-feira, 4 de outubro de 2012



Comunidade de Leitores. É HOJE.
Na CULTURGEST, vamos sondar os mistérios de A VIAGEM (The Voyage Out) de Virginia Woolf, o seu primeiro romance, escrito e reescrito, vezes sem fim. O mais violentamente feminista de todos os seus romances, aquele em que VW se lançou na perigosa viagem da escrita... e da loucura.
Viria a ser publicado pela primeira vez, em 1915, em Inglaterra, mas começou por rascunhos delineados entre 1906/07. Em 1910, surgiu a primeira versão – não publicada – intitulada “Melymbrosia.” Pelo meio, houve mortes trágicas, surtos depressivos, internamentos e tentativas de suicídio. Virgínia começou o livro como jovem mulher, que ainda não se casou e que carrega já vários traumas, e terminou-o no regresso de uma lua-de-mel onde todos os seus receios de concretizam – medo da intimidade, estranheza em relação ao ser masculino, sentimento de perda.
Um romance sobre o casamento e os seus perigos - como contraponto a Jane Austen, sombra tutelar de Virginia.
De notar que este romance é uma espécie de resposta a "Coração das Trevas" de Joseph Conrad, autor muito admirado por Virginia Woolf. Curioso, também, o facto de Leonard Woolf ter publicado "A Village in the Jungle" antes de A Viagem.
Nas imagens: Virginia e Virginia e Leonard, no dia do seu casamento. A escritora snob, a intelectual insegura e o seu "penniless Jew".

quinta-feira, 20 de setembro de 2012


A reflexão de MIGUEL TORGA sobre a "descolonização" vem a propósito da leitura, marcada para hoje - início da nova COMUNIDADE de LEITORES, na CULTURGEST - de O RETORNO, de Dulce Maria Cardoso, ed Tinta da China, um extraordinário romance que relata o regresso dramático da então colónia de Angola, em 1975, de cerca de um milhão de pessoas - ou meio milhão - e a iniciação de um jovem de quinze anos num novo/velho mundo. Estes acontecimentos marcam, simbolicamente, o fim do Império - como hoje em dia assistimos ao fim do País. Mas agora não há lugar para retornos, apenas lugares de fuga.

Escreve Miguel Torga ..."Retorno maciço dos portugueses do Ultramar. Na aflição da fuga, até de barco de pesca vieram muitos, a ponto de alguém dizer que fomos descobrir o mundo de caravela e regressámos dele de traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem grandeza de uma aventura. Metade de Portugal a ser remorso da outra metade. Os judeus da diáspora ansiavam por regressar a Canaan. Povo messânico também mas de sentido exógeno, para nós o regresso é o exílio. A nossa Terra Prometida estava fora de Portugal.

--- MIGUEL TORGA, Diário XII, 3ª edição revista

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

COMUNIDADE de LEITORES, CULTURGEST, Lisboa


Programa da próxima COMUNIDADE de LEITORES, CULTURGEST, Lisboa.
Inscrições em www.culturgest.pt

"As viagens são os viajantes"
Bernardo Soares

Viajar e “fazer turismo” são atividades diferentes, embora partilhem o mesmo impulso físico, as mesmas alegrias e, por vezes, as mesmas agruras e privações. Mas se é verdade que as primeiras viagens se fizeram por necessidade absoluta – os nossos longínquos antepassados seguiam o rastro dos alimentos, fugiam de condições atmosféricas adversas, procuravam abrigo e comida onde lhes era mais propício – o turismo nasceu com a Revolução Industrial e com a “invenção” do conceito de lazer, algo inconcebível antes do século XIX. No entanto, o anseio de viajar tem raízes mais complexas e serve de metáfora da própria existência: à roda do quarto (como de Maistre) ou em paragens longínquas, por razões económicas (descoberta de novos lugares e de novas abastanças), políticas (espionagem, diplomacia), militares (conquistas, ocupação de território), religiosas (peregrinações, cruzadas), ou culturais (a partir do século XVIII, o “Grand Tour” tornou-se uma obrigação para o ritual da aprendizagem), o ato de partir, de procurar, de encontrar (ou não) é ânsia para muitos e maldição para alguns. Nesta Comunidade percorreremos os espaços de iniciação com Woolf e acompanharemos viagens de doloroso (re)conhecimento na obra de Dulce Maria Cardoso e na de Conrad – em direções opostas.
Theroux é de opinião que os turistas nunca sabem onde estiveram e os viajantes nunca sabem para onde vão, como bem demonstra na sua epopeia pela Índia e Chatwin, o grande vagabundo, cria, em Utz, um estranho não-viajante. Com Garrett e a viagem “novelística” fecha-se este ciclo de leituras, durante o qual tentaremos detetar as causas – curiosidade, inquietação, desejo, fuga, aprendizagem, emoção, antídoto contra o medo – e os efeitos das deambulações dos grandes e eternos inquietos. Mark Twain afirmou: “não existe nada mais prejudicial para o preconceito, para o fanatismo e para a intolerância do que as viagens”. Não podia ter mais razão. Viajemos, então, pelas palavras.

20 de setembro
O Retorno, Dulce Maria Cardoso, Ed. Tinta-da-China

4 de outubro
A Viagem, Virgínia Woolf, Ed. Presença

8 de novembro
Coração das Trevas, Joseph Conrad, Ed. Relógio D’Água
[ler também a Ode Marítima de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)]

22 de novembro
Utz, Bruce Chatwin, Ed. Quetzal

6 de dezembro
O Grande Bazar Ferroviário, Paul Theroux, Ed. Quetzal

20 de dezembro
Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett (qualquer edição)

Travelling and tourism are different activities, despite sharing the same joys and disappointments. While people first travelled out of necessity, tourism is based on the idea of “leisure”. The wish to travel can, however, be a metaphor for life itself. In this Community of Readers, we take our first steps with Woolf and move on to Dulce Maria Cardoso, Conrad, Theroux, Chatwin and Garrett, seeking to find why they travelled. Mark Twain said: “Travel is fatal to prejudice, bigotry, and narrow-mindedness”. How right he was! So, let us travel through words.

sábado, 4 de agosto de 2012

GORE VIDAL, O SENTIDO da HISTÓRIA

O SENTIDO DA HISTÓRIA
In Jornal Público , 2009




Gore Vidal e o seu companheiro de mais de 50 anos, Howars Austen, têm já duas campas reservadas, lado a lado, no cemitério de Rock Creek, em Washington. Nas respectivas pedras estão gravados os nomes e as datas de nascimento, 1925 e 1928, respectivamente, com um hífen à frente e o espaço para colocar as datas finais. Nesse mesmo cemitério está enterrado Jimmie Trimble, que morreu com 20 anos em Iwo Jima e foi o grande amor de Vidal, a inspiração para o seu romance homoerótico “A Cidade e o Pilar”, publicado em 1948, que lhe deu fama e proveito, alguns dissabores e muita notoriedade. Este detalhe, aparentemente sem importância, ajuda a compreender a forma como Vidal encara a sua própria história. Quando se fala deste autor, hoje em dia, é impossível evitar a referência a um certo numero de informações e características que se lhe colam à pele como um fato de bom corte, permanentemente usado e renovado. Ele é uma espécie de último moicano, um guerreiro em luta por uma interpretação da História à margem da manipulação dos “media” e em permanente confronto com o lugar comum e a opinião publica. As suas origens, o seu percurso, a sua energia, a sua ironia, as suas preferências sexuais, a lista de notáveis que ele conta entre os seus amigos (e inimigos) fazem dele notícia permanente, algo que certamente o irrita e delicia, simultaneamente. O seu sucesso deve-se, como o de Andy Wharol por exemplo, ao facto de ter sabido sempre misturar a “low” com a “high culture”, a elegância de um grande senhor com o vigor de um combatente. Os seus livros torrenciais, delirantes, majestosos e sempre controversos, falam de sexo, violência, corrupção, dinheiro e poder, conceitos que tendem a fascinar e, ao mesmo tempo, assustar as pessoas. Vidal tem feito muito cinema e televisão e sabe o que cativa audiências, usando e abusando do humor para fazer as suas vitríolocas críticas à sociedade contemporânea e ao poder estabelecido. Gosta de dizer que ele e Noam Chomsky são os únicos radicais da América, onde 90% da população pertence ao status quo, isto é, são gente que apenas se preocupa em “construir carreiras”. Ele prefere repensar a História e contestar tudo o que já foi dito. A política é uma das suas paixões, algo que ele herdou do avô, o senador cego, T.P. Gore que caiu em desgraça durante a administração Roosevelt, criava galinhas nos terrenos da casa em Rock Creek Park, onde Vidal viveu até aos dez anos, e chegou a ser julgado (e ilibado) por tentativa de violação na pessoa de “uma tal Minnie Bond”, num hotel em Washington. T.P. ou “Dah”, como lhe chamava o neto, casou com Nina por gostar de lhe ouvir a voz, ignorando o facto de ela ser alcoólica, uma característica herdada pela detestada mãe de Vidal. (“Tenho que admitir que, para uma criança, a única vantagem de ter uma mãe alcoólica é que tem acesso, prematuramente a muitas informações preciosas” Gore dixit) O senador Gore, que inculcou no neto o “sentido da honra” e a admiração pela coragem pessoal, ensinou-lhe também como navegar nas águas turvas da política e transmitiu-lhe o sentimento de que pertencia a um diminuto grupo de seres de excepção numa sociedade que se considerava democrática. Vidal diz que herdou” a capacidade de detectar as notas falsas nas árias com que os guardadores de rebanhos embalam as nossas ovelhas”, querendo dizer com isso que rejeitou sempre as demagogias e nunca embarcou em promessas vãs.
Gore nasceu em 1925 na Academia de West Point, onde o pai, um homem que foi dono de companhias de aviação (e impulsionador da TWA, Eastern e Northeast Airlines) e o grande amor de Amelia Earhart, era instrutor de voo. Em “Palimpsest”, um livro de memórias publicado em 1997, fala detalhadamente do pai e da mãe, dos laços familiares que o ligavam a John e Jackie Kennedy e das suas inúmeras amizades, entre as quais se contavam Tenesse Williams, (The Glorious Bird) com quem partilhou um apartamento em Paris, Truman Capote, Jack Kerouac, com quem passou uma noite de sexo “inexplicável” no Chelsea Hotel, Peggy Guggenheim, Paul Bowles, Marlon Brando e outros grandes deste mundo.
Presentemente, Gore vive grande parte do ano na sua villa encravada num penhasco sobre o mar Tirreno perto de Ravello, uma cidade italiana por onde passaram Gide, D.H e Frida Lawrence, Maynard Keynes e Lytton Strachey e onde Stokowski e Greta Garbo tiveram um “ninho de amor”. (Vidal conta-se entre as atracções turísticas da terra e é mencionado nos guias como, “uma das antiguidades, com Pompeia, a não perder”.) O cenário que desfruta das suas janelas agrada-lhe particularmente, uma vez que lhe recorda o mundo clássico pagão, hedonista e iconoclasta que ele admira e recorda com certa nostalgia. (Em 1964 publicou “Julian”, a história do imperador romano apóstata que tentou restaurar o paganismo). Com Austen, recebe os seus inúmeros e célebres convidados com a grandeza e simplicidade de um verdadeiro sibarita. Vidal gosta de lembrar Montaigne e a ligação deste com Étienne de la Boétie que lhe recorda a sua situação com Austen com quem afirma não praticar o sexo, sendo esse o segredo do sucesso da união. O seu amor de adolescência por Jimmie Trimble, que morreu com dezassete anos, foi absolutamente físico. Mas esse ideal de juventude ficou para sempre enterrado nas areias de Iwo Jima e Vidal gosta de especular, um pouco misteriosamente, sobre as relações que manteve com Anaïs Nin e Diana Lynn, sem esquecer o “choque erótico” que sentiu quando a sua perna roçou a de Jackie Kennedy, num passeio de barco. (“Não se passou nada” afirma ele, laconicamente, em Palimpsest).
Agora, ao falar de sexo, prefere lembrar a frase de Sócrates, quando este afirmou que, com a idade “estava finalmente livre desse amo insano e cruel.” E acha que “nunca se deve ter sexo com amigos mas sim com perfeitos estranhos”. Uma fantasia muito cinematográfica. A sua ligação com Hollywood leva-o a manter uma outra casa, em Los Angeles, onde vai regularmente para estar com os amigos, Paul (Newman) e Joanne (Woodward), cujo casamento apadrinhou. (Tem outro afilhado, o filho de Tim Robbins e Susan Sarandon). E é importante não esquecer que ele assinou os guiões de filmes como “Ben-Hur”, “Paris já está a arder?”, ”Bruscamente no Verão Passado ”, o que, definitivamente o coloca entre as glórias da Meca do cinema.
Vidal que já foi candidato democrata ao Congresso dos E.U.A com o slogan “Get more with Gore” é uma velha raposa da política e um crítico acerbo, com opiniões que nem sempre lhe trazem popularidade. É decididamente contra a política externa americana e chegou a expressar toda a sua hostilidade em relação à participação do seu País na ultima Grande Guerra. O “Smithsonian Institution” que vai agora ser publicado em Portugal, é um manifesto contra a vocação imperial americana e uma sátira mordaz às teorias dos seus defensores.
“The Smithsonian Institution”, (um livro cuja capa, na edição americana, é absolutamente “camp”, esperando-se que seja mantida pela edição portuguesa) é uma mistura delirante de géneros como a ficção científica, o romance histórico, a sátira política e, neste caso velada, autobiografia, em que toda a experiência e conhecimentos do autor sobre o confuso mundo da política é utilizado em pleno com um resultado nem sempre esclarecedor mas decididamente divertido e perturbante. A acção tem início durante o período da Páscoa, no ano de 1939, mais propriamente na Sexta-Feira Santa, “ quando as nuvens negras da guerra se amontoam sobre a Europa” e a América está prestes a pôr em marcha toda a sua política imperialista. Um jovem prodígio de 13 anos, especialista em matemáticas e física quântica, cujo nome é tão misterioso como a sua missão, aluno de St Albans que, por sinal, era a escola de Gore Vidal, o lugar onde também conheceu Jimmie Trimble, é chamado a comparecer no Smithsonian, o complexo de museus e laboratórios na capital dos Estados Unidos. Esse local, aparentemente deserto quando não há visitantes, guarda a chave de inúmeros segredos. Quando as portas se fecham sobre T., ele descobre que as figuras históricas de cera do museu ganham vida própria, dedicando-se a várias actividades. T. penetra nessa estranha dimensão e inicia uma viagem que mais parece um jogo de computador, com saltos no tempo e a possibilidade de intervir nos acontecimentos. É recebido por uma das Primeiras Damas, Mrs. Benjamin Harrison, que o inicia nesse mundo onde "nada é o que parece", para, logo de seguida ser quase comido por Índios Iroqueses que se tornaram canibais. Por essa altura, conhece uma bela squaw, bastante mais velha que ele com quem vive uma experiência erótica muito satisfatória e que se revela ser, noutra sala e noutra dimensão, a mulher do Presidente Grover Cleveland ( uma democrata entre Republicanos), e que o acompanha em aventuras como caças ao bisonte e às baleias. T. passa também por momentos em que toma chá com Primeiras Damas mortas há muito, que o entretêm com as ultimas informações e o “gossip” da Casa Branca. No departamento dedicado à aeronáutica, encontra Charles Lindberg que o transporta no Spirit of St Louis. Entretanto, Abraham Lincoln, transformado num meio idiota pela bala que o atingiu na cabeça, passa o tempo a redescobrir a sua própria identidade pela leitura da biografia escrita por Carl Sandburg, o que piora bastante o seu estado de espírito.
T., que tem o dom de visualizar complicadas operações matemáticas, é notado por J. Robert Oppenheimer e envolvido no projecto Manhattan, ajudando na preparação de uma Bomba. ( A, H, de Neutrões?). (Numa exposição militar vê-se a si próprio, no futuro, morto no dia 1 de Março de 1945). O seu nome que pode ser, tanto a inicial da palavra Tempo, como a do nome de Trimble ( de Jimmy), carrega um significado muito caro a Vidal, a ideia de um todo harmonioso que ele refere em “Palimpsest” quando recorda o “Symposium” de Platão, no qual, pela boca de Aristófanes, fala da teoria dos três sexos, macho, fêmea e hermafrodita, divididos pelos deuses e em perpétua busca de uma reunificação.
T. refere também a ideia do sacrifício pessoal e da responsabilidade política e “tenta dar um sentido à História” e é por isso que quer contrariar o curso dos acontecimentos e evitar, assim, duas guerras atrozes. O mais interessante é que ele consegue levar avante os seus intentos e intervém no passado, (Hitler passa a ser um arquitecto que tinge os cabelos de loiro, por exemplo), mas com consequências que não se podem classificar de “ideais”. T. , ao fazer o papel de Deus, o que se revela complicado e muito perigoso, navega nos meandros vertiginosos do tempo T. para salvar o mundo, os seus clones e a sua própria vida. Um encontro final com um alguém que dá pelo nome de Walt ( Disney) pode contribuir para um reajuste de (ir)realidades.
Para Vidal “os americanos estão a tornar-se animais domésticos” e já têm um Big Brother numa sociedade com um controle muito apertado. Em sua opinião, os E.U.A são uma oligarquia, em que o poder verdadeiro está na mão de cerca de 1% dos seus habitantes. Os pontos nevrálgicos, a informação, a educação e o “entertainment” são regidos por essa minoria. É um país onde “põem as crianças a engolirem a doutrina do consumismo e não lhes ensinam nada sobre os valores de cada país. Na América toda a História que é ensinada às crianças é deturpada.” Vidal, ao longo da sua obra, tem comentado com minúcia as correntes que perpassam por Washington D.C. Depois da Guerra, com o New Deal de Roosevelt e a Guerra Fria, os Estados Unidos assumiram-se como super potência imperial, afastando-se da sua vocação mais dirigida para uma política interna equilibrada e “livre”.
Vidal põe à prova, neste livro, todo o seu talento de satirista, com resquícios de ilusionista e malabarista para nos transmitir as suas ideias sobre a política, o sexo e a História, numa viagem amaldiçoada pelos acontecimentos mais importantes dos últimos tempos, sem esquecer nunca o rancor contra aqueles que, ao provocarem guerras sangrentas, cercearam a vida de muitos, sem que disso se tivesse tirado qualquer proveito. Vidal nunca esquece o seu amor de juventude e a sua própria experiência na guerra. E responsabiliza a política do seu País por essas perdas, sem possibilidade de redenção. Toda a sua obra é o espelho dessa revolta e um libelo contra o conformismo.


Morreu GORE VIDAL



Na imagem: Gore Vidal, Tennesse Williams, JFK


Entrevistei Gore Vidal, em Lisboa, para o Jornal Público, em finais dos anos noventa. Aqui fica, de novo, essa conversa:



VIDAL, O MAGNÍFICO




Gore Vidal nasceu em 1925 na Academia de West Point, faz parte da “nobreza” norte-americana e intitula-se o “biógrafo oficial” do seu país. Do avô, o senador cego Thomas Gore, herdou a habilidade para escrever e um fascínio pelo poder. Em 1948, a publicação de “The City and the Pillar”, um romance abertamente homossexual, valeu-lhe uma fama pontuada por controvérsia. Em “Palimpsest”, um livro de memórias publicado em 1997, fala do pai, piloto e director de uma companhia de aviação que foi o grande amor da vida de Amelia Earhart, da mãe, uma “socialite” que ele detestava, dos laços familiares que o ligavam a Jackie Kennedy e a “Camelot” e das suas inúmeras amizades, entre as quais se contaram Tenesse Williams, (The Glorious Bird) com quem partilhou um apartamento em Paris, Truman Capote, Jack Kerouac, com quem passou uma noite de sexo “inexplicável” no Chelsea Hotel, Peggy Guggenheim, Paul Bowles, Marlon Brando e outros grandes deste mundo.
Habita uma villa num penhasco sobre o mar Tirreno perto de Ravello, uma cidade italiana por onde passaram Gide, D.H e Frida Lawrence, Maynard Keynes e Lytton Strachey e onde Stokowski e Greta Garbo tiveram um “ninho de amor”. O cenário é o de um mundo clássico pagão, hedonista e iconoclasta que Vidal admira e recorda com certa nostalgia. (Em 1964 publicou “Julian”, a história do imperador romano apóstata que tentou restaurar o paganismo). A sua ligação com Hollywood leva-o a manter uma outra casa, em Los Angeles, onde vai regularmente para estar com os amigos, Paul (Newman) e Joanne (Woodward), cujo casamento apadrinhou. Tem outro afilhado, o filho de Tim Robbins e Susan Sarandon.
Gore Vidal e o seu companheiro de mais de 50 anos, Howars Austen, possuem já duas campas reservadas, lado a lado, no cemitério de Rock Creek, em Washington. Nas respectivas pedras estão gravados os nomes e as datas de nascimento, 1925 e 1928 respectivamente, com um hífen à frente e o espaço para colocar as datas finais. Nesse mesmo cemitério está enterrado Jimmie Trimble, que morreu com 20 anos em Iwo Jima e foi o grande amor de Vidal, a inspiração para o “A Cidade e o Pilar”, que lhe deu fama e proveito, alguns dissabores e muita notoriedade. Este detalhe, aparentemente sem importância, ajuda a compreender a forma como Vidal encara a sua própria história.
Vidal tem feito muito cinema e televisão e sabe o que cativa audiências, usando e abusando do humor para fazer as suas vitríolocas críticas à sociedade contemporânea e ao poder estabelecido. Gosta de repensar a História e contestar tudo o que já foi dito, sendo a política uma das suas paixões, algo que ele herdou do seu avô que criava galinhas nos terrenos da casa em Rock Creek Park, onde Vidal viveu até aos dez anos, caiu em desgraça durante a administração Roosevelt e chegou a ser julgado (e ilibado) por tentativa de violação na pessoa de “uma tal Minnie Bond”, num hotel em Washington. T.P. ou “Dah”, como lhe chamava o neto, casou com Nina por gostar de lhe ouvir a voz, ignorando o facto de ela ser alcoólica, uma característica herdada pela detestada mãe de Vidal. (“Tenho que admitir que, para uma criança, a única vantagem de ter uma mãe alcoólica é que tem acesso, prematuramente a muitas informações preciosas” Gore dixit ) O senador Gore, que inculcou no neto o “sentido da honra” e a admiração pela coragem pessoal, ensinou-lhe também como navegar nas águas turvas da política e transmitiu-lhe o sentimento de que pertencia a um diminuto grupo de seres de excepção numa sociedade que se considerava democrática. Vidal diz que herdou “a capacidade de detectar as notas falsas nas árias com que os guardadores de rebanhos embalam as nossas ovelhas”, querendo dizer com isso que rejeitou sempre as demagogias e nunca embarcou em promessas vãs.
Em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, com o seu humor corrosivo habitual, perante uma audiência numerosa e cúmplice que batia palmas e ria educadamente nos momentos certos, baseou a sua conferência na classificação de Giambattista Vico, um filósofo napolitano (1668-1744) que dividiu a nossa civilização em três fases cíclicas, a teocrática, a aristocrática e a democrática, às quais se seguiria o caos. Deste emergiria uma nova era teocrática e iniciar-se-ia um novo ciclo. A História, as suas incongruências e absurdos, é um campo fértil para o exercício do pensamento deste homem que, em “Palimpsest”, um “romance de amor”, se define com alacridade como alguém que “… devido a uma fria natureza e à recusa em conformar-se com os calorosos valores familiares, (está) condenado a ser o eterno “outsider”, alguém que não se deixa apanhar pelas armadilhas do “sistema”.


Helena Vasconcelos: Na Gulbenkian, como em muitos outros lugares, há sempre multidões a ouvirem as suas palavras. Qual a sensação de ser tratado como um ícone pop, como uma espécie de Madona do pensamento? Como é que se sente, rodeado de todo este “som e fúria”.
Gore Vidal : (Risos). É um fenómeno que acontece em todos os países. Não compreendo as multidões. Não me considero um autor popular, não sou o Stevie (Stephen King)…



H.V. : A razão do seu sucesso tem a ver com o facto de os seus livros terem como tema o sexo, a violência, a corrupção, o dinheiro, o poder, o cinema, conceitos que fascinam e assustam pessoas e que são a base da nossa sociedade?
G.V. Os meus livros não são “romanzi di consumo” mas tenho feito muito cinema e televisão e escrevo sobre assuntos que interessam às pessoas. Não sei como, generalizou-se a ideia de que tenho muita graça.


H.V. : Quer dizer que usa e abusa do humor para fazer críticas violentas, como por exemplo em “Myra Breckinridge”?

G.V. Limito-me a dizer o que penso, e acho que penso verdadeiramente, o que é uma combinação rara. As figuras públicas são uma fraude, só dizem disparates e, na realidade, ninguém as quer ouvir. Noam Chomsky que, tal como eu, é um dos poucos radicais da América, tem razão, apesar de ninguém o perceber, quando diz que a direita e a esquerda são termos que já não têm sentido, tal como o socialismo. Noventa e nove por cento da população pertence ao status quo, são pessoas que constroem carreiras. O resto são os tais radicais, com atitudes preconizadoras de mudanças radicais, que dizem qualquer coisa que pode ter interesse. É por isso que, mesmo sem saberem porquê, as pessoas vêm ouvir-nos.




H.V. : Chomsky fala do poder da linguagem e tem referido, sistematicamente, a manipulação das pessoas pelos “media”…

G.V. Chomsky é sistematicamente boicotado no Estados Unidos onde há uma censura tão severa como nos outros países, ao mesmo tempo que se proclama a existência de liberdade para se dizer e escrever o que se quer. Tudo isto é verdade, como é verdade que há liberdade para não se publicar determinadas coisas ou de não se deixar certas pessoas aparecerem na televisão. Ou, melhor ainda, há a liberdade de ridicularizar pessoas e ideias. É por isso que não gosto da imprensa. Têm todas as razões para nos tornarem grotescos, para que não sejamos ouvidos. O “New York Times” nunca entrevistou o Chomsky e, como represália, eu nunca deixei que eles me entrevistassem a mim…




H.V. : É uma espécie de guerra?

G.V. Sim, uma guerra que já dura há cinquenta anos, desde 1948.




H.V. : Para os conservadores é considerado um perigoso revolucionário, para os mais progressistas um perfeito reaccionário. É divertido, para si, ser julgado desta maneira ?

G.V. Essas pessoas não estão a pensar, estão apenas a responder de uma forma emotiva. Dizem frases como por exemplo “somos todos iguais” , “temos de amar o nosso semelhante” mas depois, não há lugar nenhum do mundo em que as pessoas não façam coisas terríveis umas às outras e quanto pior fazem, mais cacarejam estas frases…




H.V. : E quanto à acção de uma Madre Teresa de Calcutá, por exemplo?

G.V. (Risos). O Christopher Hitchens apelidou-a de “Hell’s Angel”. Não havia nenhum ditador que ela não amasse profundamente. Tudo o que ela queria era apanhar pessoas nas ruas e torná-las cristãs. Depois, esperava que morressem o mais rapidamente possível.




H.V. : Bem, isso é normal porque ela, como católica, com certeza que achava que eles estariam muito mais felizes no céu.

G.V. Evidentemente





H.V. : O seu ultimo livro, “The Smithsonian Institution”, cuja capa é verdadeiramente “camp”…

G.V. A capa funciona como uma piada.




H.V. : Parece Scarlet O´Hara, com Tara a arder no horizonte, a ser vampirizada em primeiro plano por um surfista…

G.V. (Risos) Ele tem 13 anos. É pura pedofilia. A rapariga é a mulher de Grover Cleveland, que foi presidente dos Estados Unidos nos finais do século XIX. O seu retrato faz parte da galeria das mulheres dos presidentes. Na história, à noite, os retratos ganham vida e o rapaz, que trabalha como físico nuclear em 1939, (é um génio, especialista em física quântica,) fica lá trancado. Têm um caso amoroso e o Presidente Cleveland não se importa porque tem duas mulheres.




H.V. : O herói fala do sacrifício pessoal e da responsabilidade política e “tenta dar um sentido à História”. É essa a sua preocupação, neste momento?

G.V. É sempre essa a minha preocupação.




H.V. : No princípio dos anos noventa publicou um livro intitulado “Hollywood” e disse que era uma história acerca de Washington D.C. Essa analogia tinha a intenção de definir o poder, nos Estados Unidos, como uma fantasia, semelhante à produzida pela Meca do cinema?

G.V. (Risos) Gosto dessa interpretação. Mas o que eu quis foi estabelecer um paradoxo e aquilo a que chamei “Hollywood” era na realidade acerca de política e consequentemente sobre Washington D.C. Reportava-se aos primeiros tempos de Hollywood e à forma como, em determinada altura, Washington utilizou Hollywood e vice-versa.




H.V. : Refere-se à administração Kennedy? Ou à de Reagan quando essa promiscuidade atingiu o auge?

G.V. Foi muito antes disso. O Reagan não era nada. Claro que ele utilizou os métodos de propaganda que todos os usam só que ele os aprendeu melhor do que ninguém. O John Travolta, no começo de carreira, jantou um dia com um amigo meu à mesma mesa, um editor que, posso dizer, não estava nada entusiasmado com a ideia de ter ao seu lado aquele miúdo de New Jersey. Pensou que o jantar ia ser uma chatice e que não teria assunto de conversa. Finalmente, para quebrar o silêncio, virou-se para o Travolta e perguntou-lhe qualquer coisa do género, “ o que é que tencionas fazer quando cresceres e tudo isto acabar ” e o Travolta respondeu calmamente, “estou a pensar em entrar para a política”. O meu amigo ficou surpreendido e disse-lhe que não fazia a mínima ideia de que ele estivesse interessado em política, ao que o Travolta respondeu, “bem, eu não estou propriamente interessado, mas tenho observado os políticos na televisão e eles fazem exactamente o mesmo que eu, só que eu faço-o dez vezes melhor”.




H.V. : O que mostra que ele não é nada parvo…

G.V. Nada. Quando a Emma Thomson me perguntou como é que ele era, porque ia trabalhar com ele e eu lhe contei esta história, ela fartou-se de rir e percebeu perfeitamente a ideia .




H.V. : Em seu entender, Hollywood criou o sonho de uma Nação para os americanos. Todo o imaginário épico, todos os heróis, partiram do cinema.

G.V. Não há outro remédio, o cinema cria heróis, é um fenómeno universal que, realmente, começou na América embora os franceses gostem de dizer que se anteciparam. Mas nós arrebatámos o mundo e fornecemos sonhos, ideias e “ideias-lismos”. Uma vez estive num programa de televisão com a Lillian Gish, a primeira grande estrela de cinema e ela estava a falar dos seus filmes do tempo do mudo com D.W. Griffith e de repente disse, “nós tivemos o mundo nas mãos e perdemo-lo com os “talkies”” e eu retorqui, “como é possível fazer uma afirmação dessas se a maior parte dos grandes filmes são falados e já ninguém vê os filmes mudos” e ela respondeu, “pois é exactamente isso, as pessoas já não sabem ver. Dantes, toda a gente, qualquer camponês na China me conhecia e conhecia Charlie Chaplin e qualquer intelectual em Paris falava de mim e do Charlie Chaplin. Com o sonoro, os filmes tornaram-se nacionalistas, tiveram de ser dobrados ou traduzidos e há muita gente que não consegue ler as legendas.” E eu disse, “tudo isso está muito bem mas os filmes continuam a conquistar o mundo”, ao que ela respondeu: “Pode ser que sim, mas já não são PUROS”.




H.V. : O seu amigo Isherwood teve aquela expressão , “ I am a camera”. Será que ele queria desempenhar esse papel de recuperação da pureza perdida ?

G.V. Não, ele queria dizer que ia ser uma espécie de gravador de imagens, um registo das vidas das pessoas e que não iria manipulá-las para além daquilo que ele testemunhasse o que, evidentemente, é impossível.




H.V. : Tal como Faulkner e Fitzgerald também escreveu para o cinema. “Ben Hur” foi um dos seus filmes. Gosta de ser argumentista ou prefere a ficção?

G.V. Fazer filmes é muito divertido. É preciso lembrar que os realizadores não são auteurs.




H.V. : Mas na Europa, em França, por exemplo, há realizadores-autores…

G.V. Não, não há, nem mesmo em França. Há realizadores que também escrevem umas coisas. Há aí um mal entendido mas os franceses são peritos em mal-entendidos. Os grandes filmes devem o seu sucesso a quem escreve. São os argumentistas que têm uma ideia, que constroem o diálogo, que criam os personagens. Em Hollywood costumávamos dizer que os realizadores eram os cunhados dos directores dos estúdios. Depois, nos anos cinquenta, deu-lhes para se considerarem auteurs, convenceram-se que tinham um estilo próprio e nem sequer faziam referência aos escritores. Howard Hawks, Nicholas Ray, (que era um grande amigo meu e um dos piores realizadores que conheci), tinham aquela ideia do estilo, que não era mais do que o espelho das suas limitações, o que sabiam fazer mal repetido vezes sem conta. Por exemplo, tudo o que é cheio de sentimentalismo e bastante estúpido é, seguramente, de Frank Capra. Um dos poucos verdadeiros “auteurs” é Woody Allen que escreve, dirige, produz, representa. O mesmo acontecia com Orson Welles.




H.V. : E François Truffaut ?

G.V. Não gosto dos filmes dele, era demasiado sentimental. Mas concordo, ele era um “auteur” mas nunca conseguiu interessar-me com aquelas historietas de rapazes e raparigas de uma banalidade terrível. O Goddard é um simples exibicionista que se consegue safar razoavelmente. Mas, para mim, o único grande auteur em França é Jacques Prévert com “Enfants du Paradis”. Tudo o que Carné teve de fazer foi seguir o guião e…Estou outra vez a lembrar-me do Capra, escrevi agora sobre ele para a Newsweek. Uma vez despedi-o de um dos meus filmes chamado “The Best Man”. É verdade que ele ainda conseguiu fazer dois ou três bons filmes que foram escritos por Robert Riskin e só por causa disso. Eu conheci Riskin e ninguém fala dele, ao passo que o Capra - que não tinha miolos nenhuns, era um bocadinho lento e pateta e só percebia de tecnologia - é que é famoso.




H.V. : Quer dizer que todos esses grandes realizadores eram afinal uma fraude, inseguros e um pouco infantis?

G.V. Não há dúvida que o Capra era infantil…




H.V. : Isto vem a propósito de o que o Martin Amis disse a seu respeito, que era o único adulto na América, o único que se dava ao trabalho de pensar. Quer dizer que o resto dos seus concidadãos são umas crianças grandes que precisam de um pai, de uma espécie de “Big Brother”? Quando citou aquela frase do Unabomber que dizia que “os americanos estão a tornar-se animais domésticos” numa sociedade totalitária, era nisso que pensava?

G.V. Os americanos já têm um Big Brother. É uma sociedade com um controle muito apertado, é uma oligarquia, um país que está na mão de cerca de 1% dos seus habitantes que são donos dos “media” e das escolas.




H.V. : Sendo assim, os pontos nevrálgicos, a informação e a educação, são regidos por essa minoria?

G.V. Exactamente. Sem esquecer a parte do “entertainment”. No século XVIII , David Hume já tinha perguntado , “como é possível que um punhado de homens possam controlar um País?”.Chegou à conclusão que tal era possível através da opinião que, nessa altura, era controlada pela Igreja.




H.V. : Ele era ateu. O que, na realidade, não o ajudou nada na vida.

G.V. Sim, ele insurgiu-se por exemplo contra a educação obrigatória desde a infância, uma ideia de Napoleão Bonaparte, como o Vasco (Pulido Valente) me fez lembrar. Mas foram Bismark e Lincoln que impuseram o conceito de se tirar uma criança da tutela dos pais durante doze anos ou mais, para ser doutrinada. Hoje em dia põem as crianças a engolirem a doutrina do consumismo e nem uma palavra sobre os valores de cada país. Na América toda a História que é ensinada às crianças é deturpada.




H.V. : Pensa então que a História como a conhecemos - como escreveu em “Palimpsest” - é, tal como as suas Memórias, um “tecido de mentiras” ?

G.V. Muitas camadas de mentiras. Por exemplo há dois pontos essenciais que nunca são articulados : o primeiro é que somos um Império adquirido de forma sangrenta, uma prática que ainda está em vigor, e o segundo é que temos uma classe dominante que é brilhante mas que ninguém sabe que ela existe o que é sinal de que é uma classe muito astuciosa que compra tudo, incluindo as Universidades. É por isso que nem sequer Harvard ou Yale falam disso. A opinião pública é que controla a mente das pessoas, o que é suficiente para tornar qualquer um infantil. Tenho de ser cuidadoso porque estou num país católico mas a verdade é que o catolicismo também infantiliza as pessoas.




H.V. :A moral judaico-cristã é a base da nossa cultura ocidental e segundo a sua teoria foi ela que pôs termo ao espírito clássico, instituindo o “monoteísmo demente” e outras “perversões” contrárias à limpidez, à alegria, ao hedonismo do mundo pagão?

G.V. Sim, por isso é que o Iluminismo foi tão importante. Diderot e Voltaire tentaram dizer às pessoas que havia algo mais, uma outra realidade.




H.V. : Uma realidade que deu origem à muito sangrenta Revolução Francesa…

G.V. Sim, acabamos sempre por ficar com os dirigentes errados mas as ideias, certas ideias, é que são importantes. Foi a partir daí que surgiram “Os Direitos Do Homem” e a “Declaração da Independência” nos Estados Unidos. Convém lembrar que ficou estabelecido que o Homem tinha direito à Vida, à Liberdade e à Busca da Felicidade.




H.V. : Não acha que essa última parte está um pouco esquecida?

G.V. Sim , hoje em dia é mais a Busca dos Narcóticos…




H.V. : E quanto aos Direitos das Mulheres ? Rousseau abordou o assunto, Mary Woolstonecraft escreveu “A Reivindicação dos Direitos das Mulheres”. O que acha dos movimentos feministas?

G.V. (Risos) O feminismo é um sinal de prosperidade. Nos países pobres o feminismo é um luxo. Algumas feministas andaram por lá a pregar, mas como é que se pode pensar em liberdade se não se sabe quando é que se vai comer outra vez?




H.V. : Mas isso não acontece apenas com as mulheres. Quando as barrigas estão vazias, sejam elas de homens ou mulheres, o resultado é o mesmo.

G.V. Sim. Acho que foi Susie Brown Miller que lamentava ter sido tão dura para com os homens quando era nova. E dizia: “agora que estou velha tenho pena de não ter aproveitado enquanto pude”. (Risos)




H.V. : Acha que o mundo clássico estava mais bem organizado no que diz respeito às mulheres? Sabe-se que elas chegavam a participar em batalhas ao lado dos homens mas depois, quando voltavam a casa, recolhiam ao gineceu.

G.V. Sim , era assim entre os gregos.




H.V. : Plutarco, em “As Virtudes das Mulheres”, defende um tratamento semelhante para homens e mulheres, principalmente no que diz respeito às cerimónias fúnebres. Mas, no fim, diz que “as melhores mulheres são aquelas das quais não se ouve falar”. Acha que Plutarco tinha razão?

G.V. (Risos) Gosto dessa ideia que só demonstra que Plutarco era um homem cheio de tacto. Mas nessas questões prefiro citar Montaigne. Ele esteve muito apaixonado, não sexualmente, por um homem, um amigo que para ele, era um outro “eu”. O amigo morreu quando tinha trinta e poucos anos e ele nunca recuperou desse drama. Dizia que não tinha ninguém com quem falar e foi por isso que inventou os Ensaios. À medida que escrevia ficava cada vez mais convencido que as diferenças entre homens e mulheres eram poucas. Mas disse que o ideal seria uma mulher educada como um homem, com aquilo a que chamamos uma “mente masculina” mas com os encantos físicos, sexuais de uma mulher. Montaigne era marcadamente heterossexual e, para ele, esta era combinação ideal. Coitado, o amigo morreu cedo e depois ele arranjou uma amiga que não era muito esperta. Dentro desta perspectiva, talvez Aspasia fosse a mulher ideal.




H.V. : Aspasia encantou Péricles e até Sócrates, pela sua inteligência. Mas foi muito ridicularizada em Atenas.

G.V. É verdade, mas certamente era um género que agradaria ao pobre Montaigne.




H.V. : Falou em Montaigne e nessa “afinidade electiva” com Étienne de la Boétie. Consigo passou-se exactamente o contrário. O seu amor de adolescência por Jimmie Trimble, que morreu aos dezassete anos na Guerra, foi absolutamente físico. Anos mais tarde afirmou que mantém com Howard Austen, há já várias décadas, uma relação extraordinariamente feliz porque não existe sexo entre ambos. E citou aquela frase de Sócrates : “o sexo é um tirano louco e cruel”.


G.V. O que Sócrates disse, aos oitenta anos, foi : “finalmente estou livre desse senhor insano e cruel.” Claro que concordo com ele e até digo mais, nunca se deve ter sexo com amigos. O sexo é algo que se encontra por aí aos pontapés, mas não um amigo.




H.V. : Portanto, o que aconselha é que se pratique o sexo com perfeitos estranhos?

G.V. Sim, e com o maior número possível de estranhos. ( Risos)




H.V. : No entanto, para além do prazer, há ainda o problema da preservação da espécie.

G.V. O importante é “reproduzir-se e morrer novo”. Não nos podemos esquecer que o macho foi concebido para impregnar tantas fêmeas quanto possível, o mais rapidamente possível, enquanto que a mulher demora nove meses para “pôr o ovo“. Homens e mulheres estão em vias totalmente diferentes e muito me espanta o simples facto de se juntarem. Quando as mulheres pedem fidelidade tornam-se ridículas. A natureza é que manda e o homem o que tem na cabeça é que tem que f… qualquer coisa. A ideia de viver com a mesma pessoa até se chegar a velho é macabra, a menos que se trate de amigos.




H.V. : Essas ideias são de família. Em “Palimpsest” conta como a sua mãe casou pela segunda vez, um suposto “casamento branco”. Mas o marido queria ter filhos. Para evitar contactos, a sua mãe preferia recorrer a uma colher para “inserir os bichinhos”dentro dela. Foi uma autêntica precursora da inseminação artificial.

G.V. (Risos) Ela chamava-lhes “percevejos”. (bugs) Foi assim que a minha horrorosa e detestável mãe contava arranjar meios-irmãos para mim.




H.V. : E quanto às suas relações amorosas com mulheres? Fale-nos de Anaïs Nin e de Diana Lynn.

G.V. Houve quem dissesse que propus casamento a Anaïs, o que é um perfeito disparate porque nunca desejei casar-me e muito menos com uma senhora que, para mim, era já uma pessoa de idade, quando a conheci. Quanto a Diana, foi uma pessoa de quem sempre gostei, até porque nunca houve, de parte a parte, qualquer ideia de casamento.




H.V. : As instituições, como a religião, são para si motivo de reflexão irónica. Se estamos à beira de uma nova era teocrática acha que a proliferação de seitas, cultos e outros movimentos exteriores à Igreja institucionalizada representam um desejo de uma nova espiritualidade?

G.V. Todos os governantes pensam nisso. Constantino, quando se converteu ao catolicismo, sabia que era uma forma maravilhosa de escravizar o povo. Quando ele conglomerou o Império, não tinha infra-estruturas e não conseguia espalhar e fazer cumprir as suas leis. Por isso fez um acordo com a Igreja que já possuía uma grande organização, da qual ele se apoderou, em troca da institucionalização do catolicismo como religião oficial do Império. Claro que a religião católica era ideal para um Imperador porque era absolutista.




H.V. : Alexandre o Grande, Júlio César, Eleanor de Aquitânia tiveram a ideia de uma Europa unida. Nunca deu resultado durante muito tempo. Será que agora as condições são diferentes?

G.V. Tudo o que eles quiseram foi sempre o poder e não o bem estar das pessoas. Porque é que agora há-de ser diferente? O poder é agora de Bruxelas, o que significa impostos únicos e uma forma de controlar cada vez mais a vida das pessoas.




H.V. : E quanto aos Estados Unidos? Será que a força crescente da Europa vai alterar o equilíbrio de poderes entre o Leste e o Oeste? Qual é a posição de Clinton?

G.V. Clinton anda ocupado com os escândalos das Mónicas e das Paulas…




H.V. : O caos de que fala não poderá ser um caos criativo ? Ou será um prenúncio de anarquia?

G.V. Quem sabe? Haverá sempre pessoas criativas mas tudo depende do tipo de jogos que quiserem jogar. Cada país tem sempre uma maior percentagem de bons escritores do que bons leitores, é um fenómeno universal. A era da literatura está possivelmente a acabar, vivemos no reinado do audiovisual em que as crianças aprendem tudo através de jogos, em vez de lerem livros ou de terem quem lhos leia. É uma civilização totalmente diferente mas, quem sabe, pode até ser melhor.




H.V. : Na conferência de Lisboa falou da preservação da identidade e comentou que, se se transferir um grupo de Bengalis para a Noruega, isso representa um crime contra a sobrevivência. Foi pelas mesmas razões que defendeu a causa Palestiniana?

G.V. Absolutamente. É claro que as pessoas têm dificuldade em admitir estas ideias porque não são “politicamente correctas”. Mas a verdade é que precisamos rapidamente de um novo Voltaire.



H.V. :Pensa ser esse o seu papel, o de um Voltaire do século XX?

G.V. Talvez, porque não?